Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

domingo, 3 de janeiro de 2016

ZONA DE PERECÍVEIS (21)


Mondego & Tempo


No coração de cada homem, há um rio mais importante do que os outros. Faz parte, quase sempre, do cenário da terra natal, mas vai além: é uma marca de identidade muito profunda, um sinal, uma sina.
Eu vi o Mondego do colo da minha Mãe, durante as festas da Rainha Santa; da janela do autocarro escolar (com a professora primária aos berros), em direcção às piscinas de Celas; pelo vidro traseiro do carro de meu Pai, a caminho do campo da Arregaça, onde jogava o União de Coimbra. Cheguei a tomar banho nas suas águas, com amigos de infância e adolescência, em recantos do mítico Choupal, numa espécie de lago que designávamos por “Frigorífico”. Mergulhávamos ali de calções ou cuecas, e havia até quem se afoitasse nu (esses estavam sujeitos a partidas cujos autores nunca revelarei, mesmo porque as vítimas ainda hoje, à lembrança do que passaram, fazem má cara).
A vida já me pôs em contacto com outros rios célebres, como o Tejo, o Douro, o Minho, o Lis, o Nabão, por exemplo. Mas o meu rio, não há dúvida, é o Mondego. Nenhum se lhe compara nesta enviesada avaliação que, compreendei, se funda muito mais no amor que na wikipédia.
A ideia de que os rios são uma imagem da vida, de tão usada por filósofos, poetas e padres, tornou-se clichê. Mas continua a fazer sentido. O mesmo se aplica à ideia de Destino como a busca da exacta foz onde desaguar, só então se atingindo essa plenitude e essa liberdade a que chamamos mar.
Contudo, a partir dos 40 anos, mais ou menos, transcorrida metade da nossa existência provável, tendemos à reformulação desta metáfora (ou alegoria). Daí em diante, a vida já não se vê apenas como um percurso entre a nascente e o mar; é também a viagem inversa - do mar onde estamos até a alguns lugares-tempos de onde viemos, certas circunstância em que fomos córregos novos, ribeiros moços, rios cheios de saúde e de causas. Na verdade, o passado e o presente, na fase da maturidade, tendem a (con)fundir-se. O mar que deviemos não se esquece dos fios de água doce anteriores a agora.
Lembrei-me disto neste Natal, enquanto ajudava a minha Mãe a subir umas escadas, no regresso do centro comercial, após a travessia da ponte do Açude, num dia em que o Mondego estava cheio de água e de paz. Ela estava cansada – da viagem e da vida toda. Procurou apoio em mim e eu dei-lho. Como se ela fosse minha filha.


Coimbra, 29 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 31-12-2015.]

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (20)



O Natal como Júlio Dinis

Dou por mim a cruzar a ideia de Natal com Júlio Dinis. Quando ouço colegas e amigos fazendo planos para “ir à terra” passar a consoada, ocorre-me que a minha aldeia natal é a mesma do José das Dornas, da Morgadinha dos canaviais ou do Tomé da Póvoa. E aquele jantar de família, a 24 de Dezembro, apesar das tantas ausências, é um regresso provisório ao mundo simples e grato que Júlio Dinis inventou.
Comecei a ler este escritor aí pelos dez, onze anos. O primeiro romance que devorei foi As Pupilas do Senhor Reitor. Logo a seguir, veio Uma Família Inglesa (que revisitei no ensino secundário por esta obra fazer, à época, parte do cânone escolar). Depois, A Morgadinha dos Canaviais. Finalmente, Os Fidalgos da Casa Mourisca.
O que me encantou, desde muito cedo, foi a clareza e elegância da prosa, claro, mas também a espantosa qualidade dos vívidos diálogos e a tão perfeita arte de bem contar uma história. Uma história bem engendrada funda-se numa intriga, mas tem de, para ser literariamente relevante, compreender mais do que isso: é preciso que nela compareçam, de forma natural, elementos representativos da vida, da sociedade, da humanidade em movimento. Dessa circunstância depende a profundidade da adesão leitora, que decorre muito da verosimilhança do contexto, da ilusão de vida verdadeira em cada cena narrada, da concomitância do tempo narrativo com o tempo da própria existência física. Num grande romance percebe-se o tempo a passar, a vida a acontecer.
Os críticos de Dinis acusam-no de haver criado narrativas demasiado simples, na forma e no conteúdo. E a isto acrescentam que os romances são retoricamente ingénuos, porque – imagine-se – há neles a percepção de que os “bons” são sempre premiados e os “maus”, ou os “menos bons”, são sempre castigados.
Eu gosto de pensar que a principal característica de Júlio Dinis é a de, à maneira dos melhores clássicos, ele ter percebido que um romance pertence ao modo narrativo, logo que a eficácia e brilho da obra dependem, sobretudo, da arte de bem contar. A escrita serve (humildemente) a história – ou, no máximo, é consubstancial à história.
Em boa parte, é essa humildade do escritor que torna amável a literatura dinisiana. “Amável” significa aqui, antes de mais, literatura susceptível de ser amada.
Quanto ao resto (isso de a realidade não ser assim tão simples e bela como a que encontramos nas narrativas dinisianas), busco a resposta na saudosa – e genial – Maria Lúcia Lepecky, citando-a de cor: que culpa tem Júlio Dinis que a História, ao contrário das histórias do autor d’As Pupilas, se esqueça de acontecer?

Ribeira de Pena, 21 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 25-12-2015.]

sábado, 19 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (19)


O duro desejo de durar


Há pouco tempo, um médico alertou-me, com cara de poucos amigos, para a iminência de algum ataque cardíaco. Mal me olhava, tão escandalosos lhe pareciam os valores da diabetes e do colesterol que lia nos exames. Rematou o aviso com medicação, ordem para novo estilo de vida e requisição de novas análises. Saí do consultório assustado como um empregado bancário que, por pouco, houvesse sobrevivido a um assalto.
Eu dou-me bem com a mortalidade, enquanto conceito, mas custa-me muito a concretude da morte propriamente dita. Com insuspeitada autodisciplina, abracei uma cínica dieta que, entre outras violências, compreendeu a abolição dos doces e sumos, a redução do número de pães consumidos por dia, a limitação dos hidratos de carbono, o respeito espartano pelos horários das refeições. Mais: obriguei-me a um exercício físico regular e quase diário, apesar do frio e da chuva frequentes neste cantinho transmontano onde resido. O sumário de tudo quanto aqui digo é simples: não quero (ainda) morrer.
Deu-se entretanto o caso de uma moça muito jovem, que conheci desde a sua infância, ter sido assassinada por um cancro. E de um rapaz de 18 anos, que ainda há pouco se cruzava comigo nos corredores da escola, se ter suicidado por (disseram-me) desgosto de amor. E de haver esta epidemia de os pais e as mães dos meus contemporâneos estarem a partir. O mais paradoxal é, em cada funeral, ouvirmos o consabido estribilho: “É a vida.”
Um grande poeta romeno, Paul Célan, escreveu um magnífico verso sobre esta assombração que me acompanha, desde a meninice, perante o mistério e a indignidade da morte: “le dur désir de durer” (o duro desejo de durar). No embalo desta aliteração, ecoa a contradição milenar da condição humana – permanentemente projectada sobre o futuro, mas consciente da sua inevitável finitude.
Há dias, vi um episódio muito interessante de “Odisseia no espaço”, com apresentação do físico Neil deGrasse Tyson, sobre a história de Gilgamesh, rei da Suméria (quase 3.000 anos AC). O narrador descrevia, com pormenor e imaginação, as conquistas desse herói mais ou menos lendário, sublinhando a sua demencial pulsão: descobrir o segredo da imortalidade. Acontece que a história desta personagem foi descoberta num épico mesopotâmico, escrito em tábuas com caracteres cuneiformes, exactamente com o título de Epopeia de Gilgamesh. Isto é, a imortalidade – ou algo parecido – talvez estivesse (talvez esteja) na palavra escrita.
Já não é mau. 

Ribeira de Pena, 12 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 15-12-2015.]

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Forever Music


 
Lembro-me do gesto antes da música –

O rapaz retirando o vinil do plástico

A conduzir a agulha do gira-discos

(Delicadamente)

Lembro-me de mim –

O rapaz sentando-se no sofá antigo

A letra da canção sobre os joelhos

O silêncio antes da música.

Lembro-me do disco rodando –

O céu saindo pelas colunas do som

A voz rouca dos versos, a guitarra eléctrica

O ritmo da vida por um baterista louco.

Lembro-me da música –

Esse rio deslizando para tão longe dali

Essa ilusão de eternidade feliz

Até ao inevitável mutismo

(Porquê?)

Da foz.

Nada me interessa senão recordar

(Delicadamente)

A música, ou aquilo de colocar a agulha

Sobre a faixa preferida do álbum

E de novo saborear a eternidade

Às voltas como se não houvesse

Fim.

 
Arco, 10 de Dezembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.audiopt.net.]

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (17)


5, talvez 6 sentidos

Almeida Garrett, que decorosamente convertia a sua libido em versos com flores e filosofia, versou o tema dos cinco sentidos aí por 1853. Num poema de Folhas Caídas, percebemos que a experiência sensorial do sujeito poético é fatal ponto de partida para a evocação e a presentificação da mulher amada.
Lembrei-me deste fenómeno ao passar pela porta de uma casa transmontana, logo pela manhã. Cheirava a café com leite. De imediato, saiu um jacto do meu coração em direcção à infância: a minha Mãe na cozinha preparando o pequeno-almoço, assim o odor quente de leite e café invadindo os quartos como uma carícia. Viaja-se pelo cheiro, portanto. Alguns perfumes devolvem-nos namoros que eram para ser eternos, ou então simples enlevos secretos e, não vos digo mais nada, proibidos. (Tive uma colega que, ao cheiro da bosta pecuária, se lembrava do querido lar paterno, fenómeno decorrente de a família criar gado e produzir leite para venda.)
Acontece-me o mesmo com alguns sons: a chuva no telhado que, coitadinha, se veio a tornar clichê de maus escribas, é quase sempre uma querida música com refrão familiar. E há algumas canções que logo nos tiram a poeira da idade e do cinismo, tornando-nos por segundos novamente românticos.
Também se viaja pelo paladar, claro. Já me sucedeu voltar à amada praia de Mira, ao tempo em que (como diria o senhor Pessoa) ninguém estava morto, apenas pela degustação de caranguejos ou de carapaus fritos.
E o tacto? A minha Mãe, que nunca leu Garrett, guardou certo cobertor que o mais novo da prole exigia, quando muito infante, para dormir. Porque, sabei, a textura do têxtil é hoje passaporte mágico para aquele tempo da absoluta inocência e felicidade.
Sobre a visão, nem valeria a pena escrever, tão desmesurado é o poder de, pelo olhar, sabermos quase tudo dos ganhos e das perdas da nossa existência: o meu sobrinho-neto gritando à roda da mesa natalina e a cadeira do meu amigo Conceição muito vazia do seu bigode trocista.
Um, dois, três, quatro, cinco sentidos. Não rima, mas é mesmo, creio eu, a conta que Deus fez. Há quem fale de um sexto sentido, normalmente associado às mulheres. Talvez seja verdade. A senhora D. Lurdes, uma querida vizinha nossa, deu conta às filhas, há um ano, de ter sentido, em certa (exacta) hora do dia, uma angústia nunca antes experimentada: era – disse - decerto o marido, internado no hospital por essa altura, a despedir-se do mundo. E, com efeito, o senhor Luís Monteiro, nesse instante, separara-se de nós para sempre.

Coimbra, 30 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 04-12-2015.]

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Rua Augusta, n.º 25






Lembro-me vagamente desse tempo –
Tu inexistindo-me uns anitos
Ainda antes de me fazeres falta.
Há até testemunhas desse calendário,
Fotografias juvenis em que não estás
E por vezes ocorre-me que é engano.
Como poderia não haver o teu sorriso
A tua voz a tua pele o cheiro a ti
As tuas mãos consubstanciais às minhas?
É tão bom ser para sempre o nosso presente!
Partilhamos filha casas livros amigos contas
Mortes nascimentos medos sonhos muito Mar.
Digo: amo-te.
Tu já sabes (eu sei que sabes);
Mas não exactamente quanto,
Meu amor.
Olha que eu te amo mais do que algum dia saberás!

Ribeira de Pena, 03 de Dezembro de 2015, no 32.º aniversário do meu casamento com a MP.
Joaquim Jorge Carvalho

[As fotos - enviadas pela VL por Email sem que a MP soubesse - são de há 32 anos. Portanto, de ainda agora.]

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (16)

CR7, ou o cronista outra vez criança

A paixão pelo futebol é, em mim, uma das mais puras e perenes marcas da infância. Não tenho vergonha deste amor pueril e deliberadamente me sujeito à alienação semanal que ele compreende: a minha vida presa por uma bola na trave, uma defesa impossível, certo drible corrido que, por instantes, vale mais que literatura, emprego, saúde, vizinhança.
Ao longo de anos, coleccionei ídolos, sobretudo os de leão ao peito. O clubismo, como eu o vejo, é sempre uma história de amor – chega-nos dos pais, dos irmãos, de um primo divertido, de um amigo. Às vezes, também da própria dinâmica de vitória que, em certos ciclos (anos, décadas), alguns emblemas protagonizam e mediaticamente celebram.
Eu sou do Yazalde, do Damas, do Jordão, do Salif Keita, do Manoel, do Futre, do Figo, do Cristiano Ronaldo e, mais recentemente, do Bryan Ruiz. Tendo a desculpar, com preconceito sanguíneo, as falhas dos meus eleitos, desviando culpas para o estado do terreno, a brutidade dos adversários, a inépcia do treinador, a má vontade dos colegas, a venalidade do árbitro. Tudo isto há-de soar a criancice, mas (já vo-lo disse) é uma criança que sobre isto perora.
Tem-me doído muito, na presente época futebolística, o brilho mais baço do Cristiano Ronaldo. Sou seu feroz adorador desde há uns bons doze anos. Há nele tudo o que se quer de um grande jogador: capacidade físico-atlética, técnica, talento, ambição, eficácia. Marca com o pé esquerdo e o direito, marca de cabeça, desmarca-se, cruza e dribla de forma perfeita, é veloz como um felino na selva, eleva-se com a majestade de uma ave maior.
Os detractores, normalmente, diminuem-no face a Messi com um argumento escandaloso: o argentino é – dizem – um talento natural; a capacidade de Ronaldo decorre, ao invés (?), de muito treino, logo – dizem – é artificial. Como se a busca (esforçada, sistemática, persistente) da perfeição fosse, afinal, sinal de fraqueza ou demérito!
Eu, que admiro Messi porque gosto de grandes jogadores, sou do Ronaldo. E não quero saber se ele é vaidoso, arrogante, egocêntrico, infiel às namoradas. Nada tenho que ver com tal. Fernando Pessoa, o meu CR7 da poesia, também se dedicava ao álcool e à astrologia, e isso é, para mim, pouco mais que um folclore menor, quiçá irrelevante.
Dou graças, sim, por ser contemporâneo de Cristiano Ronaldo, o divino número 7 da selecção portuguesa.

Ribeira de Pena, 24 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 27-11-2015.]

domingo, 22 de novembro de 2015

Lugar & espaço



Maria Lúcia Lepecky é uma brasileira responsável por alguns dos melhores estudos jamais feitos sobre (e pela) literatura portuguesa. Faleceu dois dias antes de eu ter defendido a minha tese de doutoramento «Acção cenas e personagens na narrativa dinisiana: as pupilas do senhor escritor». É dela uma maravilhosa definição sobre "espaço literário": por oposição a "lugar" tout court, espaço seria, na ideia da autora, um "lugar semantizado", isto é, um lugar com sentido. Este sentido decorreria, muito simplesmente, da presença de humanidade (ou, em alternativa, direi eu, da saudade da presença humana).
Dito de outro modo: os lugares assumem-se como espaços se a si se acrescentarem olhares e passos de gente, sentimentos e emoções, histórias de amor. Em boa verdade, estes lugares, quando elevados à categoria de espaços, são consubstanciais à própria humanidade.
Não é preciso ler Júlio Dinis (ou outros escritores) para entender bem o que acima se diz. Basta passar pelos lugares que fazem parte da nossa vida - lugares da infância, da adolescência, da jovem adultez, da maturidade. Mesmo que, em vez da vozearia de uma dezena de crianças, no pátio do meu prédio, haja apenas o silêncio de um rectângulo de cimento, deserto e envelhecido. Mesmo que, em vez de centenas de operários entre a Fábrica da Estaco, a Fábrica da Cerveja, a Termec, a Fábrica da Triunfo, haja simplesmente ruínas e vegetação daninha, a rua vazia de economia e de raparigas louçãs. Mesmo que, em vez do Café A Brasileira, haja um pronto-a-vestir ou uma sala desocupada dizendo "Trespassa-se". Mesmo que, em vez de árvores, a minha rua tenha hoje prédios e prédios e prédios, cimento sem cor nem frutos. Esses lugares são espaços porque eu lhes empresto o meu olhar, o meu coração. A minha memória cheia de saudades.
A aldeia que Júlio Dinis inventou (e que eu amo) é um espaço também meu, porque o sinto e percebo como lugar com humanidade. Lugar comigo dentro.

Coimbra, cidade maravilhosa, 22 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida com a devida vénia, no jornal As Beiras.]

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (15)

O direito à rotina

Por acidente de amor, coube-me em sorte desposar uma madeirense, de tal resultando que, ao longo dos anos, curti parte das férias estivais na maravilhosa cidade (antes, vila) de Machico. Quando lá, gosto de não ter automóvel a meu cuidado e de, feliz pedestre entre pedestres, acordar cedo, seguir com vagar até ao quiosque fronteiro à praia e comprar jornais, escolher uma mesa ao canto da pastelaria mais à mão para café e queijada, beber-comer-ler sem pressa, seguir depois para a praia, estender a praia sobre o calhau vulcânico, saborear o Sol, mergulhar, antes do corpo, os olhos no oceano, esperar que a mulher e a filha cheguem, conversar sobre os nadas e os tudos da vidinha e da Vida, almoçar baratamente, passear a digestão pelo largo da igreja, regressar à praia, dormir embalado pela canção das ondas e da vozearia humana que haja à volta, revisitar a frescura do mar - e enfim regressar à casa da família insular, passando de caminho, talvez, pelo hipermercado para comprar pão, fruta e peixe.
Nos primeiros tempos, o meu sogro afligia-se com esta minha rotina, temendo que se tratasse de um grande aborrecimento. Se calhava cruzar-se comigo, desculpava-se e prometia que, no fim-de-semana, se ele tivesse tempo, iríamos fazer algo de diferente (uma viagem ao norte da ilha, um almoço em certo restaurante do Caniçal, etc.). Acho que nunca verdadeiramente acreditou em mim quando lhe dizia, com absoluta sinceridade, que eu amava aquela repetição voluntária dos dias, que via como consubstanciação da querida tranquilidade e do pleno senhorio do Tempo.
Lembrei-me desse amor pela rotina logo que a televisão deu conta da carnificina ocorrida em Paris. Creio que a magnitude dessa estratégia se mede, para além do número assustador das vítimas mortais e dos feridos, também pela interrupção, quiçá para sempre, da normalidade. Ir ao Café lanchar ou comprar pão, ir ao cinema, ir à discoteca, ir a um museu, ir ao futebol, namorar num jardim público ou nos corredores de um centro comercial – tenderão a passar a situações perigosas (e, no limite da previsível paranóia, a evitar). No último domingo, suspendi a leitura do jornal, no Café, por ter visto sentar-se, em mesa próxima, certo desconhecido transportando uma mochila…
A Liberdade, como a vejo, tem essa concretude das manifestações da minha humanidade mais simples. O terrorismo é, em primeiro lugar, inimigo da Paz, naturalmente. Mas também, pobres de nós, da amável rotina que era, há tão pouco tempo, um inquestionável direito das pessoas de bem.

Ribeira de Pena, 16 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 19-11-2015.]

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (14)

Presente suspenso

 0.           Nota prévia: Não faria sentido eu incomodar os leitores com dores pessoais, excepto se a prosa significasse, tocada pelo vosso próprio entendimento, um ponto de encontro verbal e uma forma (cúmplice) de aconchego. Dessa premissa parto.

1.           É uma menina muito linda, sempre com um sorriso cheio de luz no rosto e nos gestos. Vive com a tia, porque os pais pereceram há uns anos num acidente rodoviário. Está no 9.º ano de escolaridade: é boa aluna e pratica desporto.

2.           A tia é, como eu, professora. Dá aulas a alunos do primeiro ciclo. Dadas as circunstâncias, ela vê aquela miúda tão sua filha como a que deu à luz. As duas pequenas não são, portanto, primas - são irmãs. Jogam ambas futebol de salão no Grupo Desportivo de Ribeira de Pena e estão quase a terminar o ensino secundário.

3.           Vai para a universidade e lamenta-se, sorrindo embora, por não haver emprego que lhe permita fixar-se, um dia, na vila onde cresceu e onde, com frequência, nos cruzamos.

4.           Vejo-a (salvo erro, em Vila Real), já com ar de senhora crescida, mas sempre alegre e fresca como uma brisa de Primavera. Está quase licenciada e depois fará mestrado, como é costume nos dias que correm.

5.           É mestre já, na área de Fisioterapia. Vai para o estrangeiro à procura de trabalho. Disse-me, sorrindo como aquela aluna do 9.º ano, há uns anos, que a nossa casa é onde estivermos bem.

6.           Está no hospital, no Porto, disse-me a minha mulher. Tem uma doença grave, mas “aquilo” parece estar circunscrito e, em princípio, salva-se.

7.           Morreu hoje, aos 4 de Novembro de 2015. Complicações inesperadas, disseram-me. Vou amanhã, com a minha mulher, ao funeral, ambos atordoados e indignados com o brutal cinismo do Inverno.

8.           A Carla é (para sempre) uma menina muito linda, com aquele sorriso de luz. Ainda que me chamem doido, não saio desse Presente.

 
Ribeira de Pena, 04 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 11-11-2015.]

Merceeiro local


Queria ter uma mercearia
Antiga, artesanal e a granel;
Aviar porções a olho no papel
E apontar no rol a quantia;

Ter tempo de entreter cada cliente
Saber de cada medo ou esperança;
Ser um entre pares que, no presente,
São cúmplices d'idade e vizinhança.

Queria ser merceeiro na cidade
Num bairro discreto e popular;
Ser parte da pacata sociedade.

À hora, pelas sete, de fechar
Passar no Café Realidade
E pôr-me à janela a poetar.

Cabeceiras de Basto, 11 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pequenoscriadores.blogspot.com.]

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (13)

Ser assim ou assim-assim

  Fernando Paulouro Neves, na sua última crónica de “Notícias do Bloqueio” (na página 4 d’O Ribatejo), fala do caso Luaty Beirão com lucidez e elegância exemplares. Sobre esta situação concreta, portanto, não carece o jornal da minha prosa.
  Mas o caso remete-me para uma questão ética e moral (ainda) mais lata e profunda, passe a presunção: a do dever a que cada indivíduo está ontologicamente obrigado perante certos dilemas - momentos em que, digamos assim, não há direito a opções cinzentas, ao conforto do advérbio “talvez”, à prudência do adiamento, à cobardia da invisibilidade ou da indiferença.
 Temo que, ao contrário do que celebra Manuel Alegre na Praça da Canção, nem sempre haja alguém que, no momento certo e necessário, diga “Não” (ou “Sim”, conforme o contexto). Perante o extremo sofrimento físico e psicológico, que faria cada um de nós? Entre o emprego e a dignidade, entre a segurança e a liberdade, entre a refeição e a razão, entre a verdade e a sobrevivência – o que escolheria, se tivesse mesmo de escolher, cada um de nós?
 Ora, como diz certa personagem de Felizmente há luar!, de Luís Sttau Monteiro, há homens que se destacam da maioria e, pelo seu exemplo, nos obrigam a olhar ao espelho de nós próprios.
  Heróis como Luaty ajudam-nos a perceber o que, para além do que somos, poderíamos (deveríamos?) ser. Porque às vezes a vida cansa, mas um homem dança. Às vezes a meta não se vê, mas um homem crê. Às vezes o chão magoa, mas um homem voa. Às vezes o percurso é triste, mas um homem resiste. Às vezes não há caminho, mas um homem faz o caminho.


Ribeira de Pena, 02 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
 [Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-11-2015. As últimas frases do texto inscrevem, na presente prosa, versos de um poeminha meu já publicado em “Muito Mar”, “Viver apesar de”.]

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

In memoriam Carla Gil (1987-2015)



É belo e breve o voo das borboletas, esses seres meio flores, meio Sol que cruzam, por instantes, as nossas vidas cinzentas. Digo adeus daqui a uma querida beleza voadora que partiu hoje, tão demasiado cedo, cheio de saudades daquele seu sorriso lindo, cheio (sempre) de flores e Sol. Adeus, tão linda Carla!

Ribeira de Pena, 04 de Outubro de 2015.

Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (12)

Rua da Mãe

O Toninho da Farmácia publicou, na sua página de facebook, uma fotografia em que aparece ao lado de um desportista famoso. No mesmo dia, por coincidência, publiquei uma fotografia da minha Mãe, tirada no último Natal – um instantâneo dela vagamente sorrindo, cheia de idade. O Toninho pôs um like na minha publicação, eu fiz o mesmo à sua.
A Rita é a esposa do Toninho, conheço-a desde a escola primária, é muito boa gente. Para se meter comigo, sustentou que facebook “a sério” era o do marido: fotos e textos de pessoas mesmo importantes, famosas. Lá lhe respondi que a maior celebridade que eu conhecia era a minha Mãe. Não se desfez: “Eu falo de pessoas com direito a nome de rua, pá. Qual é a rua da tua Mãe?” E despediu-se, com um gesto gaiato, seguida pelo Toninho, ambos a rir-se.
Já não tive tempo de responder: que a maioria das pessoas importantes, mesmo as famosas, não chega a ter o seu nome em placas toponímicas, sobretudo se culpadas do consabido sacrilégio de estarem vivas. Dei simplesmente por mim, naquele Café coimbrinha, a pensar no ser humano que me calhou em Mãe. Dela vos digo: sofre pelo planeta inteiro desde que a conheço – família; vizinhos; pobres que televê ou encontra nas ruas por onde passa; variegadas vítimas do vazio da vida; velhices coetâneas sem saúde e, uma vez por muitas, sem esperança. Sempre a vi partilhar o magro bornal de suas palavras e economias com quem, a cada momento, mais precisava. Diz que gostava de ganhar o totoloto para poder ajudar mais.
A sua bondade é-me uma luz bem útil. A sua santidade (depurado este conceito do bolor e do ranço convencionais) é um pedagógico contraponto às nossas existências distraidamente venais. Por razões de coração e de filosofia, admiro e venero esta ONG. 
Ela chama-se Delfina e, já vo-lo admiti, não tem o nome inscrito na toponímia oficial. Mas eu hei-de dizer isto à Rita: “A rua da minha Mãe é o mundo inteiro. Embrulha!”

Ribeira de Pena, 25 de Outubro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 28-10-2015.]

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

ZONA DE PERECÍVEIS (11)



9 parágrafos com destino ao Mar

1. O pior não é o acordo ortográfico ser um crime – é ser um crime premeditado.
2. Baterem à porta dos nossos olhos e pedir licença para entrar – eis o princípio da amizade. Entrarem pelos olhos adentro sem pedir licença – isso é já o amor (ou, então, um murro bem dado).
3. Usa-se a expressão “actores políticos” para referir aqueles que actuam na cena política. Tendo em conta a qualidade dos envolvidos (e alguns tão óbvios erros de casting), afigura-se-me preferível a expressão “canastrões políticos”. E sobre o encenador, calma, nada direi senão paz à sua alma!
4. Deveria haver obrigação de exames médicos ao coração dos que, como eu, andam pelo mundo atentos à beleza transeunte. Digo-vos: não sei se estou preparado para o próximo Verão.
5. Havia uma piada, algures pelo século XX, que distinguia socialismo de capitalismo dizendo: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem; o socialismo é o inverso.” Lembrei-me disto quando ouvi um ex-deputado do PSD a defender que o seu partido defende a Europa e Portugal, e um dirigente do PS a defender que o seu partido defende Portugal e a Europa.
6. A literatura e o cinema são uma forma livre de viajar, mas nunca gratuita. Tenho muitas vezes pago o preço (doce ou doloroso) dos sustos provocados por alguma Beleza e alguma Verdade em páginas ou telas por onde ando. Nunca é simples. Nunca é inócuo.
7. O desprezo que muitos políticos votam à cultura e à educação é, em geral, um belo atestado da sua própria estupidez. Não se pode estimar o que não somos capazes de perceber. Quem não tem cultura nem educação, senhores, não dá pela falta da cultura ou da educação.
8. O mito de Sísifo descreve, com cínica economia, a vida de toda a gente. De um modo ou de outro, todos continuamente carregamos, montanha existencial acima, uma pedra pesada e resvalante. Mas a lição deste mito não é, creio, que “parar é morrer”. É mui simplesmente que “desistir é morrer”. Porque parar, atentai, não é assim tão mau. Eu, por exemplo, preciso muito de parar para reflectir e para escrever. Para resistir. 
9. Ficam-me, no final da labuta lectiva de 3ª Feira, bem debaixo da língua, certos versos de Ruy Belo - “É tão triste no Outono concluir / que era o Verão a única estação”. Saboreio-os como se fossem um fruto. Sabem-me, acreditai, a ondas do mar.

Ribeira de Pena, 19 de Outubro de 2015
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-10-2015.]