Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Sob o signo da amabilidade


O meu livro Júlio Dinis - As Pupilas do Senhor Escritor (versão - um pouco mais leve - da minha dissertação de Doutoramento em Literatura Portuguesa - Investigação e Ensino) foi apresentado em Ribeira de Pena, no passado dia 01 de Junho de 2016, durante a Feira do Livro do município. Tive a honra e a felicidade de reunir muitos amigos nesta ocasião (e alguns vieram de muito longe). Agradeço-lhes! Agradeço também à Câmara Municipal o apoio dado à edição e, muito particularmente, agradeço à minha distintíssima colega Inês Castro Silva, que fez uma maravilhosa apresentação da obra. 
Aqui inscrevo algumas notas sobre esta professora e investigadora.
Inês Maria de Castro Domingues Silva é licenciada em Ensino de Português pela Universidade do Minho, desde 1998. É Mestre em Mestre em Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa, pela Universidade do Minho, desde 2002, sendo autora de uma dissertação intitulada “AD USUM DELPHINI NON EST. Exercício Crítico Sobre O Delfim de José Cardoso Pires”. É Doutorada em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, pela Universidade de Santiago de Compostela, desde 2011, tendo escrito uma dissertação intitulada “DA CONTRAFACÇÃO DA REPRESENTAÇÃO À (IM)POSSIBILIDADE DOS GÉNEROS. Territórios autorais: problemática do desencontro com as práticas de recepção na literatura e no cinema”. É actualmente professora de Português no Agrupamento de Escolas de Ribeira de Pena. Enquanto formadora, tem dinamizado várias acções de formação no âmbito do ensino da Língua e da Literatura. É assessora do Centro de Formação de Basto. Ao longo dos anos, tem desenvolvido vários Projectos de promoção da leitura (de que se destaca o “Pelo livro é que vamos”) e de Clubes de formação/expressão artística (destacando-se o Clube LerArtes, que desenvolveu em Cerva).

Com sua licença, publico no "muito Mar" o texto que a Inês elaborou para aquele momento.


 


 





 

SOB O SIGNO DA AMABILIDADE

Apresentar um livro do Joaquim Jorge Carvalho – além de uma responsabilidade, pelo valor de excelência que, na primeira pessoa, posso atestar, pelo estatuto que lhe confere o reconhecimento na esfera escolar (há uma legião de alunos e professores que são seus “fãs” confessos) e, especialmente, na comunidade ribeirapenense, onde tem tido papel relevante na disseminação de ideias e acções de e em prol da cultura, numa lógica polinizadora muito interessante (quantas vezes eu ouvi “o professor Joaquim Jorge… fez…. disse… ensinou-me…) – é, indubitavelmente, um prazer, que tem muito que ver, curiosamente, com um traço que valoriza na literatura de Júlio Dinis: a amabilidade.
Pois é, de todas as muitas coisas abonatórias que poderia dizer sobre a personalidade do Doutor Joaquim Jorge Carvalho, do seu brilhantismo académico, à qualidade manifesta enquanto professor, sem esquecer o seu percurso já feito de escritor, escolho salientar a amabilidade que irradia em todas estas dimensões, articulando essa característica jorgiana com a ênfase dada neste livro a essa feição da obra dinisiana. Só um investigador “amável”, no momento de escolher o tema da sua tese, teria a sensibilidade de pensar a amabilidade da literatura de Júlio Dinis como expressão de uma visão do mundo com bastas potencialidades para preencher algum vazio literário no panorama escolar. 
Já lá iremos, ao vazio e à proposta de um caminho de sentido avançado neste livro, entretanto importa ainda dizer que é igualmente gratificante falar de Júlio Dinis, porque sou da geração dos que o leram e guardo muito boas memórias da sua obra, de que elejo, dos nove que volumes que marcam a verde e dourado a estante (e há também qualquer coisa de nostálgico nestas capas), um top four (embora pudesse ser top five): As Pupilas do Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa e Os Fidalgos da Casa Mourisca. Vivi uma adolescência iluminada por essa "amabilidade” que o Joaquim Jorge identifica como elemento positivamente diferenciador, porta aberta para um mundo entre o bucólico que ainda reconhecia da minha ruralidade e o ideal de uma humanidade onde os defeitos eram apenas temporários, obstáculos de ser a ultrapassar, “pecadilhos” da insensatez de uma juventude a crescer sem saber por onde, mais remidos por um processo de consciencialização individual do que punidos por uma moral reguladora externa (seja ela religiosa ou social).
E isto leva-nos à tese, plasmada no livro que agora publica, de que essas idiossincrasias da obra de Júlio Dinis corporizam uma ambivalência necessária a um cânone literário escolar, na medida em que: 
- por um lado, tem qualidade literária, fundamental para desenvolver competências essenciais de literacia, até porque enformada numa tessitura discursiva facilitadora, pela forma consistente como desenvolve a narrativa, capaz de envolver e estimular os alunos; 
- por outro lado, apresenta uma moldura ético-poética potenciadora de um sentido reflexivo de impacto na esfera dos valores, transbordante relativamente ao universo das aprendizagens estritamente académicas, mas essencial na formação de jovens adolescentes em projecto de adultos futuros. 
Relativamente ao primeiro desses dois vectores, e regressando à incipiência da substância literária escolar, de facto fomos assistindo – à medida que a escola se ia abrindo necessária e democraticamente à globalidade da população, evolução imposta pela obrigatoriedade que é primeiro que tudo um direito – a uma massificação da escolarização que corresponde, afinal, a apenas meio direito, porquanto falha a também obrigação da qualidade dessa escolarização. Neste cenário do “sim mas não”, um dos aspectos que manifestamente tem feito emperrar a proficuidade das aprendizagens, como bem aponta Joaquim Jorge, sem dúvida que se prende com a erosão do corpus literário dos ensinos básico e secundários, obrigado a travar um combate pelo seu direito de cidadania privilegiada no espaço das aprendizagens escolares. 
E um dos discursos mais nocivos, que a tese sublinha e de que nós próprios, professores, somos culpados, é o da teoria da pretensa adequação: aos “novos tempos” (como se todo o ensino de repente tivesse que rimar com “fixe”, “bué” e “like”), aos perfis dos alunos (heterogéneos, porventura dispersos por uma parafernália de estímulos, não quer dizer que acéfalos); adequação, enfim, a um suposto sucesso (qual?, é que há vários e nem todos válidos). Esta é uma falácia terrível que, efectivamente, foi invadindo os programas, aos ziguezagues das agendas políticas, os manuais e, finalmente, a mente e a prática dos professores. O adequado pode ser bom, não tem de ser paupérrimo, nem tem de se submeter a uma lógica de progressivo estreitamento do espaço do texto literário (que será sempre palco principal das aprendizagens da disciplina de Português), e o investigador/professor evidencia isso com toda a mestria que lhe conhecemos. 
Júlio Dinis, percebemos, não decorre apenas de uma empatia antiga de leitor afeiçoado, ainda que exista essa cumplicidade confessa; este autor foi eleito para análise como foco-exemplo do texto “adequado” que pode e deve ser “bom”, a ser capital cultural acrescentado, que é para isso que escola serve na vida dos alunos e da sociedade. E fá-lo levando-nos, qual exímio cicerone, a percorrer os caminhos da literatura dinisiana para que descubramos (ou redescubramos) as virtualidades de um género, aqui tão perceptível na “transparência” significante daquilo a que costumo chamar de peças essenciais deste tipo específico de máquina semiótica (a narrativa): as personagens (tantas e inesquecíveis, as principais e as secundárias que se tornaram realmente protagonistas na nossa memória, num todo figurativo da alma humana, com os pares românticos como Margarida/Daniel, Madalena/Augusto, Carlos/Cecília a conquistaram-nos no plano da emoção; mas também com personagens como João Semana, que nos faz ainda sorrir, pelo menos a cada vez que que vamos ao oftalmologista) e a acção, na sua formulação de intriga simples que, porém, nos suspende; ou na cena que se abre em teatralização do acontecer do quotidiano social. 
Neste tour guiado, convida-nos Joaquim Jorge a atentar no manejamento de um dispositivo narrativo gerador de sentidos, não para patentear a sua douta sapiência do universo literário e da respectiva metalinguagem, mas sim para comprovar a natureza ensinável e aprendível de um género assim tão lapidarmente trabalhado, burilado com saber e com intenção, constituindo-se funcionalmente como modelo de leitura operativo de efeito difusor das competências interpretativas. Estas são “ferramentas” ao serviço da aprendizagem de mecanismos de leitura são, sem dúvida, preciosas. O autor da tese assim o afirma, eu subscrevo.
Depois, valorizando concomitantemente a dimensão ético-poética como linha exploratória de pertinência escolar, versa, uma outra parte da análise produzida, sobre esse princípio da inocência que domina a narrativa dinisiana, espécie de manifesto da crença no humano e na sociedade como moldura harmónica possível, de encontro mais do que desencontro, onde até o fosso das desigualdades de classe (protagonizado pelos pares românticos) se dirime numa democrática ascensão social pelo caminho da educação, estratégia de upgrade social que viabiliza a felicidade; e onde todo o mal é erradicável porque passível de “tratamento” pelos valores humanos. 
Ora, como muito bem ressalta Joaquim Jorge, num contexto em que nos queixamos da desvalorização do papel da escola, assim como de comportamentos indisciplinados que obstaculizam o processo de ensino/aprendizagem, seria igualmente interessante aproveitar esta visão moralizante e, sobretudo, optimista para resgatar os alunos da falência de um sentido do percurso escolar, desconstruir perfis discentes problemáticos, desfocando-os de um real em certo sentido rarefeito ao mesmo tempo que brutalizante e convidando-os a entrar na esfera de uma ingénua inocência que é mundo paralelo ficcional, sim, mas que pode ser, como foi noutros enquadramentos epocais, um portal de evasão e redenção de um real demasiado real. 
Numa reunião recente ouvi alguém e outros acenarem que sim com a cabeça: hoje, tudo no ensino tem de passar pela tecnologia ou falhará. Não gosto nada de pensar que a literatura ou quaisquer outros conhecimentos e artes já não valem por si, independentemente do suporte, e que vivemos sob a ditadura da tecnologia; mas dirão alguns que esta puerilidade tocante da obra de Júlio Dinis se apresenta anacrónica face à experiência da contemporaneidade, e por isso não será “adequada”; todavia, como defende esta tese, se bem a entendi, talvez esteja na altura de o cânone escolar “arriscar” ser “desadequada” na medida em que diferente do universo de referências dos alunos, visto ser suposto fomentar o alargamento dos horizontes experienciais e não estreitá-los à mesmice do seu território de conhecimentos. 
Insisto nesta linha da tese do Joaquim Jorge por me ser muito cara: percebo alguma irritação com este quase “tique” didático-pedagógico de “adequar”, que, a mais das vezes, não é mais do que delapidar o património literário e perder oportunidades de aprendizagem. E, curiosamente, logo que comecei a ler este seu livro me apercebi como, ironicamente, ambos percorrêramos vias diferentes, e em certa medida mesmo paradoxais (ele regressou, e bem, à limpidez dos clássicos, eu andei atrás das nebulosas e turbulências de experiências estéticas mais radicais da modernidade, pós-modernidade ou o pós-qualquer-coisa do estilhaçamento da coerência), porém com o objectivo de chegarmos a uma mesma conclusão, que já era, na verdade, pressuposto e premissa que norteava o trabalho de investigação de cada um: a obrigação da escola propiciar experiências de leitura ricas e significantes, porque lhe cabe a missão inalienável de elevar o nível de literacia dos alunos (e futuros cidadãos) para que cumpra a finalidade fundamental de sustentar a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, na medida em que legente, e logo consciente; crítica, e portanto interpelante.   
Devo admitir que a sua proposta será bem mais sustentável em termos de eficácia pedagógica, já que em Júlio Dinis encontra a fórmula ideal da conjunção da substancialidade literária com a simplicidade do estilo e da linguagem; enquanto eu erigi, exacerbadamente, a complexidade como princípio (em detrimento da valorização da construção e da ordem de um sentido gratificante). Reconheço: não podemos partir das debilidades das competências de leitura que diagnosticamos invariavelmente nos nossos alunos para aventuras radicais sem rede. É preciso primeiro saber percorrer caminhos semióticos reconhecíveis, que encontramos, justamente, nos clássicos. Vá, depois dos alunos terem percorrido a tua proposta de caminho, talvez ainda seja possível darem pequenos passos na minha sugestão de viagem com destino incerto. 
Por isso celebro, nesta tese, a clarividência de defender esse norte, uma literatura que seja ponto cardeal orientador, e a coragem de o assumir numa altura em parece que temos de ser todos muito “hipermodernos” ou pautarmo-nos pelos incontornáveis do cânone de sempre e para sempre, mudem quantas vezes mudarem os programas. O Joaquim Jorge sai do alinhamento e sabe que sai, o risco é assumido e não o incomoda; a isto chama-se ter personalidade e convicções, coisa que vai escasseando bastante no acriticismo disfarçado de opinião sem reflexão que grassa um pouco por todo lado.
A tese, agora livro, apresenta, assim, de uma forma tão aprofundada e cientificamente fundamentada quanto clara e acessível à leitura de especialistas e não especialistas na obra de Júlio Dinis e da literatura, as inúmeras potencialidades de uma literatura um tanto esquecida na voragem contemporânea do tempo; e aponta à escola o papel que lhe cabe na abertura à pluralidade quanto à qualidade, basta termos, todos, a “amabilidade” de reivindicar e praticar essa acção transformadora. E, nesse sentido, não posso deixar de sublinhar, finalmente porque estou a chegar ao fim e porque essa face clarifica-se também mais no fecho do livro, o testemunho do professor por detrás do investigador, que dá conta de um percurso de questionamento e de participação activa na reflexão de dentro e por dentro da escola, única dinâmica capaz de gerar a mudança. 
Deixo agora ao autor do livro a crítica da minha crítica, ou melhor, a correcção de alguma incorrecção, pedindo desde já desculpa se o traí em alguma ilação abusiva da sua tese, mas devo dizer que gostei de a ler e descobrir assim, no reencontro de pontos de vista que partilhamos, no desencontro com que posso aprender. Obrigada pela partilha generosa da tua visão do que é o lugar da literatura na escola e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho de investigação que a sustenta e pelo livro que a visibiliza, que, espero, juntamente com o teu contributo colaborativo como formador, a disseminará como semente contagiante de onde possa germinar a valorização do papel essencial da literatura no desenvolvimento pessoal e colectivo.

 Ribeira de Pena, 01-06-2016.
 Inês Castro Silva


 Ribeira de Pena, 15 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos foram colhidas, com a devida vénia, na página da Câmara Municipal de Ribeira de Pena no Facebook.]

Sob o signo da amabilidade


O meu livro Júlio Dinis - As Pupilas do Senhor Escritor (versão - um pouco mais leve - da minha dissertação de Doutoramento em Literatura Portuguesa - Investigação e Ensino) foi apresentado em Ribeira de Pena, no passado dia 01 de Junho de 2016, durante a Feira do Livro do município. Tive a honra e a felicidade de reunir muitos amigos nesta ocasião (e alguns vieram de muito longe). Agradeço-lhes! Agradeço também à Câmara Municipal o apoio dado à edição e, muito particularmente, agradeço à minha distintíssima colega Inês Castro Silva, que fez uma maravilhosa apresentação da obra. 
Aqui inscrevo algumas notas sobre esta professora e investigadora.
Inês Maria de Castro Domingues Silva é licenciada em Ensino de Português pela Universidade do Minho, desde 1998. É Mestre em Mestre em Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa, pela Universidade do Minho, desde 2002, sendo autora de uma dissertação intitulada “AD USUM DELPHINI NON EST. Exercício Crítico Sobre O Delfim de José Cardoso Pires”. É Doutorada em Teoria da Literatura e Literatura Comparada, pela Universidade de Santiago de Compostela, desde 2011, tendo escrito uma dissertação intitulada “DA CONTRAFACÇÃO DA REPRESENTAÇÃO À (IM)POSSIBILIDADE DOS GÉNEROS. Territórios autorais: problemática do desencontro com as práticas de recepção na literatura e no cinema”. É actualmente professora de Português no Agrupamento de Escolas de Ribeira de Pena. Enquanto formadora, tem dinamizado várias acções de formação no âmbito do ensino da Língua e da Literatura. É assessora do Centro de Formação de Basto. Ao longo dos anos, tem desenvolvido vários Projectos de promoção da leitura (de que se destaca o “Pelo livro é que vamos”) e de Clubes de formação/expressão artística (destacando-se o Clube LerArtes, que desenvolveu em Cerva).

Com sua licença, publico no "muito Mar" o texto que a Inês elaborou para aquele momento.









 

SOB O SIGNO DA AMABILIDADE

Apresentar um livro do Joaquim Jorge Carvalho – além de uma responsabilidade, pelo valor de excelência que, na primeira pessoa, posso atestar, pelo estatuto que lhe confere o reconhecimento na esfera escolar (há uma legião de alunos e professores que são seus “fãs” confessos) e, especialmente, na comunidade ribeirapenense, onde tem tido papel relevante na disseminação de ideias e acções de e em prol da cultura, numa lógica polinizadora muito interessante (quantas vezes eu ouvi “o professor Joaquim Jorge… fez…. disse… ensinou-me…) – é, indubitavelmente, um prazer, que tem muito que ver, curiosamente, com um traço que valoriza na literatura de Júlio Dinis: a amabilidade.
Pois é, de todas as muitas coisas abonatórias que poderia dizer sobre a personalidade do Doutor Joaquim Jorge Carvalho, do seu brilhantismo académico, à qualidade manifesta enquanto professor, sem esquecer o seu percurso já feito de escritor, escolho salientar a amabilidade que irradia em todas estas dimensões, articulando essa característica jorgiana com a ênfase dada neste livro a essa feição da obra dinisiana. Só um investigador “amável”, no momento de escolher o tema da sua tese, teria a sensibilidade de pensar a amabilidade da literatura de Júlio Dinis como expressão de uma visão do mundo com bastas potencialidades para preencher algum vazio literário no panorama escolar. 
Já lá iremos, ao vazio e à proposta de um caminho de sentido avançado neste livro, entretanto importa ainda dizer que é igualmente gratificante falar de Júlio Dinis, porque sou da geração dos que o leram e guardo muito boas memórias da sua obra, de que elejo, dos nove que volumes que marcam a verde e dourado a estante (e há também qualquer coisa de nostálgico nestas capas), um top four (embora pudesse ser top five): As Pupilas do Senhor Reitor, A Morgadinha dos Canaviais, Uma Família Inglesa e Os Fidalgos da Casa Mourisca. Vivi uma adolescência iluminada por essa "amabilidade” que o Joaquim Jorge identifica como elemento positivamente diferenciador, porta aberta para um mundo entre o bucólico que ainda reconhecia da minha ruralidade e o ideal de uma humanidade onde os defeitos eram apenas temporários, obstáculos de ser a ultrapassar, “pecadilhos” da insensatez de uma juventude a crescer sem saber por onde, mais remidos por um processo de consciencialização individual do que punidos por uma moral reguladora externa (seja ela religiosa ou social).
E isto leva-nos à tese, plasmada no livro que agora publica, de que essas idiossincrasias da obra de Júlio Dinis corporizam uma ambivalência necessária a um cânone literário escolar, na medida em que: 
- por um lado, tem qualidade literária, fundamental para desenvolver competências essenciais de literacia, até porque enformada numa tessitura discursiva facilitadora, pela forma consistente como desenvolve a narrativa, capaz de envolver e estimular os alunos; 
- por outro lado, apresenta uma moldura ético-poética potenciadora de um sentido reflexivo de impacto na esfera dos valores, transbordante relativamente ao universo das aprendizagens estritamente académicas, mas essencial na formação de jovens adolescentes em projecto de adultos futuros. 
Relativamente ao primeiro desses dois vectores, e regressando à incipiência da substância literária escolar, de facto fomos assistindo – à medida que a escola se ia abrindo necessária e democraticamente à globalidade da população, evolução imposta pela obrigatoriedade que é primeiro que tudo um direito – a uma massificação da escolarização que corresponde, afinal, a apenas meio direito, porquanto falha a também obrigação da qualidade dessa escolarização. Neste cenário do “sim mas não”, um dos aspectos que manifestamente tem feito emperrar a proficuidade das aprendizagens, como bem aponta Joaquim Jorge, sem dúvida que se prende com a erosão do corpus literário dos ensinos básico e secundários, obrigado a travar um combate pelo seu direito de cidadania privilegiada no espaço das aprendizagens escolares. 
E um dos discursos mais nocivos, que a tese sublinha e de que nós próprios, professores, somos culpados, é o da teoria da pretensa adequação: aos “novos tempos” (como se todo o ensino de repente tivesse que rimar com “fixe”, “bué” e “like”), aos perfis dos alunos (heterogéneos, porventura dispersos por uma parafernália de estímulos, não quer dizer que acéfalos); adequação, enfim, a um suposto sucesso (qual?, é que há vários e nem todos válidos). Esta é uma falácia terrível que, efectivamente, foi invadindo os programas, aos ziguezagues das agendas políticas, os manuais e, finalmente, a mente e a prática dos professores. O adequado pode ser bom, não tem de ser paupérrimo, nem tem de se submeter a uma lógica de progressivo estreitamento do espaço do texto literário (que será sempre palco principal das aprendizagens da disciplina de Português), e o investigador/professor evidencia isso com toda a mestria que lhe conhecemos. 
Júlio Dinis, percebemos, não decorre apenas de uma empatia antiga de leitor afeiçoado, ainda que exista essa cumplicidade confessa; este autor foi eleito para análise como foco-exemplo do texto “adequado” que pode e deve ser “bom”, a ser capital cultural acrescentado, que é para isso que escola serve na vida dos alunos e da sociedade. E fá-lo levando-nos, qual exímio cicerone, a percorrer os caminhos da literatura dinisiana para que descubramos (ou redescubramos) as virtualidades de um género, aqui tão perceptível na “transparência” significante daquilo a que costumo chamar de peças essenciais deste tipo específico de máquina semiótica (a narrativa): as personagens (tantas e inesquecíveis, as principais e as secundárias que se tornaram realmente protagonistas na nossa memória, num todo figurativo da alma humana, com os pares românticos como Margarida/Daniel, Madalena/Augusto, Carlos/Cecília a conquistaram-nos no plano da emoção; mas também com personagens como João Semana, que nos faz ainda sorrir, pelo menos a cada vez que que vamos ao oftalmologista) e a acção, na sua formulação de intriga simples que, porém, nos suspende; ou na cena que se abre em teatralização do acontecer do quotidiano social. 
Neste tour guiado, convida-nos Joaquim Jorge a atentar no manejamento de um dispositivo narrativo gerador de sentidos, não para patentear a sua douta sapiência do universo literário e da respectiva metalinguagem, mas sim para comprovar a natureza ensinável e aprendível de um género assim tão lapidarmente trabalhado, burilado com saber e com intenção, constituindo-se funcionalmente como modelo de leitura operativo de efeito difusor das competências interpretativas. Estas são “ferramentas” ao serviço da aprendizagem de mecanismos de leitura são, sem dúvida, preciosas. O autor da tese assim o afirma, eu subscrevo.
Depois, valorizando concomitantemente a dimensão ético-poética como linha exploratória de pertinência escolar, versa, uma outra parte da análise produzida, sobre esse princípio da inocência que domina a narrativa dinisiana, espécie de manifesto da crença no humano e na sociedade como moldura harmónica possível, de encontro mais do que desencontro, onde até o fosso das desigualdades de classe (protagonizado pelos pares românticos) se dirime numa democrática ascensão social pelo caminho da educação, estratégia de upgrade social que viabiliza a felicidade; e onde todo o mal é erradicável porque passível de “tratamento” pelos valores humanos. 
Ora, como muito bem ressalta Joaquim Jorge, num contexto em que nos queixamos da desvalorização do papel da escola, assim como de comportamentos indisciplinados que obstaculizam o processo de ensino/aprendizagem, seria igualmente interessante aproveitar esta visão moralizante e, sobretudo, optimista para resgatar os alunos da falência de um sentido do percurso escolar, desconstruir perfis discentes problemáticos, desfocando-os de um real em certo sentido rarefeito ao mesmo tempo que brutalizante e convidando-os a entrar na esfera de uma ingénua inocência que é mundo paralelo ficcional, sim, mas que pode ser, como foi noutros enquadramentos epocais, um portal de evasão e redenção de um real demasiado real. 
Numa reunião recente ouvi alguém e outros acenarem que sim com a cabeça: hoje, tudo no ensino tem de passar pela tecnologia ou falhará. Não gosto nada de pensar que a literatura ou quaisquer outros conhecimentos e artes já não valem por si, independentemente do suporte, e que vivemos sob a ditadura da tecnologia; mas dirão alguns que esta puerilidade tocante da obra de Júlio Dinis se apresenta anacrónica face à experiência da contemporaneidade, e por isso não será “adequada”; todavia, como defende esta tese, se bem a entendi, talvez esteja na altura de o cânone escolar “arriscar” ser “desadequada” na medida em que diferente do universo de referências dos alunos, visto ser suposto fomentar o alargamento dos horizontes experienciais e não estreitá-los à mesmice do seu território de conhecimentos. 
Insisto nesta linha da tese do Joaquim Jorge por me ser muito cara: percebo alguma irritação com este quase “tique” didático-pedagógico de “adequar”, que, a mais das vezes, não é mais do que delapidar o património literário e perder oportunidades de aprendizagem. E, curiosamente, logo que comecei a ler este seu livro me apercebi como, ironicamente, ambos percorrêramos vias diferentes, e em certa medida mesmo paradoxais (ele regressou, e bem, à limpidez dos clássicos, eu andei atrás das nebulosas e turbulências de experiências estéticas mais radicais da modernidade, pós-modernidade ou o pós-qualquer-coisa do estilhaçamento da coerência), porém com o objectivo de chegarmos a uma mesma conclusão, que já era, na verdade, pressuposto e premissa que norteava o trabalho de investigação de cada um: a obrigação da escola propiciar experiências de leitura ricas e significantes, porque lhe cabe a missão inalienável de elevar o nível de literacia dos alunos (e futuros cidadãos) para que cumpra a finalidade fundamental de sustentar a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, na medida em que legente, e logo consciente; crítica, e portanto interpelante.   
Devo admitir que a sua proposta será bem mais sustentável em termos de eficácia pedagógica, já que em Júlio Dinis encontra a fórmula ideal da conjunção da substancialidade literária com a simplicidade do estilo e da linguagem; enquanto eu erigi, exacerbadamente, a complexidade como princípio (em detrimento da valorização da construção e da ordem de um sentido gratificante). Reconheço: não podemos partir das debilidades das competências de leitura que diagnosticamos invariavelmente nos nossos alunos para aventuras radicais sem rede. É preciso primeiro saber percorrer caminhos semióticos reconhecíveis, que encontramos, justamente, nos clássicos. Vá, depois dos alunos terem percorrido a tua proposta de caminho, talvez ainda seja possível darem pequenos passos na minha sugestão de viagem com destino incerto. 
Por isso celebro, nesta tese, a clarividência de defender esse norte, uma literatura que seja ponto cardeal orientador, e a coragem de o assumir numa altura em parece que temos de ser todos muito “hipermodernos” ou pautarmo-nos pelos incontornáveis do cânone de sempre e para sempre, mudem quantas vezes mudarem os programas. O Joaquim Jorge sai do alinhamento e sabe que sai, o risco é assumido e não o incomoda; a isto chama-se ter personalidade e convicções, coisa que vai escasseando bastante no acriticismo disfarçado de opinião sem reflexão que grassa um pouco por todo lado.
A tese, agora livro, apresenta, assim, de uma forma tão aprofundada e cientificamente fundamentada quanto clara e acessível à leitura de especialistas e não especialistas na obra de Júlio Dinis e da literatura, as inúmeras potencialidades de uma literatura um tanto esquecida na voragem contemporânea do tempo; e aponta à escola o papel que lhe cabe na abertura à pluralidade quanto à qualidade, basta termos, todos, a “amabilidade” de reivindicar e praticar essa acção transformadora. E, nesse sentido, não posso deixar de sublinhar, finalmente porque estou a chegar ao fim e porque essa face clarifica-se também mais no fecho do livro, o testemunho do professor por detrás do investigador, que dá conta de um percurso de questionamento e de participação activa na reflexão de dentro e por dentro da escola, única dinâmica capaz de gerar a mudança. 
Deixo agora ao autor do livro a crítica da minha crítica, ou melhor, a correcção de alguma incorrecção, pedindo desde já desculpa se o traí em alguma ilação abusiva da sua tese, mas devo dizer que gostei de a ler e descobrir assim, no reencontro de pontos de vista que partilhamos, no desencontro com que posso aprender. Obrigada pela partilha generosa da tua visão do que é o lugar da literatura na escola e, mais uma vez, parabéns pelo trabalho de investigação que a sustenta e pelo livro que a visibiliza, que, espero, juntamente com o teu contributo colaborativo como formador, a disseminará como semente contagiante de onde possa germinar a valorização do papel essencial da literatura no desenvolvimento pessoal e colectivo.

 Ribeira de Pena, 01-06-2016.
 Inês Castro Silva


 Ribeira de Pena, 15 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos foram colhidas, com a devida vénia, na página da Câmara Municipal de Ribeira de Pena no Facebook.]

sábado, 11 de junho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (42)

Prova de vida

O cérebro humano é caprichoso e gosta de pregar partidas. O meu, em contramão temática com o Sol maravilhoso destes dias, deu em trazer-me lapsos cinematográficos de gente traiçoeiramente falecida. Ora me aparece o meu Pai olhando pelos meus olhos para o trote gracioso de uma turista em Coimbra; ora é o meu cunhado Zé Manel ironicamente sorrindo pela minha boca enquanto um conhecido comum fala de grandes conquistas e de mundiais projectos; ora é o meu amigo Conceição acenando com a minha mão a um velhote divertido do nosso bairro; ora é o meu sogro, Mestre João, falando pelas minhas palavras sobre a complexidade, a singularidade e a infinita riqueza da condição humana, homens e mulheres sofrendo-temendo-tremendo-desistindo-resistindo-sonhando-sendo (nem sempre por esta ordem).
Não por acaso, creio, ouvi falar, em conversa recente, da questão de os idosos terem de, regularmente, fazer “prova de vida” ao Estado. A obrigação previne ilegalidades e abusos: o benefício, sob a forma de pensão ou reforma, só é válido enquanto o beneficiário estiver vivo (e, acrescento eu, enquanto a direita não volta ao poder).
Da conversa ficou-me essa extraordinária expressão: “prova de vida”. Quando me lembro de quem fez parte da minha existência - gente muitíssimo vizinha dos meus dias mais verdadeiros - e partiu, que outro modo haverá para nomear esse fenómeno de, não obstante a morte, eu continuar a sentir a sua companhia?
O meu cérebro, que é a verdadeira Casa desses gigantes míticos a que chamamos Memória, Alma, Consciência, teima em salvar do Fim quem me é consubstancial. Sonho com eles, lembro-me deles, falo deles, escrevo sobre eles – e isto são provas de vida, se me dão licença.
A conclusão não é bem que não há morte. É sobretudo que o amor dá bastante luta ao apagamento. Falo por mim. Como vos digo, estou sempre a recordar-me da minha gente amada e nunca deixa de se dar este milagre: enquanto não morro, os que partiram – acreditai se fordes capazes - não morrem.

Vila Real, 04 de Junho de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 09 de Junho de 2016.]

sábado, 4 de junho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (41)

A poesia serve para quê?


Estive, há dias, em duas escolas de Anadia, a convite de uma querida Amiga, para falar de poesia. A minha comunicação, destinada a alunos do 7.º ano de escolaridade, intitulou-se “A poesia serve para quê?” e procurou, como retoricamente se adivinhará, equacionar o interesse e a utilidade do texto poético. 
Falei-lhes de linguagem (capacidade eminentemente humana de comunicar), de língua (código, sistema de signos), de fala (mar onde desaguam os dois conceitos anteriores, i.e., uso competente e eficaz das palavras). Disse-lhes que, como os computadores, o nosso cérebro apre(e)nde, todos os dias, novos vocábulos, e que os vocábulos servem para diferentes níveis de comunicação verbal: um imediato, feito sobretudo de informação utilitária, de fins essencialmente práticos; outro mais complexo e misterioso, que envolve a expressão profunda de ideias e emoções e a concomitante percepção, por quem escreve e por quem lê, de instantes de absoluta Beleza e de absoluta Verdade. 
Expliquei-lhes, com exemplos, que a Língua com que adquirimos batatas é, no fundo, a mesma com que dizemos o amor, as angústias, a esperança, os medos, os sonhos, a urgência de ser feliz. E lembrei-lhes que só o uso competente, sábio, estético do idioma alcança os patamares de sentido que sobem (ou descem) realmente ao caroço das coisas. 
Através de um pequeno jogo leitor, que pôs a dialogar um pequeno texto narrativo com apontamentos (em verso) sobre a acção relatada, o público percebeu o alcance - a utilidade, o interesse - da poesia enquanto linguagem capaz de dizer segredos d’alma, discursos que vão além (ou aquém) da casca vulgar dos dias. 
Recordei, uma vez mais, aquela espécie de refrão que amiúde ouvimos nos telejornais, quando as pessoas, em paroxismos de infelicidade ou nos píncaros da alegria mais pura, confessam a dificuldade de descrever o que sentem e dizem: ”Não há palavras!”. Assegurei-lhes que há, sim, palavras, mas que têm de ser especiais, originais, profundas, condignamente carregadas de emoção e de beleza. 
No final da sessão, uma menina pediu à sua professora que a levasse à minha presença. Para – disse-mo depois – me cumprimentar e me agradecer a sessão. E eu, que sou pobre em quase tudo menos em livros e gente querida, respondi-lhe ali com a máxima espontaneidade: “Eu é que agradeço.”


Ribeira de Pena, 31 de Maio de 2016. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-06-2016.]

ZONA DE PERECÍVEIS (40)


A lição dos lepidópteros
Chego cansado à sala de professores, respirando pesadamente, com ar (calculo eu) muito aéreo. Carrego três sacos – e é fácil divisar, entre a mercearia dos adereços, casacões do século passado, saias de rancho folclórico, duas bengalas, um chapéu de palha, duas blusas (uma delas – a minha mulher que não saiba disso – ainda nova, por estrear), um candeeiro com pé alto, duas perucas a imitar as de magistrados ingleses. Os meus alunos de teatro, por seu turno, trazem também roupa, bigodes postiços, tintas para o rosto, boinas dos avós e até uma boneca deitada num berço verdadeiro (a Soraia garantiu que o brinquedo dizia “papá, mamã”, mas sobreveio-lhe um mutismo de última hora, talvez por falta de pilhas). 
Ensaiamos à tarde, no último bloco lectivo. A ideia é apresentar o espectáculo no final do período. Andamos todos entusiasmados e receosos, em ondas mais ou menos regulares e simétricas. Eu finjo que não estou zangado com quem não sabe ainda o texto e se esquece das marcações ensaiadas. Sei, por experiência própria, que os actores (novos e velhos; amadores e profissionais) precisam de muita paciência e de muito mimo, sobretudo nas vésperas da récita. Se me arrogasse o direito de lhes gritar, ai de mim, correria o risco de eles se demitirem do projecto no mesmo instante. Aguento, portanto, as suas falhas estoicamente, corrijo-os sorrindo, felicito-os por terem melhorado (mesmo que não). 
“Este trabalho todo”, diz a Soraia, “por uma coisa que dura só uns 30 minutos!” 
Digo-lhe, uma vez mais, que tem razão. E a todos volto a falar da vida das larvas e do voo delicado e breve das borboletas. Porque a nossa viagem tem muito da biografia lepidóptera: casulos de paciência, sonhos larvares. Para voarmos, temos, antes, de rastejar humildemente pelo chão do mundo; para sermos belos e únicos, temos, antes, de preparar diligentemente o milagre da nossa própria transformação, do nosso próprio crescimento. 
Cumprimos dezenas e dezenas de horas de treino, de ensaio, de aperfeiçoamento pessoal e colectivo, de organização, de coordenação. Uma sinfonia faz-se de muitos sons, de variados instrumentos, de múltiplas notas e estilos - mas só é sinfonia se, no conjunto, se produzir obra com sentido, que traga à chã humanidade sinais do divino som que, mal o sabendo, buscamos e necessitamos. Ensaiamos, ensaiamos, ensaiamos. (Em francês, não por acaso, “ensaiar” diz-se “répéter”.)
A ironia de todo este processo está no facto de um espectáculo levar tantas horas a ser preparado e, afinal, tudo se concretizar nuns trinta-quarenta minutos de função. Depois, acaba. Acaba? Não bem. Demorará até que perdure - nos olhos, nos ouvidos, no coração das gentes – a memória emocionada de um voo lepidóptero. 
O meu clube de Teatro, senhores, é um amável casulo.

Coimbra, 23 de Maio de 2016. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-05-2016.]

domingo, 29 de maio de 2016

In memoriam Senhora Dona Lurdes Monteiro


A senhora Dona Lurdes Monteiro, vizinha e Amiga há 53 anos, partiu. Há menos de um ano, partira já o senhor Luís Monteiro, seu marido. Há mortes que são ainda mais a Morte. Não é só de mortalidade que falo. Falo, compreendei, do desaparecimento de gente essencial que faz parte da paisagem que nos rodeia desde sempre. Pedaços de permanência que afinal não. Eternidade que afinal sofria também de finitude.
A Dona Lurdes era, em primeiro lugar, uma amável Senhora porque - percebi eu - era Amiga de minha Mãe. Depois, porque era culta, bondosa, serena, sensata. Amiga de meus irmãos. Minha Amiga também. Devo-lhe, entre outras dádivas, o alimento literário que, em boa parte, fez de mim o leitor que sou - e talvez o escritor (ou escrevinhador) que não consegui deixar de ser. Emprestou-me muita literatura. A imagem que ilustra este texto é a de um livro que me ofereceu (na verdade, o meu primeiro livro "a sério"). Ao meu irmão Tó, na mesma ocasião, ofereceu A Ilha do Tesouro, do Stevenson, que eu igualmente li e que, ai de mim, preferi a todos os outros que até ai lera.
A Dona Lurdes foi também verdadeira Amiga da MP e da nossa filha, a VL.
E é à minha Vânia Carvalho que vou buscar um belo texto. Linhas que formosamente falam, por todos nós, sobre a dor que é ver partir alguém como esta Senhora. Dou-lhe a palavra, com o seu consentimento, para dizer adeus a uma grande Amiga.


"Hoje é um dia muito escuro. 
Há uma senhora, da minha infância, da minha adolescência, da minha juventude, que sempre teve um orgulho quase de avó em mim. Uma verdadeira Senhora, outrora professora primária, vizinha-amiga daquelas à antiga, que rejubilava com cada feito pessoal e académico meu. Que fez questão de ser ela a oferecer-me a minha pasta académica que durante tantos anos me acompanhou. Que fez questão de me oferecer as fitas. Que fez questão de, quando me formei, me chamar a casa dela e dar-me flores e um abraço genuinamente emocionado.
Essa senhora partiu. Mas eu vou continuar a dar-lhe motivos de orgulho. Adeus, Dona Lurdes."

[Facebook, 29-05-2016.]

Coimbra, 29 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Correndo vai para a festa



Li e analisei, com os meus alunos do 8.º ano, o poema de Camões "Descalça vai para a fonte". Divertimo-nos, depois, a escutar o "Poema da autoestrada", de António Gedeão, que alegremente glosou o camarada Luís. Finalmente, no seguimento de sugestão das autoras do manual, inventámos novos motes e tentámos fabricar novas composições de jaez semelhante. Enquanto esperava que os alunos concluíssem as suas, elaborei eu próprio esta que, a seguir, aqui deixo. (O mote é: "Correndo vai para a festa / Com uma fita na testa.")

Correndo vai para a festa
Com uma fita na testa.

Apressada, bem a vejo
Nem o banho ela tomou!
Cheira à roupa que usou
Ou a cadáver de queijo.

Correndo vai para a festa
Com uma fita na testa.

Nem por ser tão elegante
É melhor o seu odor.
Alguém lhe dê, por favor,
Um bom desodorizante!

Minha amada não é esta:
Correndo saio da festa.

Arco, 25 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.usazeitaoliteratura.blogspot.com.]


Pão sobre jornal



À hora de pagar o almoço, ao balcão do restaurante, diviso um cesto de pão sobre o jornal da terra. O título é "Ecos de" mais o nome da região. Mas o nome da região estava tapado pelo pão. O que li, naquele instante em que olhei para a primeira página do jornal, foi isto: "Ecos de pão". A expressão, convenhamos, dava um belo título para um livro de poesia (ou de crónicas).

Arco de Baúlhe, 25 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Cavalho

sexta-feira, 20 de maio de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (39)



Mexia, Sophia e o Mexilhão

António Mexia, o senhor CEO da EDP, saiu-se há pouco tempo com mais esta pérola: as tarifas sociais da electricidade não devem ser financiadas pelo gigante que ele administra. Por razões de “justiça” (sic), devem ser suportadas pelo Estado ou pelos consumidores não beneficiários de quaisquer descontos. 

As declarações não são apenas (mais) uma chinesice. Traduzem o pensamento do abastado português ao leme da EDP, tendo chegado numa semana em que se soube dos lucros obtidos pela empresa (mais 11% no primeiro trimestre do que no período homólogo anterior) e da remuneração bestial do cidadão Mexia (3,1 milhões de euros anuais, sendo o executivo mais bem pago do PSI-20). 
Não estou qualificado para discutir a noção de “justiça” no contexto – mui enviesado – da economia que o capitalismo internacional tão religiosamente defende. Por razões de higiene, prefiro sorrir, afastar-me e tapar o nariz. Mas considero espantoso que hoje, num país cheio de desempregados e de gente mal paga, haja quem se arrogue o direito de falar em “injustiças” referindo-se ao dinheiro gasto com quem mais precisa. O facto de o CEO da EDP ser português torna aquela homilia caricatural e, do lugar de onde a vejo, pornográfica. 
O cinismo mundial parece autorizar, aos Mexias do nosso pobre Presente, raciocínios amorais deste jaez e, num cúmulo de indecência, oferece-lhes até tribuna mediática para fazerem pedagogia sobre o pântano em que triunfantemente (quero dizer: fartamente, obesamente, desmesuradamente) engordam. 
Quando se celebrar o Dia Mundial da Hipocrisia, ainda espero ouvir o senhor Mexia a declamar, em cerimónia patrocinada por um grupo económico qualquer, decerto com uma lágrima chique ao canto do olho, certos versos de Sophia: "«Ganharás o pão com o suor do teu rosto» / Assim nos foi imposto / E não: / «Com o suor dos outros ganharás o pão.»" Está isto num poema intitulado “As pessoas sensíveis”, que termina assim: “Ó vendilhões do templo / Ó construtores / Das grandes estátuas balofas e pesadas / Ó cheios de devoção e de proveito / Perdoais–lhes, Senhor / Porque eles sabem o que fazem.” 

Nota final (com rima inesperada): esta crónica foi escrita à noite, à luz de um candeeiro modesto, antes da releitura de um belo volume de poesia intitulado Livro Sexto. Comove-me a ideia de que manter a luz acesa para ler Sophia também contribui para a abastança do senhor Mexia.

Vila Real, 14 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-05-2016.]

domingo, 8 de maio de 2016

A mercearia exemplar (uma alegoria da comunicação)



O senhor Silva é o merceeiro mais antigo da vila. Um ano depois de se ter casado com a menina Maria Paciência, inaugurou o estabelecimento, numa cerimónia simples, mas agradável, que meteu o presidente da junta, Horácio Honrado, o padre Asdrúbal, a professora primária, Dona Vanda Vidas, alguns amigos e também, já depois dos discursos, muita população – gente curiosa face à novidade e que não queria perder os rissóis e os bolos de bacalhau à disposição, nem o vinho (tinto ou branco) servido pela mãe do proprietário em generosas canecas de barro.
Ao longo de quatro décadas, houve muitas mercearias inauguradas na vila, mas o negócio do senhor Silva resistiu exemplarmente à concorrência, tornando-se numa espécie de instituição local, que nem o centro comercial nascido, no início do século XXI, conseguiu derrubar.
Os clientes mais velhos dizem que o segredo do sucesso está sobretudo na forma como o senhor Silva trata os clientes. Apesar de não ter passado da 4ª classe, o merceeiro – já septuagenário, hoje – é um mestre na mui necessária e delicada arte de bem tratar quem entra na sua loja. Ele dá voz aos interlocutores, espera serenamente a vez de também falar, evita o ruído, usa o tom de voz adequado – e, se vier a propósito, solta uma gargalhada franca, dá um abraço cúmplice, ou deixa o útil manto do silêncio descer sobre a conversa.
A dona Glória, esposa do senhor José da Farmácia, diz que o senhor Silva é um cavalheiro e que, para além de muito bem-educado, sabe comunicar com as pessoas. E, diga-se, a dona Glória nem sempre é uma cliente fácil…
DONA GLÓRIA (com modo afectado, senhoril): Senhor Silva, algumas castanhas tinham bicho!
SR. SILVA (com sincera simpatia): Não me diga! Lamento muito, dona Glória, sinceramente.
DONA GLÓRIA:  O meu Zé ficou muito aborrecido, sabe?
SR. SILVA: E com inteira razão, dona Glória! Quando eu vou à farmácia, ele também não me dá remédios estragados…
DONA GLÓRIA (sorrindo, evidentemente satisfeita com a resposta): Exactamente. Ora ainda bem que percebe…
SR. SILVA: Sem dúvida! Hei-de transmitir ao meu fornecedor a sua informação, dona Glória.
DONA GLÓRIA (já com um tom de voz amigável, cúmplice): Uma pessoa, assim, sente-se enganada.
SR. SILVA: Compreendo, dona Glória. Espero que a próxima remessa já seja do seu agrado. (Sorri.) Mas, em compensação, a senhora já viu o aspecto maravilhoso destas maçãs?
DONA GLÓRIA (muito interessada): Na verdade…
O senhor Vítor Valadas, comandante da esquadra da GNR, não troca a mercearia do senhor Silva por nada deste mundo. Para comprar uma caixa de fósforos, alguns quilos de bacalhau ou um saco de carvão, é à loja mais antiga da vila que o militar recorre.
VÍTOR VALADAS (em tom de voz grave): Bom dia, Sô Silva.
SR. SILVA (com simpatia): Senhor comandante, como está?
VÍTOR VALADAS: Cá vamos andando.
SR. SILVA: É o que é preciso. Se possível, com saúde.
VÍTOR VALADAS: Então o Boavista lá ganhou, hã?
SR. SILVA: É verdade. E ainda bem!
VÍTOR VALADAS (como se tivesse sido ofendido): Ainda bem?! O senhor sabe que eu sou adepto da Académica. A vitória do Boavista foi o pior que me podia acontecer!
SR. SILVA (serenamente): Compreendo. Foi mau para o seu lado, na verdade. Mas, sabe, o meu cunhado é boavisteiro… O senhor conhece-o.
VÍTOR VALADAS (serenando): Claro que conheço. É o Tó das Finanças.
SR. SILVA: Ele mesmo. Bom homem…
VÍTOR VALADAS (voltando ao assunto com paixão): Mas a Académica é um histórico, ó sô Silva!
SR. SILVA (com entusiasmo): Absolutamente. No futebol português, trata-se quase de “um grande”…
VÍTOR VALADAS (indignado): Quase? A Académica é mesmo um grande, sô Silva!
SR. SILVA (serenamente): Tem alguma razão. É um grande também, se pensarmos no prestígio…
VÍTOR VALADAS (satisfeito com o discurso do interlocutor): Na tradição!
SR. SILVA: Isso mesmo, na tradição. (Sorri.) E, por falar em tradição, ó senhor comandante, este fiambre que aqui leva é do mais tradicional e baratinho do mercado!
VÍTOR VALADAS (curioso e satisfeito): Por acaso, tem bom aspecto…
Ao longo de 40 anos, poucas vezes o senhor Silva teve de se indispor, tão clara é a sua vontade de agradar aos clientes, sempre em nome da boa convivência e do negócio. Houve aquele episódio com o senhor Marco Martelo, ex-oficial da marinha, que andara 30 anos sem beber e, depois da reforma, dera em embriagar-se quase diariamente. Quando vinha à mercearia comprar tabaco, aí pelas 4 da tarde, já tresandava a vinho ou cerveja e qualquer pretexto servia para iniciar uma ruidosa discussão com quem lhe aparecesse à frente.
MARCO MARTELO (falando alto, rudemente): No centro comercial, o tabaco está 5 cêntimos mais barato, ó sô Silva!
SENHOR SILVA (falando amigavelmente): A sério, senhor Martelo?
MARCO MARTELO (com alguma agressividade): A sério, sim! Eu quando falo é a sério!
SENHOR SILVA (sempre sereno): Não duvido, senhor Martelo. Mas, sabe, eu pratico os preços que vêm no contrato com a distribuidora. Nem mais, nem menos.
MARCO MARTELO (cortante, rude): Eu não quero saber do seu paleio, homem!
SENHOR SILVA (pacientemente): E faz bem. O que interessa mesmo é o que o senhor pensa do assunto.
MARCO MARTELO (agressivamente): Não gosto de ser roubado, ó sô Silva!
SENHOR SILVA (sereno, mas igualmente assertivo, em tom de voz muito sério): Ninguém gosta, meu amigo. Mas escusa de gritar, senhor Martelo, porque até me assusta a clientela…
MARCO MARTELO (berrando): Grito o que me apetecer! O senhor saiu-me um bom vigarista!
SENHOR SILVA (solene): Não diga isso, senhor Martelo! O senhor conhece-me, sabe que sou uma pessoa honesta e decente.
MARCO MARTELO (rudemente): Isso é o que você diz! Olhe, dê-me cá dois maços de tabaco, que eu já me estou a irritar com a conversa!
SENHOR SILVA (calmamente): Não se irrite, senhor Martelo. Aqui estão os dois maços que pediu.
MARCO MARTELO (ameaçador): Vai fazer-me o preço que eu pago no centro comercial, não vai?
SENHOR SILVA (calma e assertivamente): Isso é que não pode sr. Para ter esse preço, terá mesmo de ir ao centro comercial, senhor Martelo. Aqui está o troco.
A história não acabou aqui. No dia seguinte, logo pela manhã, o senhor Silva deixou a esposa ao balcão da mercearia e foi ao Café Central. Aí encontrou, como calculara, o Marco Martelo e, no tempo de beber um café, disse-lhe muito assertivamente:
SR. SILVA: Ontem, o senhor Martelo estava bêbedo e tratou-me mal. Queria que, agora, em seu juízo, me pedisse desculpa e me prometesse que aquilo não volta a acontecer.
O ex-oficial da marinha começou por sorrir.
MARCO MARTELO: Isso é mesmo necessário, sô Silva?
SR. SILVA: É mesmo necessário, sim. Custava-me muito perder um cliente, mas tão-pouco posso perder a dignidade, senhor Martelo.
Marco Martelo deu-se conta do ar solene do merceeiro e, fosse pela amizade, fosse para evitar a proibição de entrar, daí em diante, na loja, respondeu:
MARCO MARTELO: Aquilo foi o vinho. Desculpe-me, sô Silva. E o seu café, faço questão, pago eu!
O presidente da Junta, neto daquele que, há 40 anos, estivera na inauguração da mercearia, admira a maneira de ser do senhor Silva. Diz-lhe às vezes:
PRESIDENTE DA JUNTA: O senhor, se tem estudado em novo, era diplomata.
A isto responde o merceeiro:
SR. SILVA: Na vida, todos temos de ser um pouco diplomatas. Às vezes, zangamo-nos mais por causa da forma como dizemos as coisas do que por causa das coisas que dizemos.
PRESIDENTE DA JUNTA: Tem muita razão! E assim se consegue manter uma sã convivência, não é verdade?
SR. SILVA: Sem dúvida. Uma sã convivência e um são negócio!
Ouve-se muitas vezes falar de serviço público – na rádio e na televisão, por exemplo. Por mim, quando ouço falar desse tema, lembro-me do senhor Silva ao balcão da sua loja: sereno, afável. competente, com um eterno sorriso na boca, nos olhos, nas palavras. É um homem que sabe comunicar. Comunicar, etimologicamente, significa “pôr em comum”.

FIM

Joaquim Jorge Carvalho
Ribeira de Pena, 08 de Maio de 2016.

ZONA DE PERECÍVEIS (38)


Maior que o pensamento

A palavra “amigo” merece que a poupemos à poluição industrial. Deve ser usada com parcimónia, prudência, critério. Levado isto à letra, como deve ser, tende a verificar-se que amigos há, numa inteira vida humana, poucos. Falo, naturalmente, de amigos verdadeiros, inteiros – gente que deveio nossa irmã, às vezes mais do nosso sangue que os do nosso sangue.
Não há matemática que exactamente diga quanto tempo leva a fazer (corrijo: quanto tempo leva a acontecer) um amigo. A minha experiência pessoal tem-me ensinado que é preciso muito calendário para se ganhar alguém digno desse substantivo tão nobre. Contudo, já ouvi dizer, a quem passou pelo universo da guerra (ou da doença, ou da multímoda miséria de certas vidas), que é possível, em apenas alguns dias, alguns meses, alguns anos, nascer-nos uma amizade para sempre. Não duvido destes testemunhos. Mas creio que, nestes casos, é o próprio tempo a acrescentar-se, por força da tantíssima humanidade ali à prova, de uma densidade e de um significado inevitavelmente excepcionais. Tempo concentrado e essencial, digamos assim, mais valioso que o da normalidade cronológica da maioria.
Tive oportunidade, há dias, de estar numa reunião de gente (já) antiga, num alegre convívio, que meteu conversa, homenagens, futebol, comida & bebida, música. Estive com amigos e com gente muito vizinha desse patamar ínclito dos afectos. Confirmei duas coisitas que valerá a pena reter:
a)    os amigos são um tesouro para guardar e aproveitar;
b)    não é um desperdício investir tempo na conquista - dificultosa, delicada - de novos (bons) amigos.
Deixo-vos isto como, digamos assim, um aviso. E, como sabeis, quem vos avisa…

Vila Real, 02 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-05-2016.]

sábado, 30 de abril de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (37)

A autoridade dos autores

Milan Kundera (salvo erro, no romance A Imortalidade) fala da angústia que um homem sente perante a possibilidade de, morrendo, não ter mão no seu legado circunstancial: objectos, cartas, documentação vária. Sobretudo, sublinho eu, textos por depurar ou destruir.
A noção de mortalidade convive, a esse nível, com a noção de devir para além do próprio fim. O drama percebe-se melhor, creio, se visto do ângulo de quem tem esse hábito (aliás, essa pulsão) da escrita. A essa gente assusta a simples hipótese de os leitores vindouros tomarem por importante o que foi transitório e, afinal, do ponto de vista do criador, irrelevante. Ou de, perante um borrão literário (um esboço, um rascunho, uma proto-ideia de escrita), se desiludirem com a aparente incipiência do autor falecido.
Não me parece que o maior medo decorra de uma – ainda assim, natural – ilusão de importância que o autor atribua à sua obra. É antes uma questão de dignidade. De auto-respeito, naturalmente, mas em especial de tributo à literatura que quis servir.
Muitos dos nossos autores já mortos indignar-se-iam decerto com as edições póstumas que a gula de famílias e editores fez publicar, ao arrepio provável da vontade escriba.
Eu, que sou a milésima migalha dos meus escritores amados, adquiri recentemente o hábito de deitar para o lixo ou ao fogo alguns textos (antigos ou recentes). São coisas da minha lavra, sim, mas demasiado más – aos meus olhos – para serem lidas. Demasiado más para serem a literatura que eu quis, que eu imaginei em determinada ocasião.
Visível ou invisível, a matéria escrita tem que ver com a noção muito lata de autoridade: somos autores do que mostramos e do que, por opção (exercível enquanto estamos vivos), não deixamos os outros ver.

Ribeira de Pena, 24 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-04-2016.]

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Lesma Não


Antes Ícaro insurgente

Até cair

Que lesma prudente


A desistir.


Vila Real, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jtogarcia.blog.com.]

Lirismo capilar


Quando eu não via crescer
Os pelos do meu nariz

(Se calhar, eles cresciam
Mas nem se viam)

Eu só estava a viver
E era feliz.

Vila Real, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em lhttp://www.diogeneshumor.blogspot.com.]