Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 7 de julho de 2015

Praia do Desejo


1
O poeta dá asas aos frutos.

2
Os frutos saem das árvores –
Voam para fora do pomar natal
Voam à roda dos olhos
(Voam por dentro e por cima do poema).

3
Os frutos exibem ou sugerem
A sua forma única, a sua específica
Textura, o seu inconfundível sabor
O seu característico caroço, a sua
Própria cor, a sua original condição
De liberdade.

4
Nenhum fruto volta à árvore original.
Nenhuma prisão o guarda para sempre.

5
O destino dos frutos admiráveis é
Serem admirados.

6
Muitos frutos tornam-se pássaros, outros
(Que pena haver o bruto Tempo!)
Envelhecem
Indistintamente.

Vila Real, 04 de Julho de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.baudeatividades.blogspot.com.]

Sob o Tempo (Sobre o Tempo)


Somos reféns do Tempo
Até ao fim.
Não há resgate que nos salve
Do sequestrador consabido.
Mas basta um pequeno raio de sol
Colhida à janela da prisão
Para nos fingirmos
(Para nos sentirmos)
Livres
Eternos!

Vila Real, 04 de Julho de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.caminhosdamemoria.wordpress.com.]

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Canção de antes do fim


"Tudo o que não tem remédio, depois de dito, remediado está." (JJC)

Tem sempre um outro lado a nossa vida
Porque a cada dia há um verso novo
Que traz consigo já o seu reverso
Isto é, o fim, o adeus, nova partida.

Há mortes que discretamente ocorrem
Sombras leves sobre o sol, sobre um sorriso;
Há outras mais brutais que sem aviso
Matam de outra forma os que não morrem.

E há tanto do passado no presente:
Tempo, sonhos, árvores. pureza...
Há tanto adeus em nós a tanta gente!

Que fazer do fim, desta tristeza
Senão uma canção de estar contente
Por vivo ainda se ver tanta beleza?

Ribeira de Pena, 01 de Julho de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, no maravilhoso filme de animação "The Lighthouse" (2010), de Po Chou Chi.]



Cardíaco urbano (homem olhando certa mulher que passa na baixa de Coimbra)


A cada vez que te vejo
Regressa a taquicardia:
Não sei se é do desejo
De pensar no que faria
Se é por não haver ensejo
De te fazer o que queria.

Vila Real, 24 de Junho de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da célebre Jessica Rabbit) foi colhida, com a devida vénia, na Wikipédia.]

domingo, 21 de junho de 2015

Brilho


De tantas estrelas se faz a dor
Que digo.
De tantas luzes se faz o amor 
Contigo.

Ribeira de Pena, 20 de Junho de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi  colhida, com a devida vénia, em http://calse.wordpress.com.]

terça-feira, 9 de junho de 2015

Saudação à Beleza



Saúdo a Beleza inteira

A discreta, a ostensiva, a selecta

A plebeia, a exuberante, a matreira

A sincera, a inconstante, a rotineira!


Saúdo a Beleza permanente

E a pontual, a imanente, a natural

A doce, a amarga, a diligente

A olímpica, a terrena, a sideral!


Saúdo as mulheres que são, passando,

De cada dia a natural razão

Saúdo, entre olhares, quem vou olhando

E alguns vestidos curtos no Verão!


Saúdo cada rio e cada foz

Cada mar, cada praia, cada flor

Saúdo o teu sorriso, a tua voz

Saúdo o teu amor, o meu amor!


Vila Real, 06 de Junho de 2015.

Joaquim Jorge Carvalho


[A imagem é de uma cena de Shakespeare in Love, com a divina Gwyneth Paltrow. Com a(s) devida(s) vénia(s).]

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fósforo & lixa



Como a fricção de um fósforo fino
Sobre a minha pele envelhecida
A Beleza incendeia-me o destino
E de novo aquece fria vida.

Ribeira de Pena, 19 de Maio de 2015.
Joaquim Jorge CArvalho
[A imagem (foto com a intemporal Ava Gardner) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pinterest.com.]

Autopsicografia revista


À boleia de "O poeta é um fingidor"...

Eu ponho a vida em cena
Ao escrever, e nunca minto.
Só minto se vale a pena
Para dizer o que sinto.

Ribeira de Pena, 20 de Maio de 201.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Casa, varanda e rua (ecoando Jorge de Sena)



A minha rua é sobretudo cimento
Já não tem árvores e quase não há
Pássaros.
As poucas flores que ali encontro
São baças e curvadas, morrendo
Tristemente
Sobre o alcatrão rodoviário
Como se tivessem medo de crescer.
Eu costumo ir para a varanda
E imaginar que a estrada em frente é
Uma floresta encantada
Com feiticeiras secretas
E que os carros são, passando, barquinhos
Bordejando a praia alegre e fresca
(Uma praia como a que outrora houve
Quando o pai era ainda vivo
E a mãe cantava as canções da rádio
Durante a lida do ledo lar).
À noite finjo confundir o barulho
Dos comboios e do vento
Com marés imaginárias de oceanos mil.
É quase sempre de madrugada
Que nada é tudo
E tudo é nada.


Ribeira de Pena, 12 de Maio de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.dreamstime.com.]

Primavera das flores



Tanto tempo, ainda agora
No tempo do coração.
Chora, coração, chora
Que o tempo não volta, não!

Ribeira de Pena, 10 de maio de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.rugidoaoamanhecer.blogspot.com. O título deste texto replica um verso de uma canção que aprendi na Madeira, com a Família do Mestre João. Rezava assim: "Primavera das flores / Como ela não há mais / Ai, Primavera, vai e volta sempre / Ai, mocidade, já não volta mais!" Texto, convenhamos, violentamente rigoroso. A quadra aconteceu-me como um fado de Coimbra.]

sábado, 25 de abril de 2015

25 de Abril (com maiúscula)


Agora escrevem Abril com minúscula. É uma coisa ortográfica, na aparência, mas eu desconfio que seja mais do que isso.
Por mim, não consigo escrever 25 de Abril de 1974 sem a maiúscula que a palavra merece. Porque, sabei, há 41 anos eu habitei, com outros desse tempo limpo e lindo, o país da esperança e da liberdade. Gritei, junto a meu Pai, "Morte à Pide!", ali mesmo às portas do edifício-sede dessa polícia (que viria a ser, depois, sede da Direção Regional de Educação do Centro). Assisti ao recenseamento eleitoral da minha rua, na sala da minha escola primária. Ouvi, na escola da Mata e em Eiras, no dia das eleições enfim democráticas, gente de todos os partidos a cantar "Somos livres, somos livres, não voltaremos atrás!". Admirei Salgueiro Maia como se ele fosse um herói de cinema. Li Soeiro Pereira Gomes, Sophia, Manuel Alegre, Sttau Monteiro. Decorei canções de Zeca e Sérgio Godinho. Chamei fascistas aos árbitros que prejudicavam o União de Coimbra ou o Sporting Clube de Portugal. Fui formosamente optimista, ingénuo, feliz.
Gosto que a minha filha goste do 25 de Abril como eu. E lamento muito, por outro lado, que o espírito lindo e limpo daquela revolução se tenha tornado, entretanto, tão distante e fugidio. Tão aquém do futuro que ela merecia (que a juventude inteira merecia). Ela sabe que Abril valeu e vale a pena. Mas também sabe, como eu, que ficou por cumprir muito (tanto) desse sonho honesto de liberdade e de justiça.
Encenei há uns anos a peça "A Noite", de Saramago, com adaptação minha. A imagem que aqui acompanha este texto é do meu amigo Manuel Vilela e foi desenhada para ilustrar o cartaz do espectáculo. Sirvo-me desta memória em forma de desenho para recordar esse momento de teatro - e, evidentemente, a mensagem fundamental que ali, então, perseguimos. Deixai que vo-la lembre: a Noite aconteceu; a Noite acontece. O Dia fez-se; o Dia faz-se.

25 de Abril sempre!

Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Fogo



Convidou-a para um cineminha vespertino e ela aceitou. Viram um filme (talvez sueco ou norueguês) sobre a vida na pré-história. Mais ou menos a meio, uma tribo festejava o nascimento do fogo, produto mágico da fricção persistente de um graveto em outro graveto. Ele serenamente sorriu, por essa altura. Porque uns bons dez minutos antes, quando o seu joelho tocara no dela (ou o joelho dela tocara no dele), um fogo muito maior se lhe acendera já.

Ribeira de Pena, 22 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gcn.net.br.]

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Carla


Em 1976, eu era um jovem rapaz cheio de excessos: de juventude, de energia, de sonhos, de paixão.
Havia uma rapariga mais velha do que eu no prédio da minha juventude, uma morena elegante e eléctrica, sempre sorridente. Talvez alguns dos meus primeiros exercícios líricos fossem dedicados a essa vizinha do primeiro andar, a qual decerto mal repararia neste enlevo profundo e breve.
Depois houve o Tempo, esse tractor cínico que atropela e esmaga fantasias, beleza, ilusões. A rapariga cresceu e, para todos nós, seus contemporâneos, a vida veio a ser muito menos amável do que, à luz dos nossos corações frágeis e puros, parecia destinada a ser.
Soube agora que a Carla morreu de doença. Lamento-o muito, muito. E não sei reagir à brutalidade do fim senão com o recurso - patético, quiçá - ao ancinho da memória, resgatando no quase deserto das lembranças alguns pedaços de vida. Nacos (datados) de sonho. Bocadinhos (falecidos) de horizonte. Hipóteses (nunca completamente cumpridas) de felicidade.
Que descanse em paz.

Arco, 10 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração lembra o mito de Sísifo. Não me ocorre agora, infelizmente, melhor representação da vida humana.]

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Impressões do cemitério (com parênteses metalinguístico)


Vou com a irmã ao cemitério
Da Pedrulha.
Anda agora, penso, o meu Amigo
(marido da minha pobre irmã)
Estava tão evidentemente vivo!
Reconheço outros vivos,
Entretanto:
Assim observo a horizontal mudez
De ainda agora contemporâneos
Do que sou.
Falta-me partir
Para o meu tempo ser igual
Ao de toda a gente.
(A escrita, atenção, já tem algo de horizontal.)

Coimbra, 09 de Março de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.wallpapers.com.]

Lições de música (re-visões)


1.
Antes do amor, não tem a vida
Música.
Não o sabem muitos. Às vezes,
Os ausentes do amor desconhecem até
A música que pode haver
Nos dias.

2.
A novidade da música encanta
Como bênção.
Muitos acrescentam ao prazer da escuta
O próprio canto.
Há os que têm de aprender a cantar
Até o seu canto ser verdadeiramente música.

3.
Depois de se conhecer o amor, ninguém
Sequer concebe a vida sem essa música.
A ausência da música nota-se muito
E dói.

Cabeceiras de Basto, 09 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem reproduz um cartaz do filme Shakespeare in Love (1998), de John Madden.]