Lá no fundo
O papa Ratzinger chamou, em tempos, a atenção do mundo para o problema do “relativismo moral”. Sublinhava que, por muito complexa que seja a realidade (sobretudo, os modos de ver a realidade), era fundamental manter bem definidas as noções de certo/errado, justo/injusto, verdadeiro/falso. Os relativistas deste mundo, em resposta ruidosa, avisaram para o perigo de olhar para a vida com esta singeleza minimalista, lembrando que a existência humana compreende muito mais cores e tonalidades do que o preto & branco elementares.
Respeito ambas as visões. Também eu creio que a humanidade é, pela sua própria natureza, um eterno mistério, matéria de infinitas nuances e de mirabolantes surpresas (que raramente se repetem e nunca cessam, caso a caso, de nos espantar). Mas Ratzinger faz bem em realçar o facto de, não obstante, os seres humanos precisarem mesmo de algumas referências basilares, de sólidas balizas éticas, de espartanas “certezas” que sejam chão e horizontes essenciais para uma vida digna.
Assassinar alguém não pode, por mil motivos que se vomitem, estar certo. Oprimir, privar outros da liberdade, corromper (ou deixar-se corromper) não é, por mil ginásticas argumentativas que se aduzam, aceitável. A porcaria do racismo não se torna, por muito que se enquadre, contextualize e explique (à boleia de psicólogos, psiquiatras, políticos, politólogos, juristas, taxistas, costureiras, futebolistas, famosos da televisão, vizinhos com empregos importantes, etc.), aceitável ou lógica.
Há sempre quem diga, acerca do maior facínora da aldeia (ou do bairro, ou da cidade, ou do país, ou do mundo, ou da História universal), que o indivíduo, “lá no fundo, era boa pessoa”. Ora, li eu no Google, há um pequeno peixe chamado “peixe-ogro” (anoplogaster cornuta), talvez o mais feio de todos os peixes, que vive nas maiores profundezas do oceano e tem uns dentes verdadeiramente assustadores, bem como presas semelhantes às de um vampiro. Era, creio eu, ao pé deste camarada com barbatanas que a humanidade mais canalha deveria estar. Lá no fundo.
Respeito ambas as visões. Também eu creio que a humanidade é, pela sua própria natureza, um eterno mistério, matéria de infinitas nuances e de mirabolantes surpresas (que raramente se repetem e nunca cessam, caso a caso, de nos espantar). Mas Ratzinger faz bem em realçar o facto de, não obstante, os seres humanos precisarem mesmo de algumas referências basilares, de sólidas balizas éticas, de espartanas “certezas” que sejam chão e horizontes essenciais para uma vida digna.
Assassinar alguém não pode, por mil motivos que se vomitem, estar certo. Oprimir, privar outros da liberdade, corromper (ou deixar-se corromper) não é, por mil ginásticas argumentativas que se aduzam, aceitável. A porcaria do racismo não se torna, por muito que se enquadre, contextualize e explique (à boleia de psicólogos, psiquiatras, políticos, politólogos, juristas, taxistas, costureiras, futebolistas, famosos da televisão, vizinhos com empregos importantes, etc.), aceitável ou lógica.
Há sempre quem diga, acerca do maior facínora da aldeia (ou do bairro, ou da cidade, ou do país, ou do mundo, ou da História universal), que o indivíduo, “lá no fundo, era boa pessoa”. Ora, li eu no Google, há um pequeno peixe chamado “peixe-ogro” (anoplogaster cornuta), talvez o mais feio de todos os peixes, que vive nas maiores profundezas do oceano e tem uns dentes verdadeiramente assustadores, bem como presas semelhantes às de um vampiro. Era, creio eu, ao pé deste camarada com barbatanas que a humanidade mais canalha deveria estar. Lá no fundo.
Ribeira de Pena, 05 de Setembro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de o8-09-2016.]







