Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 31 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (130)



Balada do Sol comum

No primeiro dia oficial da Primavera, numa vila chamada Arco de Baúlhe (do concelho de Cabeceiras de Basto, distrito de Braga), houve mais um Sarau na Escola Básica local. A sala de convívio voltou a encher-se de crianças, jovens, adultos velhos e novos, num clima de fraternal festa que não cessa de me impressionar. O coração do evento é o livro, a literatura. Mas a dinâmica abraça a arte em geral: o desenho, a pintura, a dança, o teatro e o cinema dividem a atenção e o aplauso do público com a leitura expressiva (treinada semanas a fio) de poemas.
Para mim, como sempre, as semanas anteriores ao Sarau foram um misto de fadiga extrema e prazer profundo. Revejo-me nesta Escola que, transcendendo a dimensão puramente instrucional, se auto-obriga a oferecer Cultura a alunos e famílias locais. Os rankings e as percentagens de sucesso são importantes? Claro. Mas a nossa função vai (deve ir) para além dessa esfera. Concomitante aos currículos elementares, deve comparecer a educação literária e artística. Os nossos jovens têm o direito a conhecer grandes obras e grandes autores da literatura, mas também o de, pela via da própria experiência estética (como receptores ou intérpretes do corpus lido-estudado), se apropriarem dessa linguagem delicada e preciosa e de por essa via profundamente crescerem.
Encontro, muitas vezes, antigos alunos que me falam, com saudade (e, perdoai a imodéstia) com gratidão, dos nossos espectáculos teatrais, dos nossos filmes, dos nossos projectos de jornalismo, dos nossos encontros de poesia.
O Sarau do Arco fez-se sobretudo dos contributos de três Clubes: o Clube de Música, o Clube de Teatro & Cinema e o Clube de Artes. Durante duas horas, oferecemos momentos de poesia, de música, de teatro de cinema, num espantoso cenário feito dos desenhos e das pinturas de juvenis alunos e de uma maravilhosa professora de Educação Visual (Rosário Coelho).
Dei por mim ali a pensar no misterioso poder da Cultura, essa substância misteriosa que torna menos bestial a humanidade: gente habituada aos Big Brothers televisivos, aos clichês telenovelescos, à rotina violenta dos horários e das contas a pagar, à rivalidade cancerígena da política ou do futebol – ali estava ela rindo-se da comédia, comovendo-se com um pequeno filme, dialogando com os poemas ditos (mais do que declamados) por vozes jovens, batendo palmas ao ritmo da música chegada do palco. Noites assim tão luminosas, senhores, parecem manhãs. E passam depressa, sendo (afinal) a eternidade.
Última nota: pela primeira vez em dez anos, um dos poemas lidos no Sarau era – imaginai – cá do cronista. Foi maravilhosamente lido-dito por três alunas do oitavo ano. Ouso inscrevê-lo aqui, por representar aquela relação improvável, mas fatal, entre a cínica realidade onde sobrevivemos e a literatura que nos faz viver, ou (como brilhantemente me ensinou a Doutora Maria Irene Ramalho dos Santos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) a relação entre mundo político e mundo poético. Com licença:
Deixo a poesia num canto do quarto / E vou trabalhar. / Ela aparece-me por vezes em lugares inconvenientes / E ri-se do meu espanto ou indignação. / “Sai daqui”, digo-lhe então, embaraçado. / Ela ri-se e espreguiça-se, gaiata e trocista, / Sobre um rascunho de acta / Sobre uma grelha de critérios / Sobre um guardanapo de pastelaria / Sobre uma planificação séria. / “Sai tu daí”, grita, fingindo que me beija. / “Já aqui estava antes de ti”, reclamo eu. / “Parece-te”, diz ela. “Eu já aqui andava / Antes de existires.” / Lá acabamos por regressar a casa / Juntos como corpo e sombra / Filhos ambos do mesmo Sol.

O mesmo Sol, Amigos leitores. 

Vila Real, 25 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 29-03-2018. A imagem foi copiada, com a devida vénia, das dezenas de contributos que a minha Colega Rosário Coelho ofereceu ao Sarau.]

segunda-feira, 26 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (129)

O chico-espertismo diplomado

A crónica que o leitor generosamente lê, hoje, foi esboçada há uma semana, na sequência do justo escândalo à volta do currículo académico de Feliciano Barreiras Duarte. Entretanto, o senhor demitiu-se, só para aborrecer o cronista. 
Para os que, por sorte ou falta de paciência, não acompanham a política nacional, vale a pena recordar que Barreiras Duarte é um destacado militante do PSD, recentemente escolhido para secretário-geral pelo novo presidente, Rui Rio. Para além da carreira política (que inclui o lugar de deputado à Assembleia da República), protagonizou um curioso percurso académico: 1 - obteve a licenciatura em Direito, com a média de 11 valores, após nove anos de matrículas; 2 - quis cursar um doutoramento antes de ser mestre, e lá conseguiu, com base no seu currículo político-profissional, uma abstrusa equivalência a mestrado, pressuposto para a sua admissão ao doutoramento. Li que o facto de ter sido, segundo reportava no CV, “visiting scholar” numa universidade americana foi determinante para a obtenção desta benesse académica. É aqui que “a porca torce o rabo” em matéria de decência ética e até de legalidade: o beneficiário nunca foi “visting scholar” na tal universidade, embora tenha abusivamente acrescentado esse dado às suas, digamos assim, habilitações. 
Resultado deste episódio trágico-cómico (que lembra outros recentes, como a licenciatura domingueira de um ex-chefe de governo, ou o jackpot de equivalências de um ex-ministro): Rui Rio começou torto a sua liderança laranja e, por dolorosos dias, deve ter suspirado pelo rebate de consciência do seu eleito, seguido da higiénica demissão – e talvez (digo eu) de um honesto pedido de desculpas de Barreiras Duarte. 
Questão: o que leva um homem maduro a meter-se em tamanho imbróglio? É demasiado fácil, creio, a mui paternalista e fleumática explicação de que tudo resultará de falta de inteligência e de escrúpulos, ou de permissividade (senão de coisa mais grave) das instituições universitárias hodiernas. 
Sem prejuízo de motivos mais conspícuos para este chico-espertismo, ouso acrescentar duas razões relevantes, que aliás vão muito para além do caso glosado: 
a) os chico-espertos da vida preterem intimamente o mérito académico (i.e., o saber e os conhecimentos resultantes do estudo) em favor do status, por acreditarem que os títulos universitários são apenas instrumentais passaportes para o reconhecimento social e para a carreira(zinha) profissional e política;
b) os chico-espertos estão convencidos de que “o crime compensa”, pois quem chega aos patamares superiores do poder estará, depois, longe da fiscalização pública e, por essa via, ganhará uma espécie de imunidade sagrada. 
Terríveis erros: 
a) nenhum título académico esconderá a ignorância dos ignorantes licenciados, pós-graduados, mestres ou doutores; 
b) quanto mais alto um indivíduo está na hierarquia do poder, maior visibilidade adquire, logo mais susceptível se torna de análise e crítica dos outros, seja na modalidade de reconhecimento de mérito (se o houver), seja na denúncia de defeitos (como tem acontecido neste caso, com o riso e o desprezo habituais do jovial zé-povinho). 
Já agora: tudo quanto vos digo é mais fácil de entender para quem ainda souber o que significa, de facto, ter vergonha na cara. 

Coimbra, 19 de Março de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-03-2018. A imagem (com a imorredoira Mafalda, de Quino) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.grupoconstruçaocoletiva.blogspot.pt.]

segunda-feira, 19 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (128)



A arte de bem conversar 

Assisti, há dias, a uma extraordinária entrevista televisiva no Canal Q, conduzida pelo competentíssimo Aurélio Gomes. O entrevistado, um arqueólogo de – talvez – sessenta e muitos anos (ou mais), com um currículo extenso e variado na resistência ao fascismo, revisitou a sua biografia de forma ora divertida, ora dramática. Cada pergunta era, em regra, motivo para considerações e relatos cheios de vida e de graça. O principal mérito do entrevistador, ali, foi dar tempo ao entrevistado para discorrer sobre as suas memórias, as suas ideias, as suas emoções. 
Ocorrem-me, em contraponto, algumas máquinas-de-falatório que pululam pela pantalha generalista. Gente que vê o entrevistado como mera peça acessória do ofício entrevistador. Gente que quer brilhar, sem paciência para ouvir a profundidade de cada resposta. Sim, há um certo estilo esganiçado que assassina as entrevistas. Já testemunhei demasiadas vezes este tipo de crime, senhores: um entrevistado avisa, para nossa felicidade espectadora, que vai contar uma história; a jornalista, a rebentar de ego incontinente, não admite desvios e, atropelando a história que aí vinha, atira-lhe: “Mas o que é que vai mudar agora na sua carreira?” [Nota: nos cursos de jornalismo, deveria explicar-se aos futuros entrevistadores que, quando alguém vai contar uma história, dá-se-lhe tempo para o exercício narrativo.] 
Por razões de espaço e, já agora, de higiene retórica, omito nomes exemplares desta pulsão narcísica, inimigo(a)s recorrentes de conversas, capazes de reduzir à vulgaridade os verdadeiros tesouros que lhes chegam às mãos. Mas há duas figuras que gratamente elejo como modelos da conversação competente e invariavelmente interessante: Armando Baptista-Bastos (jornalista e escritor, recentemente falecido) e Júlio Isidro (decano da rádio e da televisão, ainda no activo). Lembro-me de Baptista-Bastos a entrevistar, na SIC, um português septuagenário que tivera de sair de Portugal por motivos políticos e vivera em França, durante décadas, até chegar o 25 de Abril de 1974. O entrevistado, ao recordar-reviver alguns episódios, chorava. Que fez Baptista-Bastos? Respeitou-lhe o tempo do pranto, dos suspiros, do próprio exercício da memória. Pontualmente, intervinha a propósito e com delicadeza. Resultado: uma entrevista inesquecível. 
Júlio Isidro mantém, na RTP Memória, um espaço de entrevista, normalmente dedicado a nomes mais antigos da música, do teatro, da rádio e da televisão. Bem preparado, culto, sensato, delicado, Júlio Isidro dá o palco aos entrevistados – e estes, sentindo-se confortáveis (em casa), vencem qualquer timidez ou medo de falar: são genuínos, espontâneos, sinceros, humanamente interessantes. Para o espectador, não tenho dúvidas, é um regalo. 
Saltemos, ó Leitor, deste domínio técnico-profissional (a entrevista) para a nossa vidinha de todos os dias. Quantas conversas se perdem por não se dar ao outro tempo de falar? Quanta novidade se deixa de receber por falta de paciência (ou humildade)? Sabei que, ao telefone comigo, a minha velha Mãe tende a interromper-se, a suspender a fala, ou porque se esquece do que dizia, ou porque há nomes-datas que tardam a chegar-lhe ao discurso. Eu aprendi a deixá-la respirar, sem pressas egoístas e contraproducentes. Depois, ouço-a gritar: “Ah! Já me lembro!... Ainda estás aí?”
Estou, Mãe. Estou a ouvi-la. É essa também a obrigação de quem conversa, não é? 

Vila Real, 11 de Março de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-03-2018. As imagens (Baptista-Bastos entrevistando o Professor Agostinho da Silva e Júlio Isidro entrevistando Madalena Iglésias) foram colhidas, respectivamente, & com a devida vénia, em www.ensina.rtp.pt. e em www.youtube.com.]

segunda-feira, 12 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (127)

Pães nossos de cada dia

Passou no jornal da SIC, a 22 de Fevereiro, uma reportagem bem interessante. Em traços muito resumidos, os espectadores conheceram uma família brasileira ainda jovem (Pai, Mãe, uma Filha), gente culta, de estrato socioeconómico médio-alto, que veio radicar-se em Portugal. O motivo, está-se mesmo a ver, não foi a pobreza ou o desemprego, como acontece na maioria dos casos de emigração. Aliás, aquela Mãe tinha uma empresa bem-sucedida no Brasil, que agora continua a dirigir à distância, via internet. Pergunta: que motivo terá estado, afinal, na decisão (decerto dolorosa) de migrar? Resposta: a segurança.
Assisti a caso semelhante, há dois anos, na escola onde trabalho: já em pleno 3.º período, apareceu-me um novo aluno, de origem brasileira. Os pais sabiam que mês e meio era tempo insuficiente para o filho transitar para o 10.º ano, mas tranquilamente aceitaram a situação: queriam apenas que ele se adaptasse, de modo a, no ano lectivo seguinte, recomeçar o 9.º ano, plenamente integrada na realidade portuguesa. Porque vinham – acrescentaram - para ficar muito tempo, talvez para sempre. Motivo da vinda: a segurança da família.
Agora, um ponto de ordem: esta crónica não é sobre o Brasil. Creio que há várias e distintas realidades nesse país (ou, dito de outro modo, em todos os lados há Brasis de insegurança, incluindo em Portugal). O que aqui vos trago para reflexão é o valor da paz e da ordem, no contexto da ideia de felicidade humana.
Conhecemos casos de migrantes que procuram um lugar onde seja possível sobreviver no sentido mais básico de todos, i.e., de ganhar o pão de cada dia. E casos de migrantes que fogem de ditaduras, de racismo, de intolerância religiosa, i.e., que buscam um espaço de democracia, de tolerância e de liberdade. Nos últimos tempos, há também quem simplesmente aspire a um espaço onde seja possível ter os filhos na escola (pública ou privada) sem o risco de roubos-raptos-agressões-morte. Um espaço onde seja possível parar no semáforo vermelho sem que, de súbito, surja o assassino que para sempre enlutará a família. Um espaço onde seja possível levar a descendência à praia e regressar a casa, com todos vivos, para o almoço de Sábado.
É verdade que a emigração continua a significar, maioritariamente, um caminho para o pão. Mas a natureza do pão varia. Há, em síntese, o pão-comida (pão-pão), o pão-democracia e liberdade e o pão-segurança. Nenhum destes pães é individualmente bastante para vivermos felizes.
Eu abomino os clichês que fazem a apologia da resignação e da passividade, sobretudo pela via da relativização dos nossos males (“Conforma-te”; “Há quem tenha menos”; etc.). Queixarmo-nos faz parte da nossa condição e da nossa dignidade, ponto final. O meu ponto é outro, quiçá ingénuo: orgulho-me de viver num País que tem, hoje, para oferecer aos nativos e aos imigrantes, esse oxigénio vital da democracia, da liberdade, da tolerância e da razoável segurança. Não é mau.

Coimbra, 02 de Março de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-03-2018. A imagem (exemplo do melhorque háem Portugal) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.coimbraportugalguide.com]

segunda-feira, 5 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (126)


Diário de bordo 

À semelhança do que sucede com alguns milhões de indivíduos, costumo andar pelos cafés-consultórios-reuniões-jardins desta vida com um caderno em que aponto entidades-referências-valores-prazos das contas a pagar, datas de aniversário, tarefas a cumprir (na escola e em casa), versos, historietas, nomes e contactos telefónicos, ideias para crónicas. Chamo a estes cadernos, com escusada pompa, “diários de bordo”, apondo sempre às respectivas capas a data em que neles começo a escrever. 
Estreei o mais recente com três apontamentos, quase todos barro para qualquer que fosse a olaria textual escolhida. Desaguarão, para já, nesta crónica. 
1. Desafiei os meus alunos do oitavo ano de escolaridade a analisar um belíssimo texto de José Gomes Ferreira, intitulado “Sou uma nuvem” (in O mundo dos outros – histórias e vagabundagens). A maioria dos jovens leitores percebeu logo o horror ali glosado – o de, pressionados pela necessidade de aceitação social, podermos alienar de nós próprios o que verdadeiramente somos. Isto é, de trocarmos a liberdade pelo comodismo. Isto é, a nossa voz individual pelo balido indistinto da multidão. Mas houve quem, na turma, reclamasse o direito a, no quotidiano feroz da escola e da vida em geral, uma pessoa se acomodar, sim, e corresponder à vontade dos outros (ainda que sacrificando a pessoal independência): uma menina, de olhar frágil e assustado, murmurou que “assim, sofremos menos e não chateamos os outros.” 
2. Tenho um cunhado (mais um) numa paliativa cama de hospital, à espera de partir para aquele lugar sem tempo que é (será) o de todos. A iminência inevitável convoca já, neste presente oncológico, súbitas e frequentes lágrimas, que hão-de continuar e crescer num futuro demasiado próximo. A espera tem enchido os meus dias familiares de mortalidade e de desespero, mas entretanto almoçamos, jantamos, trabalhamos, cumprimos horários, e vamos de manhã à janela ver o tempo que faz para escolher a roupa adequada.
3. Numa gaveta da mesinha-de-cabeceira, enquanto procurava comprimidos para a dor de cabeça, encontrei duas chaves não sei de que portas ou armários, portanto inúteis como o volante de um carro sem motor nem rodas. Encontrei também o coto de uma vela azul, resto obsoleto de alguma iluminação salvadora que me terá valido em ocasião passada. A minha mulher perguntou-me: “Encontraste os comprimidos?” Respondi-lhe: “Não. Encontrei duas metáforas tristes.” 

Vila Real, 25 de Fevereiro de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (125)


O sucesso em forma de anedota

 Ouvi, há muitos anos, uma anedota que volta & meia recordo, já menos pela graça original que pela eficaz representação do conceito de absurdo. Conto-a, com vossa licença. 
 Um homem chega a casa e testemunha a infidelidade da esposa, envolvida com um primo seu (dele), sem roupa e sem vergonha, sobre um sofá cinzento que o infeliz comprara há pouco tempo. Resistindo – por não desejar o escândalo nem o fim do casamento - ao impulso de um acto violento, o homem retira-se discretamente do teatro de operações e vai para a tasca beber uns copos. Um amigo apercebe-se do seu nervosismo, da sua tristeza, do seu ar deprimido – e questiona-o (“Que se passa, pá?”). O marido defraudado desabafa, descrevendo-lhe a cena com pormenores dolorosos (a nudez conspícua, os sacramentos traídos, o sofá quase novo), pouco espaço deixando ao interlocutor para qualquer consolo conveniente. Uma semana depois, voltam a encontrar-se na mesma tasca e o homem vítima do destino não aparenta qualquer perturbação: conversa alegremente, ri-se ruidosamente. O amigo trá-lo para um canto e pergunta-lhe se “aquele problema” já está resolvido. A princípio, o outro nem percebe a pergunta; depois, após ter ouvido o confidente recordar-lhe, com cuidadosa escolha de palavras, a angústia da semana anterior, responde: “Ah! Está tudo resolvido.” “Perdoaste-lhe? Divorciaste-te?”, quer saber o perguntador. Responde o marido-novamente-feliz: ”Não. Vendi o sofá.” 
 Cruza-se-me com esta narrativa mínima certa notícia recentemente chegada aos meus ouvidos: o governo quer reduzir o insucesso escolar no ensino básico determinando um limite (pré-quantificado) de alunos que poderão ser retidos em cada ano de escolaridade.  
 Esclarecimento: eu simpatizo, naturalmente, com a ideia de combater o insucesso escolar. Costumo até dizer, a alunos, colegas e encarregados de educação, que o insucesso dos meus alunos é, em termos objectivos, o meu próprio insucesso enquanto docente. Mas o combate ao insucesso deveria significar, antes de mais, um magno esforço para elevar e aprofundar conhecimentos & competências dos alunos, e não simplesmente o reforço artificial de avaliações positivas. O sucesso conquista-se, como é bom (digno) de ver, com muito trabalho, envolvendo professores, alunos, famílias; com diversificação de estratégias, respondendo à especificidade de cada turma (e, se necessário, às características particulares de cada discente); com recursos (horas para apoio; tutorias; actividades lúdico-pedagógicas que contribuam para a estimulação e para a auto-estima dos aprendentes); com monitorização atenta e consequente da evolução de processos e resultados. Etc
 A ideia de que o insucesso escolar se resolve por decreto é uma ilusão perigosa e, convenhamos, ridícula. Espero bem que, na educação, se resista à tentação de, perante magnos e complexos problemas, se resolver tudo vendendo o sofá.

 Vila Real, 18 de Fevereiro de 2018.
 Joaquim Jorge Carvalho
 [Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22 de Fevereiro de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

domingo, 18 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (124)


Rankings, Realidade & Excell

Aparentemente, a vozearia à volta dos rankings das escolas foi, desta feita, menor. A feira mediática parece ter-se cansado desse território e os tudólogos da pátria, à míngua de antena, encolheram os ombros. Como os pastéis de nata, dir-se-ia, os rankings acabam por enjoar – até os entusiastas ex-maoístas que, há décadas, ansiavam em lágrimas pela sua publicação. 
Lembro que em momento algum ministério, professores, direcções escolares e sindicatos desvalorizaram o tratamento sério, avisado e responsável dos dados resultantes de exames ou provas de aferição. A diferença estava em que essa análise, na opinião de quem estava – está - mesmo interessado no sucesso da Escola (sobretudo, no sucesso da Escola pública), deveria ser feita dentro do próprio sistema. Objectivo: encontrar estratégias para potenciar boas práticas ou corrigir falhas.
Já os arautos da exposição dos rankings viam na publicação ruidosa de classificações por escola a chave para a excelência deveniente: as escolas boas – maioritariamente associadas ao ensino privado – seriam reconhecidas e premiadas; as más – maioritariamente públicas – tornar-se-iam, por vergonha ou castigo, também boas ou desapareceriam. Na cave desta retórica, havia o ideal de uma Escola tendencialmente privada e, como acontece nos Estados Unidos da América, de uma desvalorização-residualização do ensino público, destinado apenas à população socialmente desfavorecida.
Quem estuda há muitos anos o fenómeno da educação sublinhou oportunamente, para escândalo dos entusiastas dos rankings, que países muito desenvolvidos haviam já experimentado essa prática e, depois, optado por tratar internamente os dados anuais relativos à avaliação dos seus alunos. Porquê? Porque entenderam que aquela exposição pública prejudicava mais do que beneficiava o sistema. Mais consideraram que os rankings eram, por natureza, falhos de rigor, injustos e contraproducentes, pois configuravam, na prática, a emergência de estigmas dificilmente reversíveis e a simplificação abusiva do mérito escolar e educativo das escolas.
Não me custa concordar com essa teoria: ao longo dos últimos anos, tenho assistido à substituição do estudo competente e produtivo dos resultados escolares por um ruído profundamente demagógico e politicamente enviesado. Cheguei a ler, em jornal de referência, um ex-maoísta a “explicar” que, com base nos rankings, as famílias iriam poder escolher as melhores escolas para os seus filhos!...
Já estive em escolas com bons resultados nos rankings – e eu era o mesmo professor que fui, depois, em outros estabelecimentos de ensino com piores resultados. Também já vi bons resultados num ano e menos bons no seguinte, tudo na mesma escola, com as mesmas práticas e os mesmos professores.
Há uns anos, a melhor aluna do 9.º ano da minha escola foi, no final do terceiro ciclo, prestar provas a um colégio privado para provar que merecia cursar aí o ensino secundário. Foi admitida. Esse colégio é dos que brilham, ano após ano, nos rankings. Na escola onde trabalho, atentai, admitimos todos os alunos, independentemente das qualidades intelectuais que revelem à partida.
Ainda uma pequena “anedota” (verdadeira): há uns dezasseis anos, a minha Filha e outros quatro ou cinco colegas do 12.º ano quiseram fazer exame nacional de Filosofia, de modo a poderem concorrer aos cursos universitários que almejavam. Ao longo do ano lectivo, essa disciplina não fizera parte do seu currículo, pelo que se auto-propuseram a exame. Eram, de modo geral, bons alunos e, graças ao estudo aturado (e à sua inteligência, claro), obtiveram excelentes classificações na prova. De tal resultou que o estabelecimento de ensino onde fizeram o 12.º ano ficou classificado, em termos de ranking, no top ten nacional, no que a Filosofia diz respeito. Tirando o facto de a escola (recordo) não ter essa disciplina no currículo, foi um momento de conspícua glória para aquela comunidade educativa.
No espírito mercantilista e futeboleiro dos rankings, talvez valesse a pena pensar nesta proposta, que ofereço de graça: cada escola - privada ou pública - escolheria os cinco melhores alunos para levar a exame (de Português, Matemática, etc.). Estou convencido de que, assim, a competição seria mais justa – e a percepção do sucesso escolar, tão artificiosa como a que actualmente se lê nas folhas de Excell, estender-se-ia enfim a todo o território português.

Coimbra, 11 de Fevereiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão (mais curta) desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-02-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.contra-facção.blog.br.]

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (123)

Elogio da rotina burguesa

O relógio tem esta paradoxal qualidade de, representando embora o controlo dos homens sobre o Tempo, ser um permanente aviso sobre o humano Fim. Na verdade, o relógio marcha contra nós, ó tristes, imparável e impassível como aquela esfinge que Baudelaire inscreveu no seu poema “La beauté”.
Contra a morte, que remédio senão viver-ir vivendo, como disse o poeta Célan? Que remédio senão o amor, como disse o poeta O’Neill? Menos grave e bela que as propostas da filosofia ou da poesia, ainda sei de uma outra forma de fugir (ou fingir que se foge) da morte: o culto da amável rotina.
A rotina não nos salva do Fim, naturalmente. Mas, no intervalo das doenças (próprias e alheias) e dos desgostos (havidos ou iminentes), eu simpatizo com a regularidade repetida dos meus dias burgueses. A sistemática lida da nossa normalidade serena e honesta representa, talvez, uma grata ilusão de imortalidade, que é, à falta de melhor oferta, um querido regaço muito à mão de semear.
O burguês é feliz estando em casa – a ler, a ouvir música, a conversar, a telever futebol, ou simplesmente estando em casa sem mais verbos.
É feliz cumprimentando vizinhos e amigos, lembrando o Pai junto de contemporâneos seus (dele) de há cinquenta anos. É feliz discutindo futebol, política, mulheres, entre gargalhadas juvenis e sem devir obrigatório. É feliz separando o lixo, substituindo as lâmpadas domésticas, pagando as contas dentro do prazo, resolvendo um problema de canalização na cozinha (assim contrariando, aliás, uma fama de desajeitado que o persegue na família há décadas), descobrindo a causa do mau funcionamento do aspirador (um fusível fundido que mais ninguém detectara), repondo o stock de vinho para oferecer aos visitantes, mantendo q.b. a casa com pão, fruta, leite, água engarrafada, guardanapos, papel higiénico, batatas, azeite, óleo, cenouras, detergentes.
É feliz assistindo a séries cómicas, quiçá à lareira, estendido no sofá como um desempregado feliz (no intervalo da profissão, que religiosamente cumpre para ser digno do que lhe pagam).
É feliz a correr no Choupal, sobretudo quando não anda assustado com misteriosas dores no peito, não tem dívidas impagáveis e, para cúmulo destas maravilhosas juventudes momentâneas, há Sol na sua cidade.
É feliz quando a família está bem - isto é, normalzinha da silva, isto é, razoavelmente viva, isto é, razoavelmente sã. É feliz quando a mulher e a filha estão em casa consigo, tão eternamente como em 1989, já depois da tropa, durante as férias estivais, muito pobres e muitíssimo felizes, na mítica Praia de Mira.
O senhor Marx que me desculpe, mas a burguesia é um belo lugar para se estar antes da morte.

Vila Real, 03 de Fevereiro de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 08-02-2018. A imagem (de Calvin & Hobbes, do genial Watterson) foi colhida, com a devida vénia, na net.]

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (122)



A observação como doença crónica

 Sonhei que um pintor famoso se cruzava comigo na rua e me oferecia um quadro. Vagamente, explicou-me que me vinha observando há algum tempo, e que, à minha custa, se comovera e rira já excessivamente. De comum, explicou-me, tínhamos a doença de sentir tanto e sempre, bem como a urgência, decerto doentia e patética, de nos exprimirmos abundantemente, como se precisássemos de confidenciar ao mundo o que profundamente vivíamos, para o mundo nos lamentar, nos consolar, nos perceber e, talvez, nos aceitar. 
O quadro estava cheio, sobretudo, de motivos marinhos. A expressão que me ocorreu foi a de “um aquário no mar”: água e peixes por todo o lado, mas também rochas, plantas, uma âncora ferrugenta, um navio sepultado em forma de vulto. E – aqui é que entrava verdadeiramente a senhora Dona Estranheza – pessoas: multidões à espera do autocarro, automóveis a passo de caracol (de caracol anfíbio, claro), agentes da polícia, vendedores de cautelas e de castanhas, pares de namorados trocando juras de amor em bolhas de ar, ambulâncias nervosas, familiares, amigos & conhecidos movimentando-se no sentido dos ponteiros do relógio, a minha Mãe levando a minha Filha à escola. 
O quadro era uma espécie de enxame de vida vária, vertiginosa, confusa, ruidosa, caótica. Fez-me lembrar, já depois de acordado, alguns episódios de febre por que passo às vezes e invariavelmente me acendem no cérebro uma avalanche infernal de rostos-objectos-acontecimentos a cem à hora. 
Mas onde estava eu ali, naquela voraz representação do (meu) mundo? Perguntei, então, por mim. O pintor apontou para uma extensíssima serpente, que – observado o panorama com maior atenção e mais apurado detalhe – começava no início da tela, ao canto esquerdo, e se estendia, em eles, esses e zês, até ao canto inferior direito. A serpente tinha uns olhos imensos (que a princípio me pareceram duas misteriosas medusas) e olhava, com absoluto espanto ou mortal medo, para cima. 
Perguntei-me por que razão a serpente (eu?) olhava para as mãos do pintor. Sem falar, ele retirou as suas mãos do quadro, e percebi que sob elas estava, até então tapado, o meu próprio rosto olhando para baixo. Isto é, para a serpente e para a vida dentro do aquário, em geral. 
Eu tinha muito mais para debater com o pintor, mas ele desapareceu-me – primeiro pelas sombras labirínticas do sonho, depois pelas esquinas palavrosas da sua gasosa evocação. 
O que ficou do que sonhei foi, portanto, aquela ideia de um aquário no mar comigo dentro e simultaneamente comigo a ver. Não é mau pecúlio, pois sonhos há que não nos deixam um cêntimo sequer do tesouro vivido (e vívido) por onde andámos. 
Dando-se o caso de, por estes dias, o cronista se interrogar sobre a missão do cronista, apeteceu-me pensar que o aquário representava talvez este homem de palavras com um pé no mundo e outro fora, no ofício de viver e reflectir acerca de quanto-como-para-por que se vive. 
Depois, como era Sábado, comprei o Expresso e fui lê-lo para a sala, inteirando-me confortavelmente das glórias e misérias deste planeta em que está (também) a casa arrendada onde leio e escrevo.

Coimbra, 20 de Janeiro de 2018. 
 Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-01-2018. A imagem (do grande Cesário, espécie de poeta-cronista), foi colhida na internet, com a devida vénia.]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (121)


Amizade, etc.

Um conhecido advogado dizia há dias, na televisão, que “os amigos são pessoas de quem gostamos sempre, apesar de as conhecermos bem”.
Não comungo desta noção de cheque em branco oferecido aos amigos. O que há no banco da amizade é um crédito realmente grande, imenso, mas não infinito. Sei muito bem que um amigo é um tesouro, e também eu creio que, em alguma medida, os laços da amizade são mais profundos e delicados que os da família. É costume dizer-se que a família não se escolhe, por existir um vínculo fatal entre nós e os do nosso sangue, ao invés do que se passa com os amigos, que somos lives de escolher, ou que – por actos, palavras e demais coincidências cósmicas - entram em algum momento nas nossas vidas, tornando-se companheiros & cúmplices da nossa circunstância, presumivelmente para sempre.
Ao contrário do que sucede no universo familiar, a que pertencemos de forma mais ou menos involuntária (ou ex-voluntária), a nossa rede de amigos é feita de matéria não exclusivamente emocional ou sentimental. Note-se: não pretendo reduzir o conceito de amizade a um mero contrato, baseado na pura Razão, mas tão-pouco consigo entender o fenómeno como um vínculo gasoso, desprovido de direitos e deveres. De regras. De ética.
Na ética da amizade, creio bem, os amigos não têm de estar obrigatoriamente de acordo uns com os outros. Por outro lado, não têm de conformar-se com tudo o que os amigos fazem, i.e., não têm de engolir passivamente eventuais provocações, ofensas, humilhações. Os amigos de verdade, ainda que tacitamente obrigados à maior compreensão, à maior paciência e à maior tolerância para com os seus amigos, têm também o dever de se zangar perante comportamentos graves e, à luz da própria amizade, perigosos. Falo sobretudo de erros crassos e – pior ainda – conscientes, nomeadamente quando os amigos ignoram os avisos, os conselhos, os pedidos dos amigos.
Mais: os amigos alvo da ira circunstancial dos amigos têm a obrigação, nesse momento, de humildemente se interrogarem sobre os reparos que recebem. Pode aqui suceder que alguns, confundindo orgulho com teimosia, se recusem a admitir quaisquer responsabilidades. E, do outro lado, suceder que se viaje da indignação primária à zanga muitíssimo séria. No pior dos casos, chocarão dois comboios de irredutibilidade, uma triste metáfora para o triste acidente que é uma amizade ser interrompida. 
A idade ensinou-me que ninguém é dono de ninguém, em matéria de amizade ou amor (sendo aquela uma versão talvez menos romântica deste). Aliás, julgo que não possuímos amigos, não detemos amigos – temos amigos, isso sim, no sentido (mui puro) de sermos beneficiários da amizade de alguém e de alguém reciprocamente merecer a nossa estima.
Não se pode magoar gratuitamente um amigo, claro. Mas amizade alguma nos impede de dizer a um amigo que está a ser pouco razoável, se ele estiver a ser pouco razoável. Ou injusto, se ele estiver a ser injusto. Ou a não ser amigo, se ele estiver a não ser amigo.
O pior de tudo é ser mesmo tão terrível a gente zangar-se com um amigo. Lembro-me sempre daquele diálogo (lido sei lá onde, sei lá quando) entre dois espectadores de uma cena de pancadaria na rua, entre vizinhos.
- São conhecidos?
- Pior. São amigos.

Vila Real, 20 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26-01-2018. A ilustração (com a personagem Calvin, do grande Bill Watterson) foi colhida, com a devida vénia, em http:www.psicoachbh.com.br.]



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (120)



Lennon no dentista

Life happens while we’re making other plans.” [A vida acontece enquanto estamos a fazer outros planos.] Li a frase de John Lennon pela primeira vez numa revista qualquer, provavelmente antiga, na sala de espera de um dentista, há já muitos anos. Discretamente, recortei o canto da página onde estava esta pérola e guardei-o no bolso da camisa, sobre o coração. É isso que fazemos com todas as revistas, com todos os jornais e, de certo modo, com todos os livros que lemos: guardamos (ainda que de forma menos bárbara e não necessariamente física) o que de mais interessante cada uma destas fontes escritas tenha para nos oferecer.
Esta frase tem sido uma espécie de mote constante para (e sobre) a minha vida. Não, sublinho, como justificação pateta para os problemas do dia-a-dia, porque eu creio firmemente no livre arbítrio e na geral noção de que somos responsáveis por 90% do que nos sucede. Mas também penso que o Acaso (dito, à maneira grega ou fadista, o Destino) tem o seu papel na caminhada de cada indivíduo ou de cada sociedade.
Por exemplo, a coincidência de ter encontrado o mui venerando professor Silveira, de Português, aí pelo 9.º ano de escolaridade, e de ele me ter dito “Se queres ser rico, vai para ciências; se queres seguir a tua vocação, segue a literatura”, e de eu me ter tornado docente também.
Ou a coincidência de, por engano nas filas de matrícula, ter escolhido um curso universitário que não era exactamente o que tinha em mente, e de me ter depois apaixonado pelos programas, pelas matérias e pelos professores, nem sequer equacionando, de aí em diante, qualquer mudança que deles me afastasse.
Ou a coincidência de, numa aula de Cultura Francesa, em horário diferente do habitual, ter conhecido a mulher da minha vida e de ela ter sentido por mim (creio) uma electricidade semelhante, encontro de que resultou, até ver, 35 anos de invulgar felicidade, uma única-Filha-única e uma dívida bancária a 14 anos ainda de ser paga.
Ou a coincidência de um colega de futebol se ter tornado no meu maior Amigo e depois cunhado, e depois – por traiçoeiramente ter morrido de cancro – uma Saudade do tamanho do mundo.
Ou a coincidência de, por razões profissionais, ter saído, há mais de 20 anos, de Coimbra para Trás-os-Montes, acompanhando a esposa, e de aí ter conhecido lugares e gente de revelantíssima importância, que passaram a fazer parte do que sou e sem os quais hoje nem sequer me imagino.
Ou a coincidência de, em menino, ter sido tocado pelos romances e contos de Júlio Dinis, e de uns trinta anos depois ter voltado àquele mistério literário para, como quem cumpre um dever de gratidão, lhe dedicar um doutoramento trabalhoso, extenso e honesto.
Ou a coincidência de ser conterrâneo e Amigo do jornalista-escritor Daniel Abrunheiro, e de este me ter sugerido ao director de O Ribatejo para cronicar, e de por isso estar há 120 crónicas em convívio (perecível) com os seus leitores.
Sim, a vida acontece enquanto andamos a fazer outros planos. Por exemplo, estava eu a terminar este texto e tocou o telefone: era a minha Filha a dar-me boas notícias sobre o seu trabalho e a sua carreira. Logo agora que eu procurava uma frase para, nesta crónica, falar da noção de felicidade-a-haver com que procuro acompanhar cada episódio da vida, por mais desconcertante que ele se me afigure. Deve ser coincidência.

Ribeira de Pena, 14 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 18 de janeiro de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.divadaregina.blogspot.pt.]

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (119)



À brás

1. Conheço e estimo, há muito tempo, o bacalhau à brás. A vida doméstica ensinou-me que, para além do valor gustativo, este prato tem a virtude de se cozinhar de modo maravilhosamente simples: bacalhau desfiado (pré-cozido ou não) e misturado, no tempo certo, com caldo de gemas e claras, batata palha, tudo a desaguar numa frigideira onde o azeite e a cebola estão já em alegre consubstanciação. Eu próprio já sou capaz de o cozinhar, um pouco menos bem do que a minha mulher, mas sem prejuízo grave do paladar.
2. Mais recentemente, soube que o conceito “à brás” é adaptável a outros ingredientes-base, como o frango, o atum, até a pescada. A minha irmã diz que é uma maneira deliciosa de se aproveitar a comida sobrante, fenómeno de poupança que agradará decerto também a Deus e aos ambientalistas (inimigos conspícuos do desperdício).
3. Ao longo da minha existência escrevedora, não poucas vezes pratiquei também esta filosofia à brás, muito particularmente na poesia e na crónica. No fundo, tal acontece quando a escrita parte de uma matéria-prima chamada realidade, bem desfiadinha como tem de ser. Acrescenta-se-lhe, a seu tempo, a calda de gemas e claras do nosso olhar. Neste regaço alegórico, talvez pudéssemos chamar batata palha às palavras que se misturam ao ingrediente básico. O tempero corresponderá talvez a aspectos atinentes ao estilo do cozinheiro – vocabulário, sintaxe, elementos de retórica (atenção: não exagerar nos adjectivos ou nos advérbios).
4. Esta mesma crónica que vos deposito nas mãos era para ser exemplarmente “à brás”. Tinha a intenção de vos oferecer alguns pedacinhos do meu quotidiano mais recente – a minha Mãe perguntando-me a sua própria idade; o Facebook a lembrar-me do aniversário de um Amigo já falecido e convidando-me a celebrar com ele a data festiva; uma ex-aluna, à porta de um hipermercado, chorando (juro) com saudades das nossas aulas de há vinte e tal anos; o Natal visto, a partir de certa idade, como um presépio de ausências; etc.
5. Mas o desvio preambular da crónica, com que gastei talvez demasiados parágrafos, não me deixa espaço senão para uma notinha mais. É preciso, contudo, que olheis para ela à luz dos princípios gastronómicos e de arte poética acima enunciados.
6. No penúltimo dia de 2017, fui com a minha Mãe às compras. Na hora de pagar, brinquei com a moça responsável pela caixa registadora. Apontando para a minha amadíssima progenitora, perguntei: “Acha que ainda posso trocar esta senhora por um modelo mais novo ou já passou o prazo?
A moça, conquanto sorrisse (por saber muito bem que eu brincava), respondeu-me num tom muito grave: “Não se trocam mães. E elas nunca estão fora de prazo.
Eu dei-lhe logo razão, claro, e guardei o episódio para, um dia, lhe acrescentar as gemas e as claras do meu olhar, mais a batata palha das palavras e alguns condimentos à minha escolha. 
Atenção: a realidade à brás não tem de ser servida fria.

Vila Real, 06 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 11-01-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]