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Número de Ondas

segunda-feira, 5 de março de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (126)


Diário de bordo 

À semelhança do que sucede com alguns milhões de indivíduos, costumo andar pelos cafés-consultórios-reuniões-jardins desta vida com um caderno em que aponto entidades-referências-valores-prazos das contas a pagar, datas de aniversário, tarefas a cumprir (na escola e em casa), versos, historietas, nomes e contactos telefónicos, ideias para crónicas. Chamo a estes cadernos, com escusada pompa, “diários de bordo”, apondo sempre às respectivas capas a data em que neles começo a escrever. 
Estreei o mais recente com três apontamentos, quase todos barro para qualquer que fosse a olaria textual escolhida. Desaguarão, para já, nesta crónica. 
1. Desafiei os meus alunos do oitavo ano de escolaridade a analisar um belíssimo texto de José Gomes Ferreira, intitulado “Sou uma nuvem” (in O mundo dos outros – histórias e vagabundagens). A maioria dos jovens leitores percebeu logo o horror ali glosado – o de, pressionados pela necessidade de aceitação social, podermos alienar de nós próprios o que verdadeiramente somos. Isto é, de trocarmos a liberdade pelo comodismo. Isto é, a nossa voz individual pelo balido indistinto da multidão. Mas houve quem, na turma, reclamasse o direito a, no quotidiano feroz da escola e da vida em geral, uma pessoa se acomodar, sim, e corresponder à vontade dos outros (ainda que sacrificando a pessoal independência): uma menina, de olhar frágil e assustado, murmurou que “assim, sofremos menos e não chateamos os outros.” 
2. Tenho um cunhado (mais um) numa paliativa cama de hospital, à espera de partir para aquele lugar sem tempo que é (será) o de todos. A iminência inevitável convoca já, neste presente oncológico, súbitas e frequentes lágrimas, que hão-de continuar e crescer num futuro demasiado próximo. A espera tem enchido os meus dias familiares de mortalidade e de desespero, mas entretanto almoçamos, jantamos, trabalhamos, cumprimos horários, e vamos de manhã à janela ver o tempo que faz para escolher a roupa adequada.
3. Numa gaveta da mesinha-de-cabeceira, enquanto procurava comprimidos para a dor de cabeça, encontrei duas chaves não sei de que portas ou armários, portanto inúteis como o volante de um carro sem motor nem rodas. Encontrei também o coto de uma vela azul, resto obsoleto de alguma iluminação salvadora que me terá valido em ocasião passada. A minha mulher perguntou-me: “Encontraste os comprimidos?” Respondi-lhe: “Não. Encontrei duas metáforas tristes.” 

Vila Real, 25 de Fevereiro de 2018. 
Joaquim Jorge Carvalho 
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (125)


O sucesso em forma de anedota

 Ouvi, há muitos anos, uma anedota que volta & meia recordo, já menos pela graça original que pela eficaz representação do conceito de absurdo. Conto-a, com vossa licença. 
 Um homem chega a casa e testemunha a infidelidade da esposa, envolvida com um primo seu (dele), sem roupa e sem vergonha, sobre um sofá cinzento que o infeliz comprara há pouco tempo. Resistindo – por não desejar o escândalo nem o fim do casamento - ao impulso de um acto violento, o homem retira-se discretamente do teatro de operações e vai para a tasca beber uns copos. Um amigo apercebe-se do seu nervosismo, da sua tristeza, do seu ar deprimido – e questiona-o (“Que se passa, pá?”). O marido defraudado desabafa, descrevendo-lhe a cena com pormenores dolorosos (a nudez conspícua, os sacramentos traídos, o sofá quase novo), pouco espaço deixando ao interlocutor para qualquer consolo conveniente. Uma semana depois, voltam a encontrar-se na mesma tasca e o homem vítima do destino não aparenta qualquer perturbação: conversa alegremente, ri-se ruidosamente. O amigo trá-lo para um canto e pergunta-lhe se “aquele problema” já está resolvido. A princípio, o outro nem percebe a pergunta; depois, após ter ouvido o confidente recordar-lhe, com cuidadosa escolha de palavras, a angústia da semana anterior, responde: “Ah! Está tudo resolvido.” “Perdoaste-lhe? Divorciaste-te?”, quer saber o perguntador. Responde o marido-novamente-feliz: ”Não. Vendi o sofá.” 
 Cruza-se-me com esta narrativa mínima certa notícia recentemente chegada aos meus ouvidos: o governo quer reduzir o insucesso escolar no ensino básico determinando um limite (pré-quantificado) de alunos que poderão ser retidos em cada ano de escolaridade.  
 Esclarecimento: eu simpatizo, naturalmente, com a ideia de combater o insucesso escolar. Costumo até dizer, a alunos, colegas e encarregados de educação, que o insucesso dos meus alunos é, em termos objectivos, o meu próprio insucesso enquanto docente. Mas o combate ao insucesso deveria significar, antes de mais, um magno esforço para elevar e aprofundar conhecimentos & competências dos alunos, e não simplesmente o reforço artificial de avaliações positivas. O sucesso conquista-se, como é bom (digno) de ver, com muito trabalho, envolvendo professores, alunos, famílias; com diversificação de estratégias, respondendo à especificidade de cada turma (e, se necessário, às características particulares de cada discente); com recursos (horas para apoio; tutorias; actividades lúdico-pedagógicas que contribuam para a estimulação e para a auto-estima dos aprendentes); com monitorização atenta e consequente da evolução de processos e resultados. Etc
 A ideia de que o insucesso escolar se resolve por decreto é uma ilusão perigosa e, convenhamos, ridícula. Espero bem que, na educação, se resista à tentação de, perante magnos e complexos problemas, se resolver tudo vendendo o sofá.

 Vila Real, 18 de Fevereiro de 2018.
 Joaquim Jorge Carvalho
 [Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22 de Fevereiro de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

domingo, 18 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (124)


Rankings, Realidade & Excell

Aparentemente, a vozearia à volta dos rankings das escolas foi, desta feita, menor. A feira mediática parece ter-se cansado desse território e os tudólogos da pátria, à míngua de antena, encolheram os ombros. Como os pastéis de nata, dir-se-ia, os rankings acabam por enjoar – até os entusiastas ex-maoístas que, há décadas, ansiavam em lágrimas pela sua publicação. 
Lembro que em momento algum ministério, professores, direcções escolares e sindicatos desvalorizaram o tratamento sério, avisado e responsável dos dados resultantes de exames ou provas de aferição. A diferença estava em que essa análise, na opinião de quem estava – está - mesmo interessado no sucesso da Escola (sobretudo, no sucesso da Escola pública), deveria ser feita dentro do próprio sistema. Objectivo: encontrar estratégias para potenciar boas práticas ou corrigir falhas.
Já os arautos da exposição dos rankings viam na publicação ruidosa de classificações por escola a chave para a excelência deveniente: as escolas boas – maioritariamente associadas ao ensino privado – seriam reconhecidas e premiadas; as más – maioritariamente públicas – tornar-se-iam, por vergonha ou castigo, também boas ou desapareceriam. Na cave desta retórica, havia o ideal de uma Escola tendencialmente privada e, como acontece nos Estados Unidos da América, de uma desvalorização-residualização do ensino público, destinado apenas à população socialmente desfavorecida.
Quem estuda há muitos anos o fenómeno da educação sublinhou oportunamente, para escândalo dos entusiastas dos rankings, que países muito desenvolvidos haviam já experimentado essa prática e, depois, optado por tratar internamente os dados anuais relativos à avaliação dos seus alunos. Porquê? Porque entenderam que aquela exposição pública prejudicava mais do que beneficiava o sistema. Mais consideraram que os rankings eram, por natureza, falhos de rigor, injustos e contraproducentes, pois configuravam, na prática, a emergência de estigmas dificilmente reversíveis e a simplificação abusiva do mérito escolar e educativo das escolas.
Não me custa concordar com essa teoria: ao longo dos últimos anos, tenho assistido à substituição do estudo competente e produtivo dos resultados escolares por um ruído profundamente demagógico e politicamente enviesado. Cheguei a ler, em jornal de referência, um ex-maoísta a “explicar” que, com base nos rankings, as famílias iriam poder escolher as melhores escolas para os seus filhos!...
Já estive em escolas com bons resultados nos rankings – e eu era o mesmo professor que fui, depois, em outros estabelecimentos de ensino com piores resultados. Também já vi bons resultados num ano e menos bons no seguinte, tudo na mesma escola, com as mesmas práticas e os mesmos professores.
Há uns anos, a melhor aluna do 9.º ano da minha escola foi, no final do terceiro ciclo, prestar provas a um colégio privado para provar que merecia cursar aí o ensino secundário. Foi admitida. Esse colégio é dos que brilham, ano após ano, nos rankings. Na escola onde trabalho, atentai, admitimos todos os alunos, independentemente das qualidades intelectuais que revelem à partida.
Ainda uma pequena “anedota” (verdadeira): há uns dezasseis anos, a minha Filha e outros quatro ou cinco colegas do 12.º ano quiseram fazer exame nacional de Filosofia, de modo a poderem concorrer aos cursos universitários que almejavam. Ao longo do ano lectivo, essa disciplina não fizera parte do seu currículo, pelo que se auto-propuseram a exame. Eram, de modo geral, bons alunos e, graças ao estudo aturado (e à sua inteligência, claro), obtiveram excelentes classificações na prova. De tal resultou que o estabelecimento de ensino onde fizeram o 12.º ano ficou classificado, em termos de ranking, no top ten nacional, no que a Filosofia diz respeito. Tirando o facto de a escola (recordo) não ter essa disciplina no currículo, foi um momento de conspícua glória para aquela comunidade educativa.
No espírito mercantilista e futeboleiro dos rankings, talvez valesse a pena pensar nesta proposta, que ofereço de graça: cada escola - privada ou pública - escolheria os cinco melhores alunos para levar a exame (de Português, Matemática, etc.). Estou convencido de que, assim, a competição seria mais justa – e a percepção do sucesso escolar, tão artificiosa como a que actualmente se lê nas folhas de Excell, estender-se-ia enfim a todo o território português.

Coimbra, 11 de Fevereiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Uma versão (mais curta) desta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-02-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.contra-facção.blog.br.]

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (123)

Elogio da rotina burguesa

O relógio tem esta paradoxal qualidade de, representando embora o controlo dos homens sobre o Tempo, ser um permanente aviso sobre o humano Fim. Na verdade, o relógio marcha contra nós, ó tristes, imparável e impassível como aquela esfinge que Baudelaire inscreveu no seu poema “La beauté”.
Contra a morte, que remédio senão viver-ir vivendo, como disse o poeta Célan? Que remédio senão o amor, como disse o poeta O’Neill? Menos grave e bela que as propostas da filosofia ou da poesia, ainda sei de uma outra forma de fugir (ou fingir que se foge) da morte: o culto da amável rotina.
A rotina não nos salva do Fim, naturalmente. Mas, no intervalo das doenças (próprias e alheias) e dos desgostos (havidos ou iminentes), eu simpatizo com a regularidade repetida dos meus dias burgueses. A sistemática lida da nossa normalidade serena e honesta representa, talvez, uma grata ilusão de imortalidade, que é, à falta de melhor oferta, um querido regaço muito à mão de semear.
O burguês é feliz estando em casa – a ler, a ouvir música, a conversar, a telever futebol, ou simplesmente estando em casa sem mais verbos.
É feliz cumprimentando vizinhos e amigos, lembrando o Pai junto de contemporâneos seus (dele) de há cinquenta anos. É feliz discutindo futebol, política, mulheres, entre gargalhadas juvenis e sem devir obrigatório. É feliz separando o lixo, substituindo as lâmpadas domésticas, pagando as contas dentro do prazo, resolvendo um problema de canalização na cozinha (assim contrariando, aliás, uma fama de desajeitado que o persegue na família há décadas), descobrindo a causa do mau funcionamento do aspirador (um fusível fundido que mais ninguém detectara), repondo o stock de vinho para oferecer aos visitantes, mantendo q.b. a casa com pão, fruta, leite, água engarrafada, guardanapos, papel higiénico, batatas, azeite, óleo, cenouras, detergentes.
É feliz assistindo a séries cómicas, quiçá à lareira, estendido no sofá como um desempregado feliz (no intervalo da profissão, que religiosamente cumpre para ser digno do que lhe pagam).
É feliz a correr no Choupal, sobretudo quando não anda assustado com misteriosas dores no peito, não tem dívidas impagáveis e, para cúmulo destas maravilhosas juventudes momentâneas, há Sol na sua cidade.
É feliz quando a família está bem - isto é, normalzinha da silva, isto é, razoavelmente viva, isto é, razoavelmente sã. É feliz quando a mulher e a filha estão em casa consigo, tão eternamente como em 1989, já depois da tropa, durante as férias estivais, muito pobres e muitíssimo felizes, na mítica Praia de Mira.
O senhor Marx que me desculpe, mas a burguesia é um belo lugar para se estar antes da morte.

Vila Real, 03 de Fevereiro de 2019.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 08-02-2018. A imagem (de Calvin & Hobbes, do genial Watterson) foi colhida, com a devida vénia, na net.]

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (122)



A observação como doença crónica

 Sonhei que um pintor famoso se cruzava comigo na rua e me oferecia um quadro. Vagamente, explicou-me que me vinha observando há algum tempo, e que, à minha custa, se comovera e rira já excessivamente. De comum, explicou-me, tínhamos a doença de sentir tanto e sempre, bem como a urgência, decerto doentia e patética, de nos exprimirmos abundantemente, como se precisássemos de confidenciar ao mundo o que profundamente vivíamos, para o mundo nos lamentar, nos consolar, nos perceber e, talvez, nos aceitar. 
O quadro estava cheio, sobretudo, de motivos marinhos. A expressão que me ocorreu foi a de “um aquário no mar”: água e peixes por todo o lado, mas também rochas, plantas, uma âncora ferrugenta, um navio sepultado em forma de vulto. E – aqui é que entrava verdadeiramente a senhora Dona Estranheza – pessoas: multidões à espera do autocarro, automóveis a passo de caracol (de caracol anfíbio, claro), agentes da polícia, vendedores de cautelas e de castanhas, pares de namorados trocando juras de amor em bolhas de ar, ambulâncias nervosas, familiares, amigos & conhecidos movimentando-se no sentido dos ponteiros do relógio, a minha Mãe levando a minha Filha à escola. 
O quadro era uma espécie de enxame de vida vária, vertiginosa, confusa, ruidosa, caótica. Fez-me lembrar, já depois de acordado, alguns episódios de febre por que passo às vezes e invariavelmente me acendem no cérebro uma avalanche infernal de rostos-objectos-acontecimentos a cem à hora. 
Mas onde estava eu ali, naquela voraz representação do (meu) mundo? Perguntei, então, por mim. O pintor apontou para uma extensíssima serpente, que – observado o panorama com maior atenção e mais apurado detalhe – começava no início da tela, ao canto esquerdo, e se estendia, em eles, esses e zês, até ao canto inferior direito. A serpente tinha uns olhos imensos (que a princípio me pareceram duas misteriosas medusas) e olhava, com absoluto espanto ou mortal medo, para cima. 
Perguntei-me por que razão a serpente (eu?) olhava para as mãos do pintor. Sem falar, ele retirou as suas mãos do quadro, e percebi que sob elas estava, até então tapado, o meu próprio rosto olhando para baixo. Isto é, para a serpente e para a vida dentro do aquário, em geral. 
Eu tinha muito mais para debater com o pintor, mas ele desapareceu-me – primeiro pelas sombras labirínticas do sonho, depois pelas esquinas palavrosas da sua gasosa evocação. 
O que ficou do que sonhei foi, portanto, aquela ideia de um aquário no mar comigo dentro e simultaneamente comigo a ver. Não é mau pecúlio, pois sonhos há que não nos deixam um cêntimo sequer do tesouro vivido (e vívido) por onde andámos. 
Dando-se o caso de, por estes dias, o cronista se interrogar sobre a missão do cronista, apeteceu-me pensar que o aquário representava talvez este homem de palavras com um pé no mundo e outro fora, no ofício de viver e reflectir acerca de quanto-como-para-por que se vive. 
Depois, como era Sábado, comprei o Expresso e fui lê-lo para a sala, inteirando-me confortavelmente das glórias e misérias deste planeta em que está (também) a casa arrendada onde leio e escrevo.

Coimbra, 20 de Janeiro de 2018. 
 Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-01-2018. A imagem (do grande Cesário, espécie de poeta-cronista), foi colhida na internet, com a devida vénia.]

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (121)


Amizade, etc.

Um conhecido advogado dizia há dias, na televisão, que “os amigos são pessoas de quem gostamos sempre, apesar de as conhecermos bem”.
Não comungo desta noção de cheque em branco oferecido aos amigos. O que há no banco da amizade é um crédito realmente grande, imenso, mas não infinito. Sei muito bem que um amigo é um tesouro, e também eu creio que, em alguma medida, os laços da amizade são mais profundos e delicados que os da família. É costume dizer-se que a família não se escolhe, por existir um vínculo fatal entre nós e os do nosso sangue, ao invés do que se passa com os amigos, que somos lives de escolher, ou que – por actos, palavras e demais coincidências cósmicas - entram em algum momento nas nossas vidas, tornando-se companheiros & cúmplices da nossa circunstância, presumivelmente para sempre.
Ao contrário do que sucede no universo familiar, a que pertencemos de forma mais ou menos involuntária (ou ex-voluntária), a nossa rede de amigos é feita de matéria não exclusivamente emocional ou sentimental. Note-se: não pretendo reduzir o conceito de amizade a um mero contrato, baseado na pura Razão, mas tão-pouco consigo entender o fenómeno como um vínculo gasoso, desprovido de direitos e deveres. De regras. De ética.
Na ética da amizade, creio bem, os amigos não têm de estar obrigatoriamente de acordo uns com os outros. Por outro lado, não têm de conformar-se com tudo o que os amigos fazem, i.e., não têm de engolir passivamente eventuais provocações, ofensas, humilhações. Os amigos de verdade, ainda que tacitamente obrigados à maior compreensão, à maior paciência e à maior tolerância para com os seus amigos, têm também o dever de se zangar perante comportamentos graves e, à luz da própria amizade, perigosos. Falo sobretudo de erros crassos e – pior ainda – conscientes, nomeadamente quando os amigos ignoram os avisos, os conselhos, os pedidos dos amigos.
Mais: os amigos alvo da ira circunstancial dos amigos têm a obrigação, nesse momento, de humildemente se interrogarem sobre os reparos que recebem. Pode aqui suceder que alguns, confundindo orgulho com teimosia, se recusem a admitir quaisquer responsabilidades. E, do outro lado, suceder que se viaje da indignação primária à zanga muitíssimo séria. No pior dos casos, chocarão dois comboios de irredutibilidade, uma triste metáfora para o triste acidente que é uma amizade ser interrompida. 
A idade ensinou-me que ninguém é dono de ninguém, em matéria de amizade ou amor (sendo aquela uma versão talvez menos romântica deste). Aliás, julgo que não possuímos amigos, não detemos amigos – temos amigos, isso sim, no sentido (mui puro) de sermos beneficiários da amizade de alguém e de alguém reciprocamente merecer a nossa estima.
Não se pode magoar gratuitamente um amigo, claro. Mas amizade alguma nos impede de dizer a um amigo que está a ser pouco razoável, se ele estiver a ser pouco razoável. Ou injusto, se ele estiver a ser injusto. Ou a não ser amigo, se ele estiver a não ser amigo.
O pior de tudo é ser mesmo tão terrível a gente zangar-se com um amigo. Lembro-me sempre daquele diálogo (lido sei lá onde, sei lá quando) entre dois espectadores de uma cena de pancadaria na rua, entre vizinhos.
- São conhecidos?
- Pior. São amigos.

Vila Real, 20 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26-01-2018. A ilustração (com a personagem Calvin, do grande Bill Watterson) foi colhida, com a devida vénia, em http:www.psicoachbh.com.br.]



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (120)



Lennon no dentista

Life happens while we’re making other plans.” [A vida acontece enquanto estamos a fazer outros planos.] Li a frase de John Lennon pela primeira vez numa revista qualquer, provavelmente antiga, na sala de espera de um dentista, há já muitos anos. Discretamente, recortei o canto da página onde estava esta pérola e guardei-o no bolso da camisa, sobre o coração. É isso que fazemos com todas as revistas, com todos os jornais e, de certo modo, com todos os livros que lemos: guardamos (ainda que de forma menos bárbara e não necessariamente física) o que de mais interessante cada uma destas fontes escritas tenha para nos oferecer.
Esta frase tem sido uma espécie de mote constante para (e sobre) a minha vida. Não, sublinho, como justificação pateta para os problemas do dia-a-dia, porque eu creio firmemente no livre arbítrio e na geral noção de que somos responsáveis por 90% do que nos sucede. Mas também penso que o Acaso (dito, à maneira grega ou fadista, o Destino) tem o seu papel na caminhada de cada indivíduo ou de cada sociedade.
Por exemplo, a coincidência de ter encontrado o mui venerando professor Silveira, de Português, aí pelo 9.º ano de escolaridade, e de ele me ter dito “Se queres ser rico, vai para ciências; se queres seguir a tua vocação, segue a literatura”, e de eu me ter tornado docente também.
Ou a coincidência de, por engano nas filas de matrícula, ter escolhido um curso universitário que não era exactamente o que tinha em mente, e de me ter depois apaixonado pelos programas, pelas matérias e pelos professores, nem sequer equacionando, de aí em diante, qualquer mudança que deles me afastasse.
Ou a coincidência de, numa aula de Cultura Francesa, em horário diferente do habitual, ter conhecido a mulher da minha vida e de ela ter sentido por mim (creio) uma electricidade semelhante, encontro de que resultou, até ver, 35 anos de invulgar felicidade, uma única-Filha-única e uma dívida bancária a 14 anos ainda de ser paga.
Ou a coincidência de um colega de futebol se ter tornado no meu maior Amigo e depois cunhado, e depois – por traiçoeiramente ter morrido de cancro – uma Saudade do tamanho do mundo.
Ou a coincidência de, por razões profissionais, ter saído, há mais de 20 anos, de Coimbra para Trás-os-Montes, acompanhando a esposa, e de aí ter conhecido lugares e gente de revelantíssima importância, que passaram a fazer parte do que sou e sem os quais hoje nem sequer me imagino.
Ou a coincidência de, em menino, ter sido tocado pelos romances e contos de Júlio Dinis, e de uns trinta anos depois ter voltado àquele mistério literário para, como quem cumpre um dever de gratidão, lhe dedicar um doutoramento trabalhoso, extenso e honesto.
Ou a coincidência de ser conterrâneo e Amigo do jornalista-escritor Daniel Abrunheiro, e de este me ter sugerido ao director de O Ribatejo para cronicar, e de por isso estar há 120 crónicas em convívio (perecível) com os seus leitores.
Sim, a vida acontece enquanto andamos a fazer outros planos. Por exemplo, estava eu a terminar este texto e tocou o telefone: era a minha Filha a dar-me boas notícias sobre o seu trabalho e a sua carreira. Logo agora que eu procurava uma frase para, nesta crónica, falar da noção de felicidade-a-haver com que procuro acompanhar cada episódio da vida, por mais desconcertante que ele se me afigure. Deve ser coincidência.

Ribeira de Pena, 14 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 18 de janeiro de 2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.divadaregina.blogspot.pt.]

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (119)



À brás

1. Conheço e estimo, há muito tempo, o bacalhau à brás. A vida doméstica ensinou-me que, para além do valor gustativo, este prato tem a virtude de se cozinhar de modo maravilhosamente simples: bacalhau desfiado (pré-cozido ou não) e misturado, no tempo certo, com caldo de gemas e claras, batata palha, tudo a desaguar numa frigideira onde o azeite e a cebola estão já em alegre consubstanciação. Eu próprio já sou capaz de o cozinhar, um pouco menos bem do que a minha mulher, mas sem prejuízo grave do paladar.
2. Mais recentemente, soube que o conceito “à brás” é adaptável a outros ingredientes-base, como o frango, o atum, até a pescada. A minha irmã diz que é uma maneira deliciosa de se aproveitar a comida sobrante, fenómeno de poupança que agradará decerto também a Deus e aos ambientalistas (inimigos conspícuos do desperdício).
3. Ao longo da minha existência escrevedora, não poucas vezes pratiquei também esta filosofia à brás, muito particularmente na poesia e na crónica. No fundo, tal acontece quando a escrita parte de uma matéria-prima chamada realidade, bem desfiadinha como tem de ser. Acrescenta-se-lhe, a seu tempo, a calda de gemas e claras do nosso olhar. Neste regaço alegórico, talvez pudéssemos chamar batata palha às palavras que se misturam ao ingrediente básico. O tempero corresponderá talvez a aspectos atinentes ao estilo do cozinheiro – vocabulário, sintaxe, elementos de retórica (atenção: não exagerar nos adjectivos ou nos advérbios).
4. Esta mesma crónica que vos deposito nas mãos era para ser exemplarmente “à brás”. Tinha a intenção de vos oferecer alguns pedacinhos do meu quotidiano mais recente – a minha Mãe perguntando-me a sua própria idade; o Facebook a lembrar-me do aniversário de um Amigo já falecido e convidando-me a celebrar com ele a data festiva; uma ex-aluna, à porta de um hipermercado, chorando (juro) com saudades das nossas aulas de há vinte e tal anos; o Natal visto, a partir de certa idade, como um presépio de ausências; etc.
5. Mas o desvio preambular da crónica, com que gastei talvez demasiados parágrafos, não me deixa espaço senão para uma notinha mais. É preciso, contudo, que olheis para ela à luz dos princípios gastronómicos e de arte poética acima enunciados.
6. No penúltimo dia de 2017, fui com a minha Mãe às compras. Na hora de pagar, brinquei com a moça responsável pela caixa registadora. Apontando para a minha amadíssima progenitora, perguntei: “Acha que ainda posso trocar esta senhora por um modelo mais novo ou já passou o prazo?
A moça, conquanto sorrisse (por saber muito bem que eu brincava), respondeu-me num tom muito grave: “Não se trocam mães. E elas nunca estão fora de prazo.
Eu dei-lhe logo razão, claro, e guardei o episódio para, um dia, lhe acrescentar as gemas e as claras do meu olhar, mais a batata palha das palavras e alguns condimentos à minha escolha. 
Atenção: a realidade à brás não tem de ser servida fria.

Vila Real, 06 de Janeiro de 2018.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 11-01-2018. A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net.]

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ZONA DE PERECÍVEIS (118)


Epifania para Ano Novo

Quando a crónica se deixa cair na esparrela da catequese paternalista, o cronista corre os riscos concomitantes: o mortal ridículo, o imbecil moralismo e a provável ineficácia. Mesmo que o objectivo seja virtuoso, pois de boas intenções está a (má) literatura cheia. 
Não obstante, atrevo-me a uma incursão por este domínio delicado, ó pacientes leitores. É que se cumpriu mais um aniversário da morte de um familiar próximo, e a efeméride teima em cruzar-se com esta data de fim de ano. O meu saudoso Z.M. andou pelo inferno de um vício tenebroso, o alcoolismo, perambulando os pântanos da indigência mais triste, subindo depois a ladeira insegura da esperança e chegando finalmente à praia apetecida da salvação. É muito difícil não me lembrar deste monumento querido quando quero falar de ano novo e de mudança.
O Z.M. começou a beber ainda muito jovem. A família e os amigos lidaram com o fenómeno (normalmente divertido) de forma despreocupada. Já jovem adulto, fez a tropa, começou a trabalhar na construção civil, casou-se e teve uma filha. Era um homem bem parecido, inteligente, com sentido de humor, amante do convívio e da festa. A bebida continuou a fazer parte do seu quotidiano, infelizmente sem a graça e o carácter inócuo dos primeiros tempos: a qualidade do trabalho piorou, as relações sociais deterioraram-se, o casamento ruiu, a sua saúde e o seu aspecto foram-se degradando miseravelmente. De vez em quando, dávamos por ele caído num qualquer canto junto à tasca terminal de ocasião e tínhamos de o carregar para casa como um fardo trágico.
Falei muitas vezes com ele. Recordava-lhe o que ele era versus o que ele poderia ser (o que ele tinha a obrigação de ser), o trabalho precário, as qualidades que desperdiçava, as mulheres bonitas que já não olhavam para ele, a quase impossibilidade de participar na vida da filha, a angústia da família e dos amigos, a falta que ele me fazia na sua versão alegre, lúcida, sã. Ele respondia-me, invariavelmente: “Eu sei. Mas isto vai mudar. Juro-te!
Um dia, muito mais tarde que cedo, mudou realmente. Ao anoitecer, quando cambaleava entre a tasca e a sua casa, caiu inanimado. Veio a ambulância, o internamento, os exames – e a sentença definitiva do médico: “Outra destas e morre.
O Z.M. decidiu que queria viver. Cortou com a bebida de aí em diante. (Atenção, não diminuiu o consumo: cortou mesmo, radicalmente, com o mal.) Voltou a trabalhar, recuperou os hábitos de higiene e uma saudável vaidade pessoal: tratou dos dentes, reconstruiu o guarda-roupa, passou a ajudar a filha (com a sua presença e o seu amor, claro, mas também com algum auxílio económico), tirou a carta de condução (à primeira), comprou um carrito, arranjou uma namorada, regressou ao convívio limpo e alegre da família e dos amigos. A ressurreição foi traída, uns três anos depois, pela puta da Morte, que veio cobrar oncologicamente os excessos da vida anterior. Mas a imagem que dele ficou na nossa memória foi a de um Homem que saiu do inferno e veio cá acima gritar-nos que é possível mudar, e que o milagre de nos salvarmos está essencialmente em cada um de nós.
Quando me calha saber de um ou outro conhecido caído nas malhas do vício (medicamentos, álcool, jogo, droga), lembro-me sempre do Z.M., que me dizia “Isto vai mudar, Juro.” – e que um dia deixou mesmo de (se) adiar o regresso à felicidade.
Eis o que eu vos queria dizer: que cada um encontre a digna epifania para a sua própria circunstância. Por si e por quantos o estimam e amam. Tom de catequese, ó leitores? Desculpai-mo, se puderdes. Mas não me ocorre melhor forma que esta para vos/nos desejar Feliz Ano Novo.

Coimbra, 31 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04-12-2018. A ilustração que o acompanha foi colhida, com a devida vénia, na net (sem – até ver - referência autoral conhecida).]

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (117)


José, Maria e o miúdo

O nome de meu Pai era José. O nome de minha Mãe é Maria. Se vos disser que a minha Mãe é uma santa, podereis pensar que Jesus fala pela minha boca e que a crónica glosa a Sagrada Família, não é? Mas o meu José era bate-chapas, pouco sabia de carpintaria e nem um exército de anjos o convenceria de uma concepção à base de Espírito Santo. Era apenas um homem – e eu, o seu segundo filho, sou esta imperfeita criação, à sua imagem e semelhança (na fisionomia, no olhar malandro, no jeito para jogar à bola e no amor pela vida em geral). 
O meu Pai foi, por muitos anos, a figura tutelar dos natais familiares. Ligava quase nada à religião, mas tinha por Deus, pelos santos e pelos rituais do cristianismo um profundíssimo – quase supersticioso – respeito.
Ao contrário do que sucedia com outras datas também importantes, a esta ele nunca faltava e não me lembro sequer de um atraso seu à ceia de 24 de Dezembro. Apreciador da boa comida (bem regada, para minha aflição), ele próprio supervisionava e patrocinava a qualidade do bacalhau, dos legumes e do vinho. Esse lado (não exactamente religioso, antes burguês) compreendia ainda uma ida, com a minha Mãe, à baixa coimbrinha, na própria tarde desse dia, para comprar as prendas dos três (depois, quatro) filhos do casal. E era singular como um homem que passava a vida a resmungar pelas contas - da luz, da água, do gás, da renda de casa, da mercearia – tão mansamente abria os cordões à bolsa para aquela generosidade anual.
Das mais amadas prendas que eu e o meu irmão mais velho recebemos, naquele tempo menino, destaco dois carrinhos telecomandados, que cada um de nós conduzia através de um aparelho ligado a um cabo de, talvez, metro e meio. Tinham só uma velocidade, mas eram enormes, vistosos, andavam para a frente e para trás, e viravam à esquerda e à direita. Entretivemo-nos com eles durante meses, até às avarias terminais (ainda hoje choradas pelos petizes que fomos).
No Natal seguinte, eu e o meu irmão quisemos uma repetição daquela oferta. O nosso Pai ficou pensativo, porque o dinheiro abundara menos nesse ano civil. Mas não deixou de ir com a nossa Mãe à baixa coimbrinha, quem sabe à procura de algum milagre em forma de pechincha.
Na hora de abrirmos os presentes, descobrimos novos carros telecomandados. Contudo, desta feita, eram mais pequenos, mais rudimentares, com o cabo mais curto, e limitavam-se a andar para a frente e para trás, sem a função de virar à esquerda ou à direita. Eu e o meu irmão gememos em coro o nosso descontentamento. E nunca esquecerei a tristeza (talvez a angústia) de meu Pai, interrogando a minha Mãe: “Eu não te dizia?...
Agora, é outra vez dia de ele nunca mais estar connosco (e de eu nunca mais ser completamente menino). Tenho saudades dele e de nós todos quando ele estava. Saudades, afinal, dessas prendas verdadeiras que tão incompletamente percebi no tempo certo.
Feliz Natal.

Vila Real, 17 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-12-2017. A foto recorda a Família - da direita para a esquerda, a Mãe, a Fátima, eu, o Tó e o Pai (falta o Nelo-por-nascer).]

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (116)



Vida(s) de cão

O cronista alberga, por definição, o pavor de ser mal interpretado. No meu caso, o que temo não é que discordem de quanto diga, é sim que não percebam o que verdadeiramente quero dizer. Preâmbulo feito, sabei que a crónica de hoje fala em cães, mas visa sobretudo falar de pessoas.
Já tive cães na família. Parte das alegrias e dos lutos da minha meninice compreendem a espécie canina. Depois, casado e com descendência, convivi com uma cadelinha chamada Dara, motivo de mil aflições, arrelias e prejuízos, mas igualmente responsável por instantes de pura felicidade e de irracionais risotas.
O que me arrependi, neste segundo caso, da opção de trazer para casa o animal! A minha mulher e eu quisemos sobretudo satisfazer um pedido da nossa Filha, amenizando o remorso de, por razões profissionais, nos termos mudado de Coimbra para Trás-os-Montes e obrigado a miúda a interromper rotinas, amizades, expectativas, conforto. O problema veio depois: a casa que arrendámos era exígua para a energia (ilimitada) do ser recém-chegado; o nosso tempo livre era escasso para quem queria tanto a nossa companhia. Em suma: a Dara deveio infeliz e, enquanto sofria de solidão, incomodava os vizinhos com uivos e latidos incessantes. Durante a minha infância, os animais domésticos tinham espaço para viver (não digo, notai, sobreviver; digo viver). Recordo um pátio grande, infinitos arbustos, arvoredo largo, e gente sempre disponível (i.e., sempre presente) para um passeio, uma festinha, uma reprimenda educativa.
Voltando ao tempo da Dara, faço questão de sublinhar o nosso cuidado em, tanto quanto conseguíamos, evitar que a cadela causasse danos a vizinhos e humanidade em geral: se ela sujasse ou estragasse, nós limpávamos e reparávamos; se ela rosnasse ou ladrasse aos transeuntes, nós intervínhamos, serenando-a ou afastando-a das pessoas.
Hoje, devinda memória a hiperactiva cadela que, por 13 anos, amámos como família, não temos cães em casa. Mais: não queremos ter cães em casa. Aprendemos a lição: para sanidade e real bem-estar de humanos e de animais, é preciso que a possibilidade de convivência compreenda, à partida, condições dignas. Continuo a ouvir com frequência a pergunta: “Não queres ter um cão?” Mas a própria ideia de “ter” um animal me parece já um erro, pela redução do ser vivo à condição de propriedade.
Lamento as gentes e os cães da minha tão estreita rua, estes pela falta de espaço, liberdade e companhia, aqueles pela – adivinhada - pressão a que estão sujeitos (as tropelias dos canídeos, o barulho, os fatais excrementos pela casa, pelas escadas, pelas ruas). Vidas, ambas, de cão.
Talvez os leitores me não perdoem a franqueza, mas eu creio que, por muito amor e compreensão que haja pelos admiráveis cães, é hoje impossível ignorar o flagelo representado pelas planícies de porcaria em que se tornaram os passeios de tantas urbes. Uma minoria recolhe, em saquinhos civilizados, a escatologia dos famosos melhores amigos. A maioria deixa que fezes e mijo se espalhem, sem regra, por passeios, aparcamentos ou pátios.
Já vi uma senhora à espera que o seu (enorme) cão se aliviasse à porta do prédio coimbrinha onde vivo. Farto de fingir que estava tudo bem, garanti-lhe que, logo que pudesse, não deixaria de passar com outro cão à sua própria porta - para lhe devolver a urina canina ali deixada. Virou-me as costas, murmurando (talvez) que eu era um desses crápulas que detestam animais.

Vila Real, 10 de Dezembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-12-2017. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sobral24horas.com.]

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (115)


Três desejos (ou a felicidade)

Grupo IV do teste de Português, oitavo ano de escolaridade. Domínio: escrita. Tarefa: elaboração de um texto narrativo, partindo de uma situação fantástica (no sentido genológico do termo) – um mago, para premiar certo gesto generoso do narrador participante, oferece-se para satisfazer três desejos à sua (dele, narrador) escolha.
Os alunos enveredam por múltiplas-díspares hipóteses. Há quem recuse os desejos porque a bondade, se for mesmo bondade, é gratuita e não tem de ser paga. Há quem peça o venal dinheiro, a fundamental saúde, a abstrusa fortuna. E há raparigas e rapazes que pedem a imortalidade dos pais ou dos avós, a cura para o cancro, amigos novos, uma família “como deve ser” (sic), uma pastelaria na terra natal.
E eu bendigo esta tarefa da escrita, que tão naturalmente convocou nos alunos a reflexão filosófica sobre a magna e movediça questão da felicidade. Assombra-me a preclaridade tão precoce dos jovens aprendentes neste delicado ofício de pensar na sorte e no destino a haver.
Eu levei muitos anos a perceber que ser feliz era muito mais do que ser rico, ter sucesso ou fama ou poder. Por desde sempre viver vizinho dos amigos, dos livros, da família, dos filmes, do futebol, das praias, do amor – andei enganosamente à procura de coisas outras que significassem, julgava eu, a realização pessoal completa. Naquela ignorância, acreditava que o importante era não o que tinha, mas o que não tinha. Até saber a verdade evidente e grande como o mar: que a felicidade é um processo e são instantes; que estar bem se faz de mui simples horas, mui mínimas circunstâncias; que nunca se é feliz, antes se está.
Para alguns dos meus alunos, ser feliz é o avô não morrer de cancro. É testemunhar o milagre da amizade, algures na rua ou na escola. É ter pais que se dão bem e tratam os filhos dignamente. É ter uma pastelaria na sua terra (isto é, um trabalho que os salve do exílio). Coisas pequeninas e simples. Coisas, atentai bem, afinal maravilhosas e raras – como, já agora, isto de eu-cronista cronicar e ser lido (pois que lerem-me é um direito e eu ser lido é um privilégio).
Ora, a terminar, aqui ficam, os meus próprios três desejos, já em antecipação natalina: saúde para o cronista; saúde para os leitores; saúde para estas perecíveis crónicas, que aspiram a ser, no entretanto de (co)existirmos, um saudável território de encontro.

Coimbra, 30 de Novembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07 de Dezembro de 2017. A imagem (do inesquecível filme Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, foi colhida, com a devida vénia, em http://www.magazine-hd.com.]