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Número de Ondas

segunda-feira, 28 de março de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (32)



Aforismos reformados




Para quem, por obrigação ou devoção, faz da escrita uma forma de vida, é fundamental ser capaz de significar o máximo com o mínimo de palavras. O peso da idade ensina-nos muito sobre o ouro da leveza enunciatória.

Está isto longe de significar que não valha a pena conhecer muitos vocábulos; pelo contrário: quanto maior for o léxico do escriba, mais provável é ele encontrar a palavra certa (às vezes, única) para dizer o que verdadeiramente quer dizer.

O combate às ervas daninhas, no texto (às palavras acessórias, dispensáveis, inúteis), traduz-se por um substantivo muito lindo: depuração.

É sobretudo na poesia que se percebe a máxima expressão do que supra-refiro. Mas também na linguagem popular topamos, a cada momento, com esse amável milagre de haver tanta sabedoria em tão exíguos (económicos) conjuntos de palavras. Por exemplo, nos ancestrais aforismos, muitos deles casados com a rima ou namorados da música.

Dei por mim a revisitar alguns destes adágios e a reformá-los, com certa liberdade (talvez insensatez) poética. E tão bem me soube a aventura que vo-la trago para a minha primeira crónica de Primavera. Dedicatória: aos queridos leitores de O Ribatejo, naturalmente.

Há mares que vêm por bem. Quem morre por gosto não dança. A esperança é a última a morder. Homem pequenino, velhaco ou menino. Mais vale nenhum pássaro na mão que mãos sem voar. Quem parte, reparte e não fica com a maior parte, ou sou eu ou é de Marte. Dá Deus as vozes a quem não tem gentes. Amigo que rouba amigo tem cem anos de castigo. Mulher séria não tem olvidos. Quem tudo cala pouco acerta. A mentira tem as pernas putas. O céu a seu dono. Amor com a Dor se paga. Mãe há só única

Vila Real, 19 de Março de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 24-03-2016.]

quinta-feira, 17 de março de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (31)





À barca, à barca, houlá!

 Assisti, pela segunda vez, no passado dia 10 de Março, à representação do Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, com encenação de António Feio. É uma produção da Cultural Kids e tem como público preferencial os alunos do 9.º ano, cujo programa, na disciplina de Português, inclui esta viagem pelo teatro vicentino.
No final da representação, disse aos meus alunos, com absoluta sinceridade, que esta é, sem dúvida, a mais interessante encenação que me foi dado apreciar ao longo da minha vida (e já lá vão umas oito ou nove). A razão para esta distinção tem que ver com a geral qualidade do espectáculo, compreendendo a excelência dos actores, o respeito pelo texto original, a eficácia pedagógica, o ritmo da narrativa em palco, o aproveitamento técnico-estético do espaço, dos objectos em cena, das (novas) tecnologias, etc.
António Feio, com a humildade e o bom senso dos que, concomitante ao amor pela arte, nutrem um real amor pelo público, introduziu na representação uma espécie de prólogo: Mestre Gil Vicente sai da sua condição de estátua e fala, como personagem, aos espectadores do nosso século sobre a natureza e os objectivos da sua obra. Depois, como se de um pivot do telejornal se tratasse, faz uma ligação ao repórter Luís Vicente, seu filho, que mostra (em divertido vídeo) os bastidores do teatro: figurinos e figurinistas, adereços surpreendentes, actores preparando a voz e os gestos, técnicos diversos emaranhados nas suas funções. Por segundos, aparece o próprio António Feio, que diz algumas palavras para a “reportagem” e se despede, com pressa, para (diz) mudar certa cena antes que o espectáculo comece.
No final, bati cúmplices palmas com os meus alunos (e o público em geral). Confirmei dois (consabidos) factos:
a)    que o texto dramático apenas se realiza completamente em palco;
b)    que, contra o absurdo da Morte, há este redentor pormenor de as grandes obras de arte durarem muito mais que as vidas dos seus criadores.
Isto é: Gil Vicente e António Feio já partiram. O Auto da Barca do Inferno ainda cá está, para nossa felicidade e gratidão.

 Vila Real, 12 de Março de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
 
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 17 de Março de 2016.]

sexta-feira, 11 de março de 2016

Zona de Perecíveis (30)

Aldeia da roupa suja
 
Estou muito longe daquelas militâncias partidárias que, por bons ou maus motivos, tendem a enviesar, face à realidade, as opiniões e os estados de espírito. Mas não foi sem desconforto que me apercebi da euforia de alguns, nos media, à roda das últimas exigências feitas pela União Europeia a Mário Centeno. É ainda mais embaraçoso quando o coro vitorioso (?) dos críticos é ostentado na sede do poder internacional, na chique & adiposa Bruxelas.
Habituei-me a ouvir, desde a mais tenra infância, que a roupa suja se lava em casa. Ainda pequeno, a ideia pareceu-me sensata, quer no sentido de poupar aos outros a exposição, nem sempre bonita, das imperfeições domésticas (o despedimento do pai, o alcoolismo do avô, a luz por pagar, a preguiça da prima, a infidelidade do padrinho), quer no sentido de salvar uma família do olhar crítico ou venenosamente piedoso dos outros. Mesmo hoje, simpatizo com a ideia de uma espécie de reserva íntima quando o assunto é a nossa roupa suja (não – atenção! - a roupa suja de sangue, de crimes, de vis ilegalidades). Nas famílias, nas empresas, nos clubes de futebol, o decoro ajuda à dignidade na dificuldade e no sofrimento.
Lembrei-me disto sobretudo quando, há uns tempos, em Bruxelas, certo deputado português ao parlamento europeu, Paulo Rangel, clamou estridentemente contra as linhas gerais do orçamento do governo pátrio.
Toda a gente sabe que a independência dos estados europeus, é hoje, com algumas excepções, uma saudosa memória. Os ministros das finanças da Europa dos pequeninos vão a Bruxelas (ou a Berlim) pedir a bênção e, entre enxovalhos e palmadinhas nas costas, afivelam sorrisos e obedecem à Europa dos grandes. Entre outros atrevimentos, o ministro Centeno inscrevera no orçamento a necessidade de devolver, aos funcionários públicos e aos reformados, salários e pensões que lhes foram subtraídos durante anos. Escândalo à vista.
É sempre comovente observar a defesa da disciplina financeira feita por deputados e burocratas europeus que vivem como príncipes, auferindo rendimentos pornográficos. Dói mais quando, entre o coro ululante, aparece um português a querer ser mais europeu que os alemães ou os holandeses.
Paulo Rangel quis, em nome da vigilância europeia, contribuir para o descrédito internacional do novo governo português. Estará no seu direito. Mas – vista a coisa aqui da minha portuguesa casa – ficou-lhe muito mal.

 

Ribeira de Pena, 08 de Março de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 10-03-2016.]

quinta-feira, 3 de março de 2016

Amor residente (O Viúvo de Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira)


Trouxe-te flores.

Não sei o nome delas

E não me custaram dinheiro.

Adivinhas: vim pela rua abaixo

Roubando uma aqui, outra além

Das casas ricas por que passo

Até à nossa casa.

Se viesses hoje

Sentirias o odor logo à porta

E sorririas decerto à festa colorida

Das cores e dos tons do meu ramo.

Talvez me beijasses e dissesses

Meu amor

Como outrora fazias.

Os amigos dizem que já não voltas

E eu faço de conta que concordo -

Mas depois venho para nossa casa

Roubando flores pelo caminho

E falo contigo.

Há sempre flores sobre a mesa

Iluminando de ti a solidão.

Não é bem esperança; é uma morada.

Eu resido para sempre no nosso amor.

E mesmo que não venhas

É esta para sempre a minha Casa.


Arco, 16 de fevereiro de 2016.

Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (que terá inspirado o título da obra de Aquilino, A Casa Grande de Romarigães) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bloguedodominho.blogs.sapo.pt.]

ZONA DE PERECÍVEIS (29)


 

 
O Professor Silveira

 
De um modo ou de outro, amei todos os meus professores de Português. Recordo com especial carinho o dr. Silveira, um homem cultíssimo que amava a literatura e o ensino. Podia tê-lo odiado para sempre se me houvesse atido àquele dia em que, por eu ter respondido torto a uma funcionária da Escola, me gritou da sala de professores: “Sr. Joaquim Jorge, traga-me cá as suas orelhas!” – e depois me provocou uma humilhação absoluta, feita de física dor e de vergonha pública. Não foram só as orelhas que me ficaram, então, em chamas. Foi a tão delicada dignidade de um adolescente sujeito ao lirismo e às borbulhas.
Mas, sabei, foi também este professor de Português que me fez amar Camões, Soeiro Pereira Gomes, Redol, Torga, Ferreira de Castro. E foi este professor que, após discussão breve, numa aula, sobre os méritos de Camilo e de Eça, me convidou para um sumo num Café coimbrinha, junto à estação rodoviária, e me ofereceu duas horas do seu tempo para discutir literatura, língua, ironia, léxico. Eu tinha apenas 15 anos e achava, do alto da minha experiência leitora, que o autor de Os Maias era o melhor escritor português de sempre. (Ainda acho; mas isso, neste contexto, não virá ao caso.) Em vez de me atirar à cara com o nada que eu sabia, afinal, do assunto, o professor estimou o meu entusiasmo e tratou-me como um par, isto é, um cúmplice amante dos livros. Aquele Café tinha (e ainda tem) o nome de “Silvano”. Foi naquele lugar que percebi a enorme dimensão de Camilo Castelo Branco, o autor preferido do professor, mas sobretudo o inteiro tamanho de um Professor verdadeiramente digno desse nome.
O dr. Silveira prosseguiu a sua carreira (soube-o depois) na UNESCO. Folguei em saber que outros, muito mais importantes que eu, lhe reconheceram os extraordinários méritos culturais e profissionais.
Às vezes, penso: talvez ele gostasse de saber um dia que o miúdo atrevido daquela conversa de há 38 anos se tornou também, entretanto, professor de Português. E que também ele não tem pejo em oferecer o seu tempo a adolescentes com vontade de aprender, tratando-os sempre com o respeito e a ternura exigíveis.
Garanto-vos: quando falo com os meus alunos de literatura (ou de cinema, ou de música, ou de futebol, ou de sonhos), estão eles e estou eu no comum plano do interesse e do entusiasmo pela Vida. Aliás: estão eles, estou eu e está o Professor Silveira.

Coimbra, 28 de Fevereiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 03-03-2016.]

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (28)


Auto da Verdade


(As três personagens aparecem subitamente em cena e de forma tão natural que o público terá a ilusão de que a conversa já vai a meio.)

CRISTO: De modo que ressuscitei, para os homens acreditarem na vida eterna.
PLATÃO: E eles acreditaram?
ZÉ POVINHO: Eu cá não acreditei totalmente, digo-vos, mas pelo sim pelo não porto-me bem…
PLATÃO: Mas que queres dizer com isso?
CRISTO: Não percebes? Este homem de boa vontade sabe, em seu coração, que o caminho do bem leva à vida eterna…
PLATÃO: E vós, Jesus de Nazaré, acreditais nisso?
CRISTO: Pois se eu próprio sou a vida eterna, Platão…
PLATÃO: A única vida eterna é a soma de todas as vidas provisórias que aos homens é dado viver.
ZÉ POVINHO: Se a conversa mete contas, retiro-me já…
CRISTO: As verdadeiras contas é meu Pai quem as faz.
PLATÃO: Mas vós já tendes idade para fazer contas sozinho.
CRISTO: Amigo grego, lamento muito que não tenhas fé. Sem esse dom, jamais poderás acreditar seja no que for!
PLATÃO: Eu acredito em algumas coisas. Por exemplo, na necessidade da verdade…
CRISTO: E na necessidade do bem?
PLATÃO: O bem é necessário, sem dúvida. Mas o bem é o mesmo que a verdade.
ZÉ POVINHO: Eu cá gostava era de viver num mundo justo!
PLATÃO: Zé, escuta-me: a justiça, o bem e a verdade são a mesma coisa.
CRISTO: Pois eu sou essa Coisa completa que tu dizes. Sou a justiça, a verdade e o bem.
ZÉ POVINHO: E por isso estais no céu... Bem dizíeis vós que o vosso reino não era deste mundo!
PLATÃO: Pois o que o mundo precisava era que o reino dos céus não fosse nos céus.
CRISTO: Tens a certeza?
PLATÃO: Sou homem. Não tenho a certeza de nada. Mas sei que a justiça, o bem e a verdade valem a pena aqui e agora, no mundo dos homens…
ZÉ POVINHO: A mim também me parece isso muito justo, Jesus… Sem querer ofender, bem entendido…
CRISTO: Mas dizei-me, vós os dois, o que sabeis afinal da justiça, do bem, da verdade?
PLATÃO: Eu sei delas o que se sabe quando nos falta o que nos faz falta.
ZÉ POVINHO: Platão, explique-se lá melhor, por favor, para eu ver se estou de acordo…
PLATÃO: É simples. Sabemos algo sobre a justiça quando sentimos a injustiça…
ZÉ POVINHO: Bem pensado. Percebemos que nos faz falta o contrário do que sofremos, não é? O meu avô dizia que o remédio começa na doença…
CRISTO: Escutai-me, ambos. O que há de mais certo, na vida terrena, é a morte.
PLATÃO: E é esse o maior problema da humanidade, tendes razão.
CRISTO: E tu, filósofo sem fé, como resolves esse problema?
PLATÃO: Aceitando a morte, por ser verdade a morte.
CRISTO: Ah! Resolves um problema, aceitando-o?
PLATÃO: A verdade é a verdade. A verdade resolve. A verdade nunca é um problema.
ZÉ POVINHO: Ou, como dizia o meu avô, o que não tem remédio remediado está!
CRISTO: Chega! É a última vez que vos trago comigo em passeio sobre as águas do rio Jordão.

(Penumbra. Fecha-se lentamente o pano.)

Ribeira de Pena, 21-02-2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Este texto, cuja versão original eu escrevera já em 2010, foi publicado como crónica no semanário O Ribatejo, edição de 25-02-2016.]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (27)


Petas, patos e pathos

 

Os últimos dias trouxeram ao país muita chuva e, entretidos no assombro pelas inundações habituais, os portugueses talvez tenham menosprezado algumas catástrofes igualmente admiráveis.
Por exemplo, o ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, deu uma entrevista ao JN garantindo a bondade da sua governação, nomeadamente no que se refere à estabilidade fiscal, à distribuição equitativa da austeridade, à saúde financeira do Banif e à exigência que, consigo ao leme, chegou à Educação. Muitos patos – conhecidos e anónimos – bateram palmas ao discurso, varrendo para debaixo do tapete esse pormenor de a realidade muito contrariar Sua Excelência.
Por exemplo, o presidente da República cessante, Aníbal Cavaco Silva, condecorou um conjunto variegado de ex-ministros pelo facto singelo – e exclusivo – de terem aceitado os respectivos cargos. Ainda me comove a imagem de Miguel Relvas (amigo dilecto de Passos Coelho) aceitando a medalhinha, ele que representa um notável exemplo da exigência que o PSD perseguiu, com denodo, na Educação e em outros departamentos. Muitos patos – conhecidos e anónimos – bateram palmas. Ainda assim, a maioria, com vergonha ou cinismo, assobiou para o lado e encolheu os ombros.
Por exemplo, o sr. Schaüble ralhou com o governo português por estar a devolver (sublinho: não a dar, não a oferecer – a devolver) salários e pensões e, por essa escandalosa razão, ser responsável por alguma agitação dos mercados. Esta circunstância fez as delícias de alguma comunicação social e da direita mais trauliteira (patos & outros).
Aqui vos confesso: sinto espanto e nojo, em doses iguais, perante o topete de algumas figurinhas e figurões. Na minha terra, chamamos-lhe “lata” (ou “latosa”). De qualquer modo, exceptuando algum desabafo doméstico ou cronístico, eu tendo sobretudo a optar pelo desprezo em forma de silêncio. Depois da chuva, o eventual brilho da lata deles há-de redundar em ferrugem. E, espero eu, até os patetas mais patetas perceberão também o significado de patético.

 
Ribeira de Pena, 15 de Fevereiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-02-2016.]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (26)



Parábola das aparências



Era uma vez um homem que só escanhoava metade da barba. Isto é, dividia o rosto a meio, no sentido longitudinal, e rapava os pêlos do seu lado esquerdo (pilosidade pescoçal incluída), deixando o lado direito incólume. 
A mulher sorriu à ideia do homem. Perguntou-lhe:
- Não fazes a barba toda?
O homem sorriu também e disse:
- Uma parte de mim quer fazer; outra parte não. De modo que, em vez de fazer a barba, faço a bar.
A mulher admirou-se:
- A bar?
O homem explicou-se:
- Sim. Faço apenas uma sílaba da barba.
No final da primeira semana, a diferença entre um lado e outro notava-se bem.
Ao caminhar para o emprego, ao longo da rua, pessoas do lado direito da sua marcha (o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros) comentavam, cheias de um azedume burguês:
- Parece que não tem tempo para cuidar do aspecto! Aquilo é doença ou preguiça…
As pessoas do lado esquerdo (o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal) tinham uma visão diferente:
- Até dá gosto! Sempre muito bem afeitado, com um ar limpo e saudável – fossem todos assim…
Claro que, no regresso a casa, pelas sete da tarde, o tom dos comentários tendia a transformar-se. As pessoas que o viam regressar, no lado direito da sua marcha (e que, de manhã, lhe ficavam à esquerda da andança), admiravam-se bastante do que viam:
- Muito lhe cresce a barba da manhã para a noite. Parece um bicho! Eu não acredito em lobisomens, mas nunca se sabe…
Do outro lado da rua, aqueles que de manhã lhe haviam verberado o mau aspecto, resmungavam novos reparos, carregados de uma ironia venenosa:
- Ainda bem que o emprego lhe dá tempo para fazer a barba. Por isso nos fartamos de esperar na repartição. E queixam-se eles da falta de pessoal…
Dois meses depois da sua ideia, o homem já tinha, no seu lado esquerdo, uma tão imensa barba que mesmo quem o observava do lado contrário (e sem grande esforço) percebia aquela divisão tão extraordinária.
Dos dois lados da rua, de manhã e de tarde, todos concluíam que se tratava, afinal, de um louco.
Só a esposa, que estava ao corrente da exacta excentricidade do homem, sabia que não era bem loucura. No máximo, seria uma sílaba de loucura. E por isso assegurava, em repetidas conversas com o barbeiro, o engraxador, o professor Manolete, a dona Berta da agência de seguros, o senhor Gregório da papelaria, a menina Lurdes na sua eterna cadeira de rodas, as irmãs Melo da frutaria, às vezes um ou outro marinheiro saindo da pensão Ideal:
- O meu marido é apenas lou.

Ribeira de Pena, 09 de Fevereiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto – cuja versão original data de 2010 - foi publicado no semanário O Ribatejo, edição de 11-02-2016.]

sábado, 6 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (25)


Depois da inocência

O meu amigo Manuel Vilela foi soldado em Moçambique durante a guerra colonial. Muitas vezes o ouvi recordar episódios dessa sua experiência – uns eivados de dramatismo e tragédia, outros carregados de ironia, todos profundamente humanos e comoventes. De cada vez que fala, ao invés do sexagenário sereno de hoje, que teme o colesterol e as mudanças de clima, vejo ali um moço de vinte anos cheio de saúde e beleza, capaz de todas as proezas e de todos os sonhos.
Entre muitas histórias, diverte-me aquela do camarada cuja noiva fez chegar a África uma cassete áudio, murmurando juras de amor, enquanto se ouvia em fundo a canção proibida de Gainsbourg, maliciosamente interpretada por Jane Birkin, “Je t’aime (moi non plus)”. Alguns dos soldados, por ingenuidade ou acinte, deram em tecer comentários aos gemidos da gravação, pondo em causa a castidade da moça – e o infeliz receptor, após alguns sorrisos dificultosos, decidiu mesmo terminar o namoro com a putativa rameira.
Impressionou-me igualmente o relato da morte de um soldado folgazão, amigo especial do meu amigo, pouco antes do regresso do pelotão à metrópole, num lance de imprudência jovial que envolveu muita bebida e mulheres.
Mas, entre tantas narrativas, avultou-me sobretudo o pormenor que Manuel me contou sobre o regresso a Portugal, a bordo do Niassa: foi uma viagem cheia de silêncio e angústia, como se os soldados - na ressaca de tantos perigos, violências, mortes - carregassem consigo o peso inteiro do mundo. O contrário, garante o Vilela, da viagem de ida, que fora tão alegre e ruidosa.
Num outro contexto, aconteceu-me algo semelhante, aí por 1979, quando fui a Alvalade jogar, pelo União de Coimbra, com o grande Sporting, na 1ª jornada da 2ª volta do campeonato nacional de juniores. Na 1ª volta, o resultado do jogo (disputado no célebre campo da Arregaça) ficara-se por 1-1. No autocarro entre Coimbra e Lisboa, havia uma espécie de entusiasmo febril, feito de piadas, risos, apartes espirituosos, pois estávamos todos tão certos da glória iminente: um triunfo na “casa” do líder, a mudança para o 1.º lugar na classificação, o futuro de fama e riqueza prováveis. Perdemos por 4-0 e, em vez de sermos os melhores do mundo, levámos um baile dos antigos, mal tocando na bola. A viagem de regresso foi um suplício, algo entre a tristeza e a vergonha. Toda a gente percebia, no autocarro do nosso desapontamento, que aquela derrota custara muito mais que um jogo.
A idade ajuda-nos a lidar melhor com a tragédia, as perdas, as desilusões, a própria passagem do tempo. Mas tenho percebido que nunca se está completamente imune à Dor, essa cabra.

Ribeira de Pena, 01 de Fevereiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04-02-2016.]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (24)


Homenagem às CPCJ

Faço parte, para aí há uma década, da Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Cabeceiras de Basto. Comecei pela comissão restrita, que é, na verdade, o braço fundamental da acção desenvolvida por esta organização. Depois, passei para a (assim chamada) comissão alargada, espécie de órgão consultivo que congrega entidades e instituições do concelho e cujo papel é infinitamente mais simples. Sinto como um ultraje (grosseiro e cobarde) muitas das críticas que alguns indigentes do comentário televisivo fazem sobre as CPCJ do nosso país. Mesmo concedendo que haverá - sempre, sempre - aspectos a melhorar na organização e funcionamento da instituição, existe na análise ao trabalho (muitas vezes, não remunerado) destas instituições um escandaloso défice de seriedade e rigor, que compreenda a delicadeza e a complexidade do seu labor. Deixai que vos fale de um caso.
Esperança A. Dias, uma menina nascida no Porto, há oito anos, foi a segunda das duas filhas de Prudência Fontes a ser abusada sexualmente por Jeremias W., ex-mecânico de automóveis, toxicodependente com cadastro na polícia por furtos e tráfico de estupefacientes, que foi companheiro da mãe das vítimas no último quadriénio. O homem está preso preventivamente e a mulher, após ter sido provada a sua inocência, foi libertada e luta agora pela custódia das filhas.
Durante muito tempo, as crianças viveram num absoluto inferno, ora ruidoso, ora silente, consoante se tratasse de pancadaria e insultos da besta masculina ou da discreta satisfação dos seus impulsos animais. O caso passou relativamente despercebido à vizinhança, a funcionários e docentes do centro escolar, aos médicos e enfermeiros do centro de saúde, aos familiares, aos transeuntes em geral. Às vezes, alguém comentava, a meia voz, a nódoa negra que uma das meninas ostentava no rosto ou no braço (“Caiu”, assegurava a mãe). Ou a roupa demasiado fina para o frio de Janeiro. Ou as tonturas da mais velha (com nove anos) no final de certa manhã escolar.
Houve um dia em que, a pedido da professora, a menina mais nova revelou o seu maior desejo e o seu maior medo. E o seu maior desejo era estar com a mãe e a irmã num lugar onde houvesse mar, em paz, sem medo do que ia acontecer à noite. O seu maior medo era que um homem bruto a acordasse a meio do sono e a magoasse. Não foram precisas muitas horas para a docente, nesse mesmo dia, perceber o drama e denunciar o caso. Veio a justiça. Veio a CPCJ da cidade onde a menina (des)vivia.
Confissão: a menina é uma invenção do autor deste texto. Mas não deixa de existir, com outros nomes e em outros lugares. É uma menina textual, digamos assim, mas só no sentido em que nela se torna verbo a realidade que precisamos de dizer. De qualquer modo, é uma menina essencialmente verdadeira, uma ferida aberta no peito do nosso mundo, das nossas vidas, dos nossos corações.
A CPCJ existe em nome desta menina, que é todas as meninas e meninos (e todos os jovens e todos os idosos) em risco ou em perigo. Todos os dias o mundo é culpado de ver o mal e fingir que não vê. Ou de ver e não fazer o suficiente. Ou de não ver. As vítimas – sobretudo as mais frágeis – precisam da nossa atenção solidária, lúcida e competente. E de haver mãos e passos que à sensibilidade do olhar acrescentem a nobreza de agir.
Talvez a menina Esperança A. Dias não soubesse que lhe estavam a roubar a vida. Talvez achasse normal (porque inevitável) a miséria do seu chão e a penúria do seu horizonte. As CPCJ querem, acima de tudo, dar voz a quem, tantas vezes, nem sequer sabe do seu direito a ter voz – para, por exemplo, dizer Não ao espezinhamento da própria infância. Todas as crianças (todas as pessoas, afinal) têm direito à felicidade. Direito a sonhar com um dia tranquilo passado junto ao mar, sem medo que a bruta noite venha.

Ribeira de Pena, 24 de Janeiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-01-2016. Uma versão mais curta foi originalmente escrita para fazer parte - como nota introdutória - do Plano Anual de Actividades para 2016 da CPCJ de Cabeceiras de Basto.]

domingo, 24 de janeiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (23)


Auto da Barca da Justiça

Ando a estudar, com os meus alunos do nono ano, o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente. Para preparar a leitura, na aula, das cenas com o Corregedor e o Procurador, recorri a alguns cartoons crítico-humorísticos sobre a ideia de Justiça.
Num debate assaz vivo, ouvi-os a perorar, à roda do primeiro cartoon, sobre a imagem tradicional de Justiça, sugerindo explicações para a formosura da figura feminina, a venda sobre os seus olhos, a espada na mão direita, a balança de dois pratos na mão esquerda. Gostei de os ouvir concluir que a Justiça, quando bem exercida, é bela; que os juízes não devem olhar, enquanto decidem a sentença, para aspectos exteriores dos réus (condição social, económica, cultural, religião, cor da pele); que o tribunal deve pesar as circunstâncias atenuantes e/ou agravantes em cada caso julgado; que a aplicação final da justiça deve ser forte, corajosa, firme.
Outro cartoon mostrava uma senhora menos elegante, de aparência mais reles e roliça, com a sua venda discretamente descoberta, enquanto recebia, de um poderoso anafado, o gordo dinheiro corruptor e a sua espada caía, impiedosa, sobre um pequeno ladrão de galinhas.
Outro cartoon mostrava uma mulher em versão estatuária, sem rosto e sem mãos, reduzida a pedregulho adinâmico e inútil.
Outro cartoon mostrava uma mulher com três mãos – uma para empunhar a espada, outra para erguer a balança e a terceira para, de modo sub-reptício, receber o cash venal da ocasião.
À imagem do primeiro cartoon, os alunos chamaram, sem dificuldade, a Justiça como-deve-ser, ou Justiça perfeita, ou Justiça ideal.
À imagem da mulher com três mãos, após maior tempo de reflexão, os alunos chamaram Justiça imperfeita, Justiça suja, Justiça corrupta. E houve uma menina que àquela figura chamou monstro. Aproveitei essa designação e falei-lhes eu próprio da ideia de “aberração”, enquanto perversão e deformação de algo originariamente harmonioso e belo. Para rematar, quis que me dissessem o que era, para eles, a aberração da Justiça.
Um aluno saiu-se com esta: “É uma Justiça injusta.”
Aplaudi a síntese e lá começámos a ler a cena com o Corregedor.
Falta dizer que o auto vicentino continua muito actual. Ou, para utilizar um jargão jurídico recorrente, está muito longe de prescrever.

Ribeira de Pena, 20 de Janeiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 21-01-2016.]

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (22)


 
O teste do Estado Novo

 Estou recenseado a cerca de 250 quilómetros do local onde trabalho há já 20 anos. Nunca me apeteceu mudar o local de voto e, com feroz militância democrática, nunca incumpro o dever de votar – ainda que o exercício me fique caro em gasóleo, portagens, fadiga e desilusões.
Confesso que as próximas eleições para a presidência da República inauguraram em mim, pela primeiríssima vez, a miserável tentação do absentismo. Deve haver nisto algo de preguiça, admito. Mas é sobretudo a sensação de que o meu voto, como o dos outros, pouco contribuirá para a melhoria do país, da sociedade, da nossa vida em concreto.
Creio que Aníbal Cavaco Silva é o responsável maior pela banalização e menorização do lugar e da função. Há-de parecer arrogante o que aqui vos digo, mas lamento muito a passagem pela presidência do presidente cessante. Para um cargo assim, exigir-se-ia alguém com outra profundidade intelectual e outra densidade cívico-humanística. Ficarão para a História os seus discursos redondos, vagos e genéricos, decerto candidatos ao título num campeonato mundial de clichês que houvesse. O pior de tudo, mesmo assim, foi a sua falta de currículo democrático. Deixai que me explique.
Eu não sei o que faria se tivesse 20-30 anos em pleno Estado Novo. Teria lutado contra a guerra colonial, a Pide, a falta de democracia – ou teria, como tantos, aceitado as regras em vigor, salvaguardando a carreira, o conforto e a segurança mui pessoais? Eu gosto de pensar que teria combatido a ditadura, escrito e gritado pela liberdade, conjurado contra a guerra. Mas não posso, em rigor, garantir que seria isso a acontecer. Não estava lá.
No caso dos que, como Cavaco, eram adultos na época do Estado Novo, sabemos o que se passou. Ele nunca lutou contra o fascismo porque – explicou – estava ocupado a estudar. Fez, aliás, o seu doutoramento em Inglaterra, pátria secular do parlamentarismo democrático, sem que tal lhe acordasse angústias comparativas. Nunca se incomodou publicamente com o atraso português em matéria de condições de vida e de liberdades. Nunca se lhe conheceu uma palavra crítica sobre a guerra colonial. Aceitou o statu quo histórico e fez pela vidinha.
Outos, como Soares, Cunhal, Jorge Sampaio, ou – em plena Assembleia Nacional – como Francisco de Sá-Carneiro ou Pinto Balsemão, ousaram indignar-se e lutar, com naturais prejuízos pessoais e profissionais.
Não julgo Cavaco pelo que, à época, não fez. Não me sinto sequer superior, porque não posso garantir (já o disse atrás) que, em contexto igual, eu tivesse sido melhor do que ele. Mas um presidente da República deveria ser sempre, perdoai o romantismo, um dos melhores exemplos da nação, e esse pressuposto compreende a questão da coragem e da plena cidadania.
Pois, talvez eu próprio não passasse no teste do Estado Novo. Não o sei. Mas sei que Cavaco, esse, não passou mesmo – e que, contudo, foi presidente do nosso país por dois mandatos consecutivos.

Ribeira de Pena, 07 de Janeiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 14-021-2016.]

domingo, 3 de janeiro de 2016

Escola Preparatória Rainha Santa Isabel (Coimbra)


Em 1976 eu já amava o futebol
E a literatura.
No futebol escondia dos outros o segredo
Dos versos.
Nos versos, ai de mim, não podia bem esconder
Fosse o que fosse.
Naquele tempo eu já era contemporâneo
Do Abrunheiro
Mal suspeitando do génio literário por ali crescendo
Metido no comum contexto da escola
Lendo os mesmos livros
Consciente do tesouro de haver Pai e Mãe
Feliz por não haver ainda a morte –
Sujeito também à beleza absoluta das mulheres.
Na nossa escola havia certas flores
(Ou anjos, ou fadas, ou improváveis princesas)
E ambos aprendemos à roda do Sol que elas eram
Sobre o amor
O paradoxo de ser obrigatório a dor
Para se viver
(Para inteiramente se viver).
Depois o Daniel deveio poeta maior
(O mais importante do seu meu nosso tempo)
E eu segui sobretudo a prosa:
Ele diz a beleza e as saudades
Da imortalidade perdida.
Eu, enfim, conto a mesma história
De perdas ausências faltas.
O nosso destino tem esta cumplicidade
Do verbo dito-inventado em português.
Mas o mais engraçado, talvez, é algumas flores
(Ou fadas, anjos, princesas impossíveis)
Serem leitoras de ambos e não perceberem
(Ou então fingirem não perceber)
Que a nossa escrita
Tantas vezes
É por causa delas!

Coimbra, 01 de Janeiro de 2016.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do filme Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, e foi colhida, com a devida vénia, na internet (via wikipédia).]

ZONA DE PERECÍVEIS (21)


Mondego & Tempo


No coração de cada homem, há um rio mais importante do que os outros. Faz parte, quase sempre, do cenário da terra natal, mas vai além: é uma marca de identidade muito profunda, um sinal, uma sina.
Eu vi o Mondego do colo da minha Mãe, durante as festas da Rainha Santa; da janela do autocarro escolar (com a professora primária aos berros), em direcção às piscinas de Celas; pelo vidro traseiro do carro de meu Pai, a caminho do campo da Arregaça, onde jogava o União de Coimbra. Cheguei a tomar banho nas suas águas, com amigos de infância e adolescência, em recantos do mítico Choupal, numa espécie de lago que designávamos por “Frigorífico”. Mergulhávamos ali de calções ou cuecas, e havia até quem se afoitasse nu (esses estavam sujeitos a partidas cujos autores nunca revelarei, mesmo porque as vítimas ainda hoje, à lembrança do que passaram, fazem má cara).
A vida já me pôs em contacto com outros rios célebres, como o Tejo, o Douro, o Minho, o Lis, o Nabão, por exemplo. Mas o meu rio, não há dúvida, é o Mondego. Nenhum se lhe compara nesta enviesada avaliação que, compreendei, se funda muito mais no amor que na wikipédia.
A ideia de que os rios são uma imagem da vida, de tão usada por filósofos, poetas e padres, tornou-se clichê. Mas continua a fazer sentido. O mesmo se aplica à ideia de Destino como a busca da exacta foz onde desaguar, só então se atingindo essa plenitude e essa liberdade a que chamamos mar.
Contudo, a partir dos 40 anos, mais ou menos, transcorrida metade da nossa existência provável, tendemos à reformulação desta metáfora (ou alegoria). Daí em diante, a vida já não se vê apenas como um percurso entre a nascente e o mar; é também a viagem inversa - do mar onde estamos até a alguns lugares-tempos de onde viemos, certas circunstância em que fomos córregos novos, ribeiros moços, rios cheios de saúde e de causas. Na verdade, o passado e o presente, na fase da maturidade, tendem a (con)fundir-se. O mar que deviemos não se esquece dos fios de água doce anteriores a agora.
Lembrei-me disto neste Natal, enquanto ajudava a minha Mãe a subir umas escadas, no regresso do centro comercial, após a travessia da ponte do Açude, num dia em que o Mondego estava cheio de água e de paz. Ela estava cansada – da viagem e da vida toda. Procurou apoio em mim e eu dei-lho. Como se ela fosse minha filha.


Coimbra, 29 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 31-12-2015.]

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (20)



O Natal como Júlio Dinis

Dou por mim a cruzar a ideia de Natal com Júlio Dinis. Quando ouço colegas e amigos fazendo planos para “ir à terra” passar a consoada, ocorre-me que a minha aldeia natal é a mesma do José das Dornas, da Morgadinha dos canaviais ou do Tomé da Póvoa. E aquele jantar de família, a 24 de Dezembro, apesar das tantas ausências, é um regresso provisório ao mundo simples e grato que Júlio Dinis inventou.
Comecei a ler este escritor aí pelos dez, onze anos. O primeiro romance que devorei foi As Pupilas do Senhor Reitor. Logo a seguir, veio Uma Família Inglesa (que revisitei no ensino secundário por esta obra fazer, à época, parte do cânone escolar). Depois, A Morgadinha dos Canaviais. Finalmente, Os Fidalgos da Casa Mourisca.
O que me encantou, desde muito cedo, foi a clareza e elegância da prosa, claro, mas também a espantosa qualidade dos vívidos diálogos e a tão perfeita arte de bem contar uma história. Uma história bem engendrada funda-se numa intriga, mas tem de, para ser literariamente relevante, compreender mais do que isso: é preciso que nela compareçam, de forma natural, elementos representativos da vida, da sociedade, da humanidade em movimento. Dessa circunstância depende a profundidade da adesão leitora, que decorre muito da verosimilhança do contexto, da ilusão de vida verdadeira em cada cena narrada, da concomitância do tempo narrativo com o tempo da própria existência física. Num grande romance percebe-se o tempo a passar, a vida a acontecer.
Os críticos de Dinis acusam-no de haver criado narrativas demasiado simples, na forma e no conteúdo. E a isto acrescentam que os romances são retoricamente ingénuos, porque – imagine-se – há neles a percepção de que os “bons” são sempre premiados e os “maus”, ou os “menos bons”, são sempre castigados.
Eu gosto de pensar que a principal característica de Júlio Dinis é a de, à maneira dos melhores clássicos, ele ter percebido que um romance pertence ao modo narrativo, logo que a eficácia e brilho da obra dependem, sobretudo, da arte de bem contar. A escrita serve (humildemente) a história – ou, no máximo, é consubstancial à história.
Em boa parte, é essa humildade do escritor que torna amável a literatura dinisiana. “Amável” significa aqui, antes de mais, literatura susceptível de ser amada.
Quanto ao resto (isso de a realidade não ser assim tão simples e bela como a que encontramos nas narrativas dinisianas), busco a resposta na saudosa – e genial – Maria Lúcia Lepecky, citando-a de cor: que culpa tem Júlio Dinis que a História, ao contrário das histórias do autor d’As Pupilas, se esqueça de acontecer?

Ribeira de Pena, 21 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-12-2015.]