Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 20 de setembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (54)



Nomes de Nós

 

Costumo dizer isto aos meus jovens alunos, quando eles se queixam dos nomes recebidos na pia baptismal: não são os nomes que nos fazem grandes ou pequenos, bem ou mal sucedidos; é, quase sempre, a pessoa que “faz” o nome, associando-lhe, aos olhos dos outros, prestígio, má fama ou indiferença. Falo-lhes, como exemplo, do meu desconforto por o meu Pai me ter dado o nome de Joaquim. Achava-o um nome feio, fora de moda, boçal. Até que o meu tio Carlos, convidado para padrinho do filho de um seu grande amigo, sugeriu Joaquim para nome do novel afilhado. Eu soube, por uma tia, que a escolha resultara da minha notoriedade, à época, enquanto estudante e também do meu jeito futebolístico (titular nos iniciados do glorioso União de Coimbra). Ou seja, aquele mal-amado nome deviera, por inconsciente mérito do juvenil proprietário, um nome bonito.

Creio que com as alcunhas é um processo diferente, quiçá oposto. A alcunha é consequência do que, na visão dos outros, nos caracteriza essencialmente – às vezes, fruto de um olhar divertido, outras de um olhar cruel e até insultuoso.

Casado com uma madeirense, estou habituadíssimo a que, nos fait-divers narrados por familiares ilhéus, quase sempre em contextos mui domésticos, as personagens raramente assumam a nomenclatura inscrita no cartão de cidadão. Houve por lá um vizinho rico que era o Graças-a-Deus, um agente de autoridade invariavelmente zangado que era o Merda-Seca, um avô alegre que era o Tim-Trrrim, um comerciante de modos sanguíneos que era o Diabo. E há um político simpático que é o Sem-Nada, uma amiga da família que é a Fera, uma prima altiva que é a Delicada, um continental (ou “cubano”) que é o Engalgado.

Em Coimbra, o meu Pai era o Zé-Bate-Chapas. A minha filha, durante a sua meninice mais tenra, julgou que Bate-Chapas era mesmo o nome do avô paterno. (Eu próprio fui referido, em conversas sobre a minha carreira futebolística, como “o Bate-Chapas-mais-pequeno”.) O meu tio, que era um excelente mecânico de automóveis, foi vítima da fama profissional do meu Pai (seu irmão) e ficou conhecido por Fernando-Bate-Chapas (“O Fernando-Bate-Chapas é um mecânico de se lhe tirar o chapéu!”).

Na terra do Daniel Abrunheiro, vive certo moço, inteligente e simpático como poucos, que é, de sua natureza, muitíssimo magro. O nome por que é conhecido? Tarzan. Também há (isto disse-me o próprio Daniel) um certo senhor muito alto, homem grave e sereno, cuja estatura e pose impressionaram, durante décadas, os conterrâneos. A sua alcunha ficou (abençoada seja a alma que fabricou esta metáfora) Rainha-Santa.

Era para falar-vos de alcunhas que por pouco se me colavam e às quais escapei nem sei bem como. Mas já não há espaço para tal. De modo que remato com uma lida em breve notícia do JN, relativa a um idoso vítima de assalto e infelizmente falecido pouco tempo depois: este senhor era conhecido, na sua terra, por Amor-de-Perdição.

 
Ribeira de Pena, 12 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-09-2016.]

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Fim de estação



Vemos morrer a cor das folhas

E não nos preocupamos muito

Mesmo que a tristeza perpasse

A paisagem e a luz rareie.

Sabemos que a cor voltará

Às folhas

Pois nada morre para sempre

E que o mesmo sucederá com o Sol

Que voltará a brilhar como antes.

Considerada a natureza com estes olhos

Cremos que não há fim absoluto

Isto é: que o fim é provisório

E que, como tudo na nossa vida, haverá

Novos (inesgotáveis) começos.

Mas depois a minha experiência dói-me

Por dentro.

Porque eu, sabei, sinto excessivamente

A falta de tanta gente amada

Desaparecida

Em bruto eterno inverno.

 

Cabeceiras de Basto, 09 de Setembro de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bestday.com.]

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (53)


Lá no fundo

O papa Ratzinger chamou, em tempos, a atenção do mundo para o problema do “relativismo moral”. Sublinhava que, por muito complexa que seja a realidade (sobretudo, os modos de ver a realidade), era fundamental manter bem definidas as noções de certo/errado, justo/injusto, verdadeiro/falso. Os relativistas deste mundo, em resposta ruidosa, avisaram para o perigo de olhar para a vida com esta singeleza minimalista, lembrando que a existência humana compreende muito mais cores e tonalidades do que o preto & branco elementares.
Respeito ambas as visões. Também eu creio que a humanidade é, pela sua própria natureza, um eterno mistério, matéria de infinitas nuances e de mirabolantes surpresas (que raramente se repetem e nunca cessam, caso a caso, de nos espantar). Mas Ratzinger faz bem em realçar o facto de, não obstante, os seres humanos precisarem mesmo de algumas referências basilares, de sólidas balizas éticas, de espartanas “certezas” que sejam chão e horizontes essenciais para uma vida digna.
Assassinar alguém não pode, por mil motivos que se vomitem, estar certo. Oprimir, privar outros da liberdade, corromper (ou deixar-se corromper) não é, por mil ginásticas argumentativas que se aduzam, aceitável. A porcaria do racismo não se torna, por muito que se enquadre, contextualize e explique (à boleia de psicólogos, psiquiatras, políticos, politólogos, juristas, taxistas, costureiras, futebolistas, famosos da televisão, vizinhos com empregos importantes, etc.), aceitável ou lógica.
Há sempre quem diga, acerca do maior facínora da aldeia (ou do bairro, ou da cidade, ou do país, ou do mundo, ou da História universal), que o indivíduo, “lá no fundo, era boa pessoa”. Ora, li eu no Google, há um pequeno peixe chamado “peixe-ogro” (anoplogaster cornuta), talvez o mais feio de todos os peixes, que vive nas maiores profundezas do oceano e tem uns dentes verdadeiramente assustadores, bem como presas semelhantes às de um vampiro. Era, creio eu, ao pé deste camarada com barbatanas que a humanidade mais canalha deveria estar. Lá no fundo.

Ribeira de Pena, 05 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de o8-09-2016.]

domingo, 4 de setembro de 2016

Esplanada d' A Brasileira


À tarde, sob o Sol, como flores,
Na cidade cintilante de beleza,
Passeiam-se corpos e amores
Ao longo da calçada portuguesa.

Coimbra, esplanada d'A Brasileira, pelas 14h30m do dia 03 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho.
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pinterest.com.]

ZONA DE PERECÍVEIS (52)

Ganhar a vida

A reportagem do JN (edição de 09-08-2016, página 22), à roda de Paulo Moreira, um professor contratado que, no Verão, ganha a vida a vender bolas de Berlim, por praias algarvias, tinha quase tudo para me fazer cúmplice: um homem a lutar pela vida; um homem que teima em ser professor, apesar da ausência ou da brutidade das colocações; um homem que tem a família como motivo primeiro e aconchego último; um homem que não desiste.
Severo de Melo, que foi meu ínclito Mestre no ensino secundário, ensinou-me que não há, num Estado de direito, trabalhos indignos – há é profissionais menos e mais sérios. Eu inclino-me perante aqueles que, com maiores ou menores habilitações, estão disponíveis para todos os trabalhos, sem pruridos chiques nem complexos atávicos. Orgulha-me o facto de a minha filha, já licenciada, antes de exercer advocacia ou de ser jurista, ter trabalhado, sem pejo, numa loja da Zara e num call center ligado à (falecida) PT, assim assumindo – muito cedo – responsabilidades no pagamento das despesas da casa.
Quando esta minha filha nasceu, eu era professor provisório. O adjectivo “provisório” significava, então como agora, “sem vínculo definitivo”, i.e. “contratado”, i.e. sujeito a ficar, de um instante para o outro, sem emprego. O meu instinto (burguês) de sobrevivência obrigava-me a equacionar essa ameaça: que faria eu no caso de perder o meu trabalho? À época, jogava futebol em escalões menores, ganhando alguns patacos informais, mas era pouco para as necessidades do meu agregado. De modo que me ocorria a possibilidade de trabalhar como “trolha”, emprego certo (cria eu) numa altura em que florescia a construção civil. Mais tarde, como a idade é, em tamanho, inversamente proporcional à saúde (e também porque o imobiliário edificado se foi tornando cada vez mais esparso), a alternativa deveio fatalmente outra. Já vo-la digo.
Tive um tio que, durante quase 50 anos, foi empregado de mesa, num Café em Leiria. Era um homem elegante, muito educado, com apurado sentido de família, bastante bem-falante. Sempre gostei dele e o admirei. Visitei-o no hospital, em Coimbra, aí por 1983, pouco antes da sua morte. Dizia, sorrindo, que amava tanto a sua família e os seus amigos que, se pudesse, levaria atada a si, pelo mundo fora, com uma corda gigante, toda essa gentinha. Era também, decerto, devido a essa forma de ser e de comunicar que os clientes gostavam tanto do tio Zé Melo. Ora, o meu plano B, hoje em dia, é este: em caso de desemprego na docência, gostaria de exercer o métier do meu familiar, com a diligência e a simpatia inteiras de que fosse capaz. É-me grata a ideia de conviver com os clientes, de participar (ainda que de viés) nas vidas dos meus contemporâneos, de comunicar (até em línguas estrangeiras), de partilhar humor e literatices com sei lá quem.
Doer-me-ia ganhar menos do que ganho, é certo. Mas não me preocupo – de todo – com o maior ou menor “valor social” da profissão exercida. Tenho na cabeça a lição de Mestre Severo e, por outro lado, sei muito bem que a primeira obrigação dos viventes é sobreviver (dignamente, bem entendido), seja nas escolas, nas oficinas, nos escritórios, nos quiosques, nos mercados – ou nas praias a vender bolas de Berlim.

Coimbra, 29 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 01 de Setembro de 2016.]

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Cosmos visto daqui


Juntamos o olhar ao grande Mar
E somos, por olhar, também grandeza;
Vivemos e morremos devagar
Ao colo infinito da Beleza.

Baía de Machico, 18-08-2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jm-madeira.pt.]

ZONA DE PERECÍVEIS (51)


Mundo por ver

Toda a gente tem uma prima ou uma tia que, em certo momento, no decurso de uma visita turístico-cultural (a uma praia, a um castelo, a uma exposição, a uma igreja, a um museu), exclama: “Vamos embora, que isto já está tudo visto!”
São as mesmas pessoas que, por terem passado uns dias nos Açores, ou na Madeira (ou em Coimbra, ou no Minho, ou em Trás-os-Montes), garantem aos interlocutores um conhecimento exacto e completo daquilo tudo. Tamanha presunção, apesar da paciência quase infinita a que denodadamente me obrigo, irrita-me, sobretudo quando estas vozes tão auto-suficientes se referem a lugares muito presentes na minha própria biografia. Por exemplo, eu tenho 53 anos de Coimbra e nunca direi que conheço “aquilo tudo”, ó querida tia (ou prima, ou vizinha, ou colega, ou senhor que conheci casualmente no casamento do meu cunhado Paulo).
Por razões familiares, venço às vezes o meu medo patológico de voar – e lá venho, no remanso de Agosto, à Madeira. (Nota: o avião que me trouxe, no passado dia 2, chamava-se Fernando Pessoa. Uma multidão, portanto, com motor.) Nunca me canso de admirar a baía de Machico. Em especial, o Mar, meu habitat primordial, que vejo pouco no resto do ano. Esta crónica foi escrita, aliás, ao som das ondas rebentando nos calhaus, espécie de tributo musical à eternidade. Já aqui estive tantas vezes, caros leitores, a olhar para esta paisagem. E nunca seria – nunca serei – capaz de dizer, sobre isto, que está tudo visto.

Coimbra, 01 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 04-08-2016.]

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Praia de Machico



Um avião de partida,
Outro chegando do Norte;
Que tem isto a ver com a vida?
Que tem isto a ver com a morte?

Vejo o mundo belo e tosco
Volátil, frágil abrigo;
Que tem isto a ver connosco?
Que tem isto a ver comigo?

Crianças brincam no cais,
Um barco cruza a baía;
Que há nisto de sinais?
Que há nisto de poesia?

Machico (Madeira), 08 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto de VL.]


ZONA DE PERECÍVEIS (50)

Contradanças

Os gregos têm duas palavras para o conceito de tempo (a grafia é opção minha): Kairos e Kronos – esta para significar a física passagem de segundos, minutos, horas, dias meses, anos; aquela para dizer a vida verdadeiramente importante, os instantes que não mais esquecemos, nos marcam e nos fazem, pelo sofrimento, pelo espanto, pela alegria, crescer.
Os anglófonos usam uma expressão muito interessante para o tempo kairónico: quality time [tempo de qualidade]. Num intervalo, pequenino embora, da sua rotina obrigatória, pais jogam à bola com os filhos na rua, ou assistem aos treinos de futebol da prole, debatendo jogadas, medindo a exigência dos treinadores, celebrando a beleza das camisolas novas. É o tempo da felicidade, aquele, como melhor hão-de tragicamente perceber todos, no futuro.
Eu, entre outras experiências de alegria autêntica, aproveito o kairónico Verão para ler. Desde Junho para cá, li ou reli Arte, de Yasmina Reza, Elegia Para um Caixão Vazio, de Baptista-Bastos, Calvin & Hobbes (os volumes todos), de Bill Watterson, Cinco Esquinas, de Mario Vargas Llosa, Refúgio Perdido, de Soeiro Pereira Gomes, A Morte é um Acto Solitário, de Ray Bradbury, O Pó da Sombra, de João de Mancelos, Terminação do Anjo, de Daniel Abrunheiro, e Contradanças – Cartas e Poemas de Camões, do deus Luís Vaz. A aparente incoerência do conjunto decorre da minha absoluta e inegociável liberdade para pegar num livro mais à mão e levá-lo comigo (para o carro, para o Café, para a praia, para a casa-de-banho, para a cama). Nisto de leituras, sou a minha própria universidade, autor e dono do meu programa de estudos, responsável pela minha bibliografia, professor e aluno consubstancialmente.
Em Contradanças (Porto, Ed. Guerra & Paz, 2011), revisitando Camões, dei por mim a achar que algumas das cartas do autor de Os Lusíadas poderiam ser respostas a uma entrevista que eu lhe estivesse fazendo durante a leitura. Seguem-se alguns exemplos.
Eu: Vejo-o triste, Luís Vaz. Deveria olhar à sua volta e, perante as gentes felizes que encontrasse, alegrar-se também...
Camões (página 22): “Pouco sabe da tristeza quem, sem remédio para ela, diz ao triste que se alegre; pois não vê que alheios contentamentos a um coração descontente, não lhe remediando o que sente, lhe dobram o que padece.”
Eu: Mas não deixa, mesmo quem tem problemas, de ter a sorte essencial que é viver...
Camões (página 25): “No mundo não tem boa sorte senão quem tem por boa a que tem.”
Eu: Mas esse pessimismo, ainda que por razões verdadeiras, acaba por afastá-lo do mundo...
Camões (página 28): “Ou se há-de viver no mundo sem verdade, ou com verdade sem mundo.” [Na verdade, só se pode bem] “saber as cousas a passar por elas, [e] há mais diferença que a de consolar e ser consolado. Mas assim entrou o Mundo, e assim há-de sair: muitos a repreendê-lo e poucos a emendá-lo.”
Eu: Dou por mim, Luís Vaz, a lamentar quem não encontre na literatura o consolo e a luz que nela pode haver.
Camões (página 54): [Por isso lhe remeto a minha escrita, a si expressamente dedicada, e] “se lha não derem, saiba que é a culpa da viagem, na qual tudo se perde.”
Nem tudo, Luís Vaz. Nem tudo.

Coimbra, 01 de Agosto de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04 de Agosto de 2016.]

sábado, 30 de julho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (49)

Crónica do mês que vem

1.              Com a idade e a atenção, é possível que nos chegue a sabedoria. A evolução nota-se, entre outros sinais, pelo uso competente da tão preciosa serenidade (por oposição ao desassossego sanguíneo), mas também pelo do silêncio (por oposição ao falatório inconsequente). Já agora: creio que a capacidade de síntese, que poupa os outros à dispensável verborreia dos faladores, é uma forma amável de silêncio.
Olhai, por exemplo, o que se pode dizer – com a voz de um velho passeando ao entardecer, sem outra pressa que a urgência de comunicar – sobre os verbos-conceitos Ser e Ter. Sobre Ser: a vida humana carece essencialmente de amor e de esperança. Sobre Ter: a maior riqueza para os vivos é a saúde e o tempo.
2.              Dito isto, quero falar-vos de Agosto. O melhor escritor português vivo (que escreve n’ O Ribatejo) não gosta deste mês, mas eu – que admiro a graça e o génio com que ele o diz – discordo apaixonadamente desse juízo. Tirando pontuais dores de cabeça, que assinalam picos de temperatura, e variadas dores musculares, que ecoam a teimosa prática de desporto, eu sinto-me um alegre milionário da vida, neste Estio maior. Sou o que quero, tenho quanto preciso. Acordo sem despertador, participo na vida doméstica com vagar e método, falo com vizinhos do (meu) “querido mundo” (expressão colhida em Giovanni Guareschi), passeio, namoro, frequento esplanadas, escrevo, leio, vejo filmes e séries imperdíveis, visito o amado Mar.
O grande Ruy Belo bem dizia que é “o Verão a única estação”. Eu digo, com sabedoria de tempo feita, que o melhor do ano está em Agosto, esse mês em que até um velho é capaz de sentir-se novamente novo.

Ribeira de Pena, 21 de Julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-07-2016.]

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Canção infinitiva


Canção infinitiva

 

Já visitei mil recantos

Já sofri por procurar

Já fui água de mil prantos

Já sofri por não chegar.

 

Já sofri por não saber

O que havia de buscar

Já sofri por perceber

Que era outro o meu lugar.

 

Já fui água de nascente

Já fui Mar de ir e vir –

Está-se tão bem no Presente

Não quero daqui sair!

 

Ribeira de Pena, 22 de Julho de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (da formosíssima Praia da Tocha) foi colhida em http://www.praiaportugal.com. O título deste poema era para ser “Infinitivo”. A palavra “canção” foi sugestão do grande Daniel Abrunheiro.]

ZONA DE PERECÍVEIS (48)



Suave Moralidade, Interesse Durão

 

Numa fase a que, por caridade, poderíamos chamar “período formativo”, Durão Barroso foi um feroz maoísta. Alegadamente, algumas conversas e leituras tê-lo-ão transformado num entusiasta da social-democracia, pelo que lá aderiu ao PPD. À boleia dos amigos certos (e decerto também da sua verve ruidosa e incendiária qb), chegou a presidente do partido. Nessa condição, viu-se - para surpresa e susto de muitos – no lugar de primeiro-ministro de Portugal. Mas o cargo, que era “a grande missão” da sua vida, passou subitamente a coisa descartável, ao ser convidado para presidir à Comissão Europeia. Falou-se, então, no facto de outros europeus (incluindo primeiros-ministros), embora convidados, antes ainda de Durão, terem recusado a oferta, devido a (imagine-se!) questões de ética pessoal e política.

Enquanto presidente da Comissão, Durão Barroso foi um burocrata cinzento e medíocre, que se portou como um fiel empregado dos governos mais poderosos da Europa. Pelo meio, viu obedientemente “as provas” da existência de armas de destruição maciça, que Saddam Hussein se preparava – garantia-se – para usar contra o Ocidente. As ditas armas, afinal, não existiam, talvez nem tivesse valido a pena Durão ter-se posto em bicos de pés para aparecer na fotografia com os mentores da invasão do Iraque (Bush e Blair).

Durante a mais recente crise financeira, que começou, do ponto de vista europeu, na Grécia e se estendeu, entretanto, a outras nações (incluindo a nossa), Barroso chegou a denunciar, timidamente, algumas instituições americanas ligadas ao crédito, ao investimento e à especulação, cujas práticas selvagens contribuíram decisivamente para o caos superveniente. Entre estas organizações, como se sabe, estava a mui poderosa Goldman Sachs.

Já reformado da Europa, com a modesta pensão de (diz-se) 11 mil euros mensais, quiçá desapontado com a ausência de uma vaga de fundo entre os portugueses que lhe implorasse a candidatura à presidência da República, recebeu uma oferta de emprego da – adivinhais? – Goldman Sachs para presidente não executivo daquela instituição. Indiferente a quaisquer reticências morais ou ao ruído indignado dos europeus (nacionais e internacionais, arraia-miúda e líderes importantes, políticos e politólogos, comentadores e filósofos, etc.), Durão fez as continhas e aceitou (mais) esta oportunidade.

Disse Frederico Carvalho de seu Pai (Rómulo de Carvalho/António Gedeão) que “tudo quanto fez, foi por amor”. De Durão Barroso se poderá dizer, ecoando O’Neill, que tudo quanto tem feito é pela (sua) vidinha.

 

Ribeira de Pena, 17 de Julho de 2017.

Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (47)




National Geographic

Ei-lo. Reparai como, já bebida a latinha de cerveja e esgotado o maço de tabaco, atira uma e outra embalagens para a estrada, num gesto cheio de cilindradas e ruído. É o mesmo que cigarra, charuta ou cachimba sobre o vizinho de mesa, berra convicções ao telemóvel (no Café, na sala de reuniões, na missa, no auditório municipal) e, não necessariamente bêbedo, urina na rua, com a majestade e a indiferença de uma vaca.
Também o podem apreciar a acompanhar o cão, com paciência e método, rua acima e rua abaixo, várias vezes esperando que o quadrúpede se alivie liquidamente contra o muro de minha casa, ou solidamente no passeio público. Se interpelado, rosna insultos e superiores explicações sobre a natureza biodegradável da excrementação do seu Rex.
O modo como conduz o automóvel é um atestado de virilidade, desesperado grito contra a murcha desconfiança dos outros. Quase nos mata, nos troços quotidianos da vida funcionária, ignorando limites de velocidade, traços contínuos ou curvas sem visibilidade. Aprecie-se a jactância com que, na tasca de destino, recorda mais um recorde de habilidade e lepidez.
Vê-se bem que gosta de sentir o poder nas suas mãos. Bate, com devoção, na mulher e nos filhos, nos adeptos de clubes adversários (mas só se eles estiverem em inferioridade numérica). É profundamente racista e, embora despreze quase todos os conterrâneos, afirma o seu patriotismo através da mais elementar xenofobia. Política e psicologia desaguam no mesmo apotegma: se algo corre mal, a culpa é fatalmente dos outros.
Critica a lei e os juízes, se lhe limitam a concretização impune de impulsos e caprichos. Mas declara o seu amor pelos tribunais, ao invés, se lhe validam os interesses do egozinho, ainda que colidindo com algum pormenor ético ou moral.
Crê-se um sobrevivente, e por isso olha de modo trocista para os românticos deste mundo, esses que estranhamente sacrificam o conforto pessoal à noção de justiça, de bem, de verdade, de lealdade. Na sua taxonomia pessoal, esta gente lamentável caracteriza-se pela fraqueza e pela falta de tino. São (e di-lo com claro desprezo) os totós, os panhonhas, os poetas.
Finalmente, revela um ostensivo ódio à educação e à cultura. Despreza a arte mais burilada, a Música maiúscula, o humor que obriga a pensar, a mariquice da poesia ou do teatro. E, na maioria dos casos, embora se autoproclame catedrático do desporto, não se dá ao incómodo de o praticar.
À primeira vista, chamar-lhe-íamos porco, atendendo ao gosto que revela em refocilar-se na porcaria que ele próprio produz. Mas, atenção, estamos na presença de uma espécie mais complexa: é a besta. A famosa besta-quadrada. Reproduz-se com preocupante facilidade. Anda por aí. É preciso cuidado, leitores.

Vila Real, 08 de Julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-07-2016.]

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Café Santa Cruz, amada Coimbra, Livro e Amigos


Foi no dia 25 de Junho, em Coimbra, pelas 16 horas. O meu Amigo Maior, Daniel Abrunheiro, emprestou o seu extraordinário brilho à apresentação do livro JÚLIO DINIS - AS PUPILAS DO SENHOR ESCRITOR, que é uma formosa versão da minha tese de doutoramento em Literatura Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (edição da Caleidoscópio). A minha Filha, a VL, participou na cerimónia, lendo comigo um divertido trecho dramático ("Uma consulta"), da autoria de Júlio Dinis. Esteve presente o editor, o Dr. Jorge Ferreira.
Agradeço a gentileza do sr. Vítor Marques, que me disponibilizou o mítico Café Santa Cruz para o lançamento da obra na minha amada cidade natal. A cerimónia fez-se, não com a colaboração da Câmara Municipal de Coimbra, mas apesar da Câmara Municipal de Coimbra, que ignorou todos os meus pedidos de apoio e me dedicou um ostensivo e conspícuo desprezo. Apesar disso, ofereci à Biblioteca Municipal da cidade um exemplar da obra, como tenho feito, regra geral, com todos os livros que me vêm editando (alguns dos quais na sequência de prémios literários que ganhei). O meu amor a Coimbra, do ponto de vista autárquico, é um tradicional amor romântico - generoso, profundo, não correspondido.
Redescobri, na cerimónia do Café Santa Cruz, a angústia que um homem sente perante a possibilidade de, num encontro marcado por si, ter ou não ter a presença de muitos amigos. Veio bastante gente, thank God: ali avultavam a MP, a VL e a minha Mãe, o Tó, a Maria de Fátima, o Nelo, a Paula, o Sérgio, a Adélia, a Laidinha, a Graça Abrunheiro, a Patrícia, o Carlos Simões (pai da Maria), a Fátima Branco, a Anabela, a Conceição, a Ana Sebastião, a Dolores, a Branca, o Lita, o Januário, o Rui Vala, o Jorge Jesus, o Patrick, o Agostinho, o Rui Candeias, tantos outros...
Faltou também (hélas) muita gente, como era - convenhamos - inevitável. Mas eu retive sobretudo o sentimento de gratidão por quem, ultrapassando numerosos obstáculos (tempo, distância, saúde, afazeres), veio mesmo. Vistos da mesa onde estive, foram um aconchego impressionante e inesquecível. A Amizade é uma delicada forma do Amor. Eu confirmei esta verdade singelíssima: ser amigo é, no essencial, estar "lá" quando o amigo precisa. Eu precisei e estiveram lá. Que dizer-vos, gente de ouro, senão MUITO OBRIGADO?

Coimbra, 26 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

ZONA DE PERECÍVEIS (46)



O menino da sua Mãe

Numa esconsa nota à roda da selecção polaca (lida, salvo erro, no JN), soube que o médio Jakub Blaszczykowski - nome de guerra: Kuba – viu a sua Mãe morrer às mãos assassinas do Pai, em 1996. O jogador do Borussia Dortmund era, à época, um menino com apenas 10 anos.
O episódio é suficiente para provocar uma profunda comoção em qualquer ser humano. Mas o textito acrescentava esta informação: agora, quando o polaco obtém um golo, ajoelha-se, olha para o céu e ergue as mãos, como numa prece: assim agradece à Mãe – diz ele – o facto de continuar presente, apesar da morte, iluminando-o, animando-o, inspirando-o.
Quando, em qualquer narrativa ou argumento, aterra a imagem da Mãe, eu sou, sem vergonha nem remorso, um fatal lingrinhas. E, correndo o risco de perder, por estes dias de euforia futebolística, a nacionalidade portuguesa, aqui vos confesso – ai de mim! – que senti, misturado com a doçura da nossa vitória sobre os polacos, um escandaloso travo de amargura. É que o menino Kuba foi, do lugar de onde percebi o jogo, um dos derrotados da noite.
Os meus pacientes leitores já sabem, no momento em que lêem estas perecíveis linhas, se Portugal chegou ou não à final do torneio. Vou imprudentemente supor que sim – e que, na nossa memória, ardem ainda as imagens de um qualquer remate genial (oxalá do rei Ronaldo), um qualquer carrinho salvador de Raphael Guerreiro, um qualquer voo impossível de Rui Patrício. Vamos até, em demencial e infantil devaneio, imaginar que, aí pelas 10 horas da noite do dia 10 de Julho, 12 anos depois de a Grécia nos ter reexplicado o conceito de “tragédia espectacular”, Portugal é campeão europeu de futebol.
Perdoai-me, ainda assim, este pecado lamechas, ó cúmplices foliões da bola - mas eu preferirei para sempre, de entre tantos gestos e dribles e defesas e vitórias, aquela imagem de Kuba, após um golo à Ucrânia, no dia 21 de Junho, ajoelhando-se, erguendo os olhos e os braços para o céu, agradecendo à sua Mãe. Não morta, sublinho: viva, afinal, por o seu menino, lembrando-se dela, não a ter deixado morrer.

Vila Real, 02 de julho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-06-2016.]