quinta-feira, 12 de novembro de 2015
Merceeiro local
Queria ter uma mercearia
Antiga, artesanal e a granel;
Aviar porções a olho no papel
E apontar no rol a quantia;
Ter tempo de entreter cada cliente
Saber de cada medo ou esperança;
Ser um entre pares que, no presente,
São cúmplices d'idade e vizinhança.
Queria ser merceeiro na cidade
Num bairro discreto e popular;
Ser parte da pacata sociedade.
À hora, pelas sete, de fechar
Passar no Café Realidade
E pôr-me à janela a poetar.
Cabeceiras de Basto, 11 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pequenoscriadores.blogspot.com.]
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (13)
Ser assim ou assim-assim
Fernando Paulouro Neves, na sua última crónica de “Notícias do Bloqueio” (na página 4 d’O Ribatejo), fala do caso Luaty Beirão com lucidez e elegância exemplares. Sobre esta situação concreta, portanto, não carece o jornal da minha prosa.
Mas o caso remete-me para uma questão ética e moral (ainda) mais lata e profunda, passe a presunção: a do dever a que cada indivíduo está ontologicamente obrigado perante certos dilemas - momentos em que, digamos assim, não há direito a opções cinzentas, ao conforto do advérbio “talvez”, à prudência do adiamento, à cobardia da invisibilidade ou da indiferença.
Temo que, ao contrário do que celebra Manuel Alegre na Praça da Canção, nem sempre haja alguém que, no momento certo e necessário, diga “Não” (ou “Sim”, conforme o contexto). Perante o extremo sofrimento físico e psicológico, que faria cada um de nós? Entre o emprego e a dignidade, entre a segurança e a liberdade, entre a refeição e a razão, entre a verdade e a sobrevivência – o que escolheria, se tivesse mesmo de escolher, cada um de nós?
Ora, como diz certa personagem de Felizmente há luar!, de Luís Sttau Monteiro, há homens que se destacam da maioria e, pelo seu exemplo, nos obrigam a olhar ao espelho de nós próprios.
Heróis como Luaty ajudam-nos a perceber o que, para além do que somos, poderíamos (deveríamos?) ser. Porque às vezes a vida cansa, mas um homem dança. Às vezes a meta não se vê, mas um homem crê. Às vezes o chão magoa, mas um homem voa. Às vezes o percurso é triste, mas um homem resiste. Às vezes não há caminho, mas um homem faz o caminho.
Ribeira de Pena, 02 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-11-2015. As últimas frases do texto inscrevem, na presente prosa, versos de um poeminha meu já publicado em “Muito Mar”, “Viver apesar de”.]
Fernando Paulouro Neves, na sua última crónica de “Notícias do Bloqueio” (na página 4 d’O Ribatejo), fala do caso Luaty Beirão com lucidez e elegância exemplares. Sobre esta situação concreta, portanto, não carece o jornal da minha prosa.
Mas o caso remete-me para uma questão ética e moral (ainda) mais lata e profunda, passe a presunção: a do dever a que cada indivíduo está ontologicamente obrigado perante certos dilemas - momentos em que, digamos assim, não há direito a opções cinzentas, ao conforto do advérbio “talvez”, à prudência do adiamento, à cobardia da invisibilidade ou da indiferença.
Temo que, ao contrário do que celebra Manuel Alegre na Praça da Canção, nem sempre haja alguém que, no momento certo e necessário, diga “Não” (ou “Sim”, conforme o contexto). Perante o extremo sofrimento físico e psicológico, que faria cada um de nós? Entre o emprego e a dignidade, entre a segurança e a liberdade, entre a refeição e a razão, entre a verdade e a sobrevivência – o que escolheria, se tivesse mesmo de escolher, cada um de nós?
Ora, como diz certa personagem de Felizmente há luar!, de Luís Sttau Monteiro, há homens que se destacam da maioria e, pelo seu exemplo, nos obrigam a olhar ao espelho de nós próprios.
Heróis como Luaty ajudam-nos a perceber o que, para além do que somos, poderíamos (deveríamos?) ser. Porque às vezes a vida cansa, mas um homem dança. Às vezes a meta não se vê, mas um homem crê. Às vezes o chão magoa, mas um homem voa. Às vezes o percurso é triste, mas um homem resiste. Às vezes não há caminho, mas um homem faz o caminho.
Ribeira de Pena, 02 de Novembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 05-11-2015. As últimas frases do texto inscrevem, na presente prosa, versos de um poeminha meu já publicado em “Muito Mar”, “Viver apesar de”.]
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
In memoriam Carla Gil (1987-2015)
É belo e breve o voo das borboletas, esses seres meio flores, meio Sol que cruzam, por instantes, as nossas vidas cinzentas. Digo adeus daqui a uma querida beleza voadora que partiu hoje, tão demasiado cedo, cheio de saudades daquele seu sorriso lindo, cheio (sempre) de flores e Sol. Adeus, tão linda Carla!
Joaquim Jorge Carvalho
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (12)
Rua da Mãe
O
Toninho da Farmácia publicou, na sua página de facebook, uma fotografia em que aparece ao lado de um desportista
famoso. No mesmo dia, por coincidência, publiquei uma fotografia da minha Mãe,
tirada no último Natal – um instantâneo dela vagamente sorrindo, cheia de
idade. O Toninho pôs um like na minha
publicação, eu fiz o mesmo à sua.
A
Rita é a esposa do Toninho, conheço-a desde a escola primária, é muito boa
gente. Para se meter comigo, sustentou que facebook
“a sério” era o do marido: fotos e textos de pessoas mesmo importantes,
famosas. Lá lhe respondi que a maior celebridade que eu conhecia era a minha
Mãe. Não se desfez: “Eu falo de pessoas com direito a nome de rua, pá. Qual é a
rua da tua Mãe?” E despediu-se, com um gesto gaiato, seguida pelo Toninho,
ambos a rir-se.
Já
não tive tempo de responder: que a maioria das pessoas importantes, mesmo as
famosas, não chega a ter o seu nome em placas toponímicas, sobretudo se
culpadas do consabido sacrilégio de estarem vivas. Dei simplesmente por mim,
naquele Café coimbrinha, a pensar no ser humano que me calhou em Mãe. Dela vos
digo: sofre pelo planeta inteiro desde que a conheço – família; vizinhos; pobres
que televê ou encontra nas ruas por onde passa; variegadas vítimas do vazio da
vida; velhices coetâneas sem saúde e, uma vez por muitas, sem esperança. Sempre
a vi partilhar o magro bornal de suas palavras e economias com quem, a cada
momento, mais precisava. Diz que gostava de ganhar o totoloto para poder ajudar
mais.
A
sua bondade é-me uma luz bem útil. A sua santidade (depurado este conceito do
bolor e do ranço convencionais) é um pedagógico contraponto às nossas
existências distraidamente venais. Por razões de coração e de filosofia, admiro
e venero esta ONG.
Ela
chama-se Delfina e, já vo-lo admiti, não tem o nome inscrito na toponímia
oficial. Mas eu hei-de dizer isto à Rita: “A rua da minha Mãe é o mundo inteiro.
Embrulha!”
Ribeira
de Pena, 25 de Outubro de 2015.
Joaquim
Jorge Carvalho
[Esta
crónica foi publicada no semanário O
Ribatejo, edição de 28-10-2015.]
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (11)
9 parágrafos com destino ao Mar
1. O pior não é o acordo ortográfico ser um crime – é ser um crime premeditado.
2. Baterem à porta dos nossos olhos e pedir licença para entrar – eis o princípio da amizade. Entrarem pelos olhos adentro sem pedir licença – isso é já o amor (ou, então, um murro bem dado).
3. Usa-se a expressão “actores políticos” para referir aqueles que actuam na cena política. Tendo em conta a qualidade dos envolvidos (e alguns tão óbvios erros de casting), afigura-se-me preferível a expressão “canastrões políticos”. E sobre o encenador, calma, nada direi senão paz à sua alma!
4. Deveria haver obrigação de exames médicos ao coração dos que, como eu, andam pelo mundo atentos à beleza transeunte. Digo-vos: não sei se estou preparado para o próximo Verão.
5. Havia uma piada, algures pelo século XX, que distinguia socialismo de capitalismo dizendo: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem; o socialismo é o inverso.” Lembrei-me disto quando ouvi um ex-deputado do PSD a defender que o seu partido defende a Europa e Portugal, e um dirigente do PS a defender que o seu partido defende Portugal e a Europa.
6. A literatura e o cinema são uma forma livre de viajar, mas nunca gratuita. Tenho muitas vezes pago o preço (doce ou doloroso) dos sustos provocados por alguma Beleza e alguma Verdade em páginas ou telas por onde ando. Nunca é simples. Nunca é inócuo.
7. O desprezo que muitos políticos votam à cultura e à educação é, em geral, um belo atestado da sua própria estupidez. Não se pode estimar o que não somos capazes de perceber. Quem não tem cultura nem educação, senhores, não dá pela falta da cultura ou da educação.
8. O mito de Sísifo descreve, com cínica economia, a vida de toda a gente. De um modo ou de outro, todos continuamente carregamos, montanha existencial acima, uma pedra pesada e resvalante. Mas a lição deste mito não é, creio, que “parar é morrer”. É mui simplesmente que “desistir é morrer”. Porque parar, atentai, não é assim tão mau. Eu, por exemplo, preciso muito de parar para reflectir e para escrever. Para resistir.
9. Ficam-me, no final da labuta lectiva de 3ª Feira, bem debaixo da língua, certos versos de Ruy Belo - “É tão triste no Outono concluir / que era o Verão a única estação”. Saboreio-os como se fossem um fruto. Sabem-me, acreditai, a ondas do mar.
Ribeira de Pena, 19 de Outubro de 2015
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 22-10-2015.]
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (10)
Realidade bem dita
Por
razões mais ou menos filosóficas e também devido a pura necessidade
linguística, tendo a servir-me da realidade para verbalizar as minhas emoções,
os meus sentimentos, as minhas ideias, os meus desejos - enfim, o meu genérico
espanto de existir. A realidade ensina-me, digamos assim, a dizer a realidade.
Pode, pois, suceder que uma árvore, a meio do caminho, tenha a forma de um
ponto de interrogação sobre os dias; que um velho e uma criança cruzem de mãos
dadas a passadeira e não se saiba que geração ajuda qual; que certo andrajoso
em frente ao pronto-a-vestir mais chique da vila seja Karl Marx ou Jesus Cristo
discursando em silêncio sobre a distribuição da riqueza; que uma rapariga fresca
espreguiçando-se felinamente, enquanto conversa com a vendedora de fruta, seja
um monumento da Beleza ou da Possibilidade. Etc.
Às
vezes, os símbolos que a realidade propõe não são tão óbvios e imediatos como,
por preguiça ou pressa, poderemos pensar. Há 19 anos, quando comecei a dar
aulas em Ribeira de Pena, dei-me conta de que, em certa sala, o horizonte
visual era nem mais nem menos que o cemitério. Lida ali, a metáfora afigurava-se-me
óbvia: tratava-se da fatal Morte no meu caminho. Mas depois houve um rapaz que
gargalhou, uma menina que se queixou, dois outros alunos que disputaram o alegre
privilégio de escrever o sumário no quadro. Isto é: vozes, movimento, Presente.
De modo que a imagem se (me) acrescentou de significado: era a Morte no meu
caminho, sim; mas havia também, entre mim e Ela, os meus alunos, as minhas
aulas, o supremo Durante que somos enquanto podemos.
Uns
anos depois, durante o jogging
habitual, entre a piscina municipal e o quartel dos bombeiros ribeirapenenses,
à passagem pelo portão de acesso ao mesmo cemitério do parágrafo anterior, fui
interpelado por um senhor vestido de negro, muito idoso: “Eh! Eh! Escute!”
Outra vez me ocorreu que aquilo era a Morte semioticamente chamando por mim.
Parei e, talvez com maus modos e voz mais sonorosa do que o normal, perguntei:
“Que se passa?” O homem mirou-me, pareceu desconcertado, desculpou-se:
confundira-me com outra pessoa. Portanto, reflecti eu, sem desistir do
simbolismo da realidade experimentada, mesmo que o Fim andasse à minha procura,
não era (ainda) a minha vez.
Ribeira de Pena, 10 de
Outubro de 2015.
[Esta crónica foi
publicada no semanário O Ribatejo,
edição de 15-10-2015.]
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Beleza
Eis
Marylin num lugar qualquer,
A linda
e luminosa serpentina:
Exibe
um sorrisinho de menina
E a
malícia de passos de mulher.
Talvez
ela passando me olhasse
E
visse o escravo enleio em que eu a via;
Talvez
o seu sorriso resultasse
Da
colecção de escravos que fazia.
Eis
Marylin passando, já perdida -
Assim
o tê-la visto. Assim a vida.
Coimbra,
03 de Outubro de 2015.
Joaquim
Jorge Carvalho
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (9)
O carrocel da Lídia
Esta crónica era para ser sobre as eleições do dia 4 de Outubro, mas a ideia morreu de melancolia e de sede. Desse falecimento resultou um outro texto não tão outro como isso. Com licença…
Em 1978, as festas em honra de Nossa Senhora da Piedade, num lugar mui conimbricense chamado Pedrulha, eram motivo de alegria geral – para os habitantes locais, em particular, mas também para os de lugares mais ou menos vizinhos, que ruidosamente invadiam bailes, concertos e feiras ambulantes.
Recordo aquele tempo como um banquete para os sentidos: som de sinos repicantes, de foguetes eufóricos, de bombos gordos, de música e publicidade altofaladas; odor de chanfana, de vinho, de laranjadas, de alfazema e de pólvora queimada; gosto de algodão doce e caldo verde muito quente; visão de meninas-raparigas-senhoras com vestidos tácteis, cabelos feéricos, olhos em modo de convidativos mares.
Eu vivia no Casal Ferrão, ali mesmo ao lado do lugar em festa, e tinha uma espécie de dupla nacionalidade porque o meu avô materno residia também na Pedrulha, a poucas casas do prédio do menino Daniel Abrunheiro (versão infantil do cronista genial que habitualmente lemos na última página d’O Ribatejo).
Ora, houve aquele domingo inesquecível em que o clã da família Mateus-Carvalho foi à festa. Depois do café & brandy dos adultos e dos gelados para as mulheres e crianças, seguimos para o carrocel. Logo na primeira viagem, aconteceu um acidente com a minha tia Belinha, avantajada e sanguínea mulher que era capaz das piores fúrias ou, com pequenos intervalos, das maiores manifestações de ternura e generosidade. Foi assim: após colocar os meus primitos Hugo e Pedro - de uns cinco, seis anos - sobre os animais disponíveis (talvez uma zebra e um burro), preparava-se para sair da plataforma e foi surpreendida pelo início do movimento circular. Desequilibrou-se e ficou de joelhos, agarrada, salvo erro, à zebra, barafustando, gemendo, vociferando. Ao som da música característica daquela engrenagem, víamo-la aos círculos, insultando o responsável pelo carrocel e igualmente, sempre que passava por nós (que ríamos como perdidos), a própria família. No final da corrida, lá saiu cambaleando, amuada, recusando quaisquer ajudas. A gente enxugava as lágrimas e disfarçava, como podia, as gargalhadas suspensas.
Décadas depois, a tia Belinha já é capaz de se rir também do episódio, decerto porque o (re)vê de longe, na condição tranquila de espectadora. Às vezes, é quanto basta, no carrocel da vida, para substituirmos a aflição pelo sorriso sereno e compreensivo. Como diria Pessoa em versão de Ricardo Reis, “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos…”
Coimbra, 05 de Outubro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 06-10-2015.]
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (8)
Elogio da virtude
Na
primeira aula do ano lectivo, voltei ao (celebrado) Diário, de Sebastião da Gama e falei aos meus alunos do valor da
lealdade. É um vocábulo bonito, este: lealdade não tem o cariz canino-impositivo
de fidelidade, tão-pouco o sentido acrítico-militar da obediência cega. Traduz,
no dicionário dos dias, a confiança natural que há entre gente de bem. Quero
dizer: a noção de que há acções que, por decência, praticamos, e outras que,
pelo mesmo motivo, nos coibimos de praticar, em ambos os casos porque seria –
digamos assim – feio e imoral fazer o inverso.
Lembro-me
de, há anos, um indivíduo chamado Pina Moura, que viajou confortavelmente de
comunista a socialista, e daqui a outra ideia qualquer ainda mais vantajosa,
ter sido questionado sobre certo problema ético: como podia um deputado
português defender, na Assembleia da República, leis que beneficiavam
objectivamente os interesses de um grupo económico espanhol no negócio da
energia, tendo em conta o facto de o deputado ser também, à época, em regime de
acumulação, um empregado de “nuestros hermanos”? Com admirável desfaçatez, Pina
Moura respondeu (cito de cor): “A minha ética é a ética republicana. Limito-me
a cumprir o que está na lei.”
Ora,
levado o argumento ao extremo, um cidadão da Alemanha, nos anos 30 e 40 do
século XX, poderia – sem problemas de consciência – denunciar e maltratar
judeus à vontade, uma vez que tais acções eram conformes às leis do Reich.
Aqui
chegados, deixai que vos diga: são piores os amorais que os imorais,
menos susceptíveis aqueles que estes de evitarem ou corrigirem comportamentos
vis ou modos de pensar aviltantes. O imoral age contra a moral, normalmente de
fugida, às escondidas (quiçá envergonhado do mal que concebe ou pratica). O
amoral não (re)conhece a diferença entre bem e mal, pelo que lhe é indiferente
o valor ético e a consequência moral dos seus actos. Aliás, a maior parte dos
facínoras (anónimos ou célebres) são gente amoral.
Na
campanha eleitoral ainda em curso, o maior ruído talvez seja, não o dos
tambores e palavras de ordem pré-fabricadas, mas o da evidente hipocrisia dos
políticos (com relevo, convenhamos, para Coelho e Portas quando falam,
lacrimejando, dos “sacrifícios dos portugueses” e das famosas culpas alheias).
A
própria hipocrisia tem uma dimensão amável, bem vistas as coisas, pois
encontramos naquele que mente-finge-dissimula o pressuposto simpático de, lá no
fundo, existir um certo nível de arrependimento ou remorso. Um leve resquício,
direi eu, de humanidade. La Rochefoucauld, escritor francês do século XVII,
cunhou formosamente esta ideia: “A hipocrisia é uma homenagem que o vício
presta à virtude.”
No final do sumário, depois de
“Apresentação.”, “Natureza e objectivos da disciplina de Português.”,
“Critérios de avaliação.“, “Algumas regras a observar durante o ano lectivo.”,
os meus alunos escreveram: “O valor da lealdade.”
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, ed. de 01-10-2015.]
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (7)
Lugar do Caminho
Quase
findo o jantar, à horinha de pedir café & conta, o meu amigo Francisco
Botelho confidenciou-me: “Tenho leucemia.” Fora uma refeição divertida, aquela,
até ao momento da brutal revelação: ele aduzira ideias para um livro, planos
para a dinamização do roteiro camiliano em Ribeira de Pena, projectos
turístico-culturais – e eu, a cada convite seu para colaborar, tinha dito que
contasse (sempre) comigo.
Vinte
anos antes, quando cheguei à vila transmontana de Ribeira de Pena, os colegas
locais perguntavam-me com frequência: “Então? Já fizeste amigos aqui, Joaquim
Jorge?” Eu dava-lhes uma resposta honesta: “Já me dou com bastantes pessoas.
Mas um amigo, convenhamos, leva uns dez anos a fazer!”
Na
verdade, foi preciso menos tempo para me aproximar do Francisco Botelho:
primeiro, comecei a colaborar com o jornal que dirigia, o “Ecos da Ribeira”, escrevendo
uma croniqueta, genericamente chamada “Lugar do Caminho” (que era o nome do meu
endereço verdadeiro nesse primeiro ano de vida ribeirapenense); depois, ele
quis agradecer-me pessoalmente os escritos e eu descobri, na sua pessoa, um magnífico
cidadão do mundo, cultíssimo, generoso, cheio de sentido de humor, um pouco
snob na elegância do vestir e do falar. Era também vagamente descendente de
Camilo Castelo Branco e, talvez por isso (mas não só por isso), um dos mais
inteligentes e sábios cultores da literatura camiliana que pude conhecer.
Camilo
Castelo Branco casou-se, pela primeira vez, em Ribeira de Pena, com uma
rapariga do lugar de Frúme, Joaquina de França. Embora tenha vivido pouco tempo
nesta terra, muitas das suas novelas reproduzem memórias de lugares, gentes,
costumes, lendas e eventos que o escritor então conheceu. Ciente do capital
cultural e turístico que esse facto biográfico encerrava para o concelho
ribeirapenense, o Francisco Botelho estudou, falou e escreveu muito sobre o
assunto - e, entre outras iniciativas, veio a conceber um roteiro literário
camiliano de altíssimo interesse para a divulgação da vila e para a dinâmica
celebração da obra do escritor. Rapidamente, esse seu projecto ganhou adeptos,
potenciou visitas, cresceu em alcance e dinâmica.
Sobreveio
a doença, raios partissem a sorte. O Francisco Botelho soube que lhe restavam
entre um e oito-dez anos de vida. O que faz um homem nestas circunstâncias?
Eis: incrementou os jantares camilianos (cheguei a participar num deles,
encarnando a figura do pai de Joaquina de França, num sketch que escrevi, a pedido do meu amigo); participou em muitos
encontros literários; fez palestras; desempenhou o papel de cicerone nos
roteiros que inventara. Mas fez mais, ainda: formou novos cicerones, entre
jovens académicos locais, no pressuposto de que a morte de um indivíduo não
poderia destruir-lhe um projecto tão válido como aquele.
A
dita morte veio nem um ano depois da nossa conversa ao jantar. Nos anos
seguintes, estive várias vezes com alunos meus em Ribeira de Pena, em visitas
de estudo. E vi no terreno alguns formandos do Francisco Botelho, perorando com
digno rigor sobre lugares, personagens e obras da literatura camiliana. Não
tinham o brilho original do Mestre, é certo; mas eram, de certa divina forma, a
sua amável continuidade.
Retenho
desta evocação, para além da intransmissível saudade, uma lição existencial: a
de que o nosso tempo tem o valor que lhe dermos. Não se trata apenas, sublinho,
daquele clichê latino-modernista do “carpe diem”. Neste caso, significa
sobretudo o dever do ser humano para com o Futuro: o meu amigo Francisco
Botelho não deixou que a sua morte significasse o fim de um projecto formoso,
ligado à (sua) terra e à figura de Camilo Castelo Branco.
Um
grande poeta irlandês, Seamus Heaney, põe em questão – em certo poema de que
nunca mais me esqueci – se não deveríamos, em vez de nos interrogarmos sobre o
facto de haver ou não vida depois da morte, preocupar-nos com o inverso, isto
é, se há ou não, bem vistas as coisas, vida antes
da morte. Amen.
Ribeira de Pena, 21 de
Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O
Ribatejo, edição de 23-09-2015. As fotos – datadas de 2007 – ilustram um dos
jantares camilianos que o Francisco Botelho organizou.]
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (6)
O sentido da urgência
Em Agosto de 1970, na barrinha da praia de Mira, enquanto as mulheres da família dispunham o farnel sobre a mesa e os homens bebiam cerveja ou babavam a testosterona perante a anatomia estival de turistas bronzeadas e ruidosas, eu tentei, pela primeira vez, nadar de costas. Aprendera já a técnica e conseguira, numa aula da primária que tivemos num tanque (amovível) do Loreto, dar três ou quatro braçadas.
De maneira que, sem aviso, entrei na água doce e pus em prática os preceitos estudados. O sucesso do exercício superou as minhas melhores expectativas (como se costuma dizer): em movimentos sincopados, regulares, competentes, senti o corpo afastar-se da margem, flutuando como um colchão de borracha. Ao fim de alguns minutos, cansado, pude perceber – naquela periclitante horizontalidade que era – a distância considerável a que estava já da minha família. Afligi-me e quis inverter a marcha. Não sabia como fazê-lo, mas já vira o modo como os remadores procediam para conduzir os barcos: suspendiam o movimento dos remos num dos lados e remavam exclusivamente para o lado pretendido. Adoptei essa técnica também, mas esqueci-me de continuar a bater os pés. E dei por mim submerso, à beira de morrer. Desesperado, mexi exageradamente os braços e as pernas. Queria sair dali. Queria salvar-me. Ao sentir o chão sob os meus pés, tentei impulsionar-me até à superfície para poder gritar por socorro. Consegui-o por umas três vezes, mas depois senti-me sem força e resignei-me. Recordo a tristeza que me invadiu, mas também uma sensação superveniente de serenidade absoluta que, à luz da catequese do Bairro do Brinca, talvez fosse a antecâmara do céu (ao invés de mui biológica reacção à falta de oxigénio).
De súbito, uma mão forte devolveu-me a este mundo. Era o meu pai. Alguém me ouvira pedir por socorro e ele, sem hesitar, lançara-se à água para salvar o filho. Adito-vos um pormenor: o meu pai mal sabia nadar, nunca o vi senão dar uns mergulhos fugidios e atabalhoados no mar de Mira. Mas esqueceu-se, ali, das suas insuficiências e foi-me buscar à morte. Alguns familiares disseram, depois, que ele – em terra - vomitou tanta água quanto o filho.
Lembrei-me deste episódio durante uma conversa sobre os resultados da guerra que, nos últimos tempos, procuraram abrigo na Europa. Bem sei que os recursos dos países são limitados, que há problemas associados à entrada em massa de (i)migrantes, que há leis para observar e respeitar. Bem sei, por outro lado, que os próprios migrantes, ao demandar a Europa, se expõem a sofrimentos e perigos colossais. Mas eu nunca me esqueci daquela vez em que estive, no fundo da barrinha de Mira, à porta do fim. Nem do meu pai que, ignorando a sua própria segurança, foi salvar-me, sem pensar senão na urgência de agir.
Ribeira de Pena, 14 de Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no semanário O Ribatejo, edição de 16-09-2015.]
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (5)
Certas palavras certas
Há
uns 35 anos, a direção do Clube de Futebol União de Coimbra informou-me de que
seria uns dos 3 juniores da equipa a subir a sénior. Tratava-se de uma
altíssima distinção e eu andei durante todo aquele dia de Junho numa doce nuvem
de felicidade. Felicidade quase perfeita, devo acrescentar. Porquê “quase”?
Porque um dos meus colegas de equipa, frustrado com a sua exclusão dos eleitos,
vociferou publicamente a indignação: achava que a decisão da direção fora
errada e injusta. Eu, como lhe admirava o talento e sinceramente o estimava
como amigo, quis dar-lhe uma palavra de consolo. Mas a minha atitude pareceu
ofendê-lo (ainda mais): “Não leves a mal, pá, mas tu, em minha opinião, não
passas de um óptimo jogador!” – disse-me ele.
Percebi
que o tom do discurso era zangado, mas não deixei de agradecer (sem ironia) o
adjectivo escolhido para o meu valor futebolístico: “óptimo”. Ele estranhou o
meu agradecimento e reiterou a sua opinião: “Não leves a mal, a sério, mas é o
que eu penso de ti: és apenas um óptimo jogador!”
Voltei
a agradecer-lhe, sorrindo, e ele pareceu ficar fora de si. Rosnou entre dentes:
“Não gozes, pá, estou a falar a sério!”
Até
que alguém lhe perguntou: “O que é que queres dizer com óptimo, pá?” E a explicação veio: mui diversamente de superlativo
absoluto sintético de “bom”, ele via naquele vocábulo um sinónimo de “mais ou
menos”, “razoável”, “sofrível”.
Muito
cedo aprendi o poder que há em saber e dominar as palavras. Em as articular com
a competência e a oportunidade adequadas. Em as conhecer muitas e bem. Em as
ordenar na gramática certa, no ritmo certo, ao serviço da retórica querida e
necessária.
No
romance Mares do Sul, de M. V.
Montálban fala-se de um homem cuja importância se mede objectivamente pelo enorme
volume de léxico que conhecia e utilizava em seu quotidiano. Em A honra perdida de Katharina Blum, de Heinrich
Böll, encontramos o desconforto da protagonista face à corrupção que os seus
depoimentos sofrem: os inspectores policiais trocam-lhe o substantivo
“impertinências” [de certa personagem masculina, que ela abomina] por
“ternuras”, traindo o sentido fundamental do enunciado; ou o adjectivo
“bondosa” [aplicado a certa senhora que a ajudara] por “amável”, reduzindo a
carga afectiva da descrição feita.
A
minha professora primária ensinou-nos, aí por volta de 1972, que o sentido das
palavras poderia, muitas vezes, explicar-se pelo contexto. Um dia, dei com um texto
que falava da melancolia de certa personagem. Eu não conhecia, à época, a
palavra melancolia. O contexto dizia-me que a palavra significava, ali, o mesmo
que tristeza. Mas a docente, nessa ocasião, houve por bem explicar-me que, no
caso da melancolia, se tratava de uma tristeza diferente, outra, misteriosa, que
nem sempre tinha uma causa física, concreta, visível, conhecida.
E eu pude confirmar, nesse dia, que a minha tristeza secreta e profunda
não bem era uma tristeza comum. Era, é melancolia - este eterno Outono em que,
com breves interrupções, sempre vivi.
Ribeira de Pena, 06 de Setembro de 2015.
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, edição de 10-09-2015.]
Escrito
Escrevo do bom silêncio contra os silêncios maus.
Ribeira de Pena, 09 de Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto MP]
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
ZONA DE PERECÍVEIS (4)
Bem vistas as coisas
Eu, já vo-lo disse, sou professor de língua e literatura. Gosto de pensar na minha profissão como um ramo da - digamos assim - oftalmologia poética. Quero dizer: uma luta contra a miopia. Uma luta contra as vistas curtas,
Sou
professor de Português e Francês na Escola pública. Cumpro programas,
planificações, horários, ordens. Não é sempre fácil nem gratificante. Mas a
minha missão vai secretamente além dessa cartilha: quero oferecer a cada aluno
o melhor da minha essencial humanidade. E gosto de pensar que, à minha maneira,
os ensino a olhar para o mundo e a vida. Não necessariamente a ver, porque isso
já não depende tanto de mim.
Há
trinta e um anos, a minha filha nasceu com a amável mania da curiosidade. É
essa, como se sabe, uma condição relativamente comum entre as crianças, ponto
de partida – aliás – para a obtenção de preciosos conhecimentos.
A
minha mulher e eu gostávamos muito de ver a miúda, aí pelos seus cinco-seis
anos, em seu ofício observador do mundo, atenta a pormenores de um rosto, de
uma rua, de um prédio, de um automóvel, do mar de Mira. Ela tinha o hábito de
franzir o nariz enquanto observava o que observava – e eu, encantado, achava-a
parecida com um coelho (de Lewis Carroll, atenção!, o das maravilhas
verdadeiras).
Aos
dez anos, o médico descobriu que a nossa filha sofria de miopia, razão (afinal)
para aquela careta engraçada no durante de suas aventuras olhadoras: a menina
semicerrava os olhos e franzia o narizito apenas porque queria fixar-se nos
pormenores a ver.
Lembro-me
de ela, já com óculos, ficar extasiada perante aquela festa de cor e vida que
era um jardim próximo de nossa casa. E de se ter saído com qualquer coisa deste
género: - Ó pá, agora percebo como vocês viam! É tudo tão claro e tão bonito!
Coimbra, 01 de Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta crónica foi publicada no jornal O Ribatejo, na edição de 03-08-2015.]
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Memória da menina mesma que faz hoje 31 anos
Na
sala era já adormecida
A
menina no sofá, com a cadela
Ainda
não dormindo, à espera
De os
pais da menina lá estendida
A
levarem ao quarto seu (e dela)
Segundo
a rotina percebida.
O pai
até à cama carregava
A
menina. E a mãe abria
Os
lençóis. A cadela saltava
Para
os pés da cama e adormecia
Cúmplice
dos mundos em que entrava
Em
sonhos que a menina ali tecia.
Durante
a noite, os pais da princesa
Vinham
ao quarto confirmar
A
inteira paz do sono e a beleza
Da querida
cria. E suspirar
Por
não ser eterna esta leveza
E tão
frágil ser o humano lar.
Coimbra, 02 de Setembro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
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