Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (109)


Felicidade básica

A conversa partiu de uma frase de Manuel António Pina sobre a felicidade. O saudoso (sempre vivo) autor de Nenhuma Palavra & Nenhuma Lembrança escreveu no JN, em 2006, uma bela crónica sobre o tema. A ideia essencial, que ali esculpiu em poucos caracteres, era bem singela: mais do que pensar muito sobre as razões e os caminhos para sermos felizes, devemos viver a vida (i.e., aproveitá-la), com a gratidão ou a paciência necessárias. Mas o Saul, aluno do 8.º ano de escolaridade do ensino básico, divergiu livremente do cronista. Aventou, alternativo: “Eu acho que não há mal nenhum em pensarmos no assunto. Para mim, ser feliz é sentir que a vida vale a pena.
A discussão estalou por uma eternidade de, talvez, trinta e cinco minutos. A Rosa, de mãos dadas com Manuel António Pina, defendeu que pensar na felicidade não fazia sentido, uma vez que “a vida vale sempre a pena”. Logo contrapôs o Saul que aos doentes, aos pobres e aos refugiados talvez não. O Vítor, muito sério, ajeitando os seus óculos de (dir-se-ia) homem mais velho, declarou que, mesmo nessa situação, “todos querem viver”. “Daquela maneira?”, perguntou a Sónia, corroborando romanticamente a perspectiva do Saul. “Desde que tenham esperança…”, sugeriu a Vânia.
Uns minutos antes do final da aula, lá consegui um concerto razoável sobre o conceito debatido: “Ser feliz é sentir que a vida vale a pena, mesmo quando não corre bem, desde que haja esperança.” Reforça-se o sentido, deste modo, de um famoso aforismo: “A esperança é a última [coisa] a morrer” (ou seja, a morte só nos vence verdadeiramente quando desistimos de acreditar).
No fim-de-semana seguinte, faleceu o Pai de uma aluna do sétimo ano - e eu revisitei, com o coração, aquela crónica de Pina. Reparei entretanto que faltou à escola, hoje, a menina vítima deste roubo maior. Conversei sobre os alunos da sua turma sobre o sucedido. Confessei-lhes que uma dor assim nunca desaparece, apenas se torna suportável com o tempo e as novidades que hão-de vir. Aconselhei-os a falar do assunto com a colega apenas quando esta o quiser. Sugeri-lhes que a fizessem sentir-se acompanhada. Pedi-lhes que estivessem vigilantes, atentos, disponíveis. Eles escutaram-me com desusado silêncio e rara quietude.
A minha crónica é dedicada ao imenso Manuel António Pina, senhor tão precocemente desaparecido, com quem converso há muitos anos sem jamais ter tido a graça de lhe apertar a mão. É também dedicada a uma menina com saudades do seu Pai. E é, finalmente, uma homenagem ao Sol que teimosamente habita a condição humana. Esclareço: a condição humana representada pelos meus buliçosos alunos do ensino básico, que são literal e simbolicamente o contrário da morte, e que vejo sempre cheios de uma irreprimível vontade de afirmar o que pensam, sentem, sonham. Em português e em liberdade.

Vila Real, 22 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 26 de Outubro de 2017. A foto (com Manuel António Pina) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ibliotecariodebabel.com.]

domingo, 22 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (108)


Meia dúzia de óbvios

1. Ao contrário do que alguns pedantes pensam e grandiloquamente defendem, dizer o óbvio vale, quase sempre, a pena. A Verdade merece, como tantas grandes canções de sucesso, um refrão que regularmente assinale, com ritmo e melodia eficazes, o essencial de nossas vidas.
2. Por exemplo: nascemos e morremos; entre o princípio e o fim, vivemos ou duramos. É assim, é óbvio que é assim. Mas aquela (óbvia) diferença entre viver e durar tem que se lhe diga – e é crucial lembrarmo-nos disso, em cada esquina funcionária, em cada lapso caminhante, em cada fôlego horário. Aqui entre nós: ainda agora telefonei à minha Mãe, só para ter, por minutos, a graça da sua voz. Dispensável, direis. Talvez; mas imaginai que sabíeis do iminente desaparecimento do Sol. Ficaríeis o dia todo fechados em casa, sem dele recolher quanto pudésseis em luz e temperatura?
3. Tenho um amigo que, de quando em vez, me telefona das ruas onde eu gostaria de estar. Não sinto inveja, juro; ao contrário, experimento a gratidão por me ser concedido esse bónus de mundo ao meu quotidiano migrante. E, enfim, por ter camaradas capazes de tamanha generosidade. Que faço, pois, quando toca o telefone? Aproveito, como é óbvio.
4. Um amigo é um tesouro. De tão repetida, a evidência pode devir clichê, sei-o bem, mas dizer o óbvio é, também aqui, justificável e justo. Eu falo muitas vezes do meu amor por família e amigos. Habituei-me a ouvir que aquela não se escolhe e que estes, sim. Creio que tendemos, em geral, a considerar família as avulsas pessoas por quem temos afeição, e a preferir, na tribo familiar, os que, para além da fatalidade sanguínea, são merecedores da nossa amizade.
5. Há uma oncologia comum que mata frequentemente a amizade: é a zanga, depois ressentimento, depois ódio irracional. Não poucas vezes, tudo começa numa divergência fútil, caprichosa, despicienda. Com o tempo, o veneno tumoral pode matar o vínculo afectivo. Eu conheço muitos exemplos de gente que se especializou no ódio, porém esquecida, já, do motivo que a trouxe a esse afastamento radical. Não valeria a pena trocar tanta raiva por um abraço e, em concomitância, pela possibilidade de dar nova vida à amizade interrompida? Parece-me tão óbvio que sim.
6. Estava já a crónica feita, e a boca voraz, traiçoeira e cínica do Fogo veio a Portugal por mais alimento, somando às mortes e à destruição anteriores a destruição e as mortes de agora. Logo regressaram também os tudólogos da pátria, apontando culpados, expelindo (entre vaidade & baba) as medidas certas a tomar, regurgitando (entre baba & vaidade) as medidas erradas que se tomaram. Ainda bem que, na madrugada do dia 17, ouvi finalmente a chuva e pude, enfim, juntar o meu suspiro grato ao suspiro do próprio chão saudoso de frescura. É tempo de chorar os mortos e de ajudar os vivos que perderam tanto. Mas também de nos livrarmos dos fogos da má-língua e da politiquice mais rasteira – e de, serenamente-sensatamente-responsavelmente, preparar o País para os problemas a haver. Também isto, amáveis leitores, me parece óbvio.

Vila Real, 15 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na maravilhosa BD Calvin & Hobbes, de Bill Watterson.]

ZONA DE PERECÍVEIS (107)



Espuma autárquica

Os resultados das últimas autárquicas não devem, naturalmente, ser lidos como se se tratasse de uma eleição idêntica à das legislativas. Mas tão-pouco me parece avisado ignorar o cariz fatalmente nacional da consulta. Enquanto eleitor, já me habituei a votar em diferentes candidatos/partidos numa mesma eleição autárquica – e uma ou outra vez lá engoli o meu sapo, ajudando a eleger presidentes de câmara que não convidaria sequer para um café; nesses casos, reservo a minha sinceridade maior para a escolha do presidente da Junta ou da Assembleia Municipal. Trata-se de pensar no País em geral, no primeiro caso, e de confiar pessoalmente nos nomes a sufrágio, no segundo. 
Já toda a gente opinou sobre as vitórias e as derrotas mais conspícuas do dia 01 de Outubro (aqui se destacando o evidente sucesso do PS, claro). Creio, contudo, que poucas vozes se têm ocupado de um certo fenómeno importante, aparentemente larvar, no panorama político de Portugal – o do esvaziamento do PSD em benefício já não apenas do PS, mas do CDS-PP. É verdade que no Porto o partido de Assunção Cristas se abrigou sob a asa magna do independente Rui Moreira; mas bastaria reparar nos resultados em Lisboa para se perceber o extraordinário reforço dos chamados “centristas”. A quem, no PSD, a acusava de traição, Cristas já veio dizer que Passos Coelho menorizou as autárquicas, nunca assumindo a urgência, nesse plano, de um trabalho aturado, consistente e próximo nas ruas e bairros da capital.
Julgo que as ideias, a atitude e o discurso de Passos, enquanto primeiro-ministro, muito contribuíram para esta emancipação do CDS-PP, que passou a ser visto, não só como muleta do partido principal da Direita, mas como alternativa moderada e razoavelmente humanista a um certo liberalismo de pacotilha (espécie de Margaret Thatcher requentada). Sintomaticamente, em Loures, o CDS-PP envergonhou-se do discurso troglodita de André Ventura. Esse pudor, do ponto de vista do eleitor nacional, é uma relevantíssima afirmação de higiene e de decência, que pode, a prazo, ser um trunfo não despiciendo. A confirmar nas legislativas.
Os resultados do PCP mereceriam uma crónica inteira. Ainda assim, à laia de telegrama, aduzo algumas notas. É mais ou menos unânime a ideia de que os autarcas da CDU são, em geral, competentes, dedicados e honestos. A perda (dramática) de poder autárquico representa, neste caso, o preço a pagar pela aproximação dos comunistas, na Assembleia da República, ao PS (e, concomitantemente, uma tácita legitimação da transferência de votos para o partido de António Costa)? Pode ser. Mas o que sobretudo ressalta da situação, não apenas conjuntural, é esta aparente incapacidade de o PCP se renovar, actualizando alguns dos seus conceitos fundadores, sob pena de morte por obsolescência.
A Direita diz que o PCP não pode mudar porque, se o fizer, desaparece. Mas pode, creio eu, suceder o contrário: desaparecer (ou tornar-se residual) por não mudar.

Coimbra, 08 de Outubro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.educacao.cc.]

sábado, 7 de outubro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (106)


Morrer-nos alguém

Vou regularmente a um cemitério coimbrinha, acompanhando a minha irmã num ritual de saudade: ela limpa a campa do marido, falecido há três anos, e renova-lhe o arranjo floral que decora aquela ausência em pedra. O ausente, para além de cunhado, era também o meu melhor amigo – e a toda a hora me faz falta o mundo (muito mais rico e completo) que, antes da sua partida, éramos e fazíamos. Todas as mortes, creio, nos doem como se se tratasse da nossa própria Morte. E com o desaparecimento de quem nos é próximo, é isso mesmo que sucede, mas em pior.
Na semana que passou, a terra transmontana onde resido (há mais de vinte anos) perdeu um homem importante. Era meu rival no futebol e, talvez, na mundividência política, mas era sobretudo um cúmplice da minha existência essencial, amante dos simples prazeres da vida, do humor, da conversa, das histórias, da família, dos pequenos-grandes sonhos que tornam menos árido o quotidiano dos homens. Era mais novo que eu três ou quatro anos, cheio de força tão pouco antes de adoecer: é, aliás, dessa saúde que me lembro, agora, como um parênteses alegre e lindo encravado na Noite definitiva.
Ouvi, pela enésima vez, durante o caminho entre a igreja e o cemitério, alguém dizer “É a vida” e “A morte toca a todos”. Mas até essas palavras, apesar de vestidas de resignação, sabem ao vinagre da impotência, senão ao veneno da revolta.
No dia 27 de Setembro, televi, na RTP2, o documentário “Gabo, a magia da realidade”, datado de 2015, do realizador Justin Webster. Nele, Gabriel García Márquez fala, em discurso directo, da condição fatalmente mortal da condição humana. Cito: “Eu a única opção que aceito é a de não morrer. O importante é estar vivo. E acho que a morte é uma armadilha, uma traição que incondicionalmente nos captura. Para mim é muito sério e grave o facto de tudo se acabar, e praticamente sem aviso… Acho que é injusto.” A jornalista pergunta-lhe: “Que podemos fazer para o evitar?” E Gabo responde: “Escrever muito.
Um dos irmãos do senhor Avelino disse-me, durante o abraço de pêsames, na noite do velório: “É preciso recordarmos os bons momentos…”
Dei por mim a pensar: certo e triste; triste e certo. E escrevo-o.

Coimbra, 30 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06 de Outubro de 2017. A foto, com o saudoso Avelino Borges, data de 2006, quando ainda éramos todos ainda razoavelmente imortais.]

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (105)


Notícias da civilização


Não sou de me lamuriar acerca do país onde nasci e vivo. Gosto muito de ser Português, da nossa História, da nossa Língua, do nosso Sol, do nosso Mar, dos nossos Eça, Dinis, Camões, Pessoa, Ruy Belo, Sophia, Pina, Amália, José Afonso, Dulce Pontes, Paula Rego, Eusébio, Ronaldo.
Mas falei, em Agosto, com um velho conhecido, emigrante há mais de vinte anos num país do Norte europeu. Ele confessou-me as saudades da terra natal, do bacalhau, dos jornais em português, da família e dos amigos, da luz portuguesa. E obtemperou:
- Nem tudo é mau, claro.
A começar, como se adivinha, pelo bom salário. A continuar, por certas regras e costumes que o impressionaram e ele abraçou com gosto - e que são, para quem vê a novidade do lado de cá, um espelho de civilização. Falou-me, por exemplo, daquele escândalo dos submarinos, que alegadamente envolveu portugueses e alemães:
- Na Alemanha, já houve acusação, julgamento e culpados. Em Portugal, parece que nada se passou.
Depois, falou-me dos dejectos caninos que abundam pelos passeios das vilas e cidades de Portugal; e do barulho feito pelos cães dos vizinhos a alta horas da noite; e da impunidade de maridos violentos; e do perigo de automobilistas broncos e irresponsáveis:
- Ali, a polícia actua, pá!
Disse-me também que é obrigado pelos médicos a fazer exames regulares (à próstata, ao cólon, etc.), no sentido de prevenir males eventualmente irresponsáveis, e que pouco ou nada paga por isso; e que os alunos do ensino básico e secundário, para participar nas aulas de Educação Física, têm de obter previamente uma autorização clínica; e que, enfim, a assistência na saúde, ali, nem se compara à do berço pátrio.
Atenção: este meu amigo está muito entusiasmado com a iminência da reforma, que lhe permitirá o regresso a Portugal, mas já se vai mentalizando para a perda (ou degradação) de muitos dos direitos sociais e profissionais a que se habituou. À mulher, mais nova do que ele, falta-lhe cerca de um ano para o fim da carreira contributiva, ainda assim cerca de quatro anos menos do que teria de cumprir à luz da lei portuguesa.
Eu fico feliz por sabê-lo bem, lá longe, no estrangeiro. E confesso-lhe que ouvi-lo falar assim da 1ª divisão da Europa soa, em muitos dos exemplos enunciados, a algo verdadeiramente estranho. Mas estranho e estrangeiro habitam, como se sabe, o mesmo regaço etimológico.

Vila Real, 23 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-09-2017. A ilustração foi colhida, com a devida vénia, em http://www.maedecachorro.com.]

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (104)



O último ano de Monsieur Burel

Passou na RTP2, no passado dia 12 de Setembro, um documentário intitulado “Mon maître d’école” (com o título “Adeus, meu professor”, em português). A francesa Émilie Chérond teve uma ideia luminosa: acompanhou, com uma câmara de filmar, o último ano de carreira do seu velho professor primário, recolhendo en passant impressões, comentários e desabafos deste seu maître, Monsieur Burel, acerca da escola, da profissão, das gentes da vila, da humanidade. A realizadora reconhece, aqui e ali, práticas pedagógicas que, no seu tempo de menina, a impressionaram já – e revê-se na cúmplice felicidade dos petizes do século XXI, por exemplo na construção de um desenho colectivo, ou na possibilidade de cada aluno recorrer livremente à “caixinha das perguntas” e questionar o docente sobre astronomia, leis, História, flatulências, superstições.
O documentário, embora reflicta a dinâmica variegada e ruidosa de uma turma de meninos e meninas em estado de ebulição contínua, compreende a lentidão própria da existência rotineira e serena, feita de repetições e de regras (formais ou tácitas). E, na verdade, não há nesta dicotomia qualquer contradição: o senhor Tempo é, por natureza, um compósito de continuidade e variação, como amplamente já nos ensinaram Bergson ou Thomas Mann (entre outros sábios).
A noção de que o velho professor cumpre o seu último ano de profissão empresta a cada gesto e a cada frase um extraordinário peso simbólico. Convenhamos: o valor da existência humana tende a inflacionar-se perante a iminência do fim a haver. Explica o senhor Burel, a dado momento, que a reforma representa “o fim de uma viagem, de uma aventura, de uma paixão”.
Pelo meio, o professor viaja com os alunos até Paris, proporcionando-lhes a primeira viagem de metro, a primeira subida à Torre Eiffel, a primeira (quiçá única) entrada no parlamento. Os alunos ajudam-no a ver a Novidade com a virgindade própria do olhar primeiro – e, entre risos e frases descontínuas, garantem a utilidade desta visita de estudo, “pois serviu para aprendermos e para nos divertirmos” (cito de cor).
É ainda o velho instituteur a fazer as honras da casa, recebendo a colega que o substituirá e apresentando-a aos alunos. (Há aqui uma coincidência poética: a nova docente está grávida, como é próprio de uma metáfora sobre o porvir).
No final, a vila despede-se, numa festa muito familiar e singela, do professor Burel. Pela primeira vez, vemo-lo chorar, de olhar assustado e triste. E eu, que tenho esta eterna doença de sofrer excessivamente com a passagem das horas, e que ainda por cima sou um Monsieur Burel perdido por Trás-os-Montes, chorei também. Adeus, senhor professor. Até já.

Vila Real, 15-09-2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-09-2017. A foto foi colhida, com a devida vénia, no site da RTP.]

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (103)


Humildade, palavras e espanto, segundo Pina

Durante o saudoso Agosto, um Amigo ofereceu-me uma prenda maravilhosa: um livro com 10 entrevistas feitas a Manuel António Pina, com o título Dito em voz alta, organizado por Sousa Dias (Coimbra, Pé de Página Editores, Lda., 2007). Por cósmica coincidência, Pina é um dos meus poetas preferidos – e o ofertante, que deixo aqui por nomear, é talvez, hoje, o maior poeta português vivo.
O livro devora-se numa tarde. Durante a leitura, costumo sublinhar o que mais me fere a atenção e o entendimento, e dei por mim a assinalar, frase sim - frase sim, as palavras do genial entrevistado. Da entrevista a Maria Augusta Silva (páginas 57-77), trago-vos algumas das ideias do poeta, que ainda me ecoam, como música, nesta ressaca do Verão.
À pergunta “Que levou para a literatura o jornalista que é?”, o escritor responde: “Jornalismo e literatura trabalham com a mesma matéria-prima, as palavras (fiz jornalismo de imprensa). No meu caso, aquilo que de mais importante o escritor terá aprendido com o jornalista foi a humildade. Um jornal, como dizem os velhos tipógrafos, serve no dia seguinte para embrulhar peixe…” Maria Augusta Silva parece estranhar tal certeza e interpela-o: “Esse é igualmente o destino da arte literária?” Pina não duvida: “Da literatura também; se não no dia seguinte, no ano seguinte ou no século seguinte, não há diferença qualitativa entre um dia ou um século. O destino de toda a literatura e de todos os escritores é esse, o esquecimento. […]”
À pergunta “Ao jornalismo que deu o escritor?”, responde: “O jornalista aprendeu com o escritor, fundamentalmente, o respeito pelas palavras. As palavras não são malas de transportar sentido, são seres vivos e volúveis, a umas pessoas dizem umas coisas e a outras coisas diferentes (e a algumas não dizem coisa absolutamente nenhuma). E se não formos capazes de manter com as palavras uma relação simultaneamente de familiaridade e de respeito, de autoridade e de amor, elas acabarão por nos arrastar pelo nariz e nos pôr a dizer o que muito bem entenderem, ou então, infelizes e amedrontadas, calar-se-ão para sempre.
Finalmente, à pergunta “Quando escreve para crianças, sai de uma idade real para reinventar o espanto?”, reage com duas perguntas e, pelo meio, uma afirmação poderosíssima em forma de dúvida: “O que é uma idade real? Talvez a única idade verdadeiramente real seja a do espanto. Que idade temos quando perdemos a faculdade do espanto senão a da morte?
Com Setembro, regressou o ruído nacional – das eleições autárquicas, do orçamento para 2018, das arbitragens futebolísticas, dos processos judiciais mais conspícuos. Entro por este mês com um mal disfarçado medo, ansiando já por um novo Verão que me liberte do caos habitual das nossas vidinhas. O Inverno a haver (e a atravessar) é uma espécie de casulo triste, no interior do qual não bem vivo, apenas duro. Conto com Manuel António Pina e outros sábios para me trazerem (ou anunciarem) alguma possibilidade de Sol.

Coimbra, 09 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-09-2017.]

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (102)




Cavaco ex-tudo, Cavaco ex-nada 

O ressurgimento de Cavaco Silva trouxe-me à memória cenas tragicómicas do anterior regime: Salazar, já destituído da presidência do Conselho, falava com ex-subordinados e dava ordens como se ainda mandasse – e, por secreto medo ou piedade pura, os interlocutores do santacombadense alinhavam na paródia. 
 A mui comentada sanha cavaquista não surpreende, na verdade, quer no ataque à esquerda, quer no asco pelo seu sucessor à presidência, Marcelo Rebelo de Sousa. Tão-pouco espanta o seu desprezo pelas ideologias. Detenhamo-nos em cada uma das situações. 
 A forma – atabalhoada – como Cavaco misturou a expressão “revolução socialista” com referências ao governo de António Costa (sem nunca usar nomes, para não fugir ao habitual) decorre da desilusão mortal que é, para si, ver o sucesso económico de um projecto em tudo contrário ao que ele defendia. Previsão: no dia em que a situação piore, dirá com o sorriso dos totobolistas de 2ª Feira à noite: “Eu avisei…” 
 A crítica – mal velada – a Marcelo é Cavaco em todo o seu funéreo esplendor: aflige-o que um homem culto, descomplexado e com mundo seja tão conspicuamente apreciado pelos portugueses (à esquerda e à direita). Para cúmulo, o Professor Aníbal tem a noção de que os seus dois mandatos são vistos pelos compatriotas como um parênteses tacanho e triste da nossa História recente. Toma essa ingratidão como uma ofensa à sua pessoa e, à falta de melhor argumento, culpa quem, pelo humanismo e pela inteligência da sua intervenção, concita a admiração de ricos, pobres e remediados. Chama-lhe verborreia. Enfim, o homem não perdoa a Marcelo que seja tão melhor presidente do que ele foi. 
 Na “Universidade de Verão” do PSD (deixo a outros a glosa desta designação ridícula), Cavaco defendeu a inutilidade das ideologias. Para um tecnocrata sem conteúdo (cultural, político, humanista), a retórica bate certo com o que dele já sabíamos. Este foi o homem que se doutorou em Inglaterra, antes do 25 de Abril de 1974, e não se deu conta (segundo se sabe) de que em Portugal existia então uma ditadura; o democrata que não sentiu necessidade de se indignar perante a censura, a Pide, as eleições viciadas, a miséria social; o político que passou a vida a acusar os adversários e os correligionários mais brilhantes de serem “políticos”. A sua aversão tout court a ideologias entronca na sua própria vacuidade de homem sem o sentido da utopia, sem sonhos genesíacos, sem o atrevimento visionário dos grandes estadistas. Hoje, a sua irrelevância justifica mais a piedade do que os vitupérios. 
O cronista de Zona de Perecíveis deseja saúde e longa vida ao cidadão Aníbal Cavaco Silva, e lamenta que ninguém o tenha informado ainda do seu falecimento político. Que descanse em paz. 

Coimbra, 04 de Setembro de 2017. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-09-2017.A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.topimagem.com.]

sábado, 2 de setembro de 2017

Imagens do quarto do meio (para a VL, que faz anos)


“O quarto do meio” – é assim que chamamos à divisão coimbrinha que está entre o quarto dos Pais e o quarto da Filha. É lá que se encontra grande parte das nossas fotos de família, em papel, à antiga: por ruas de Coimbra, de Machico, de Ribeira de Pena; em viagens, em férias, celebrando o Natal.
Fui ao quarto do meio e juntei quatro fotos. Há uma em que aparece a formosíssima Mãe, MP, e a Novidade-para-sempre, dita “a menina” (então com um ano, talvez). Há outras três que datam, salvo erro, de 1997, incluindo uma em que celebramos o aniversário da amada cria, no pátio da Avó Fina, no exacto dia de 02 de setembro de 1997.
É bonita aquela em que estamos no Piquinho, Machico, descendo para “a vila” (como ainda se diz por lá), na companhia do Mestre João, uma espécie de santo que nunca morreu de nós.
Gosto em particular daquela em que a menina se me agarra ao braço direito. É isso que lhe ofereço desde que a vida me abençoou com a sua chegada: o braço com que escrevo, com que a protejo, com que a seguro, com que a aviso ou repreendo, com que a felicito ou a acaricio.
Vanovska, gostava que, mesmo depois de um dia eu partir, me visses-sentisses sempre como o teu braço direito.
Eu e a tua Mãe gostamos muito da Família, dos Amigos, da Literatura e do Sporting. Mas tu é que és mesmo o nosso grande amor!
Vida longa e felicidades, miúda!

Coimbra, 02 de Setembro de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (101)



Agosto (in memoriam)

Uma vez por ano, a vida autoriza-me o regresso ao aconchego da minha cidade natal. Por trinta seguidos dias, sou abençoado com a companhia de Coimbra-Mãe, ando pelas ruas antigas com a felicidade de um soldado de visita a casa, em licença prolongada, e rapidamente abraço os bocadinhos novos de paisagem impostos pelo progresso – um Café, um hipermercado, um quiosque, uma oficina de reparação de automóveis, um jardim, um prédio, um auditório a estrear, uma empresa ligada a medicamentos, um centro lúdico (para crianças & pais), súbitas árvores, semáforos que um velho vizinho reclamava há anos.
O problema desta felicidade, como séculos de literatura e de aforismos nos ensinam, está em que se acaba. De forma discreta, o cínico Outono envia mensagens: que é senão isso esta aragem mais fria à hora do jantar?
A minha existência não se contabiliza por anos civis, e talvez por isso me signifique tão pouco aquele ritual das doze badaladas no fim de Dezembro. É a cada ocaso estival que me acrescento de velhice e da ideia - sempre absurda - de deslizarmos, sem remédio, para a morte (Marguerite Duras: “La vie est un chemin vers la mort.”)
Mais do que o recomeço da lida profissional, custa-me a partida de Coimbra. Como se as obrigações me arrancassem dos braços da amada Cidade-Mãe. Há, convenhamos, uma profunda ironia naquela espécie de eufemismo que arranjaram para o verbo “trabalhar”: ganhar a vida. Ganhar, senhores?! 
Mas isto que vos digo é decerto pouco (quase nada) se comparado à dor hiperbólica de quem labuta fora do seu país. Despedi-me, ainda agora, de tio e tia, emigrantes há vinte anos na Alemanha, ambos sexagenários já. Falta-lhes um ano e três meses para a reforma e, claro, o regresso final. Despedem-se com as costumeiras lágrimas e piadas de circunstância. Também há Morte nas despedidas, mesmo que a conspícua Cabra não venha já.
Ainda não me passou a tão grande tristeza de me, neles, despedir do Verão, murmurando votos de para o ano estarmos todos ainda por cá. Mas o objectivo está definido: durar até ao fim do iminente-eminente Inverno, e depois voltar a viver.


Coimbra, 28 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.travel_in.pt.]

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (100)


Escutar para ver

Cresci a ouvir rádio. Na casa da minha infância, a manhã anunciava-se pelo odor a café com leite e o som da emissora nacional, minutos antes de a minha Mãe nos avisar das horas e ameaçar com um balde de água. 
Claro que a televisão me foi também importante. Tenho 54 anos, sou da geração que viu a Pipi das meias altas, o Vickie, o Bonanza, o Tarzan, o festival da canção, o anúncio (pelo grande Fialho Gouveia) do 25 de Abril, o crescimento da democracia (a preto & branco e a cores). Mas a rádio conservou para sempre um misterioso encanto, que nasce sobretudo – creio – do seu lado não corpóreo, invisível, aquém ou além das vozes e da música.
Em grande medida, a rádio é um meio de comunicação que se aproxima da literatura. O leitor recebe do enunciado alguns sinais, algumas pistas – mas depende da sua própria leitura a realização mais profunda da comunicação. Estamos todos cientes de que o livro, na maior parte dos casos, é mais interessante do que o filme feito a partir do livro, não é verdade? Neste último caso, o que vemos é apenas o que o realizador viu na história lida; num livro, ainda virgem de filme, todos os acontecimentos, cenários e rostos são os que o nosso próprio cérebro fabricou, a melodia emocional com que o nosso próprio coração reagiu aos estímulos da escrita.
A rádio, pois: como esquecer a rádio-novela Simplesmente Maria, o ruído de portas abrindo-se ou fechando-se, os passos de uma mulher caminhando à chuva, um carro derrapando rumo à tragédia? Por isso me pareceu sempre falacioso o axioma do “ver para crer” atribuído a S. Tomé. Não poucas vezes, eu vi mais claramente visto na rádio que na televisão um certo golo de Manuel Fernandes, numa tarde em que, percebido do meu quarto coimbrinha, o Jamor era bastante mais espectacular do que é se cruamente visto com os olhos.
No JN de 03-08-2017, vinha a notícia de um assassinato particularmente terrível: um jovem de 19 anos matou o seu irmão de 23, após discussão fútil. A mãe de ambos, invisual desde o nascimento do segundo filho (por complicações inerentes ao parto), ouviu a querela, os gritos e a consumação do fim. Uma velha tia saiu-se com esta exegese mística: Deus, omnisciente e misericordioso, pressabendo o que haveria de passar-se 19 anos depois de a mulher dar à luz o assassino a haver, cegara a parturiente, poupando-a ao pesadelo de ver o crime.
A mim, que sei do poder da rádio, não me convence a teoria. Aquela pobre mãe, senhores, viu-sentiu tudo como se não fosse cega, quiçá até mais profundamente do que se pudesse ver com os seus olhos.

Coimbra, 03 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.commons.wikimedia.org.]

Infância


O tempo da minha infância,
Senhor Gasset,
Não tinha circunstância
Nem tinha de ter.
Não cabia na filosofia
Nem tinha de caber.
Era sempre o mesmo Dia
O mesmo estar e ser.

Tocha, 09 de Agosto de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.imagui.com.]

domingo, 6 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (99)


Tempo de qualidade

A meio da corrida higiénica, na sossegada periferia de Coimbra, avisto um pequeno campo de jogos, cercado por uma frágil rede. Sobre o piso de cimento, um homem já maduro brinca com um petiz de 7-8 anos, cada um lançando, à vez, a bola para o cesto de basquetebol do lado da estrada. São, talvez, sete horas da tarde. Ainda há luz e calor bastantes. Passo por esta cena à velocidade de quarentão tranquilo e pega-se-me ao ouvido um coro de gargalhadas: o riso do provável pai misturando-se com o riso do provável filho, gaiatos ambos.
Os anglófonos têm para este tempo – aparentemente inútil – que concedemos ao convívio com família ou amigos, à roda de uma mesa, de uma bola, de um animal de estimação, etc., quality time [tempo de qualidade, em tradução literal].
Não investir nestes bocadinhos do nosso relógio comum é, na maioria das vezes, triste e trágico. Os laços que, em adultos, sobrevivem à (inevitável) perda da inocência quase sempre decorrem da memória ternurenta e grata de certos instantes preciosos. Pais e mães, mesmo sem de tal terem consciência, oferecem-se momentos de felicidade pura e gratuita e garantem, sem disso terem consciência, a eterna proximidade das crias. 
A minha Filha e eu partilhámos, desde muito cedo, o amor pelos livros e pelo humor. Um dia perguntou-me quem era Deus. Eu levantei os olhos do meu Vergílio Ferreira e respondi-lhe: “É como o pai. Mas mais alto e com barba.” E ela riu-se com gosto, antes de regressar ao volume de Flores para Crianças que, há pouco, eu a mãe lhe compráramos.
Tenho saudades dessas horas (ou minutos, ou segundos) em que existimos simultaneamente, compinchas da praia, do Café, da livraria, do campo de jogos, de viagens, de passeios à beira do Mondego. Foi então, nessa nossa cumplicidade tão querida (extensiva à minha mulher, claro, para sempre a melhor amiga daquela menina), que construímos a delicada Casa da nossa confiança, co-inquilinos da cultura, da liberdade, da tolerância, do Sporting, da literatura, da família, do mar, dos amigos. Aqui ficámos a morar juntos, ainda que eventualmente afastados no mapa desmancha-prazeres da realidade.
Ao escrever “Quando eu morrer voltarei para buscar / Os instantes que não vivi junto do mar”, era de tempo essencial e valioso que a preclara Sophia Andresen falava. De tempo de qualidade.
É demasiado curta a vida para nos satisfazermos de amor, perdoai o clichê. E demasiado curta é uma crónica para dizer a urgência de não perdermos tempo. Mas não é com a bruta pressa que resolvemos este consabido problema de morrermos todos demasiado cedo. É, antes, digo eu, aproveitando cada oportunidade para estarmos com quem amamos, aceitando de cada dia o Sol possível, reclamando de cada segundo o digno sumo que urge beber antes que fuja ou se estrague. De preferência, ó contemporâneos e vindouros, com a sábia despreocupação das crianças, talvez num entardecer qualquer, na periferia do caos adulto a que chamamos sociedade.
A eternidade é o que para sempre fica. Coisa gasosa como os sonhos, fresca como água da fonte e saborosa como, digamos, uma meloa portuguesa. É a “memória do amor”, como narratologicamente chamou Agustina à ideia de ressuscitar os instantes que valeram (valem) mesmo a pena. Coisa aparentemente inútil, eu sei, como estarmos uma inteira tarde a olhar para o mar.

Coimbra, 30 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.welovestar.blogspot.com.]

terça-feira, 1 de agosto de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (98)











Sobre um romance em estado de sonho

A noção de que estamos perante uma grande narrativa não resulta exclusivamente de uma avaliação racional. A própria natureza estética do fenómeno implica, à partida, uma dimensão emocional, frequentemente misteriosa e desconcertante. Tenho notado que, até para falar da beleza de um certo texto (ou de uma pintura, ou de uma música, ou de um filme), tendemos a convocar, para o nosso testemunho de admiração, certa linguagem poética, com recurso - talvez involuntário - a adjectivação expressiva, a comparações e metáforas incendiárias, a hipérboles que alcancem, pelo instrumental exagero, a exactidão apetecida.
Um leitor experimentado, coleccionador de romances magistrais, acaba por aperceber-se de um conjunto de características que, regra geral, estão presentes em cada livro amado. O problema, quando o leitor é também, por vocação ou ambição, escritor, está em contar as suas próprias histórias concedendo-lhes o brilho genial das obras maiores. Ainda que conheça uma espécie de receita para a escrita a haver, confirma depois, melancolicamente, que a grande literatura não resulta de preceitos ou processos industriais. De certa forma, como disse Sebastião da Gama ao falar de aulas, a coisa acontece.
Habituei-me à ideia de que os romances maiores têm de comum a edificação de um mui coerente mundo, semelhante ou não ao da nossa realidade comezinha. Este mundo funciona com regras – e cria nos leitores a ilusão da vida verdadeira a acontecer. Como defendia Eco (com outras palavras), sentimos o tempo a passar enquanto lemos. Isto percebe-se bem em obras como Os Maias, de Eça, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, Memórias de Adriano, de Yourcenar, As pupilas do senhor reitor, de Júlio Dinis, David Copperfield, de Dickens, A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Ponto de partida: na basse e ao redor da intriga (do enredo), existe um contexto referencial estável, feito de repetição e de pressuposta normalidade, isto é, a diegese.
Quem não tem paciência ou jeito para construir boas (verosímeis) diegeses, deve limitar-se à – também nobre e bela – arte do conto.
Na minha pobre carreira literária, tenho viajado por todos os modos – narrativa, poesia, teatro, crónica. Mas sei muito bem que a casa principal onde verdadeiramente quero morar é a narrativa. Desde sempre, até a dormir me acontece imaginar ou (re)criar histórias. Dizem-me, às vezes, que sou um bom contador. Isso não (me) chega, infelizmente. Confesso: ando há uns bons trinta anos a ver se me acontece enfim a diegese ideal para o romance que sonhei meu. Até ver, hélas, com mais paciência que sucesso. Mas, tirando o facto de isto me ser insuportável, nenhuma gravidade há, senhores, a reportar-vos.

Coimbra, 22 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 21 de julho de 2017

ZONA DE PERECÍVEIS (97)



O paiol da hipocrisia

 O (alegado) roubo de material, em Tancos, teve o condão de pôr a falar de tropa alguns tudólogos que, mal sabendo a diferença entre à vontade, firme e sentido, lá puseram a marchar as respectivas (más) línguas. Facilmente se percebeu, na sanha geral dos comentários, que o episódio lhes pareceu sobretudo uma maravilhosa oportunidade para malhar no ministro da Defesa e, mais concretamente, no governo que por agora manda em Portugal.
 Sobre a guerra partidária, não tenho, por estes dias, paciência para escrever. Mas da mesma maneira que a alergia do PS às demissões me faz sorrir, não consigo evitar uma profunda gargalhada quando ouço a direita clamar por cabeças ministeriais. A mesma direita que apenas estremeceu perante as notícias dos impostos por pagar de Passos Coelho (e aquela história, muito mal esclarecida, da “exclusividade” como deputado, que o deputado não queria por estar a trabalhar para uma empresa, mas que não o impediu de, no final do mandato, pedir um chorudo subsídio por, afinal, o trabalho fora da assembleia ter sido realizado carinhosamente pro bono). Ainda se lembram? A mesma direita que compreendeu, comovida e doce, a revogada irrevogabilidade do ministro Portas (ou a bondade das suas explicações submarinas). A mesma direita que aguentou até ao limite (ou para lá do limite) o escândalo do cábula Relvas, os tiros no pé de Machete, as previsões erradas de Gaspar, o caos trazido aos tribunais por Paula Teixeira da Cruz, os swaps mal explicados de Maria Luís. 
 Quando eu estive na tropa, durante a década de 80 do século XX, em plena “semana de campo”, fui contemporâneo de um instruendo meio maluco (que veio a ser dispensado por motivos – adivinhai – psiquiátricos). Certa manhã, após o seu serviço de vigia, veio queixar-se ao comandante de que uns brincalhões do seu pelotão lhe haviam roubado e escondido a G3. O comandante, apoplético, quis logo saber quem fora o autor dessa enormidade. O doido respondeu-lhe: “Sei lá. Eu estava a dormir!” 
 A arma veio a ser encontrada, mas ninguém se acusou – e, em resultado desse silêncio, todo o pelotão (creio) foi castigado. A ninguém ocorreu culpar o comandante da unidade ou o ministro da Defesa de então pelo sucedido.
 Estou convencido de que o mais perigoso inimigo da tropa é o relaxamento que acontece em situações de paz. A inexistência de conflitos iminentes tende a adormecer os homens e as instituições. É evidente que a instituição castrense tem de responder perante o Estado, quando há problemas como o de Tancos. Ao poder político, que representa o Estado, caberá perceber o que se passou. Depois, em articulação com as forças armadas, punir os culpados e prevenir quaisquer outros (futuros) problemas. Mas a única demissão admissível, neste contexto, é a da fuga cobarde e irresponsável.
 O bruá hipócrita que se levantou, entre civis e militares carregadinhos de demagogia e de interesses (mal) disfarçados, compreendeu choros à roda do “desinvestimento na defesa”, da falta de efectivos e da ausência de videovigilância. Mas nenhum militar que se preze explica o (alegado) roubo de armas com faltas de dinheiro, de tropas ou de câmaras de filmar. Sabem bem que ali houve, de certeza, distracção, desconcentração, relaxamento.
 A paz prolongada talvez dificulte o cumprimento cuidadoso e focado dos mais básicos deveres militares. Ora, convenhamos: não há outra maneira de as forças armadas desempenharem bem a sua função senão agir como se houvesse guerra, mesmo quando (felizmente) não há.

Vila Real, 16 de Julho de 2017.
Joaquim Jorge Carvalho
 [A imagem (da BD “Recruta Zero”) foi colhida, com a devida vénia, na net.]