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Número de Ondas

sábado, 30 de abril de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (37)

A autoridade dos autores

Milan Kundera (salvo erro, no romance A Imortalidade) fala da angústia que um homem sente perante a possibilidade de, morrendo, não ter mão no seu legado circunstancial: objectos, cartas, documentação vária. Sobretudo, sublinho eu, textos por depurar ou destruir.
A noção de mortalidade convive, a esse nível, com a noção de devir para além do próprio fim. O drama percebe-se melhor, creio, se visto do ângulo de quem tem esse hábito (aliás, essa pulsão) da escrita. A essa gente assusta a simples hipótese de os leitores vindouros tomarem por importante o que foi transitório e, afinal, do ponto de vista do criador, irrelevante. Ou de, perante um borrão literário (um esboço, um rascunho, uma proto-ideia de escrita), se desiludirem com a aparente incipiência do autor falecido.
Não me parece que o maior medo decorra de uma – ainda assim, natural – ilusão de importância que o autor atribua à sua obra. É antes uma questão de dignidade. De auto-respeito, naturalmente, mas em especial de tributo à literatura que quis servir.
Muitos dos nossos autores já mortos indignar-se-iam decerto com as edições póstumas que a gula de famílias e editores fez publicar, ao arrepio provável da vontade escriba.
Eu, que sou a milésima migalha dos meus escritores amados, adquiri recentemente o hábito de deitar para o lixo ou ao fogo alguns textos (antigos ou recentes). São coisas da minha lavra, sim, mas demasiado más – aos meus olhos – para serem lidas. Demasiado más para serem a literatura que eu quis, que eu imaginei em determinada ocasião.
Visível ou invisível, a matéria escrita tem que ver com a noção muito lata de autoridade: somos autores do que mostramos e do que, por opção (exercível enquanto estamos vivos), não deixamos os outros ver.

Ribeira de Pena, 24 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-04-2016.]

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Lesma Não


Antes Ícaro insurgente

Até cair

Que lesma prudente


A desistir.


Vila Real, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jtogarcia.blog.com.]

Lirismo capilar


Quando eu não via crescer
Os pelos do meu nariz

(Se calhar, eles cresciam
Mas nem se viam)

Eu só estava a viver
E era feliz.

Vila Real, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em lhttp://www.diogeneshumor.blogspot.com.]

Querido Abril




Entre sermos livres ou escravos
Entre o que há-de ser e o triste Nada
Há sonhos, há coragem e há cravos
E há, em vez da Noite, a madrugada.

Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho





ZONA DE PERECÍVEIS (36)

Capitão Abril


O filme Clube dos Poetas Mortos (de Peter Weir) ajudou a emancipar poeticamente a expressão “Captain, my captain” (em evidência num poema de Walt Whitman), libertando-a do estrito foro militar de que provém. Era esse o vocativo que os alunos de Mr. Keating deveriam utilizar quando se lhe dirigissem.
Já revi esta história em muitas ocasiões, sempre com os meus alunos. Repetem-se em mim as lágrimas de cada vez que, na despedida daquele extraordinário professor de Inglês, os rapazes da Welton Academy sobem aos tampos das suas mesas e, desafiando a bruta autoridade da direcção do estabelecimento, saúdam o Mestre. Atenção: são lágrimas cúmplices, porque estamos todos – eu e os alunos – no regaço de uma mesma emoção. Caramba, senhores, aquela é, sem dúvida, uma imagem bela e comovente! E o nosso choro, ali, é um choro ético e estético.
Às vezes, interrogo-me: que aconteceria, depois, a Mr. Keating? E que veio a ser dos jovens discípulos de Welton?
Entretanto, sucede que estamos no mês de Abril, chegados quase ao dia 25. Deixai que leve a escrita por esse lado.
Em 1974, um punhado de portugueses corajosos arriscou conforto, segurança e vida para, numa madrugada mágica, resgatar Portugal da Noite. Com o atraso de muitos anos, o país embarcou na modernidade em que há muito viviam as nações mais desenvolvidas. Acabou-se a guerra, ganhou-se o direito à livre escolha de governo, recuperou-se a liberdade de expressão, universalizou-se o direito à educação, à saúde, à justiça.
Entre outros heróis, avulta esse gigante discreto chamado Salgueiro Maia. É impossível não olhar para Exemplo tão maiúsculo sem, por um momento, nos revisitarmos nós próprios e nos interrogarmos sobre o tamanho da nossa dívida. Ou sobre o (talvez insuficiente) contributo que somos capazes, no presente, de oferecer ao Devir.
Concedo: ao fim de 42 anos de liberdade, tem sucedido à frescura dos cravos uma espécie de venal enxofre, frequentemente nauseabundo e insuportável. Ditos por obesas obsolescências sem ideais nem vergonha, os versos lindos e limpos de Zeca quase parecem estrofes de cançonetas pimba.
Mas, a cada bofetada do cinismo vácuo-palavroso, político-partidário, económico-financeiro, eu gosto de pensar no meu Mr. Keating – e de, ainda que simbolicamente, subir à mesa da minha circunstância para o saudar. Para gritar que não me esqueço da luz exemplar desse Homem maior. Para lhe dizer: Capitão Salgueiro Maia, meu Capitão, obrigado. A luta continua. Ainda somos Abril.

Coimbra, 18 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-04-2016.]

quarta-feira, 13 de abril de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (34)



 

 
Asnos do volante

 Não é novidade: estamos todos à mercê do terrorismo. Mas a praga não se reduz ao mediático inferno de fundamentalismos religiosos, políticos, familiares, clubísticos, ou à crueldade amoral dos gangues da droga e das armas. Ao longo de quase trinta anos de carta de condução, tenho-me cruzado com terroristas do volante, mal escapando dos seus ataques traiçoeiros, soezes, imbecis. 
Há-os de todas as idades e feitios: betinhos imberbes conduzindo os carros dos papás ao fim-de-semana; murchos maduros compensando os fracassos talâmicos com acrobacias motorizadas; gente pobre (de recursos e de inteligência) sublimando o insucesso escolar e profissional com conspícuos êxitos no mundo do crime; elegantes diletantes fazendo selfies mentais ao espelho do retrovisor e desprezando sinais de stop (ou quejandos); novos-ricos exibindo, com ruído e parolice metalizada, a sua novidade-riqueza; bêbedos rodoviários cambaleando por ruas e estradas, naquele autismo demencial dos kamikazes; turbas auto-pecuárias ignorando, sem sombra de remorso, as regras do trânsito. Etc.
Tantas vezes já fui obrigado, perante a ultrapassagem assassina de uma besta, a meter-me por uma valeta, assim evitando, por milésimos de instante, o choque mortal. Ocorre-me que o porco ao volante do carro homicida esteja, daí a 30 minutos, na tasca do seu quotidiano rasca, vangloriando-se de seus feitos recentes: “Sabes quantos minutos fiz de Santarém até aqui, ó Zacarias?”
Não chega, hoje, aconselharmos os nossos filhos a respeitar as regras e a conduzir prudentemente. É preciso também ter sorte e rezar para que não se cruzem com os avulsos, venenosos, perigosos energúmenos da estrada.
Um dos meus pesadelos é ser vítima destes terroristas em versão fait-divers e não ter sequer tempo (sobrevida) para lhes dizer o Nojo que por eles nutro. Pelo sim, pelo não, deixo-o aqui dito. Aqui escrito.
 
Coimbra, 03 de Abril de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 07-04-2016.]

domingo, 3 de abril de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (33)


Desculpa lá, Johan

Talvez fosse, Johan, mais fácil perdoar-te a mortalidade se aquele miúdo coimbrinha de 1971, nos seus magros oito anos e cheio de uma misteriosa devoção pelo futebol, já não existisse dentro de mim. Isto é, se o coração do petiz em frente à televisão, ele próprio suado ainda de um jogo épico no campo do Casal Ferrão, tivesse entretanto crescido também e, para seu descanso, morrido de inactualidade, talvez fosse, Johan, mais fácil aceitar que eras, afinal, como os outros tristes da humana raça, seres sujeitos à foice escatológica do Apagamento.
Mas, sabes, eu trago comigo, como doença ou tesouro, esse menino de 1971. Dele conservo os olhos e o olhar cheios de puro enlevo, capaz de um mesmo ah! (sonoro ou silente) perante a velocidade eólica, o drible vertiginoso, a finta malandra, a recepção impossível, o passe milimétrico, o remate assombroso, o golo fatal. Isto é, o espanto que resulta de testemunhar um fenómeno técnico e estético maior do que supõe (supunha) o nosso entendimento – um indivíduo sendo simultaneamente parte do colectivo e solista conspícuo: criatura, criador e criação.
Eu vi-te, Johan, numa eliminatória da Taça dos Campeões Europeus, jogando como se fosses de outro tempo. Isto é, interpretando um futebol que, embasbacando embora, ainda não bem se percebia naquele século em que estávamos. Vi-te, em 1974, fazendo uma chapelada a quarenta metros da baliza alemã, com o guarda-redes - o gigante Meyer - a esbracejar com o fiscal-de-linha (e o árbitro deu-lhe razão, era mesmo fora-de-jogo), no Café Lusa Nova houve mesmo uma risada das grandes e éramos todos da Holanda. Teus, Johan.
Vi-te, de cara fechada, numa entrevista, a explicar que não ias ao mundial da Argentina, em 1978, por razões pessoais (e eu, orgulhoso e grato pelo meu 25 de Abril de há quatro anos, concluí que era por razões de decência democrática e ética). Disse depois ao Álvaro, amigo do bairro da Relvinha, que com o Cruyff lá, os argentinos tinham ido à vida.
Vi-te (ou li-te) explicando aos jornalistas espanhóis, em 1995, que o Luís Figo não era lento, era – ao contrário – um espantoso jogador e que o Barcelona acertara em cheio com a sua contratação ao meu Sporting. Vi-te, junto ao banco, durante um Barça-Atético de Madrid, talvez em 1997, instruindo o Guardiola, iluminando-lhe o caminho, cometendo-lhe a continuação do futebol total, herança de Rinus Michels, de ti próprio (e talvez do Brasil de Telê Santana, de 1982).
Eu era capaz, já te disse, de perdoar-te a mortalidade. Mas tenho comigo, já te expliquei, este miúdo de 1971, tão para sempre de coração frágil, que não suporta a triste verdade de haver Fim. E é esse petiz em mim, Johan, que não te perdoa. Desculpa lá.

Coimbra, 28 de Março de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 31-03-2016.]

segunda-feira, 28 de março de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (32)



Aforismos reformados




Para quem, por obrigação ou devoção, faz da escrita uma forma de vida, é fundamental ser capaz de significar o máximo com o mínimo de palavras. O peso da idade ensina-nos muito sobre o ouro da leveza enunciatória.

Está isto longe de significar que não valha a pena conhecer muitos vocábulos; pelo contrário: quanto maior for o léxico do escriba, mais provável é ele encontrar a palavra certa (às vezes, única) para dizer o que verdadeiramente quer dizer.

O combate às ervas daninhas, no texto (às palavras acessórias, dispensáveis, inúteis), traduz-se por um substantivo muito lindo: depuração.

É sobretudo na poesia que se percebe a máxima expressão do que supra-refiro. Mas também na linguagem popular topamos, a cada momento, com esse amável milagre de haver tanta sabedoria em tão exíguos (económicos) conjuntos de palavras. Por exemplo, nos ancestrais aforismos, muitos deles casados com a rima ou namorados da música.

Dei por mim a revisitar alguns destes adágios e a reformá-los, com certa liberdade (talvez insensatez) poética. E tão bem me soube a aventura que vo-la trago para a minha primeira crónica de Primavera. Dedicatória: aos queridos leitores de O Ribatejo, naturalmente.

Há mares que vêm por bem. Quem morre por gosto não dança. A esperança é a última a morder. Homem pequenino, velhaco ou menino. Mais vale nenhum pássaro na mão que mãos sem voar. Quem parte, reparte e não fica com a maior parte, ou sou eu ou é de Marte. Dá Deus as vozes a quem não tem gentes. Amigo que rouba amigo tem cem anos de castigo. Mulher séria não tem olvidos. Quem tudo cala pouco acerta. A mentira tem as pernas putas. O céu a seu dono. Amor com a Dor se paga. Mãe há só única

Vila Real, 19 de Março de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 24-03-2016.]

quinta-feira, 17 de março de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (31)





À barca, à barca, houlá!

 Assisti, pela segunda vez, no passado dia 10 de Março, à representação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, com encenação de António Feio. É uma produção da Cultural Kids e tem como público preferencial os alunos do 9.º ano, cujo programa, na disciplina de Português, inclui esta viagem pelo teatro vicentino.
No final da representação, disse aos meus alunos, com absoluta sinceridade, que esta é, sem dúvida, a mais interessante encenação que me foi dado apreciar ao longo da minha vida (e já lá vão umas oito ou nove). A razão para esta distinção tem que ver com a geral qualidade do espectáculo, compreendendo a excelência dos actores, o respeito pelo texto original, a eficácia pedagógica, o ritmo da narrativa em palco, o aproveitamento técnico-estético do espaço, dos objectos em cena, das (novas) tecnologias, etc.
António Feio, com a humildade e o bom senso dos que, concomitante ao amor pela arte, nutrem um real amor pelo público, introduziu na representação uma espécie de prólogo: Mestre Gil Vicente sai da sua condição de estátua e fala, como personagem, aos espectadores do nosso século sobre a natureza e os objectivos da sua obra. Depois, como se de um pivot do telejornal se tratasse, faz uma ligação ao repórter Luís Vicente, seu filho, que mostra (em divertido vídeo) os bastidores do teatro: figurinos e figurinistas, adereços surpreendentes, actores preparando a voz e os gestos, técnicos diversos emaranhados nas suas funções. Por segundos, aparece o próprio António Feio, que diz algumas palavras para a “reportagem” e se despede, com pressa, para (diz) mudar certa cena antes que o espectáculo comece.
No final, bati cúmplices palmas com os meus alunos (e o público em geral). Confirmei dois (consabidos) factos:
a)    que o texto dramático apenas se realiza completamente em palco;
b)    que, contra o absurdo da Morte, há este redentor pormenor de as grandes obras de arte durarem muito mais que as vidas dos seus criadores.
Isto é: Gil Vicente e António Feio já partiram. O Auto da Barca do Inferno ainda cá está, para nossa felicidade e gratidão.

 Vila Real, 12 de Março de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
 
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 17 de Março de 2016.]

sexta-feira, 11 de março de 2016

Zona de Perecíveis (30)

Aldeia da roupa suja
 
Estou muito longe daquelas militâncias partidárias que, por bons ou maus motivos, tendem a enviesar, face à realidade, as opiniões e os estados de espírito. Mas não foi sem desconforto que me apercebi da euforia de alguns, nos media, à roda das últimas exigências feitas pela União Europeia a Mário Centeno. É ainda mais embaraçoso quando o coro vitorioso (?) dos críticos é ostentado na sede do poder internacional, na chique & adiposa Bruxelas.
Habituei-me a ouvir, desde a mais tenra infância, que a roupa suja se lava em casa. Ainda pequeno, a ideia pareceu-me sensata, quer no sentido de poupar aos outros a exposição, nem sempre bonita, das imperfeições domésticas (o despedimento do pai, o alcoolismo do avô, a luz por pagar, a preguiça da prima, a infidelidade do padrinho), quer no sentido de salvar uma família do olhar crítico ou venenosamente piedoso dos outros. Mesmo hoje, simpatizo com a ideia de uma espécie de reserva íntima quando o assunto é a nossa roupa suja (não – atenção! - a roupa suja de sangue, de crimes, de vis ilegalidades). Nas famílias, nas empresas, nos clubes de futebol, o decoro ajuda à dignidade na dificuldade e no sofrimento.
Lembrei-me disto sobretudo quando, há uns tempos, em Bruxelas, certo deputado português ao parlamento europeu, Paulo Rangel, clamou estridentemente contra as linhas gerais do orçamento do governo pátrio.
Toda a gente sabe que a independência dos estados europeus, é hoje, com algumas excepções, uma saudosa memória. Os ministros das finanças da Europa dos pequeninos vão a Bruxelas (ou a Berlim) pedir a bênção e, entre enxovalhos e palmadinhas nas costas, afivelam sorrisos e obedecem à Europa dos grandes. Entre outros atrevimentos, o ministro Centeno inscrevera no orçamento a necessidade de devolver, aos funcionários públicos e aos reformados, salários e pensões que lhes foram subtraídos durante anos. Escândalo à vista.
É sempre comovente observar a defesa da disciplina financeira feita por deputados e burocratas europeus que vivem como príncipes, auferindo rendimentos pornográficos. Dói mais quando, entre o coro ululante, aparece um português a querer ser mais europeu que os alemães ou os holandeses.
Paulo Rangel quis, em nome da vigilância europeia, contribuir para o descrédito internacional do novo governo português. Estará no seu direito. Mas – vista a coisa aqui da minha portuguesa casa – ficou-lhe muito mal.

 

Ribeira de Pena, 08 de Março de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 10-03-2016.]

quinta-feira, 3 de março de 2016

Amor residente (O Viúvo de Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira)


Trouxe-te flores.

Não sei o nome delas

E não me custaram dinheiro.

Adivinhas: vim pela rua abaixo

Roubando uma aqui, outra além

Das casas ricas por que passo

Até à nossa casa.

Se viesses hoje

Sentirias o odor logo à porta

E sorririas decerto à festa colorida

Das cores e dos tons do meu ramo.

Talvez me beijasses e dissesses

Meu amor

Como outrora fazias.

Os amigos dizem que já não voltas

E eu faço de conta que concordo -

Mas depois venho para nossa casa

Roubando flores pelo caminho

E falo contigo.

Há sempre flores sobre a mesa

Iluminando de ti a solidão.

Não é bem esperança; é uma morada.

Eu resido para sempre no nosso amor.

E mesmo que não venhas

É esta para sempre a minha Casa.


Arco, 16 de fevereiro de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (que terá inspirado o título da obra de Aquilino, A Casa Grande de Romarigães) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bloguedodominho.blogs.sapo.pt.]

ZONA DE PERECÍVEIS (29)


 

 
O Professor Silveira

 
De um modo ou de outro, amei todos os meus professores de Português. Recordo com especial carinho o dr. Silveira, um homem cultíssimo que amava a literatura e o ensino. Podia tê-lo odiado para sempre se me houvesse atido àquele dia em que, por eu ter respondido torto a uma funcionária da Escola, me gritou da sala de professores: “Sr. Joaquim Jorge, traga-me cá as suas orelhas!” – e depois me provocou uma humilhação absoluta, feita de física dor e de vergonha pública. Não foram só as orelhas que me ficaram, então, em chamas. Foi a tão delicada dignidade de um adolescente sujeito ao lirismo e às borbulhas.
Mas, sabei, foi também este professor de Português que me fez amar Camões, Soeiro Pereira Gomes, Redol, Torga, Ferreira de Castro. E foi este professor que, após discussão breve, numa aula, sobre os méritos de Camilo e de Eça, me convidou para um sumo num Café coimbrinha, junto à estação rodoviária, e me ofereceu duas horas do seu tempo para discutir literatura, língua, ironia, léxico. Eu tinha apenas 15 anos e achava, do alto da minha experiência leitora, que o autor de Os Maias era o melhor escritor português de sempre. (Ainda acho; mas isso, neste contexto, não virá ao caso.) Em vez de me atirar à cara com o nada que eu sabia, afinal, do assunto, o professor estimou o meu entusiasmo e tratou-me como um par, isto é, um cúmplice amante dos livros. Aquele Café tinha (e ainda tem) o nome de “Silvano”. Foi naquele lugar que percebi a enorme dimensão de Camilo Castelo Branco, o autor preferido do professor, mas sobretudo o inteiro tamanho de um Professor verdadeiramente digno desse nome.
O dr. Silveira prosseguiu a sua carreira (soube-o depois) na UNESCO. Folguei em saber que outros, muito mais importantes que eu, lhe reconheceram os extraordinários méritos culturais e profissionais.
Às vezes, penso: talvez ele gostasse de saber um dia que o miúdo atrevido daquela conversa de há 38 anos se tornou também, entretanto, professor de Português. E que também ele não tem pejo em oferecer o seu tempo a adolescentes com vontade de aprender, tratando-os sempre com o respeito e a ternura exigíveis.
Garanto-vos: quando falo com os meus alunos de literatura (ou de cinema, ou de música, ou de futebol, ou de sonhos), estão eles e estou eu no comum plano do interesse e do entusiasmo pela Vida. Aliás: estão eles, estou eu e está o Professor Silveira.

Coimbra, 28 de Fevereiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 03-03-2016.]

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (28)


Auto da Verdade


(As três personagens aparecem subitamente em cena e de forma tão natural que o público terá a ilusão de que a conversa já vai a meio.)

CRISTO: De modo que ressuscitei, para os homens acreditarem na vida eterna.
PLATÃO: E eles acreditaram?
ZÉ POVINHO: Eu cá não acreditei totalmente, digo-vos, mas pelo sim pelo não porto-me bem…
PLATÃO: Mas que queres dizer com isso?
CRISTO: Não percebes? Este homem de boa vontade sabe, em seu coração, que o caminho do bem leva à vida eterna…
PLATÃO: E vós, Jesus de Nazaré, acreditais nisso?
CRISTO: Pois se eu próprio sou a vida eterna, Platão…
PLATÃO: A única vida eterna é a soma de todas as vidas provisórias que aos homens é dado viver.
ZÉ POVINHO: Se a conversa mete contas, retiro-me já…
CRISTO: As verdadeiras contas é meu Pai quem as faz.
PLATÃO: Mas vós já tendes idade para fazer contas sozinho.
CRISTO: Amigo grego, lamento muito que não tenhas fé. Sem esse dom, jamais poderás acreditar seja no que for!
PLATÃO: Eu acredito em algumas coisas. Por exemplo, na necessidade da verdade…
CRISTO: E na necessidade do bem?
PLATÃO: O bem é necessário, sem dúvida. Mas o bem é o mesmo que a verdade.
ZÉ POVINHO: Eu cá gostava era de viver num mundo justo!
PLATÃO: Zé, escuta-me: a justiça, o bem e a verdade são a mesma coisa.
CRISTO: Pois eu sou essa Coisa completa que tu dizes. Sou a justiça, a verdade e o bem.
ZÉ POVINHO: E por isso estais no céu... Bem dizíeis vós que o vosso reino não era deste mundo!
PLATÃO: Pois o que o mundo precisava era que o reino dos céus não fosse nos céus.
CRISTO: Tens a certeza?
PLATÃO: Sou homem. Não tenho a certeza de nada. Mas sei que a justiça, o bem e a verdade valem a pena aqui e agora, no mundo dos homens…
ZÉ POVINHO: A mim também me parece isso muito justo, Jesus… Sem querer ofender, bem entendido…
CRISTO: Mas dizei-me, vós os dois, o que sabeis afinal da justiça, do bem, da verdade?
PLATÃO: Eu sei delas o que se sabe quando nos falta o que nos faz falta.
ZÉ POVINHO: Platão, explique-se lá melhor, por favor, para eu ver se estou de acordo…
PLATÃO: É simples. Sabemos algo sobre a justiça quando sentimos a injustiça…
ZÉ POVINHO: Bem pensado. Percebemos que nos faz falta o contrário do que sofremos, não é? O meu avô dizia que o remédio começa na doença…
CRISTO: Escutai-me, ambos. O que há de mais certo, na vida terrena, é a morte.
PLATÃO: E é esse o maior problema da humanidade, tendes razão.
CRISTO: E tu, filósofo sem fé, como resolves esse problema?
PLATÃO: Aceitando a morte, por ser verdade a morte.
CRISTO: Ah! Resolves um problema, aceitando-o?
PLATÃO: A verdade é a verdade. A verdade resolve. A verdade nunca é um problema.
ZÉ POVINHO: Ou, como dizia o meu avô, o que não tem remédio remediado está!
CRISTO: Chega! É a última vez que vos trago comigo em passeio sobre as águas do rio Jordão.

(Penumbra. Fecha-se lentamente o pano.)

Ribeira de Pena, 21-02-2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Este texto, cuja versão original eu escrevera já em 2010, foi publicado como crónica no semanário O Ribatejo, edição de 25-02-2016.]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (27)


Petas, patos e pathos

 

Os últimos dias trouxeram ao país muita chuva e, entretidos no assombro pelas inundações habituais, os portugueses talvez tenham menosprezado algumas catástrofes igualmente admiráveis.
Por exemplo, o ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, deu uma entrevista ao JN garantindo a bondade da sua governação, nomeadamente no que se refere à estabilidade fiscal, à distribuição equitativa da austeridade, à saúde financeira do Banif e à exigência que, consigo ao leme, chegou à Educação. Muitos patos – conhecidos e anónimos – bateram palmas ao discurso, varrendo para debaixo do tapete esse pormenor de a realidade muito contrariar Sua Excelência.
Por exemplo, o presidente da República cessante, Aníbal Cavaco Silva, condecorou um conjunto variegado de ex-ministros pelo facto singelo – e exclusivo – de terem aceitado os respectivos cargos. Ainda me comove a imagem de Miguel Relvas (amigo dilecto de Passos Coelho) aceitando a medalhinha, ele que representa um notável exemplo da exigência que o PSD perseguiu, com denodo, na Educação e em outros departamentos. Muitos patos – conhecidos e anónimos – bateram palmas. Ainda assim, a maioria, com vergonha ou cinismo, assobiou para o lado e encolheu os ombros.
Por exemplo, o sr. Schaüble ralhou com o governo português por estar a devolver (sublinho: não a dar, não a oferecer – a devolver) salários e pensões e, por essa escandalosa razão, ser responsável por alguma agitação dos mercados. Esta circunstância fez as delícias de alguma comunicação social e da direita mais trauliteira (patos & outros).
Aqui vos confesso: sinto espanto e nojo, em doses iguais, perante o topete de algumas figurinhas e figurões. Na minha terra, chamamos-lhe “lata” (ou “latosa”). De qualquer modo, exceptuando algum desabafo doméstico ou cronístico, eu tendo sobretudo a optar pelo desprezo em forma de silêncio. Depois da chuva, o eventual brilho da lata deles há-de redundar em ferrugem. E, espero eu, até os patetas mais patetas perceberão também o significado de patético.

 
Ribeira de Pena, 15 de Fevereiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-02-2016.]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (26)



Parábola das aparências



Era uma vez um homem que só escanhoava metade da barba. Isto é, dividia o rosto a meio, no sentido longitudinal, e rapava os pêlos do seu lado esquerdo (pilosidade pescoçal incluída), deixando o lado direito incólume. 
A mulher sorriu à ideia do homem. Perguntou-lhe:
- Não fazes a barba toda?
O homem sorriu também e disse:
- Uma parte de mim quer fazer; outra parte não. De modo que, em vez de fazer a barba, faço a bar.
A mulher admirou-se:
- A bar?
O homem explicou-se:
- Sim. Faço apenas uma sílaba da barba.
No final da primeira semana, a diferença entre um lado e outro notava-se bem.
Ao caminhar para o emprego, ao longo da rua, pessoas do lado direito da sua marcha (o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros) comentavam, cheias de um azedume burguês:
- Parece que não tem tempo para cuidar do aspecto! Aquilo é doença ou preguiça…
As pessoas do lado esquerdo (o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal) tinham uma visão diferente:
- Até dá gosto! Sempre muito bem afeitado, com um ar limpo e saudável – fossem todos assim…
Claro que, no regresso a casa, pelas sete da tarde, o tom dos comentários tendia a transformar-se. As pessoas que o viam regressar, no lado direito da sua marcha (e que, de manhã, lhe ficavam à esquerda da andança), admiravam-se bastante do que viam:
- Muito lhe cresce a barba da manhã para a noite. Parece um bicho! Eu não acredito em lobisomens, mas nunca se sabe…
Do outro lado da rua, aqueles que de manhã lhe haviam verberado o mau aspecto, resmungavam novos reparos, carregados de uma ironia venenosa:
- Ainda bem que o emprego lhe dá tempo para fazer a barba. Por isso nos fartamos de esperar na repartição. E queixam-se eles da falta de pessoal…
Dois meses depois da sua ideia, o homem já tinha, no seu lado esquerdo, uma tão imensa barba que mesmo quem o observava do lado contrário (e sem grande esforço) percebia aquela divisão tão extraordinária.
Dos dois lados da rua, de manhã e de tarde, todos concluíam que se tratava, afinal, de um louco.
Só a esposa, que estava ao corrente da exacta excentricidade do homem, sabia que não era bem loucura. No máximo, seria uma sílaba de loucura. E por isso assegurava, em repetidas conversas com o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros, o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal:
- O meu marido é apenas lou.

Ribeira de Pena, 09 de Fevereiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto – cuja versão original data de 2010 - foi publicado no semanário O Ribatejo, edição de 11-02-2016.]