Ao encontro de Aquilino
Numa carta ao dr. Brito Camacho, datada de 1926, em jeito de nota prefacial para o livro Andam faunos pelo bosque, Aquilino Ribeiro tece algumas (preciosíssimas) considerações sobre o ofício de escritor.
Entre diversas pérolas que ali nos são oferecidas, destaco as afirmações acerca do trabalho de revisão. Defende Aquilino, como Torga, que se trata de uma tarefa incessante: “Não julgo um livro produto estático na carreira do profissional das letras. Antes o suponho o que o jardim é para o jardineiro e a lição para o didáctico. Ano por ano, um e outro enxertam, podam, corrigem. Edição por edição, o escritor, sequioso de aperfeiçoamento, pode trepar um degrau nesta dolorosa e infinita escada de Jacob que é a arte literária. Numa palavra, um livro para mim é como as pedras que Deucalião atirava para trás das costas e se convertiam em almas; podem desamparar-se almas?”
Toca-me também o que afirma sobre a independência do trabalho criador: “O que fiz é honrado: não plagiei; não extorqui a jóia mais humilde ao mais invulgar dos escritores; não cedi às correntes que hoje são cortejos triunfais, amanhã depenadas Danças da Bica. Perdurei o que sou por temperamento, e adquiri por educação e algum estudo. Confesso essa soberba. Escrevi com o meu sangue; nunca molhei a pena na pia da água benta, nem nos lavabos perfumados das viscondessas.”
Finalmente, impressiona-me o sumário crítico que faz da sociedade do seu (nosso também) tempo: “Compu-lo [ao livro] com a linguagem que, juvante Deo, amanhã me há-de servir para pintar o que por aí abunda: quebra-esquinas, banqueiros que vendem a alma e venderiam a pátria, se fosse veniaga ao seu alcance, mulheres que arremedeiam a francesa na moda e na moral, sábios balofos, políticos sem vergonha nem ideias, e uma que outra pessoa de bem.”
Tenho andado a reler Aquilino Ribeiro (A casa grande de Romarigães, O homem que matou o Diabo, Andam faunos pelos bosques, Quando os lobos uivam, Batalha sem fim), confirmando que se trata de um escritor maior. Abençoado Amigo Paulo Pinto, devoto aquiliniano, mui exemplar apóstolo do (seu) autor preferido! À sua boleia me achei viajante por literatura tão vivíssima e tão portuguesíssima. E é um prazer, com a madurez dos cinquenta anos (upa, upa), dar-lhe razão e devir cúmplice do seu credo.
Razão tinha igualmente o meu saudoso professor Gouveia, docente de Português na Escola Rainha Santa Isabel (Pedrulha, Coimbra), aí por 1975, quando nos assegurava, enquanto líamos o Romance da Raposa, que o senhor Aquilino Ribeiro era uma espécie de Camilo do século XX.
E do século XXI, digo agora eu.
Ribeira de Pena, 15-01-2017.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, ed. de 19-01-2017.]
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, ed. de 19-01-2017.]

