segunda-feira, 17 de outubro de 2016
ZONA DE PERECÍVEIS (58)
Enunciado de ausências
Num dos mais belos poemas de Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo fala de um amigo que partiu para “a outra margem” – e de, naquele abandono de Dor, não haver “tenda verbal” que nos proteja. Estes versos vieram fazer-me companhia no final da semana passada: um homem da minha idade, querido companheiro diário nos últimos 21 anos, despediu-se da vida e deixou mais pobre e triste a “nossa” vila.
A teia da Morte tornou-se-me mais conspícua e assustadora a partir dos 40 anos. Durante décadas, fui pouco menos que imortal, gloriosamente imune a graves doenças (próprias ou próximas). À imagem de Pessoa-menino, foi esse o tempo em que “eu era feliz e ninguém estava morto”. Nos últimos 13 anos, a notícia (velha, afinal) da mortalidade começou a repetir-se-me, despovoando o mundo à minha volta. Adeus, Pai – e adeus, Mestre João (meu sogro e companheiro), Zé Manel e Conceição (meus cunhados tão novos e tão cúmplices e tão alegres), Francisco Botelho (meu Amigo especial), meus vizinhos de Coimbra, meus vizinhos da Madeira, meus vizinhos de Ribeira de Pena, tantíssima gente que eu julgava eterna (escritores, actores, músicos - e futebolistas como Damas, Eusébio, Cruyff). Adeus.
Devim, como é mais ou menos fatal para quem se atreve a permanecer mais de meio século sobre a Terra, um acumulador de ausências, espécie de coleccionador de vazios. Como um velho emigrante que, ao fim de alguns anos, volta à aldeia natal e encontra, para além da paisagem visível, casas e caminhos e pessoas que já não estão e lhe faltam como bocados de si próprio.
Sei muito bem que o problema maior da Morte é a gente pensar nela. Saber que ela existe. Aceitar, contrariado embora, que essa cabra tem o poder de nos levar quem não podemos perder. Quem me dera – exclamo eu, pessoanamente – a ingenuidade das crianças ou dos doidos!
Já agora: soube há dias de um caso – desses muito úteis para crónicas e outros enunciados exemplares – que se terá passado num Lar do interior português. Um dos residentes, com histórico de doença mental (controlada), homem de 60 e poucos anos, assistia à remoção terminal de um companheiro da sua velhice institucionalizada. Perante a inexorável despedida, de olhos arregalados e com inusual rouquidão, saiu-se com esta pérola para a assistente social que ali estava:
- Ontem estávamos todos vivos!
E rematou, numa promessa que, confesso, me soa ao desespero mais pungente de todos:
- Eu não. Eu cá não morro!
Ribeira de Pena, 10 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 13-10-2016.]
ZONA DE PERECÍVEIS (58)
Enunciado de ausências
Num dos mais belos poemas de Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo fala de um amigo que partiu para “a outra margem” – e de, naquele abandono de Dor, não haver “tenda verbal” que nos proteja. Estes versos vieram fazer-me companhia no final da semana passada: um homem da minha idade, querido companheiro diário nos últimos 21 anos, despediu-se da vida e deixou mais pobre e triste a “nossa” vila.
A teia da Morte tornou-se-me mais conspícua e assustadora a partir dos 40 anos. Durante décadas, fui pouco menos que imortal, gloriosamente imune a graves doenças (próprias ou próximas). À imagem de Pessoa-menino, foi esse o tempo em que “eu era feliz e ninguém estava morto”. Nos últimos 13 anos, a notícia (velha, afinal) da mortalidade começou a repetir-se-me, despovoando o mundo à minha volta. Adeus, Pai – e adeus, Mestre João (meu sogro e companheiro), Zé Manel e Conceição (meus cunhados tão novos e tão cúmplices e tão alegres), Francisco Botelho (meu Amigo especial), meus vizinhos de Coimbra, meus vizinhos da Madeira, meus vizinhos de Ribeira de Pena, tantíssima gente que eu julgava eterna (escritores, actores, músicos - e futebolistas como Damas, Eusébio, Cruyff). Adeus.
Devim, como é mais ou menos fatal para quem se atreve a permanecer mais de meio século sobre a Terra, um acumulador de ausências, espécie de coleccionador de vazios. Como um velho emigrante que, ao fim de alguns anos, volta à aldeia natal e encontra, para além da paisagem visível, casas e caminhos e pessoas que já não estão e lhe faltam como bocados de si próprio.
Sei muito bem que o problema maior da Morte é a gente pensar nela. Saber que ela existe. Aceitar, contrariado embora, que essa cabra tem o poder de nos levar quem não podemos perder. Quem me dera – exclamo eu, pessoanamente – a ingenuidade das crianças ou dos doidos!
Já agora: soube há dias de um caso – desses muito úteis para crónicas e outros enunciados exemplares – que se terá passado num Lar do interior português. Um dos residentes, com histórico de doença mental (controlada), homem de 60 e poucos anos, assistia à remoção terminal de um companheiro da sua velhice institucionalizada. Perante a inexorável despedida, de olhos arregalados e com inusual rouquidão, saiu-se com esta pérola para a assistente social que ali estava:
- Ontem estávamos todos vivos!
E rematou, numa promessa que, confesso, me soa ao desespero mais pungente de todos:
- Eu não. Eu cá não morro!
Ribeira de Pena, 10 de Outubro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 13-10-2016.]
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
ZONA DE PERECÍVEIS (57)
Balada do Neves
João César das Neves, o arauto mais provinciano do
neoliberalismo em Portugal, voltou a defender, com misteriosa fúria, o ataque
aos vencimentos e às carreiras dos funcionários públicos. Em entrevista a uma
televisão, lamentou o facto de a vontade do anterior governo, cúmplice dos seus
próprios desejos, ter esbarrado em alguns pormenores (digo eu) irritantes –
como aquele da Constituição da República e o do Tribunal Constitucional.
A ideia de que a dívida soberana e o défice decorrem dos
privilégios e mordomias da função pública é, como todos sabem, um magno
embuste. Valerá a pena lembrar, aliás, que o défice português, apesar da
gradual reposição dos rendimentos, decresceu no primeiro semestre de 2016. E
também, já agora, que as carreiras continuam congeladas desde 2010.
César das Neves prefere esquecer-se do custo dos estádios do
Euro 2004, do abismo do BPN, do terramoto de BES e GES, da ameaça da CGD – e
raivosamente clama, uma e outra vez, em debates, entrevistas, artigos de
opinião, livrecos, contra os gastos na função pública, os gastos na função
pública, os gastos na função pública. Escondida com o rabo de fora, está a
agenda do que (ainda) falta cumprir, segundo os ultras do liberalismo económico:
a degradação voluntária da qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado aos
cidadãos, na educação, na justiça, na saúde, na cultura, na segurança, no apoio
social. Das cinzas do serviço público, não nos custa adivinhar, surgirá (?) a
oferta privada, satisfazendo as necessidades do povo ao preço que as empresas
decidirem (aí se perseguindo, acima de tudo, o sacrossanto lucro das grandes
multinacionais).
Um amigo lisboeta, licenciado em Economia, aos primeiros
alvores da minha indignação, diz-me que estou a gastar demasiada cera com tão
pouco defunto; que este anafado Dâmaso Salcede do liberalismo português apenas
quer “dar nas vistas”, “aparecer”. Eu temo que César das Neves represente algo
pior: uma linha de pensamento que, à força da assanhada repetição e da
argumentação enviesada, vai fazendo o seu cínico caminho junto dos média.
Já agora: a referência que este senhor faz ao seu catolicismo
militante reduz o discurso à categoria da incongruência mais rasteira e
patética. Se, como ele diz, a Igreja Católica não pactua com o neoliberalismo,
já era hora de o excomungarem. E em verdade vos digo que, caso o Papa Francisco
me telefone um dia destes, eu hei-de sugerir-lhe esta medida higiénica.
Coimbra, 30 de
Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06-10-2016-]
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
ZONA DE PERECÍVEIS (56)
Olha o robot
Entre o grito da cronista e hoje, passaram-se 45 anos.
Registo, com tristeza, que a ameaça reportada no texto se concretizou: do mundo
com gente e palavras sobra muito pouca coisa. Pela Escola onde trabalho,
cirandam jovens de telemóvel na mão, alienados desde manhã cedo. Quando saem
pra o intervalo, já de aparelhos em riste, lembram-me os fumadores da minha
infância, esses que, quando a camioneta excursionista parava numa estação de
serviço, sofregamente corriam para a rua, desesperados por umas passas de
carbono.
Em Ribeira de Pena, por causa dos incêndios, estivemos quatro
dias sem serviço de internet, de telemóvel e de televisão por cabo. Entre as
queixas gerais, as mais exasperadas eram as de adolescentes e jovens adultos,
que se sentiam náufragos, mergulhados (ai deles) nesse moderníssimo síndrome de
abstinência – da falta do facebook, do twitter, do instagram. Para matarem o
tempo, imagino, alguns tiveram mesmo que dialogar de viva voz com os pais, os
irmãos, os avós, os vizinhos.
O mundo globalizado pôs máquinas a cobrar-nos a conta do
hipermercado e as portagens. Telefonamos à EDP e quem nos atende é uma voz
pré-gravada, enunciando frases como um robot
cínico. Tendemos a ser versões digitalizadas de nós mesmos, desprovidos de
carne, de ossos, de amor. Diria, a pensar na internet e nas prisões em geral,
que devimos cardumes cegos sem alma para fugir da rede.
Maria Judite de Carvalho achava que, em 1971, se vivia já no
Futuro e, em remate mineral da sua crónica, anunciava: “Não gosto.” Tendo
sofrido quase 50 anos da brutidade seguinte, eu digo-vos agora que também não.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 29-09-2016.]
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
ZONA DE PERECÍVEIS (55)
O caminho das formigas
1. Na obra Levantado do
Chão, Saramago descreve um carreiro de formigas que, na rotina andarilha de
sua sobrevivência, cruzam o chão de uma cela da GNR, no Alentejo, para cá e
para lá, testemunhando involuntariamente as torturas infligidas a um camponês
acusado de conspiração contra o regime fascista. As formigas são, ali, um silencioso
grito contra a impunidade dos algozes, esses mesmos que, confirmada a morte de
um interrogado, fabricam uma verdade oficial, anódina e asséptica, para
justificar o seu desaparecimento. No caso, se bem recordo, fica escrito, com
assinatura (contrariada) do médico de serviço, que o indivíduo se enforcou.
1.1. Eu vejo ali também, naquele movimento negro das formigas,
uma espécie de linhas vivas, feito de letras e de palavras movediças, ligadas
entre si, buscando-se a condição (cósmica) de frases. Um texto, portanto,
fazendo-se.
2. De tão usada, a expressão “trabalho de formiguinha” deixou
de ser metáfora. Significa, agora, o denotativo conceito da labuta repetida,
paciente, sistemática, prolongada no tempo, que dignamente crê no fruto a
haver.
3. Há uns seis anos, iniciei na minha escola um projecto a
que chamei “Bem falar, bem escrever” (no original, era “Bem pensar, bem falar,
bem escrever”). Com base na análise dos resultados obtidos pelos alunos do 9.º
ano na prova final, recorrentemente fracos no que tocava ao grupo III (a
“composição”), os professores de Português entenderam urgente melhorar as
competências dos alunos no domínio da escrita. Eu defendi, desde o primeiro
dia, que o nosso projecto envolvesse também os alunos do 1.º e do 2.º ciclo
(pelo menos, desde o 3.º ano de escolaridade em diante). Se a dificuldade era
“estrutural”, deveríamos atacá-la na base, certo? Nota importante: tratou-se de
um trabalho de equipa; o caminho das
formigas faz-se com outras (cúmplices e solidárias) formigas.
3.1. A concretização do projecto fez-se (faz-se) com o treino
– repetido, paciente, sistemático – da escrita, sempre a partir da leitura de
um texto literário. Em se tratando de um enunciado expositivo-argumentativo, os
alunos habituam-se a usar, no espaço e tempo certos, articuladores de discurso
como “Por um lado… / Por outro lado…”,
“No entanto” (ou “Contudo”, “Porém”), “Em minha opinião” (ou “Em
meu entender”, “A meu ver”), “Em suma” (ou “Resumindo e concluindo”, “Para
concluir”). Etc.
3.2. Houve, ao longo dos anos, muita gente que bocejou ou se
irritou perante a imposta rotina. Lá lhes fui dizendo que o Ronaldo faz
muitíssimas vezes o mesmo gesto nos treinos para, no dia do jogo, o pontapé sair
como ele quer – e que “ensaiar”, em francês, se diz “répéter”.
3.3. No início do presente ano lectivo, estivemos a analisar
os resultados dos alunos do 8.º ano numa prova de aferição realizada em Junho.
No item “Escrita”, a média nacional de sucesso pleno (classificação C, de “Conseguiu”) foi de 78,1%. A do
Agrupamento de Escolas onde trabalho (já) andou lá perto. As duas turmas que
leccionei obtiveram, neste domínio, um sucesso de 84,2% e 100%.
4. Como adivinhais, sou - hoje e aqui - uma formiguinha
orgulhosa e feliz, consciente da importância do caminho diário que, com outras
formiguinhas, vou fazendo. Não podemos parar.
Coimbra, 18 de
Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-09-2016.]
terça-feira, 20 de setembro de 2016
ZONA DE PERECÍVEIS (54)
Nomes de Nós
Costumo dizer
isto aos meus jovens alunos, quando eles se queixam dos nomes recebidos na pia
baptismal: não são os nomes que nos fazem grandes ou pequenos, bem ou mal
sucedidos; é, quase sempre, a pessoa que “faz” o nome, associando-lhe, aos
olhos dos outros, prestígio, má fama ou indiferença. Falo-lhes, como exemplo,
do meu desconforto por o meu Pai me ter dado o nome de Joaquim. Achava-o um
nome feio, fora de moda, boçal. Até que o meu tio Carlos, convidado para
padrinho do filho de um seu grande amigo, sugeriu Joaquim para nome do novel
afilhado. Eu soube, por uma tia, que a escolha resultara da minha notoriedade,
à época, enquanto estudante e também do meu jeito futebolístico (titular nos iniciados
do glorioso União de Coimbra). Ou seja, aquele mal-amado nome deviera, por
inconsciente mérito do juvenil proprietário, um nome bonito.
Creio que com as
alcunhas é um processo diferente, quiçá oposto. A alcunha é consequência do
que, na visão dos outros, nos caracteriza essencialmente – às vezes, fruto de
um olhar divertido, outras de um olhar cruel e até insultuoso.
Casado com uma
madeirense, estou habituadíssimo a que, nos fait-divers
narrados por familiares ilhéus, quase sempre em contextos mui domésticos, as
personagens raramente assumam a nomenclatura inscrita no cartão de cidadão. Houve
por lá um vizinho rico que era o Graças-a-Deus, um agente de autoridade
invariavelmente zangado que era o Merda-Seca, um avô alegre que era o Tim-Trrrim,
um comerciante de modos sanguíneos que era o Diabo. E há um político simpático
que é o Sem-Nada, uma amiga da família que é a Fera, uma prima altiva que é a
Delicada, um continental (ou “cubano”) que é o Engalgado.
Em Coimbra, o
meu Pai era o Zé-Bate-Chapas. A minha filha, durante a sua meninice mais tenra,
julgou que Bate-Chapas era mesmo o nome do avô paterno. (Eu próprio fui
referido, em conversas sobre a minha carreira futebolística, como “o
Bate-Chapas-mais-pequeno”.) O meu tio, que era um excelente mecânico de
automóveis, foi vítima da fama profissional do meu Pai (seu irmão) e ficou
conhecido por Fernando-Bate-Chapas (“O Fernando-Bate-Chapas é um mecânico de se
lhe tirar o chapéu!”).
Na terra do
Daniel Abrunheiro, vive certo moço, inteligente e simpático como poucos, que é,
de sua natureza, muitíssimo magro. O nome por que é conhecido? Tarzan. Também
há (isto disse-me o próprio Daniel) um certo senhor muito alto, homem grave e
sereno, cuja estatura e pose impressionaram, durante décadas, os conterrâneos.
A sua alcunha ficou (abençoada seja a alma que fabricou esta metáfora)
Rainha-Santa.
Era para
falar-vos de alcunhas que por pouco se me colavam e às quais escapei nem sei
bem como. Mas já não há espaço para tal. De modo que remato com uma lida em
breve notícia do JN, relativa a um idoso vítima de assalto e infelizmente
falecido pouco tempo depois: este senhor era conhecido, na sua terra, por
Amor-de-Perdição.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-09-2016.]
terça-feira, 13 de setembro de 2016
Fim de estação
Vemos
morrer a cor das folhas
E
não nos preocupamos muito
Mesmo
que a tristeza perpasse
A
paisagem e a luz rareie.
Sabemos
que a cor voltará
Às
folhas
Pois
nada morre para sempre
E
que o mesmo sucederá com o Sol
Que
voltará a brilhar como antes.
Considerada
a natureza com estes olhos
Cremos
que não há fim absoluto
Isto
é: que o fim é provisório
E
que, como tudo na nossa vida, haverá
Novos
(inesgotáveis) começos.
Mas
depois a minha experiência dói-me
Por
dentro.
Porque
eu, sabei, sinto excessivamente
A
falta de tanta gente amada
Desaparecida
Em
bruto eterno inverno.
Cabeceiras de Basto,
09 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A
imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bestday.com.]
segunda-feira, 12 de setembro de 2016
ZONA DE PERECÍVEIS (53)
Lá no fundo
O papa Ratzinger chamou, em tempos, a atenção do mundo para o problema do “relativismo moral”. Sublinhava que, por muito complexa que seja a realidade (sobretudo, os modos de ver a realidade), era fundamental manter bem definidas as noções de certo/errado, justo/injusto, verdadeiro/falso. Os relativistas deste mundo, em resposta ruidosa, avisaram para o perigo de olhar para a vida com esta singeleza minimalista, lembrando que a existência humana compreende muito mais cores e tonalidades do que o preto & branco elementares.
Respeito ambas as visões. Também eu creio que a humanidade é, pela sua própria natureza, um eterno mistério, matéria de infinitas nuances e de mirabolantes surpresas (que raramente se repetem e nunca cessam, caso a caso, de nos espantar). Mas Ratzinger faz bem em realçar o facto de, não obstante, os seres humanos precisarem mesmo de algumas referências basilares, de sólidas balizas éticas, de espartanas “certezas” que sejam chão e horizontes essenciais para uma vida digna.
Assassinar alguém não pode, por mil motivos que se vomitem, estar certo. Oprimir, privar outros da liberdade, corromper (ou deixar-se corromper) não é, por mil ginásticas argumentativas que se aduzam, aceitável. A porcaria do racismo não se torna, por muito que se enquadre, contextualize e explique (à boleia de psicólogos, psiquiatras, políticos, politólogos, juristas, taxistas, costureiras, futebolistas, famosos da televisão, vizinhos com empregos importantes, etc.), aceitável ou lógica.
Há sempre quem diga, acerca do maior facínora da aldeia (ou do bairro, ou da cidade, ou do país, ou do mundo, ou da História universal), que o indivíduo, “lá no fundo, era boa pessoa”. Ora, li eu no Google, há um pequeno peixe chamado “peixe-ogro” (anoplogaster cornuta), talvez o mais feio de todos os peixes, que vive nas maiores profundezas do oceano e tem uns dentes verdadeiramente assustadores, bem como presas semelhantes às de um vampiro. Era, creio eu, ao pé deste camarada com barbatanas que a humanidade mais canalha deveria estar. Lá no fundo.
Respeito ambas as visões. Também eu creio que a humanidade é, pela sua própria natureza, um eterno mistério, matéria de infinitas nuances e de mirabolantes surpresas (que raramente se repetem e nunca cessam, caso a caso, de nos espantar). Mas Ratzinger faz bem em realçar o facto de, não obstante, os seres humanos precisarem mesmo de algumas referências basilares, de sólidas balizas éticas, de espartanas “certezas” que sejam chão e horizontes essenciais para uma vida digna.
Assassinar alguém não pode, por mil motivos que se vomitem, estar certo. Oprimir, privar outros da liberdade, corromper (ou deixar-se corromper) não é, por mil ginásticas argumentativas que se aduzam, aceitável. A porcaria do racismo não se torna, por muito que se enquadre, contextualize e explique (à boleia de psicólogos, psiquiatras, políticos, politólogos, juristas, taxistas, costureiras, futebolistas, famosos da televisão, vizinhos com empregos importantes, etc.), aceitável ou lógica.
Há sempre quem diga, acerca do maior facínora da aldeia (ou do bairro, ou da cidade, ou do país, ou do mundo, ou da História universal), que o indivíduo, “lá no fundo, era boa pessoa”. Ora, li eu no Google, há um pequeno peixe chamado “peixe-ogro” (anoplogaster cornuta), talvez o mais feio de todos os peixes, que vive nas maiores profundezas do oceano e tem uns dentes verdadeiramente assustadores, bem como presas semelhantes às de um vampiro. Era, creio eu, ao pé deste camarada com barbatanas que a humanidade mais canalha deveria estar. Lá no fundo.
Ribeira de Pena, 05 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de o8-09-2016.]
domingo, 4 de setembro de 2016
Esplanada d' A Brasileira
À tarde, sob o Sol, como flores,
Na cidade cintilante de beleza,
Passeiam-se corpos e amores
Ao longo da calçada portuguesa.
Coimbra, esplanada d'A Brasileira, pelas 14h30m do dia 03 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho.
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pinterest.com.]
ZONA DE PERECÍVEIS (52)
Ganhar a vida
A reportagem do
JN (edição de 09-08-2016, página 22), à roda de Paulo Moreira, um professor
contratado que, no Verão, ganha a vida a vender bolas de Berlim, por praias
algarvias, tinha quase tudo para me fazer cúmplice: um homem a lutar pela vida;
um homem que teima em ser professor, apesar da ausência ou da brutidade das
colocações; um homem que tem a família como motivo primeiro e aconchego último;
um homem que não desiste.
Severo de Melo,
que foi meu ínclito Mestre no ensino secundário, ensinou-me que não há, num
Estado de direito, trabalhos indignos – há é profissionais menos e mais sérios.
Eu inclino-me perante aqueles que, com maiores ou menores habilitações, estão
disponíveis para todos os trabalhos, sem pruridos chiques nem complexos
atávicos. Orgulha-me o facto de a minha filha, já licenciada, antes de exercer
advocacia ou de ser jurista, ter trabalhado, sem pejo, numa loja da Zara e num call center ligado à (falecida) PT,
assim assumindo – muito cedo – responsabilidades no pagamento das despesas da
casa.
Quando esta
minha filha nasceu, eu era professor provisório. O adjectivo “provisório”
significava, então como agora, “sem vínculo definitivo”, i.e. “contratado”, i.e.
sujeito a ficar, de um instante para o outro, sem emprego. O meu instinto
(burguês) de sobrevivência obrigava-me a equacionar essa ameaça: que faria eu
no caso de perder o meu trabalho? À época, jogava futebol em escalões menores,
ganhando alguns patacos informais, mas era pouco para as necessidades do meu
agregado. De modo que me ocorria a possibilidade de trabalhar como “trolha”,
emprego certo (cria eu) numa altura em que florescia a construção civil. Mais
tarde, como a idade é, em tamanho, inversamente proporcional à saúde (e também
porque o imobiliário edificado se foi tornando cada vez mais esparso), a
alternativa deveio fatalmente outra. Já vo-la digo.
Tive um tio que,
durante quase 50 anos, foi empregado de mesa, num Café em Leiria. Era um homem
elegante, muito educado, com apurado sentido de família, bastante bem-falante.
Sempre gostei dele e o admirei. Visitei-o no hospital, em Coimbra, aí por 1983,
pouco antes da sua morte. Dizia, sorrindo, que amava tanto a sua família e os
seus amigos que, se pudesse, levaria atada a si, pelo mundo fora, com uma corda
gigante, toda essa gentinha. Era também, decerto, devido a essa forma de ser e
de comunicar que os clientes gostavam tanto do tio Zé Melo. Ora, o meu plano B,
hoje em dia, é este: em caso de desemprego na docência, gostaria de exercer o métier do meu familiar, com a diligência
e a simpatia inteiras de que fosse capaz. É-me grata a ideia de conviver com os
clientes, de participar (ainda que de viés) nas vidas dos meus contemporâneos,
de comunicar (até em línguas estrangeiras), de partilhar humor e literatices
com sei lá quem.
Doer-me-ia
ganhar menos do que ganho, é certo. Mas não me preocupo – de todo – com o maior
ou menor “valor social” da profissão exercida. Tenho na cabeça a lição de
Mestre Severo e, por outro lado, sei muito bem que a primeira obrigação dos
viventes é sobreviver (dignamente, bem entendido), seja nas escolas, nas
oficinas, nos escritórios, nos quiosques, nos mercados – ou nas praias a vender
bolas de Berlim.
Coimbra, 29 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica
foi publicada no semanário O Ribatejo,
edição de 01 de Setembro de 2016.]
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Cosmos visto daqui
Juntamos o olhar ao grande Mar
E somos, por olhar, também grandeza;
Vivemos e morremos devagar
Ao colo infinito da Beleza.
Baía de Machico, 18-08-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jm-madeira.pt.]
ZONA DE PERECÍVEIS (51)
Mundo por ver
Toda a gente tem
uma prima ou uma tia que, em certo momento, no decurso de uma visita
turístico-cultural (a uma praia, a um castelo, a uma exposição, a uma igreja, a
um museu), exclama: “Vamos embora, que isto já está tudo visto!”
São as mesmas pessoas
que, por terem passado uns dias nos Açores, ou na Madeira (ou em Coimbra, ou no
Minho, ou em Trás-os-Montes), garantem aos interlocutores um conhecimento
exacto e completo daquilo tudo.
Tamanha presunção, apesar da paciência quase infinita a que denodadamente me
obrigo, irrita-me, sobretudo quando estas vozes tão auto-suficientes se referem
a lugares muito presentes na minha própria biografia. Por exemplo, eu tenho 53
anos de Coimbra e nunca direi que conheço “aquilo tudo”, ó querida tia (ou
prima, ou vizinha, ou colega, ou senhor que conheci casualmente no casamento do
meu cunhado Paulo).
Por razões
familiares, venço às vezes o meu medo patológico de voar – e lá venho, no
remanso de Agosto, à Madeira. (Nota: o avião que me trouxe, no passado dia 2,
chamava-se Fernando Pessoa. Uma multidão, portanto, com motor.) Nunca me canso
de admirar a baía de Machico. Em especial, o Mar, meu habitat primordial, que vejo pouco no resto do ano. Esta crónica
foi escrita, aliás, ao som das ondas rebentando nos calhaus, espécie de tributo
musical à eternidade. Já aqui estive tantas vezes, caros leitores, a olhar para
esta paisagem. E nunca seria – nunca serei – capaz de dizer, sobre isto, que está tudo visto.
Coimbra, 01 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 04-08-2016.]
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
Praia de Machico

Um avião de partida,
Outro chegando do Norte;
Que tem isto a ver com a vida?
Que tem isto a ver com a morte?
Vejo o mundo belo e tosco
Volátil, frágil abrigo;
Que tem isto a ver connosco?
Que tem isto a ver comigo?
Crianças brincam no cais,
Um barco cruza a baía;
Que há nisto de sinais?
Que há nisto de poesia?
Machico (Madeira), 08 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto de VL.]
ZONA DE PERECÍVEIS (50)
Contradanças
Os gregos têm duas
palavras para o conceito de tempo (a grafia é opção minha): Kairos e Kronos – esta para significar a física passagem de segundos,
minutos, horas, dias meses, anos; aquela para dizer a vida verdadeiramente
importante, os instantes que não mais esquecemos, nos marcam e nos fazem, pelo
sofrimento, pelo espanto, pela alegria, crescer.
Os anglófonos usam
uma expressão muito interessante para o tempo kairónico: quality time [tempo de qualidade]. Num intervalo, pequenino embora,
da sua rotina obrigatória, pais jogam à bola com os filhos na rua, ou assistem aos
treinos de futebol da prole, debatendo jogadas, medindo a exigência dos
treinadores, celebrando a beleza das camisolas novas. É o tempo da felicidade,
aquele, como melhor hão-de tragicamente perceber todos, no futuro.
Eu, entre outras
experiências de alegria autêntica, aproveito o kairónico Verão para ler. Desde
Junho para cá, li ou reli Arte, de
Yasmina Reza, Elegia Para um Caixão Vazio,
de Baptista-Bastos, Calvin & Hobbes
(os volumes todos), de Bill Watterson, Cinco
Esquinas, de Mario Vargas Llosa, Refúgio
Perdido, de Soeiro Pereira Gomes, A
Morte é um Acto Solitário, de Ray Bradbury, O Pó da Sombra, de João de Mancelos, Terminação do Anjo, de Daniel Abrunheiro, e Contradanças – Cartas e Poemas de Camões, do deus Luís Vaz. A
aparente incoerência do conjunto decorre da minha absoluta e inegociável
liberdade para pegar num livro mais à mão e levá-lo comigo (para o carro, para
o Café, para a praia, para a casa-de-banho, para a cama). Nisto de leituras,
sou a minha própria universidade, autor e dono do meu programa de estudos,
responsável pela minha bibliografia, professor e aluno consubstancialmente.
Em Contradanças (Porto, Ed. Guerra &
Paz, 2011), revisitando Camões, dei por mim a achar que algumas das cartas do
autor de Os Lusíadas poderiam ser
respostas a uma entrevista que eu lhe estivesse fazendo durante a leitura. Seguem-se
alguns exemplos.
Eu: Vejo-o triste,
Luís Vaz. Deveria olhar à sua volta e, perante as gentes felizes que
encontrasse, alegrar-se também...
Camões (página
22): “Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se
alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não
lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece.”
Eu: Mas não deixa,
mesmo quem tem problemas, de ter a sorte essencial que é viver...
Camões (página
25): “No mundo não tem boa sorte senão quem tem por boa a que tem.”
Eu: Mas esse
pessimismo, ainda que por razões verdadeiras, acaba por afastá-lo do mundo...
Camões (página
28): “Ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo.” [Na
verdade, só se pode bem] “saber as cousas a passar por elas, [e] há mais
diferença que a de consolar e ser consolado. Mas assim entrou o Mundo, e assim
há-de sair: muitos a repreendê-lo e poucos a emendá-lo.”
Eu: Dou por mim,
Luís Vaz, a lamentar quem não encontre na literatura o consolo e a luz que nela
pode haver.
Camões (página
54): [Por isso lhe remeto a minha escrita, a si expressamente dedicada, e] “se
lha não derem, saiba que é a culpa da viagem, na qual tudo se perde.”
Nem tudo, Luís
Vaz. Nem tudo.
Coimbra, 01 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi
publicada no semanário O Ribatejo,
edição de 04 de Agosto de 2016.]
sábado, 30 de julho de 2016
ZONA DE PERECÍVEIS (49)
Crónica do mês que vem
1.
Com
a idade e a atenção, é possível que nos chegue a sabedoria. A evolução nota-se,
entre outros sinais, pelo uso competente da tão preciosa serenidade (por
oposição ao desassossego sanguíneo), mas também pelo do silêncio (por oposição
ao falatório inconsequente). Já agora: creio que a capacidade de síntese, que
poupa os outros à dispensável verborreia dos faladores, é uma forma amável de
silêncio.
Olhai, por
exemplo, o que se pode dizer – com a voz de um velho passeando ao entardecer,
sem outra pressa que a urgência de comunicar – sobre os verbos-conceitos Ser e
Ter. Sobre Ser: a vida humana carece essencialmente de amor e de esperança.
Sobre Ter: a maior riqueza para os vivos é a saúde e o tempo.
2.
Dito
isto, quero falar-vos de Agosto. O melhor escritor português vivo (que escreve
n’ O Ribatejo) não gosta deste mês,
mas eu – que admiro a graça e o génio com que ele o diz – discordo
apaixonadamente desse juízo. Tirando pontuais dores de cabeça, que assinalam
picos de temperatura, e variadas dores musculares, que ecoam a teimosa prática
de desporto, eu sinto-me um alegre milionário da vida, neste Estio maior. Sou o
que quero, tenho quanto preciso. Acordo sem despertador, participo na vida doméstica
com vagar e método, falo com vizinhos do (meu) “querido mundo” (expressão
colhida em Giovanni Guareschi), passeio, namoro, frequento esplanadas, escrevo,
leio, vejo filmes e séries imperdíveis, visito o amado Mar.
O grande Ruy
Belo bem dizia que é “o Verão a única estação”. Eu digo, com sabedoria de tempo
feita, que o melhor do ano está em Agosto, esse mês em que até um velho é capaz
de sentir-se novamente novo.
Ribeira de Pena, 21 de Julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica
foi publicada no semanário O Ribatejo,
edição de 28-07-2016.]
Subscrever:
Mensagens (Atom)


