Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 30 de outubro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (60)


Continuação de tudo


O Tempo é, de todos os créditos, o mais cruel. À semelhança do que sucede com os vulgares cartões de plástico, pagamos com juros quanto pedimos emprestado; mas a moeda do Tempo é a nossa própria vida.
Estimo diariamente a minha velhice: de manhã, à hora do escanhoamento burguês, o espelho lembra-me francamente a idade; ao descer ou subir as escadas do prédio, há uma ou outra articulação que não me dói (mas não sei qual é); as próprias notícias da rádio esbarram na minha existência calejada e raramente me parecem novidades.

Vale-nos que o envelhecimento é, em geral, um processo lento e subtil. As mudanças só se percebem bem quando, por acaso, nos cruzamos com uma imagem nossa de há vinte anos e mal reconhecemos, naquela exuberante juventude, o outro que fomos. Sucede algo parecido, embora num plano inverso, quando nos encontramos com gente essencial, após hiato de uma década ou pior: a mais voluptuosa mulher da nossa adolescência, só uns cinco anos mais velha que nós, deveio uma avó enorme, distraída e amarga, com ódio aos imigrantes, aos “jovens de hoje” e à celulite assassina; um dos ídolos futebolísticos dessa era (que talvez tenha seduzido aquela deusa dos nossos catorze anos) tornou-se alcoólico, perdeu cabelo e fortuna, divorciou-se, teve problemas com a polícia – e vive agora num lar, a uns cinquenta quilómetros do Estádio onde brilhou tanto.
Nada podemos contra o Tempo, na verdade. Excepto, digo eu, viver. Conto-vos à laia de exemplar demonstração deste apotegma, o que me sucedeu na última sexta-feira, à noite, na Lousã. Por iniciativa de dois Amigos, uns quarenta ex-jogadores do Atlético Mirandense reuniram-se para homenagear um homem que, na segunda metade do século XX, foi presidente daquele cube. À volta do senhor Aires, que fez oitenta anos nesse dia vinte e um de Outubro, convivemos alegremente por quatro horas ou mais. Revivemos episódios trágicos ou hilariantes; soubemos de doenças, golpes de sorte, emigrações (para o estrangeiro e para a eternidade), filhos & netos, divórcios; partilhámos alguns sonhos, indignações, amarguras. Dou por mim a olhar melancolicamente à volta - como se fosse, por um instante, o cameraman do filme O Caçador (de Michael Cimino, 1978): em slow motion, com fundo musical de Stanley Myers, reparo nas barrigas, nas carecas, nas cãs, nas rugas, na reumática lentidão de alguns gestos. E, de repente, já em velocidade normal, sou parte da acção, entro no ruído amável das gargalhadas, na ressuscitada juventude dos meus companheiros. Um deles desafia-me, pela enésima vez, a pôr em livro as nossas histórias do futebol. Outro corrobora-o gravemente, como num aviso:
- O livro, sim, para as coisas ficarem registadas. Porque tudo passa, Joaquim Jorge!
Invadido por uma momentânea (e estranha) felicidade, eu corrijo-o:
- Continua. Tudo continua, pá.

Coimbra, 22 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-10-2016.]

domingo, 23 de outubro de 2016

Carta aos Filhos imortais por enquanto



Sabei que os vossos Pais
Foram já em sua hora
Poderosos, imortais
Comos vos sentis agora.

Sabei que no passado

Eles eram o futuro –
Novos, em estado
Lindo e puro.

Antes de o cabelo embranquecer
Das carecas e barrigas colossais
Da geral dor de envelhecer

Sabei que os vossos pais
Na hora de assim ser
Eram, como vós, imortais.

Coimbra, 22-10-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Texto escrito na madrugada seguinte ao jantar de homenagem ao Presidente Aires (no dia do seu 80º aniversário), com os meus companheiros de Mirandense.]





sábado, 22 de outubro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (59)

Emigrante de sua Mãe

Durante um lento e escuro Sábado, enquanto lá fora caía a mui outonal chuva da minha tristeza, um pequeno apontamento de reportagem televisiva (com a marca da RTP1) interrompeu o frio e iluminou-me a sala: uma mulher de Cabeceiras de Basto fazia 60 anos e, sem que o pudesse prever, viu-se rodeada de filhos e noras e netos, a maioria chegada subitamente de França. Só, sublinhe-se, para estarem com sua Mãe-Sogra-Avó. Um dos filhos explicava à repórter que viera de madrugada e que, no dia seguinte, bem cedinho, viajaria de regresso a Lyon, “porque não se pode faltar ao trabalho”.

A minha França, leitores, é menos longínqua e difícil, fica só a 260 quilómetros de Coimbra, nem 2 horas levo a fazer a viagem. Mas sou, no essencial, esse mesmo emigrante com eternas saudades do cantinho maternal, cheio sempre dessa febre de reencontrar gente cúmplice, ruas conhecidas, edifícios e árvores familiares de há muito, tantíssimo tempo.
Ainda tenho viva a minha Mãe. (Há aqui muita angústia no advérbio “ainda”!) Como se passa com os emigrantes de França, ela é, à distância, o meu País. Duas vezes por mês, em média, chego à sexta-feira com uma querida urgência a queimar-me os olhos: saio do trabalho e apresso o carro até à casa transmontana (minha provisória morada há 21 anos), beijo a mulher, ultimo as malas e desço as escadas, célere como um menino coimbrinha de 1973. Pelo caminho, já telefono para ouvir a sua voz, para aconselhá-la sobre as ruas escorregadias e os perigos do frio ou do calor, para fingir-me chocado com as suas diatribes de adolescente septuagenária, para chocá-la com ideias tolas (que só aduzo para a fazer rir).
Depois, entro pela cidade como quem chega ao quintal de casa, reconheço as luzes, os cruzamentos, as rotundas, a churrasqueira onde compramos, ao Sábado, frango e azeitonas – até aterrar, enfim, na minha Mãe. Então, trocamos beijos, às vezes um ou outro abraço incontrolável e comemos algum doce que haja comprado pelo caminho.
Por dois dias, descanso do manicómio da vida adulta, dessa engrenagem feita de obrigações cínicas, horários fascistas, renúncias (ir)responsáveis, separações dolorosas, desesperos avulsos. Ali alegremente repouso no momento, sultão do universo, portuguesinho milionário e poderoso e feliz.
De tudo quanto escrevo, caros leitores, colhei só duas verdades – ambas cheias dessa querida claridade típica de manhãs limpas: que a minha (nossa) Mãe é a minha (nossa) verdadeira terra natal; e que o Presente - com uns bocadinhos de Passado, em forma de lembrança - é tudo quanto realmente tenho (tudo quanto realmente temos).


Vila Real, 15 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 20-10-2016.]

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (58)


Enunciado de ausências

 Num dos mais belos poemas de Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo fala de um amigo que partiu para “a outra margem” – e de, naquele abandono de Dor, não haver “tenda verbal” que nos proteja. Estes versos vieram fazer-me companhia no final da semana passada: um homem da minha idade, querido companheiro diário nos últimos 21 anos, despediu-se da vida e deixou mais pobre e triste a “nossa” vila.
A teia da Morte tornou-se-me mais conspícua e assustadora a partir dos 40 anos. Durante décadas, fui pouco menos que imortal, gloriosamente imune a graves doenças (próprias ou próximas). À imagem de Pessoa-menino, foi esse o tempo em que “eu era feliz e ninguém estava morto”. Nos últimos 13 anos, a notícia (velha, afinal) da mortalidade começou a repetir-se-me, despovoando o mundo à minha volta. Adeus, Pai – e adeus, Mestre João (meu sogro e companheiro), Zé Manel e Conceição (meus cunhados tão novos e tão cúmplices e tão alegres), Francisco Botelho (meu Amigo especial), meus vizinhos de Coimbra, meus vizinhos da Madeira, meus vizinhos de Ribeira de Pena, tantíssima gente que eu julgava eterna (escritores, actores, músicos - e futebolistas como Damas, Eusébio, Cruyff). Adeus.
Devim, como é mais ou menos fatal para quem se atreve a permanecer mais de meio século sobre a Terra, um acumulador de ausências, espécie de coleccionador de vazios. Como um velho emigrante que, ao fim de alguns anos, volta à aldeia natal e encontra, para além da paisagem visível, casas e caminhos e pessoas que já não estão e lhe faltam como bocados de si próprio.
Sei muito bem que o problema maior da Morte é a gente pensar nela. Saber que ela existe. Aceitar, contrariado embora, que essa cabra tem o poder de nos levar quem não podemos perder. Quem me dera – exclamo eu, pessoanamente – a ingenuidade das crianças ou dos doidos!
Já agora: soube há dias de um caso – desses muito úteis para crónicas e outros enunciados exemplares – que se terá passado num Lar do interior português. Um dos residentes, com histórico de doença mental (controlada), homem de 60 e poucos anos, assistia à remoção terminal de um companheiro da sua velhice institucionalizada. Perante a inexorável despedida, de olhos arregalados e com inusual rouquidão, saiu-se com esta pérola para a assistente social que ali estava:
- Ontem estávamos todos vivos!
E rematou, numa promessa que, confesso, me soa ao desespero mais pungente de todos:
- Eu não. Eu cá não morro!

Ribeira de Pena, 10 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 13-10-2016.]

ZONA DE PERECÍVEIS (58)


Enunciado de ausências
 Num dos mais belos poemas de Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo fala de um amigo que partiu para “a outra margem” – e de, naquele abandono de Dor, não haver “tenda verbal” que nos proteja. Estes versos vieram fazer-me companhia no final da semana passada: um homem da minha idade, querido companheiro diário nos últimos 21 anos, despediu-se da vida e deixou mais pobre e triste a “nossa” vila.
A teia da Morte tornou-se-me mais conspícua e assustadora a partir dos 40 anos. Durante décadas, fui pouco menos que imortal, gloriosamente imune a graves doenças (próprias ou próximas). À imagem de Pessoa-menino, foi esse o tempo em que “eu era feliz e ninguém estava morto”. Nos últimos 13 anos, a notícia (velha, afinal) da mortalidade começou a repetir-se-me, despovoando o mundo à minha volta. Adeus, Pai – e adeus, Mestre João (meu sogro e companheiro), Zé Manel e Conceição (meus cunhados tão novos e tão cúmplices e tão alegres), Francisco Botelho (meu Amigo especial), meus vizinhos de Coimbra, meus vizinhos da Madeira, meus vizinhos de Ribeira de Pena, tantíssima gente que eu julgava eterna (escritores, actores, músicos - e futebolistas como Damas, Eusébio, Cruyff). Adeus.
Devim, como é mais ou menos fatal para quem se atreve a permanecer mais de meio século sobre a Terra, um acumulador de ausências, espécie de coleccionador de vazios. Como um velho emigrante que, ao fim de alguns anos, volta à aldeia natal e encontra, para além da paisagem visível, casas e caminhos e pessoas que já não estão e lhe faltam como bocados de si próprio.
Sei muito bem que o problema maior da Morte é a gente pensar nela. Saber que ela existe. Aceitar, contrariado embora, que essa cabra tem o poder de nos levar quem não podemos perder. Quem me dera – exclamo eu, pessoanamente – a ingenuidade das crianças ou dos doidos!
Já agora: soube há dias de um caso – desses muito úteis para crónicas e outros enunciados exemplares – que se terá passado num Lar do interior português. Um dos residentes, com histórico de doença mental (controlada), homem de 60 e poucos anos, assistia à remoção terminal de um companheiro da sua velhice institucionalizada. Perante a inexorável despedida, de olhos arregalados e com inusual rouquidão, saiu-se com esta pérola para a assistente social que ali estava:
- Ontem estávamos todos vivos!
E rematou, numa promessa que, confesso, me soa ao desespero mais pungente de todos:
- Eu não. Eu cá não morro!

Ribeira de Pena, 10 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 13-10-2016.]

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (57)

Balada do Neves

João César das Neves, o arauto mais provinciano do neoliberalismo em Portugal, voltou a defender, com misteriosa fúria, o ataque aos vencimentos e às carreiras dos funcionários públicos. Em entrevista a uma televisão, lamentou o facto de a vontade do anterior governo, cúmplice dos seus próprios desejos, ter esbarrado em alguns pormenores (digo eu) irritantes – como aquele da Constituição da República e o do Tribunal Constitucional.
A ideia de que a dívida soberana e o défice decorrem dos privilégios e mordomias da função pública é, como todos sabem, um magno embuste. Valerá a pena lembrar, aliás, que o défice português, apesar da gradual reposição dos rendimentos, decresceu no primeiro semestre de 2016. E também, já agora, que as carreiras continuam congeladas desde 2010.
César das Neves prefere esquecer-se do custo dos estádios do Euro 2004, do abismo do BPN, do terramoto de BES e GES, da ameaça da CGD – e raivosamente clama, uma e outra vez, em debates, entrevistas, artigos de opinião, livrecos, contra os gastos na função pública, os gastos na função pública, os gastos na função pública. Escondida com o rabo de fora, está a agenda do que (ainda) falta cumprir, segundo os ultras do liberalismo económico: a degradação voluntária da qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado aos cidadãos, na educação, na justiça, na saúde, na cultura, na segurança, no apoio social. Das cinzas do serviço público, não nos custa adivinhar, surgirá (?) a oferta privada, satisfazendo as necessidades do povo ao preço que as empresas decidirem (aí se perseguindo, acima de tudo, o sacrossanto lucro das grandes multinacionais).
Um amigo lisboeta, licenciado em Economia, aos primeiros alvores da minha indignação, diz-me que estou a gastar demasiada cera com tão pouco defunto; que este anafado Dâmaso Salcede do liberalismo português apenas quer “dar nas vistas”, “aparecer”. Eu temo que César das Neves represente algo pior: uma linha de pensamento que, à força da assanhada repetição e da argumentação enviesada, vai fazendo o seu cínico caminho junto dos média.
Já agora: a referência que este senhor faz ao seu catolicismo militante reduz o discurso à categoria da incongruência mais rasteira e patética. Se, como ele diz, a Igreja Católica não pactua com o neoliberalismo, já era hora de o excomungarem. E em verdade vos digo que, caso o Papa Francisco me telefone um dia destes, eu hei-de sugerir-lhe esta medida higiénica.

Coimbra, 30 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06-10-2016-]

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (56)


Olha o robot

 Numa crónica publicada no DN em 1971, com o título “História sem palavras”, a escritora Maria Judite de Carvalho dá conta do seu desconforto (aliás, angústia) perante um quotidiano cada vez mais dominado pelas máquinas. Queixa-se sobretudo da falta de comunicação entre as pessoas, resultado da nova lógica que tutela a urbana rotina: uma espécie, digo eu, de pulsão para uniformizar e mecanizar a vida dos humanos. Nesta nova modalidade de existência, não há tempo para conversas particulares ou para pessoais partilhas de ideias, emoções, sentimentos. Maquinalmente obrigadas a sobreviver, as pessoas já não se dão ao luxo antigo de conviver.
Entre o grito da cronista e hoje, passaram-se 45 anos. Registo, com tristeza, que a ameaça reportada no texto se concretizou: do mundo com gente e palavras sobra muito pouca coisa. Pela Escola onde trabalho, cirandam jovens de telemóvel na mão, alienados desde manhã cedo. Quando saem pra o intervalo, já de aparelhos em riste, lembram-me os fumadores da minha infância, esses que, quando a camioneta excursionista parava numa estação de serviço, sofregamente corriam para a rua, desesperados por umas passas de carbono.
Em Ribeira de Pena, por causa dos incêndios, estivemos quatro dias sem serviço de internet, de telemóvel e de televisão por cabo. Entre as queixas gerais, as mais exasperadas eram as de adolescentes e jovens adultos, que se sentiam náufragos, mergulhados (ai deles) nesse moderníssimo síndrome de abstinência – da falta do facebook, do twitter, do instagram. Para matarem o tempo, imagino, alguns tiveram mesmo que dialogar de viva voz com os pais, os irmãos, os avós, os vizinhos.
O mundo globalizado pôs máquinas a cobrar-nos a conta do hipermercado e as portagens. Telefonamos à EDP e quem nos atende é uma voz pré-gravada, enunciando frases como um robot cínico. Tendemos a ser versões digitalizadas de nós mesmos, desprovidos de carne, de ossos, de amor. Diria, a pensar na internet e nas prisões em geral, que devimos cardumes cegos sem alma para fugir da rede.
Maria Judite de Carvalho achava que, em 1971, se vivia já no Futuro e, em remate mineral da sua crónica, anunciava: “Não gosto.” Tendo sofrido quase 50 anos da brutidade seguinte, eu digo-vos agora que também não.
 
 Vila Real, 25 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 29-09-2016.]

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (55)




O caminho das formigas

1. Na obra Levantado do Chão, Saramago descreve um carreiro de formigas que, na rotina andarilha de sua sobrevivência, cruzam o chão de uma cela da GNR, no Alentejo, para cá e para lá, testemunhando involuntariamente as torturas infligidas a um camponês acusado de conspiração contra o regime fascista. As formigas são, ali, um silencioso grito contra a impunidade dos algozes, esses mesmos que, confirmada a morte de um interrogado, fabricam uma verdade oficial, anódina e asséptica, para justificar o seu desaparecimento. No caso, se bem recordo, fica escrito, com assinatura (contrariada) do médico de serviço, que o indivíduo se enforcou.
1.1. Eu vejo ali também, naquele movimento negro das formigas, uma espécie de linhas vivas, feito de letras e de palavras movediças, ligadas entre si, buscando-se a condição (cósmica) de frases. Um texto, portanto, fazendo-se.
2. De tão usada, a expressão “trabalho de formiguinha” deixou de ser metáfora. Significa, agora, o denotativo conceito da labuta repetida, paciente, sistemática, prolongada no tempo, que dignamente crê no fruto a haver.
3. Há uns seis anos, iniciei na minha escola um projecto a que chamei “Bem falar, bem escrever” (no original, era “Bem pensar, bem falar, bem escrever”). Com base na análise dos resultados obtidos pelos alunos do 9.º ano na prova final, recorrentemente fracos no que tocava ao grupo III (a “composição”), os professores de Português entenderam urgente melhorar as competências dos alunos no domínio da escrita. Eu defendi, desde o primeiro dia, que o nosso projecto envolvesse também os alunos do 1.º e do 2.º ciclo (pelo menos, desde o 3.º ano de escolaridade em diante). Se a dificuldade era “estrutural”, deveríamos atacá-la na base, certo? Nota importante: tratou-se de um trabalho de equipa; o caminho das formigas faz-se com outras (cúmplices e solidárias) formigas.
3.1. A concretização do projecto fez-se (faz-se) com o treino – repetido, paciente, sistemático – da escrita, sempre a partir da leitura de um texto literário. Em se tratando de um enunciado expositivo-argumentativo, os alunos habituam-se a usar, no espaço e tempo certos, articuladores de discurso como “Por um lado… / Por outro lado…”, “No entanto” (ou “Contudo, Porém”), “Em minha opinião” (ou “Em meu entender”, “A meu ver”), “Em suma” (ou “Resumindo e concluindo”, “Para concluir”). Etc.
3.2. Houve, ao longo dos anos, muita gente que bocejou ou se irritou perante a imposta rotina. Lá lhes fui dizendo que o Ronaldo faz muitíssimas vezes o mesmo gesto nos treinos para, no dia do jogo, o pontapé sair como ele quer – e que “ensaiar”, em francês, se diz “répéter”.
3.3. No início do presente ano lectivo, estivemos a analisar os resultados dos alunos do 8.º ano numa prova de aferição realizada em Junho. No item “Escrita”, a média nacional de sucesso pleno (classificação C, de “Conseguiu”) foi de 78,1%. A do Agrupamento de Escolas onde trabalho (já) andou lá perto. As duas turmas que leccionei obtiveram, neste domínio, um sucesso de 84,2% e 100%.
4. Como adivinhais, sou - hoje e aqui - uma formiguinha orgulhosa e feliz, consciente da importância do caminho diário que, com outras formiguinhas, vou fazendo. Não podemos parar.

Coimbra, 18 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-09-2016.]

terça-feira, 20 de setembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (54)



Nomes de Nós

 

Costumo dizer isto aos meus jovens alunos, quando eles se queixam dos nomes recebidos na pia baptismal: não são os nomes que nos fazem grandes ou pequenos, bem ou mal sucedidos; é, quase sempre, a pessoa que “faz” o nome, associando-lhe, aos olhos dos outros, prestígio, má fama ou indiferença. Falo-lhes, como exemplo, do meu desconforto por o meu Pai me ter dado o nome de Joaquim. Achava-o um nome feio, fora de moda, boçal. Até que o meu tio Carlos, convidado para padrinho do filho de um seu grande amigo, sugeriu Joaquim para nome do novel afilhado. Eu soube, por uma tia, que a escolha resultara da minha notoriedade, à época, enquanto estudante e também do meu jeito futebolístico (titular nos iniciados do glorioso União de Coimbra). Ou seja, aquele mal-amado nome deviera, por inconsciente mérito do juvenil proprietário, um nome bonito.

Creio que com as alcunhas é um processo diferente, quiçá oposto. A alcunha é consequência do que, na visão dos outros, nos caracteriza essencialmente – às vezes, fruto de um olhar divertido, outras de um olhar cruel e até insultuoso.

Casado com uma madeirense, estou habituadíssimo a que, nos fait-divers narrados por familiares ilhéus, quase sempre em contextos mui domésticos, as personagens raramente assumam a nomenclatura inscrita no cartão de cidadão. Houve por lá um vizinho rico que era o Graças-a-Deus, um agente de autoridade invariavelmente zangado que era o Merda-Seca, um avô alegre que era o Tim-Trrrim, um comerciante de modos sanguíneos que era o Diabo. E há um político simpático que é o Sem-Nada, uma amiga da família que é a Fera, uma prima altiva que é a Delicada, um continental (ou “cubano”) que é o Engalgado.

Em Coimbra, o meu Pai era o Zé-Bate-Chapas. A minha filha, durante a sua meninice mais tenra, julgou que Bate-Chapas era mesmo o nome do avô paterno. (Eu próprio fui referido, em conversas sobre a minha carreira futebolística, como “o Bate-Chapas-mais-pequeno”.) O meu tio, que era um excelente mecânico de automóveis, foi vítima da fama profissional do meu Pai (seu irmão) e ficou conhecido por Fernando-Bate-Chapas (“O Fernando-Bate-Chapas é um mecânico de se lhe tirar o chapéu!”).

Na terra do Daniel Abrunheiro, vive certo moço, inteligente e simpático como poucos, que é, de sua natureza, muitíssimo magro. O nome por que é conhecido? Tarzan. Também há (isto disse-me o próprio Daniel) um certo senhor muito alto, homem grave e sereno, cuja estatura e pose impressionaram, durante décadas, os conterrâneos. A sua alcunha ficou (abençoada seja a alma que fabricou esta metáfora) Rainha-Santa.

Era para falar-vos de alcunhas que por pouco se me colavam e às quais escapei nem sei bem como. Mas já não há espaço para tal. De modo que remato com uma lida em breve notícia do JN, relativa a um idoso vítima de assalto e infelizmente falecido pouco tempo depois: este senhor era conhecido, na sua terra, por Amor-de-Perdição.

 
Ribeira de Pena, 12 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-09-2016.]

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Fim de estação



Vemos morrer a cor das folhas

E não nos preocupamos muito

Mesmo que a tristeza perpasse

A paisagem e a luz rareie.

Sabemos que a cor voltará

Às folhas

Pois nada morre para sempre

E que o mesmo sucederá com o Sol

Que voltará a brilhar como antes.

Considerada a natureza com estes olhos

Cremos que não há fim absoluto

Isto é: que o fim é provisório

E que, como tudo na nossa vida, haverá

Novos (inesgotáveis) começos.

Mas depois a minha experiência dói-me

Por dentro.

Porque eu, sabei, sinto excessivamente

A falta de tanta gente amada

Desaparecida

Em bruto eterno inverno.

 

Cabeceiras de Basto, 09 de Setembro de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bestday.com.]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (53)


Lá no fundo

O papa Ratzinger chamou, em tempos, a atenção do mundo para o problema do “relativismo moral”. Sublinhava que, por muito complexa que seja a realidade (sobretudo, os modos de ver a realidade), era fundamental manter bem definidas as noções de certo/errado, justo/injusto, verdadeiro/falso. Os relativistas deste mundo, em resposta ruidosa, avisaram para o perigo de olhar para a vida com esta singeleza minimalista, lembrando que a existência humana compreende muito mais cores e tonalidades do que o preto & branco elementares.
Respeito ambas as visões. Também eu creio que a humanidade é, pela sua própria natureza, um eterno mistério, matéria de infinitas nuances e de mirabolantes surpresas (que raramente se repetem e nunca cessam, caso a caso, de nos espantar). Mas Ratzinger faz bem em realçar o facto de, não obstante, os seres humanos precisarem mesmo de algumas referências basilares, de sólidas balizas éticas, de espartanas “certezas” que sejam chão e horizontes essenciais para uma vida digna.
Assassinar alguém não pode, por mil motivos que se vomitem, estar certo. Oprimir, privar outros da liberdade, corromper (ou deixar-se corromper) não é, por mil ginásticas argumentativas que se aduzam, aceitável. A porcaria do racismo não se torna, por muito que se enquadre, contextualize e explique (à boleia de psicólogos, psiquiatras, políticos, politólogos, juristas, taxistas, costureiras, futebolistas, famosos da televisão, vizinhos com empregos importantes, etc.), aceitável ou lógica.
Há sempre quem diga, acerca do maior facínora da aldeia (ou do bairro, ou da cidade, ou do país, ou do mundo, ou da História universal), que o indivíduo, “lá no fundo, era boa pessoa”. Ora, li eu no Google, há um pequeno peixe chamado “peixe-ogro” (anoplogaster cornuta), talvez o mais feio de todos os peixes, que vive nas maiores profundezas do oceano e tem uns dentes verdadeiramente assustadores, bem como presas semelhantes às de um vampiro. Era, creio eu, ao pé deste camarada com barbatanas que a humanidade mais canalha deveria estar. Lá no fundo.

Ribeira de Pena, 05 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de o8-09-2016.]

domingo, 4 de setembro de 2016

Esplanada d' A Brasileira


À tarde, sob o Sol, como flores,
Na cidade cintilante de beleza,
Passeiam-se corpos e amores
Ao longo da calçada portuguesa.

Coimbra, esplanada d'A Brasileira, pelas 14h30m do dia 03 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho.
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pinterest.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (52)

Ganhar a vida

A reportagem do JN (edição de 09-08-2016, página 22), à roda de Paulo Moreira, um professor contratado que, no Verão, ganha a vida a vender bolas de Berlim, por praias algarvias, tinha quase tudo para me fazer cúmplice: um homem a lutar pela vida; um homem que teima em ser professor, apesar da ausência ou da brutidade das colocações; um homem que tem a família como motivo primeiro e aconchego último; um homem que não desiste.
Severo de Melo, que foi meu ínclito Mestre no ensino secundário, ensinou-me que não há, num Estado de direito, trabalhos indignos – há é profissionais menos e mais sérios. Eu inclino-me perante aqueles que, com maiores ou menores habilitações, estão disponíveis para todos os trabalhos, sem pruridos chiques nem complexos atávicos. Orgulha-me o facto de a minha filha, já licenciada, antes de exercer advocacia ou de ser jurista, ter trabalhado, sem pejo, numa loja da Zara e num call center ligado à (falecida) PT, assim assumindo – muito cedo – responsabilidades no pagamento das despesas da casa.
Quando esta minha filha nasceu, eu era professor provisório. O adjectivo “provisório” significava, então como agora, “sem vínculo definitivo”, i.e. “contratado”, i.e. sujeito a ficar, de um instante para o outro, sem emprego. O meu instinto (burguês) de sobrevivência obrigava-me a equacionar essa ameaça: que faria eu no caso de perder o meu trabalho? À época, jogava futebol em escalões menores, ganhando alguns patacos informais, mas era pouco para as necessidades do meu agregado. De modo que me ocorria a possibilidade de trabalhar como “trolha”, emprego certo (cria eu) numa altura em que florescia a construção civil. Mais tarde, como a idade é, em tamanho, inversamente proporcional à saúde (e também porque o imobiliário edificado se foi tornando cada vez mais esparso), a alternativa deveio fatalmente outra. Já vo-la digo.
Tive um tio que, durante quase 50 anos, foi empregado de mesa, num Café em Leiria. Era um homem elegante, muito educado, com apurado sentido de família, bastante bem-falante. Sempre gostei dele e o admirei. Visitei-o no hospital, em Coimbra, aí por 1983, pouco antes da sua morte. Dizia, sorrindo, que amava tanto a sua família e os seus amigos que, se pudesse, levaria atada a si, pelo mundo fora, com uma corda gigante, toda essa gentinha. Era também, decerto, devido a essa forma de ser e de comunicar que os clientes gostavam tanto do tio Zé Melo. Ora, o meu plano B, hoje em dia, é este: em caso de desemprego na docência, gostaria de exercer o métier do meu familiar, com a diligência e a simpatia inteiras de que fosse capaz. É-me grata a ideia de conviver com os clientes, de participar (ainda que de viés) nas vidas dos meus contemporâneos, de comunicar (até em línguas estrangeiras), de partilhar humor e literatices com sei lá quem.
Doer-me-ia ganhar menos do que ganho, é certo. Mas não me preocupo – de todo – com o maior ou menor “valor social” da profissão exercida. Tenho na cabeça a lição de Mestre Severo e, por outro lado, sei muito bem que a primeira obrigação dos viventes é sobreviver (dignamente, bem entendido), seja nas escolas, nas oficinas, nos escritórios, nos quiosques, nos mercados – ou nas praias a vender bolas de Berlim.

Coimbra, 29 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 01 de Setembro de 2016.]

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Cosmos visto daqui


Juntamos o olhar ao grande Mar
E somos, por olhar, também grandeza;
Vivemos e morremos devagar
Ao colo infinito da Beleza.

Baía de Machico, 18-08-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jm-madeira.pt.]

ZONA DE PERECÍVEIS (51)


Mundo por ver

Toda a gente tem uma prima ou uma tia que, em certo momento, no decurso de uma visita turístico-cultural (a uma praia, a um castelo, a uma exposição, a uma igreja, a um museu), exclama: “Vamos embora, que isto já está tudo visto!”
São as mesmas pessoas que, por terem passado uns dias nos Açores, ou na Madeira (ou em Coimbra, ou no Minho, ou em Trás-os-Montes), garantem aos interlocutores um conhecimento exacto e completo daquilo tudo. Tamanha presunção, apesar da paciência quase infinita a que denodadamente me obrigo, irrita-me, sobretudo quando estas vozes tão auto-suficientes se referem a lugares muito presentes na minha própria biografia. Por exemplo, eu tenho 53 anos de Coimbra e nunca direi que conheço “aquilo tudo”, ó querida tia (ou prima, ou vizinha, ou colega, ou senhor que conheci casualmente no casamento do meu cunhado Paulo).
Por razões familiares, venço às vezes o meu medo patológico de voar – e lá venho, no remanso de Agosto, à Madeira. (Nota: o avião que me trouxe, no passado dia 2, chamava-se Fernando Pessoa. Uma multidão, portanto, com motor.) Nunca me canso de admirar a baía de Machico. Em especial, o Mar, meu habitat primordial, que vejo pouco no resto do ano. Esta crónica foi escrita, aliás, ao som das ondas rebentando nos calhaus, espécie de tributo musical à eternidade. Já aqui estive tantas vezes, caros leitores, a olhar para esta paisagem. E nunca seria – nunca serei – capaz de dizer, sobre isto, que está tudo visto.

Coimbra, 01 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 04-08-2016.]