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Número de Ondas

sábado, 4 de junho de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (41)

A poesia serve para quê?


Estive, há dias, em duas escolas de Anadia, a convite de uma querida Amiga, para falar de poesia. A minha comunicação, destinada a alunos do 7.º ano de escolaridade, intitulou-se “A poesia serve para quê?” e procurou, como retoricamente se adivinhará, equacionar o interesse e a utilidade do texto poético. 
Falei-lhes de linguagem (capacidade eminentemente humana de comunicar), de língua (código, sistema de signos), de fala (mar onde desaguam os dois conceitos anteriores, i.e., uso competente e eficaz das palavras). Disse-lhes que, como os computadores, o nosso cérebro apre(e)nde, todos os dias, novos vocábulos, e que os vocábulos servem para diferentes níveis de comunicação verbal: um imediato, feito sobretudo de informação utilitária, de fins essencialmente práticos; outro mais complexo e misterioso, que envolve a expressão profunda de ideias e emoções e a concomitante percepção, por quem escreve e por quem lê, de instantes de absoluta Beleza e de absoluta Verdade. 
Expliquei-lhes, com exemplos, que a Língua com que adquirimos batatas é, no fundo, a mesma com que dizemos o amor, as angústias, a esperança, os medos, os sonhos, a urgência de ser feliz. E lembrei-lhes que só o uso competente, sábio, estético do idioma alcança os patamares de sentido que sobem (ou descem) realmente ao caroço das coisas. 
Através de um pequeno jogo leitor, que pôs a dialogar um pequeno texto narrativo com apontamentos (em verso) sobre a acção relatada, o público percebeu o alcance - a utilidade, o interesse - da poesia enquanto linguagem capaz de dizer segredos d’alma, discursos que vão além (ou aquém) da casca vulgar dos dias. 
Recordei, uma vez mais, aquela espécie de refrão que amiúde ouvimos nos telejornais, quando as pessoas, em paroxismos de infelicidade ou nos píncaros da alegria mais pura, confessam a dificuldade de descrever o que sentem e dizem: ”Não há palavras!”. Assegurei-lhes que há, sim, palavras, mas que têm de ser especiais, originais, profundas, condignamente carregadas de emoção e de beleza. 
No final da sessão, uma menina pediu à sua professora que a levasse à minha presença. Para – disse-mo depois – me cumprimentar e me agradecer a sessão. E eu, que sou pobre em quase tudo menos em livros e gente querida, respondi-lhe ali com a máxima espontaneidade: “Eu é que agradeço.”


Ribeira de Pena, 31 de Maio de 2016. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 02-06-2016.]

ZONA DE PERECÍVEIS (40)


A lição dos lepidópteros
Chego cansado à sala de professores, respirando pesadamente, com ar (calculo eu) muito aéreo. Carrego três sacos – e é fácil divisar, entre a mercearia dos adereços, casacões do século passado, saias de rancho folclórico, duas bengalas, um chapéu de palha, duas blusas (uma delas – a minha mulher que não saiba disso – ainda nova, por estrear), um candeeiro com pé alto, duas perucas a imitar as de magistrados ingleses. Os meus alunos de teatro, por seu turno, trazem também roupa, bigodes postiços, tintas para o rosto, boinas dos avós e até uma boneca deitada num berço verdadeiro (a Soraia garantiu que o brinquedo dizia “papá, mamã”, mas sobreveio-lhe um mutismo de última hora, talvez por falta de pilhas). 
Ensaiamos à tarde, no último bloco lectivo. A ideia é apresentar o espectáculo no final do período. Andamos todos entusiasmados e receosos, em ondas mais ou menos regulares e simétricas. Eu finjo que não estou zangado com quem não sabe ainda o texto e se esquece das marcações ensaiadas. Sei, por experiência própria, que os actores (novos e velhos; amadores e profissionais) precisam de muita paciência e de muito mimo, sobretudo nas vésperas da récita. Se me arrogasse o direito de lhes gritar, ai de mim, correria o risco de eles se demitirem do projecto no mesmo instante. Aguento, portanto, as suas falhas estoicamente, corrijo-os sorrindo, felicito-os por terem melhorado (mesmo que não). 
“Este trabalho todo”, diz a Soraia, “por uma coisa que dura só uns 30 minutos!” 
Digo-lhe, uma vez mais, que tem razão. E a todos volto a falar da vida das larvas e do voo delicado e breve das borboletas. Porque a nossa viagem tem muito da biografia lepidóptera: casulos de paciência, sonhos larvares. Para voarmos, temos, antes, de rastejar humildemente pelo chão do mundo; para sermos belos e únicos, temos, antes, de preparar diligentemente o milagre da nossa própria transformação, do nosso próprio crescimento. 
Cumprimos dezenas e dezenas de horas de treino, de ensaio, de aperfeiçoamento pessoal e colectivo, de organização, de coordenação. Uma sinfonia faz-se de muitos sons, de variados instrumentos, de múltiplas notas e estilos - mas só é sinfonia se, no conjunto, se produzir obra com sentido, que traga à chã humanidade sinais do divino som que, mal o sabendo, buscamos e necessitamos. Ensaiamos, ensaiamos, ensaiamos. (Em francês, não por acaso, “ensaiar” diz-se “répéter”.)
A ironia de todo este processo está no facto de um espectáculo levar tantas horas a ser preparado e, afinal, tudo se concretizar nuns trinta-quarenta minutos de função. Depois, acaba. Acaba? Não bem. Demorará até que perdure - nos olhos, nos ouvidos, no coração das gentes – a memória emocionada de um voo lepidóptero. 
O meu clube de Teatro, senhores, é um amável casulo.

Coimbra, 23 de Maio de 2016. 
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-05-2016.]

domingo, 29 de maio de 2016

In memoriam Senhora Dona Lurdes Monteiro


A senhora Dona Lurdes Monteiro, vizinha e Amiga há 53 anos, partiu. Há menos de um ano, partira já o senhor Luís Monteiro, seu marido. Há mortes que são ainda mais a Morte. Não é só de mortalidade que falo. Falo, compreendei, do desaparecimento de gente essencial que faz parte da paisagem que nos rodeia desde sempre. Pedaços de permanência que afinal não. Eternidade que afinal sofria também de finitude.
A Dona Lurdes era, em primeiro lugar, uma amável Senhora porque - percebi eu - era Amiga de minha Mãe. Depois, porque era culta, bondosa, serena, sensata. Amiga de meus irmãos. Minha Amiga também. Devo-lhe, entre outras dádivas, o alimento literário que, em boa parte, fez de mim o leitor que sou - e talvez o escritor (ou escrevinhador) que não consegui deixar de ser. Emprestou-me muita literatura. A imagem que ilustra este texto é a de um livro que me ofereceu (na verdade, o meu primeiro livro "a sério"). Ao meu irmão Tó, na mesma ocasião, ofereceu A Ilha do Tesouro, do Stevenson, que eu igualmente li e que, ai de mim, preferi a todos os outros que até ai lera.
A Dona Lurdes foi também verdadeira Amiga da MP e da nossa filha, a VL.
E é à minha Vânia Carvalho que vou buscar um belo texto. Linhas que formosamente falam, por todos nós, sobre a dor que é ver partir alguém como esta Senhora. Dou-lhe a palavra, com o seu consentimento, para dizer adeus a uma grande Amiga.


"Hoje é um dia muito escuro. 
Há uma senhora, da minha infância, da minha adolescência, da minha juventude, que sempre teve um orgulho quase de avó em mim. Uma verdadeira Senhora, outrora professora primária, vizinha-amiga daquelas à antiga, que rejubilava com cada feito pessoal e académico meu. Que fez questão de ser ela a oferecer-me a minha pasta académica que durante tantos anos me acompanhou. Que fez questão de me oferecer as fitas. Que fez questão de, quando me formei, me chamar a casa dela e dar-me flores e um abraço genuinamente emocionado.
Essa senhora partiu. Mas eu vou continuar a dar-lhe motivos de orgulho. Adeus, Dona Lurdes."

[Facebook, 29-05-2016.]

Coimbra, 29 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Correndo vai para a festa



Li e analisei, com os meus alunos do 8.º ano, o poema de Camões "Descalça vai para a fonte". Divertimo-nos, depois, a escutar o "Poema da autoestrada", de António Gedeão, que alegremente glosou o camarada Luís. Finalmente, no seguimento de sugestão das autoras do manual, inventámos novos motes e tentámos fabricar novas composições de jaez semelhante. Enquanto esperava que os alunos concluíssem as suas, elaborei eu próprio esta que, a seguir, aqui deixo. (O mote é: "Correndo vai para a festa / Com uma fita na testa.")

Correndo vai para a festa
Com uma fita na testa.

Apressada, bem a vejo
Nem o banho ela tomou!
Cheira à roupa que usou
Ou a cadáver de queijo.

Correndo vai para a festa
Com uma fita na testa.

Nem por ser tão elegante
É melhor o seu odor.
Alguém lhe dê, por favor,
Um bom desodorizante!

Minha amada não é esta:
Correndo saio da festa.

Arco, 25 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.usazeitaoliteratura.blogspot.com.]


Pão sobre jornal



À hora de pagar o almoço, ao balcão do restaurante, diviso um cesto de pão sobre o jornal da terra. O título é "Ecos de" mais o nome da região. Mas o nome da região estava tapado pelo pão. O que li, naquele instante em que olhei para a primeira página do jornal, foi isto: "Ecos de pão". A expressão, convenhamos, dava um belo título para um livro de poesia (ou de crónicas).

Arco de Baúlhe, 25 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Cavalho

sexta-feira, 20 de maio de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (39)



Mexia, Sophia e o Mexilhão

António Mexia, o senhor CEO da EDP, saiu-se há pouco tempo com mais esta pérola: as tarifas sociais da electricidade não devem ser financiadas pelo gigante que ele administra. Por razões de “justiça” (sic), devem ser suportadas pelo Estado ou pelos consumidores não beneficiários de quaisquer descontos. 

As declarações não são apenas (mais) uma chinesice. Traduzem o pensamento do abastado português ao leme da EDP, tendo chegado numa semana em que se soube dos lucros obtidos pela empresa (mais 11% no primeiro trimestre do que no período homólogo anterior) e da remuneração bestial do cidadão Mexia (3,1 milhões de euros anuais, sendo o executivo mais bem pago do PSI-20). 
Não estou qualificado para discutir a noção de “justiça” no contexto – mui enviesado – da economia que o capitalismo internacional tão religiosamente defende. Por razões de higiene, prefiro sorrir, afastar-me e tapar o nariz. Mas considero espantoso que hoje, num país cheio de desempregados e de gente mal paga, haja quem se arrogue o direito de falar em “injustiças” referindo-se ao dinheiro gasto com quem mais precisa. O facto de o CEO da EDP ser português torna aquela homilia caricatural e, do lugar de onde a vejo, pornográfica. 
O cinismo mundial parece autorizar, aos Mexias do nosso pobre Presente, raciocínios amorais deste jaez e, num cúmulo de indecência, oferece-lhes até tribuna mediática para fazerem pedagogia sobre o pântano em que triunfantemente (quero dizer: fartamente, obesamente, desmesuradamente) engordam. 
Quando se celebrar o Dia Mundial da Hipocrisia, ainda espero ouvir o senhor Mexia a declamar, em cerimónia patrocinada por um grupo económico qualquer, decerto com uma lágrima chique ao canto do olho, certos versos de Sophia: "«Ganharás o pão com o suor do teu rosto» / Assim nos foi imposto / E não: / «Com o suor dos outros ganharás o pão.»" Está isto num poema intitulado “As pessoas sensíveis”, que termina assim: “Ó vendilhões do templo / Ó construtores / Das grandes estátuas balofas e pesadas / Ó cheios de devoção e de proveito / Perdoais–lhes, Senhor / Porque eles sabem o que fazem.” 

Nota final (com rima inesperada): esta crónica foi escrita à noite, à luz de um candeeiro modesto, antes da releitura de um belo volume de poesia intitulado Livro Sexto. Comove-me a ideia de que manter a luz acesa para ler Sophia também contribui para a abastança do senhor Mexia.

Vila Real, 14 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-05-2016.]

domingo, 8 de maio de 2016

A mercearia exemplar (uma alegoria da comunicação)



O senhor Silva é o merceeiro mais antigo da vila. Um ano depois de se ter casado com a menina Maria Paciência, inaugurou o estabelecimento, numa cerimónia simples, mas agradável, que meteu o presidente da junta, Horácio Honrado, o padre Asdrúbal, a professora primária, Dona Vanda Vidas, alguns amigos e também, já depois dos discursos, muita população – gente curiosa face à novidade e que não queria perder os rissóis e os bolos de bacalhau à disposição, nem o vinho (tinto ou branco) servido pela mãe do proprietário em generosas canecas de barro.
Ao longo de quatro décadas, houve muitas mercearias inauguradas na vila, mas o negócio do senhor Silva resistiu exemplarmente à concorrência, tornando-se numa espécie de instituição local, que nem o centro comercial nascido, no início do século XXI, conseguiu derrubar.
Os clientes mais velhos dizem que o segredo do sucesso está sobretudo na forma como o senhor Silva trata os clientes. Apesar de não ter passado da 4ª classe, o merceeiro – já septuagenário, hoje – é um mestre na mui necessária e delicada arte de bem tratar quem entra na sua loja. Ele dá voz aos interlocutores, espera serenamente a vez de também falar, evita o ruído, usa o tom de voz adequado – e, se vier a propósito, solta uma gargalhada franca, dá um abraço cúmplice, ou deixa o útil manto do silêncio descer sobre a conversa.
A dona Glória, esposa do senhor José da Farmácia, diz que o senhor Silva é um cavalheiro e que, para além de muito bem-educado, sabe comunicar com as pessoas. E, diga-se, a dona Glória nem sempre é uma cliente fácil…
DONA GLÓRIA (com modo afectado, senhoril): Senhor Silva, algumas castanhas tinham bicho!
SR. SILVA (com sincera simpatia): Não me diga! Lamento muito, dona Glória, sinceramente.
DONA GLÓRIA:  O meu Zé ficou muito aborrecido, sabe?
SR. SILVA: E com inteira razão, dona Glória! Quando eu vou à farmácia, ele também não me dá remédios estragados…
DONA GLÓRIA (sorrindo, evidentemente satisfeita com a resposta): Exactamente. Ora ainda bem que percebe…
SR. SILVA: Sem dúvida! Hei-de transmitir ao meu fornecedor a sua informação, dona Glória.
DONA GLÓRIA (já com um tom de voz amigável, cúmplice): Uma pessoa, assim, sente-se enganada.
SR. SILVA: Compreendo, dona Glória. Espero que a próxima remessa já seja do seu agrado. (Sorri.) Mas, em compensação, a senhora já viu o aspecto maravilhoso destas maçãs?
DONA GLÓRIA (muito interessada): Na verdade…
O senhor Vítor Valadas, comandante da esquadra da GNR, não troca a mercearia do senhor Silva por nada deste mundo. Para comprar uma caixa de fósforos, alguns quilos de bacalhau ou um saco de carvão, é à loja mais antiga da vila que o militar recorre.
VÍTOR VALADAS (em tom de voz grave): Bom dia, Sô Silva.
SR. SILVA (com simpatia): Senhor comandante, como está?
VÍTOR VALADAS: Cá vamos andando.
SR. SILVA: É o que é preciso. Se possível, com saúde.
VÍTOR VALADAS: Então o Boavista lá ganhou, hã?
SR. SILVA: É verdade. E ainda bem!
VÍTOR VALADAS (como se tivesse sido ofendido): Ainda bem?! O senhor sabe que eu sou adepto da Académica. A vitória do Boavista foi o pior que me podia acontecer!
SR. SILVA (serenamente): Compreendo. Foi mau para o seu lado, na verdade. Mas, sabe, o meu cunhado é boavisteiro… O senhor conhece-o.
VÍTOR VALADAS (serenando): Claro que conheço. É o Tó das Finanças.
SR. SILVA: Ele mesmo. Bom homem…
VÍTOR VALADAS (voltando ao assunto com paixão): Mas a Académica é um histórico, ó sô Silva!
SR. SILVA (com entusiasmo): Absolutamente. No futebol português, trata-se quase de “um grande”…
VÍTOR VALADAS (indignado): Quase? A Académica é mesmo um grande, sô Silva!
SR. SILVA (serenamente): Tem alguma razão. É um grande também, se pensarmos no prestígio…
VÍTOR VALADAS (satisfeito com o discurso do interlocutor): Na tradição!
SR. SILVA: Isso mesmo, na tradição. (Sorri.) E, por falar em tradição, ó senhor comandante, este fiambre que aqui leva é do mais tradicional e baratinho do mercado!
VÍTOR VALADAS (curioso e satisfeito): Por acaso, tem bom aspecto…
Ao longo de 40 anos, poucas vezes o senhor Silva teve de se indispor, tão clara é a sua vontade de agradar aos clientes, sempre em nome da boa convivência e do negócio. Houve aquele episódio com o senhor Marco Martelo, ex-oficial da marinha, que andara 30 anos sem beber e, depois da reforma, dera em embriagar-se quase diariamente. Quando vinha à mercearia comprar tabaco, aí pelas 4 da tarde, já tresandava a vinho ou cerveja e qualquer pretexto servia para iniciar uma ruidosa discussão com quem lhe aparecesse à frente.
MARCO MARTELO (falando alto, rudemente): No centro comercial, o tabaco está 5 cêntimos mais barato, ó sô Silva!
SENHOR SILVA (falando amigavelmente): A sério, senhor Martelo?
MARCO MARTELO (com alguma agressividade): A sério, sim! Eu quando falo é a sério!
SENHOR SILVA (sempre sereno): Não duvido, senhor Martelo. Mas, sabe, eu pratico os preços que vêm no contrato com a distribuidora. Nem mais, nem menos.
MARCO MARTELO (cortante, rude): Eu não quero saber do seu paleio, homem!
SENHOR SILVA (pacientemente): E faz bem. O que interessa mesmo é o que o senhor pensa do assunto.
MARCO MARTELO (agressivamente): Não gosto de ser roubado, ó sô Silva!
SENHOR SILVA (sereno, mas igualmente assertivo, em tom de voz muito sério): Ninguém gosta, meu amigo. Mas escusa de gritar, senhor Martelo, porque até me assusta a clientela…
MARCO MARTELO (berrando): Grito o que me apetecer! O senhor saiu-me um bom vigarista!
SENHOR SILVA (solene): Não diga isso, senhor Martelo! O senhor conhece-me, sabe que sou uma pessoa honesta e decente.
MARCO MARTELO (rudemente): Isso é o que você diz! Olhe, dê-me cá dois maços de tabaco, que eu já me estou a irritar com a conversa!
SENHOR SILVA (calmamente): Não se irrite, senhor Martelo. Aqui estão os dois maços que pediu.
MARCO MARTELO (ameaçador): Vai fazer-me o preço que eu pago no centro comercial, não vai?
SENHOR SILVA (calma e assertivamente): Isso é que não pode sr. Para ter esse preço, terá mesmo de ir ao centro comercial, senhor Martelo. Aqui está o troco.
A história não acabou aqui. No dia seguinte, logo pela manhã, o senhor Silva deixou a esposa ao balcão da mercearia e foi ao Café Central. Aí encontrou, como calculara, o Marco Martelo e, no tempo de beber um café, disse-lhe muito assertivamente:
SR. SILVA: Ontem, o senhor Martelo estava bêbedo e tratou-me mal. Queria que, agora, em seu juízo, me pedisse desculpa e me prometesse que aquilo não volta a acontecer.
O ex-oficial da marinha começou por sorrir.
MARCO MARTELO: Isso é mesmo necessário, sô Silva?
SR. SILVA: É mesmo necessário, sim. Custava-me muito perder um cliente, mas tão-pouco posso perder a dignidade, senhor Martelo.
Marco Martelo deu-se conta do ar solene do merceeiro e, fosse pela amizade, fosse para evitar a proibição de entrar, daí em diante, na loja, respondeu:
MARCO MARTELO: Aquilo foi o vinho. Desculpe-me, sô Silva. E o seu café, faço questão, pago eu!
O presidente da Junta, neto daquele que, há 40 anos, estivera na inauguração da mercearia, admira a maneira de ser do senhor Silva. Diz-lhe às vezes:
PRESIDENTE DA JUNTA: O senhor, se tem estudado em novo, era diplomata.
A isto responde o merceeiro:
SR. SILVA: Na vida, todos temos de ser um pouco diplomatas. Às vezes, zangamo-nos mais por causa da forma como dizemos as coisas do que por causa das coisas que dizemos.
PRESIDENTE DA JUNTA: Tem muita razão! E assim se consegue manter uma sã convivência, não é verdade?
SR. SILVA: Sem dúvida. Uma sã convivência e um são negócio!
Ouve-se muitas vezes falar de serviço público – na rádio e na televisão, por exemplo. Por mim, quando ouço falar desse tema, lembro-me do senhor Silva ao balcão da sua loja: sereno, afável. competente, com um eterno sorriso na boca, nos olhos, nas palavras. É um homem que sabe comunicar. Comunicar, etimologicamente, significa “pôr em comum”.

FIM

Joaquim Jorge Carvalho
Ribeira de Pena, 08 de Maio de 2016.

ZONA DE PERECÍVEIS (38)


Maior que o pensamento

A palavra “amigo” merece que a poupemos à poluição industrial. Deve ser usada com parcimónia, prudência, critério. Levado isto à letra, como deve ser, tende a verificar-se que amigos há, numa inteira vida humana, poucos. Falo, naturalmente, de amigos verdadeiros, inteiros – gente que deveio nossa irmã, às vezes mais do nosso sangue que os do nosso sangue.
Não há matemática que exactamente diga quanto tempo leva a fazer (corrijo: quanto tempo leva a acontecer) um amigo. A minha experiência pessoal tem-me ensinado que é preciso muito calendário para se ganhar alguém digno desse substantivo tão nobre. Contudo, já ouvi dizer, a quem passou pelo universo da guerra (ou da doença, ou da multímoda miséria de certas vidas), que é possível, em apenas alguns dias, alguns meses, alguns anos, nascer-nos uma amizade para sempre. Não duvido destes testemunhos. Mas creio que, nestes casos, é o próprio tempo a acrescentar-se, por força da tantíssima humanidade ali à prova, de uma densidade e de um significado inevitavelmente excepcionais. Tempo concentrado e essencial, digamos assim, mais valioso que o da normalidade cronológica da maioria.
Tive oportunidade, há dias, de estar numa reunião de gente (já) antiga, num alegre convívio, que meteu conversa, homenagens, futebol, comida & bebida, música. Estive com amigos e com gente muito vizinha desse patamar ínclito dos afectos. Confirmei duas coisitas que valerá a pena reter:
a)    os amigos são um tesouro para guardar e aproveitar;
b)    não é um desperdício investir tempo na conquista - dificultosa, delicada - de novos (bons) amigos.
Deixo-vos isto como, digamos assim, um aviso. E, como sabeis, quem vos avisa…

Vila Real, 02 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-05-2016.]

sábado, 30 de abril de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (37)

A autoridade dos autores

Milan Kundera (salvo erro, no romance A Imortalidade) fala da angústia que um homem sente perante a possibilidade de, morrendo, não ter mão no seu legado circunstancial: objectos, cartas, documentação vária. Sobretudo, sublinho eu, textos por depurar ou destruir.
A noção de mortalidade convive, a esse nível, com a noção de devir para além do próprio fim. O drama percebe-se melhor, creio, se visto do ângulo de quem tem esse hábito (aliás, essa pulsão) da escrita. A essa gente assusta a simples hipótese de os leitores vindouros tomarem por importante o que foi transitório e, afinal, do ponto de vista do criador, irrelevante. Ou de, perante um borrão literário (um esboço, um rascunho, uma proto-ideia de escrita), se desiludirem com a aparente incipiência do autor falecido.
Não me parece que o maior medo decorra de uma – ainda assim, natural – ilusão de importância que o autor atribua à sua obra. É antes uma questão de dignidade. De auto-respeito, naturalmente, mas em especial de tributo à literatura que quis servir.
Muitos dos nossos autores já mortos indignar-se-iam decerto com as edições póstumas que a gula de famílias e editores fez publicar, ao arrepio provável da vontade escriba.
Eu, que sou a milésima migalha dos meus escritores amados, adquiri recentemente o hábito de deitar para o lixo ou ao fogo alguns textos (antigos ou recentes). São coisas da minha lavra, sim, mas demasiado más – aos meus olhos – para serem lidas. Demasiado más para serem a literatura que eu quis, que eu imaginei em determinada ocasião.
Visível ou invisível, a matéria escrita tem que ver com a noção muito lata de autoridade: somos autores do que mostramos e do que, por opção (exercível enquanto estamos vivos), não deixamos os outros ver.

Ribeira de Pena, 24 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-04-2016.]

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Lesma Não


Antes Ícaro insurgente

Até cair

Que lesma prudente


A desistir.


Vila Real, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jtogarcia.blog.com.]

Lirismo capilar


Quando eu não via crescer
Os pelos do meu nariz

(Se calhar, eles cresciam
Mas nem se viam)

Eu só estava a viver
E era feliz.

Vila Real, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em lhttp://www.diogeneshumor.blogspot.com.]

Querido Abril




Entre sermos livres ou escravos
Entre o que há-de ser e o triste Nada
Há sonhos, há coragem e há cravos
E há, em vez da Noite, a madrugada.

Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho





ZONA DE PERECÍVEIS (36)

Capitão Abril


O filme Clube dos Poetas Mortos (de Peter Weir) ajudou a emancipar poeticamente a expressão “Captain, my captain” (em evidência num poema de Walt Whitman), libertando-a do estrito foro militar de que provém. Era esse o vocativo que os alunos de Mr. Keating deveriam utilizar quando se lhe dirigissem.
Já revi esta história em muitas ocasiões, sempre com os meus alunos. Repetem-se em mim as lágrimas de cada vez que, na despedida daquele extraordinário professor de Inglês, os rapazes da Welton Academy sobem aos tampos das suas mesas e, desafiando a bruta autoridade da direcção do estabelecimento, saúdam o Mestre. Atenção: são lágrimas cúmplices, porque estamos todos – eu e os alunos – no regaço de uma mesma emoção. Caramba, senhores, aquela é, sem dúvida, uma imagem bela e comovente! E o nosso choro, ali, é um choro ético e estético.
Às vezes, interrogo-me: que aconteceria, depois, a Mr. Keating? E que veio a ser dos jovens discípulos de Welton?
Entretanto, sucede que estamos no mês de Abril, chegados quase ao dia 25. Deixai que leve a escrita por esse lado.
Em 1974, um punhado de portugueses corajosos arriscou conforto, segurança e vida para, numa madrugada mágica, resgatar Portugal da Noite. Com o atraso de muitos anos, o país embarcou na modernidade em que há muito viviam as nações mais desenvolvidas. Acabou-se a guerra, ganhou-se o direito à livre escolha de governo, recuperou-se a liberdade de expressão, universalizou-se o direito à educação, à saúde, à justiça.
Entre outros heróis, avulta esse gigante discreto chamado Salgueiro Maia. É impossível não olhar para Exemplo tão maiúsculo sem, por um momento, nos revisitarmos nós próprios e nos interrogarmos sobre o tamanho da nossa dívida. Ou sobre o (talvez insuficiente) contributo que somos capazes, no presente, de oferecer ao Devir.
Concedo: ao fim de 42 anos de liberdade, tem sucedido à frescura dos cravos uma espécie de venal enxofre, frequentemente nauseabundo e insuportável. Ditos por obesas obsolescências sem ideais nem vergonha, os versos lindos e limpos de Zeca quase parecem estrofes de cançonetas pimba.
Mas, a cada bofetada do cinismo vácuo-palavroso, político-partidário, económico-financeiro, eu gosto de pensar no meu Mr. Keating – e de, ainda que simbolicamente, subir à mesa da minha circunstância para o saudar. Para gritar que não me esqueço da luz exemplar desse Homem maior. Para lhe dizer: Capitão Salgueiro Maia, meu Capitão, obrigado. A luta continua. Ainda somos Abril.

Coimbra, 18 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-04-2016.]

quarta-feira, 13 de abril de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (34)



 

 
Asnos do volante

 Não é novidade: estamos todos à mercê do terrorismo. Mas a praga não se reduz ao mediático inferno de fundamentalismos religiosos, políticos, familiares, clubísticos, ou à crueldade amoral dos gangues da droga e das armas. Ao longo de quase trinta anos de carta de condução, tenho-me cruzado com terroristas do volante, mal escapando dos seus ataques traiçoeiros, soezes, imbecis. 
Há-os de todas as idades e feitios: betinhos imberbes conduzindo os carros dos papás ao fim-de-semana; murchos maduros compensando os fracassos talâmicos com acrobacias motorizadas; gente pobre (de recursos e de inteligência) sublimando o insucesso escolar e profissional com conspícuos êxitos no mundo do crime; elegantes diletantes fazendo selfies mentais ao espelho do retrovisor e desprezando sinais de stop (ou quejandos); novos-ricos exibindo, com ruído e parolice metalizada, a sua novidade-riqueza; bêbedos rodoviários cambaleando por ruas e estradas, naquele autismo demencial dos kamikazes; turbas auto-pecuárias ignorando, sem sombra de remorso, as regras do trânsito. Etc.
Tantas vezes já fui obrigado, perante a ultrapassagem assassina de uma besta, a meter-me por uma valeta, assim evitando, por milésimos de instante, o choque mortal. Ocorre-me que o porco ao volante do carro homicida esteja, daí a 30 minutos, na tasca do seu quotidiano rasca, vangloriando-se de seus feitos recentes: “Sabes quantos minutos fiz de Santarém até aqui, ó Zacarias?”
Não chega, hoje, aconselharmos os nossos filhos a respeitar as regras e a conduzir prudentemente. É preciso também ter sorte e rezar para que não se cruzem com os avulsos, venenosos, perigosos energúmenos da estrada.
Um dos meus pesadelos é ser vítima destes terroristas em versão fait-divers e não ter sequer tempo (sobrevida) para lhes dizer o Nojo que por eles nutro. Pelo sim, pelo não, deixo-o aqui dito. Aqui escrito.
 
Coimbra, 03 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-04-2016.]

domingo, 3 de abril de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (33)


Desculpa lá, Johan

Talvez fosse, Johan, mais fácil perdoar-te a mortalidade se aquele miúdo coimbrinha de 1971, nos seus magros oito anos e cheio de uma misteriosa devoção pelo futebol, já não existisse dentro de mim. Isto é, se o coração do petiz em frente à televisão, ele próprio suado ainda de um jogo épico no campo do Casal Ferrão, tivesse entretanto crescido também e, para seu descanso, morrido de inactualidade, talvez fosse, Johan, mais fácil aceitar que eras, afinal, como os outros tristes da humana raça, seres sujeitos à foice escatológica do Apagamento.
Mas, sabes, eu trago comigo, como doença ou tesouro, esse menino de 1971. Dele conservo os olhos e o olhar cheios de puro enlevo, capaz de um mesmo ah! (sonoro ou silente) perante a velocidade eólica, o drible vertiginoso, a finta malandra, a recepção impossível, o passe milimétrico, o remate assombroso, o golo fatal. Isto é, o espanto que resulta de testemunhar um fenómeno técnico e estético maior do que supõe (supunha) o nosso entendimento – um indivíduo sendo simultaneamente parte do colectivo e solista conspícuo: criatura, criador e criação.
Eu vi-te, Johan, numa eliminatória da Taça dos Campeões Europeus, jogando como se fosses de outro tempo. Isto é, interpretando um futebol que, embasbacando embora, ainda não bem se percebia naquele século em que estávamos. Vi-te, em 1974, fazendo uma chapelada a quarenta metros da baliza alemã, com o guarda-redes - o gigante Meyer - a esbracejar com o fiscal-de-linha (e o árbitro deu-lhe razão, era mesmo fora-de-jogo), no Café Lusa Nova houve mesmo uma risada das grandes e éramos todos da Holanda. Teus, Johan.
Vi-te, de cara fechada, numa entrevista, a explicar que não ias ao mundial da Argentina, em 1978, por razões pessoais (e eu, orgulhoso e grato pelo meu 25 de Abril de há quatro anos, concluí que era por razões de decência democrática e ética). Disse depois ao Álvaro, amigo do bairro da Relvinha, que com o Cruyff lá, os argentinos tinham ido à vida.
Vi-te (ou li-te) explicando aos jornalistas espanhóis, em 1995, que o Luís Figo não era lento, era – ao contrário – um espantoso jogador e que o Barcelona acertara em cheio com a sua contratação ao meu Sporting. Vi-te, junto ao banco, durante um Barça-Atético de Madrid, talvez em 1997, instruindo o Guardiola, iluminando-lhe o caminho, cometendo-lhe a continuação do futebol total, herança de Rinus Michels, de ti próprio (e talvez do Brasil de Telê Santana, de 1982).
Eu era capaz, já te disse, de perdoar-te a mortalidade. Mas tenho comigo, já te expliquei, este miúdo de 1971, tão para sempre de coração frágil, que não suporta a triste verdade de haver Fim. E é esse petiz em mim, Johan, que não te perdoa. Desculpa lá.

Coimbra, 28 de Março de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 31-03-2016.]