Maior que o pensamento
A
palavra “amigo” merece que a poupemos à poluição industrial. Deve ser usada com
parcimónia, prudência, critério. Levado isto à letra, como deve ser, tende a
verificar-se que amigos há, numa inteira vida humana, poucos. Falo,
naturalmente, de amigos verdadeiros, inteiros – gente que deveio nossa irmã, às
vezes mais do nosso sangue que os do nosso sangue.
Não
há matemática que exactamente diga quanto tempo leva a fazer (corrijo: quanto tempo
leva a acontecer) um amigo. A minha
experiência pessoal tem-me ensinado que é preciso muito calendário para se
ganhar alguém digno desse substantivo tão nobre. Contudo, já ouvi dizer, a quem
passou pelo universo da guerra (ou da doença, ou da multímoda miséria de certas
vidas), que é possível, em apenas alguns dias, alguns meses, alguns anos,
nascer-nos uma amizade para sempre. Não duvido destes testemunhos. Mas creio
que, nestes casos, é o próprio tempo a acrescentar-se, por força da tantíssima
humanidade ali à prova, de uma densidade e de um significado inevitavelmente
excepcionais. Tempo concentrado e essencial, digamos assim, mais valioso que o
da normalidade cronológica da maioria.
Tive
oportunidade, há dias, de estar numa reunião de gente (já) antiga, num alegre
convívio, que meteu conversa, homenagens, futebol, comida & bebida, música.
Estive com amigos e com gente muito vizinha desse patamar ínclito dos afectos.
Confirmei duas coisitas que valerá a pena reter:
a)
os
amigos são um tesouro para guardar e aproveitar;
b)
não é
um desperdício investir tempo na conquista - dificultosa, delicada - de novos
(bons) amigos.
Deixo-vos
isto como, digamos assim, um aviso. E, como sabeis, quem vos avisa…
Vila Real, 02 de Maio de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta
crónica foi publicada no semanário O
Ribatejo, edição de 05-05-2016.]






