Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Fogo



Convidou-a para um cineminha vespertino e ela aceitou. Viram um filme (talvez sueco ou norueguês) sobre a vida na pré-história. Mais ou menos a meio, uma tribo festejava o nascimento do fogo, produto mágico da fricção persistente de um graveto em outro graveto. Ele serenamente sorriu, por essa altura. Porque uns bons dez minutos antes, quando o seu joelho tocara no dela (ou o joelho dela tocara no dele), um fogo muito maior se lhe acendera já.

Ribeira de Pena, 22 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gcn.net.br.]

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Carla


Em 1976, eu era um jovem rapaz cheio de excessos: de juventude, de energia, de sonhos, de paixão.
Havia uma rapariga mais velha do que eu no prédio da minha juventude, uma morena elegante e eléctrica, sempre sorridente. Talvez alguns dos meus primeiros exercícios líricos fossem dedicados a essa vizinha do primeiro andar, a qual decerto mal repararia neste enlevo profundo e breve.
Depois houve o Tempo, esse tractor cínico que atropela e esmaga fantasias, beleza, ilusões. A rapariga cresceu e, para todos nós, seus contemporâneos, a vida veio a ser muito menos amável do que, à luz dos nossos corações frágeis e puros, parecia destinada a ser.
Soube agora que a Carla morreu de doença. Lamento-o muito, muito. E não sei reagir à brutalidade do fim senão com o recurso - patético, quiçá - ao ancinho da memória, resgatando no quase deserto das lembranças alguns pedaços de vida. Nacos (datados) de sonho. Bocadinhos (falecidos) de horizonte. Hipóteses (nunca completamente cumpridas) de felicidade.
Que descanse em paz.

Arco, 10 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração lembra o mito de Sísifo. Não me ocorre agora, infelizmente, melhor representação da vida humana.]

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Impressões do cemitério (com parênteses metalinguístico)


Vou com a irmã ao cemitério
Da Pedrulha.
Anda agora, penso, o meu Amigo
(marido da minha pobre irmã)
Estava tão evidentemente vivo!
Reconheço outros vivos,
Entretanto:
Assim observo a horizontal mudez
De ainda agora contemporâneos
Do que sou.
Falta-me partir
Para o meu tempo ser igual
Ao de toda a gente.
(A escrita, atenção, já tem algo de horizontal.)

Coimbra, 09 de Março de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.wallpapers.com.]

Lições de música (re-visões)


1.
Antes do amor, não tem a vida
Música.
Não o sabem muitos. Às vezes,
Os ausentes do amor desconhecem até
A música que pode haver
Nos dias.

2.
A novidade da música encanta
Como bênção.
Muitos acrescentam ao prazer da escuta
O próprio canto.
Há os que têm de aprender a cantar
Até o seu canto ser verdadeiramente música.

3.
Depois de se conhecer o amor, ninguém
Sequer concebe a vida sem essa música.
A ausência da música nota-se muito
E dói.

Cabeceiras de Basto, 09 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem reproduz um cartaz do filme Shakespeare in Love (1998), de John Madden.]

domingo, 5 de abril de 2015

Coimbra eterna


Tenho algum receio quando, longe de Coimbra, falo do amor que sinto pela minha terra natal. Há sempre esse perigo antigo de confundirem a nossa sinceridade com alguma expressão de desprezo ou indiferença pelos lugares (e gentes) para onde a profissão me levou, me leva. Mas não há remédio para esta alegria inconfundível de passar por lugares que são o nosso habitat verdadeiro e certo: ruas, árvores, pessoas, casas, monumentos, cafés, pastelarias, padarias, oficinas, livrarias, fábricas, luminosidades, sons, cheiros. Por cima disto tudo, abarcando tudo como uma memória mítica, a minha querida Mãe.
Coimbra é a minha casa. Todos os dias fora deste paraíso original são intervalos entre durar e ser. Nada contra outros lugares amáveis e amáveis gentes. Mas sou daqui.
De modo que, se me virem chorar, seja onde for, tomai essa evidência líquida como pedaços de Mondego descendo do cérebro para o coração. Que eu sei bem o que digo e sinto muito o que digo.

Coimbra, 04 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto é da VL, num lindo Café, contíguo ao Museu Machado de Castro, o Loggia.]

sexta-feira, 3 de abril de 2015

ANIKI-BOBÓ, por Manuel António Pina


Fui finalista no Concurso Textos de Amor Manuel António Pina (edição de 2014), iniciativa patrocinada pelo Museu Nacional de Imprensa - e atribuíram-me uma menção honrosa pelo meu poeminha de seis versos "Astronomia". Via CTT, na qualidade de prémio material, chegou-me entretanto um conjunto maravilhoso de livros: Sinfonia Completa, de Manuela Azevedo (um muito interessante volume de pequenos contos, com uma poética cheia de vida & morte); Porto Cartoon - World Festival (uma delícia de palavras e imagens, com excelente humor e notável profundidade humanista); e - sobretudo - um magnífico ensaio sobre a obra de Manoel Oliveira, centrado em especial no filme Aniki-Bobó, da autoria do (in)finito Manuel António Pina.
De modo que, para além de Vargas Llosa e dos meus recorrentes Vilhenas, houve espaço para leitura bastante variada e nutritiva. Obrigado aos que me desejaram "Boa Páscoa"; os votos resultaram.
Há evidentemente esta coincidência terrível de, à hora em que acabava de ler o ensaio de Pina, ter morrido aquele realizador centenário que atravessou um século a fabricar mundos. Que estranho é o sentido de humor dos deuses!
Entre muitas pérolas que retive do texto de Manuel António Pina, ficou-me esta da noção de "clássico", que o autor foi beber (e glosar) a Italo Calvino, em Porquê ler os clássicos:
"[É a obra] que tiver tendência para relegar a actualidade  (para a categoria de ruído de fundo, mas ao mesmo tempo não puder passar sem esse ruído de fundo". 
Amen.

Coimbra, 02 de Abril de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração reproduz a capa do livro Aniki-Bobó, de Manuel António Pina, Porto, Ed. Assírio & Alvim,/Porto Editora,  2012.]


quinta-feira, 26 de março de 2015

Deve & haver


Tantos vales e montanhas
Tanta estrada a percorrer!
Saudades grandes, tamanhas
Do vivido e por viver!

Entre Vila Real e Viseu, 26 de Março de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.dramstime.com.]

terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto (contra a morte)



Morreu Herberto Helder, não obstante os teimosos passos em volta que (aí vai um clichê) perdurarão.
Aprendi a gostar de Herberto Helder pela mão de outro grande poeta contemporâneo (o maior que conheço), o Daniel Abrunheiro. Herberto nunca foi o meu poeta preferido, mas era-me (é-me) fácil perceber nele a marca (conspícua, avassaladora, dolorosa) dos génios que, simplesmente vivendo-sendo, não deixam de mudar o mundo para sempre. Lendo os versos - ou a prosa que era outra forma de ele escrever em verso - de Herberto Helder, entende-se melhor aquele “plaisir du texte” mais difícil, menos óbvio, frequentemente desconfortável de que fala Barthes. Os caminhos da Beleza não têm de ser óbvios, nem confortáveis, nem fáceis.
Um Poeta de dimensão maior – espécie de outro Pessa que a Língua Portuguesa foi capaz de dar à luz – morreu. Isto é, não. Leiam-no contra a morte.

Arco, 24 de Março de 2015.

Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 20 de março de 2015

Mãe para sempre


A minha mãe disse-me, ao telefone, que estava cheia de medo por, hoje mesmo, fazer 75 anos. Disse-me: Já viste? São tantos. Qualquer dia morro.
Eu respondi-lhe da única forma que um filho decente pode responder a uma mãe com a ideia da morte na cabeça:
- Escute. A mãe fica proibida de morrer.
Ela escutou-me e está, por enquanto, a obedecer-me.
Na verdade, respeita muito a minha autoridade. Toda a gente sabe que, a partir de certa altura, nos tornamos encarregados de educação dos nossos progenitores.
Disse-lhe aquilo:
- A mãe está proibida de morrer.
Espero que me percebam.
 

Arco, 18-03-2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem que acompanha este texto é a de um cartaz anunciando a representação da obra de Brecht, Mãe Coragem. Com a devida vénia.]

A Promavera (revisões sobre a Escola)

Lemos nos jornais e vemos na televisão que o mundo vai mal: as guerras não param, a pobreza agarra-se ao planeta Terra como uma lapa teimosa, a intolerância entre os povos mostra os seus dentes ferozes, o desemprego (sobretudo entre os mais jovens) aumenta a cada dia. Dir-se-ia que a esperança começa a ser uma palavra sem real sentido.
Vistas da Escola, as feridas da humanidade parecem ainda piores. Porque os nossos olhos andam pelos livros de Ciências e aprendem que o racismo é uma estupidez. Porque os nossos olhos andam pelos livros de História e aprendem que as guerras devem ser, em vez de travadas, prevenidas, evitadas. Porque os nossos olhos andam pelos livros de Matemática a aprendem que a riqueza mal distribuída é uma conta fatalmente errada. Porque os nossos olhos andam pela Literatura, pelo Desenho, pela Escultura, pela Música e aprendem que não há verdadeira vida sem a beleza e sem o amor.
Aparentemente, o mundo ignora o que os livros ensinam. E a realidade, vista do lugar em que aprendemos tanto sobre a vida, parece uma besta estúpida e feia.
De modo que a Escola é hoje, mais do que nunca, uma fortaleza da esperança. O chão de onde partimos tem de ser a ideia de que vale a pena o esforço. De que o futuro pode ser melhor. De que a ignorância e a barbárie são fases transitórias e vencíveis. De que há sempre, no passado, uma Primavera para recordarmos e, no futuro, uma Primavera para voltarmos a viver.
A Primavera sonha-se também na Escola. A Primavera faz-se também na Escola.
O jornal Arco-Íris (jornal da minha Escola, a melhor escola do mundo) é, como eu o entendo, uma espécie de apóstolo da esperança - e não se admirem se, por entre as suas páginas, calha de brilhar algum Sol. Nós trabalhamos com o Sol e o Sol trabalha connosco. A primavera é trabalho de ambos. Trabalho, portanto, de grupo.
Gosto de pensar que os nossos leitores entrarão pelas páginas do nosso jornal e confirmarão que palavras e imagens, embora sonhadas e escritas em pleno inverno, são matéria essencialmente solar. Essencialmente primaveril.
 
Arco de Baúlhe, janeiro, 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

[Este texto aparece no jornal Arco-Íris, que saiu agora, com o título de "Abertura". A imagem que aqui o ilustra é a de um maravilhoso filme (com base em novela homónima), La Lengua de las Mariposas. Com a devida vénia, naturalmente.]

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Rendimento mínimo

 
No início do estudo do texto poético, um aluno faz um esgar de dor, adivinhando talvez o mortal aborrecimento que, julga, se seguirá. "Poesia para quê, s'tor? Qual é a utilidade disso?", pergunta-me de chofre.
Invisto algum tempo na resposta.
Entre batatas e literatura, não há que enganar, ganham as batatas. O ser humano tem como primeira - inata - obrigação a sobrevivência.
Acontece que, por razões que Darwin, a seu modo, explicou, tudo evolui: o mundo, a vida e os conceitos acerca do mundo e da vida. Não basta hoje sobreviver. As pessoas precisam de viver.
De modo que, garantidas que estejam as batatas, o ser humano ganha força (física e mental) para olhar mais longe e mais dentro de si. É nesse instante que a poesia (ou a arte em geral) fará a sua justa aparição e se tornará, de então em diante, uma necessidade gritante e imorredoira. Sem falar no papel da poesia quando, nem que seja por segundos, liberta o ser humano dessa primária dependência das batatas.
Não imaginamos hoje a nossa vida sem música, ou sem cinema, ou sem pintura, ou sem teatro. Por mim, não imagino - em especial - a minha vida sem literatura, isto é, sem grandes histórias, sem grandes aventuras, sem grandes romances, sem grandes dramas, sem poesia. Não imagino a minha vida sem linguagem que realmente diga o que vejo, sinto, temo, sonho. Sem linguagem que me diga, que nos diga.
Ouço muitas vezes falar de rendimento mínimo garantido. Creio, aliás, que se trata, enquanto ideia, de algo positivo: um formoso contributo humanista para a desejada justiça social. Mas há, senhores, outras fomes por saciar, outras habitações em falta por construir, outros territórios de liberdade por oferecer. O nosso mundo também precisa, caros alunos, de um rendimento mínimo de poesia.
Vamos lá escrever o sumário...

Arco, 27 de Fevereiro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A  imagem reproduz  um livrinho que ofereci à minha filha assim que ela aprendeu  a ler. Tenho saudades do tempo em que, em família, o líamos todos pela primeira vez.]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O problema da memória

 
Entre o Casal Ferrão e a baixa de Coimbra, o espaço ainda me parece essencialmente o mesmo. Falta aqui ou ali uma árvore, um montículo rochoso, uma escola, uma oficina de reparação de automóveis, uma mercearia, a garagem do sapateiro. Mas ali está o teimoso Mondego, o resistente Choupal, aquela vetusta (santa & clara) ponte ao fundo.
O problema de quem tem memória são as pessoas que aqui faltam. Nos faltam, me faltam. O senhor Figueiredo da Renault lendo A Bola à segunda-feira. A simpática dona Amélia no seu quiosque protegendo o escaparate da fúria do vento. O senhor Antero, à entrada do prédio, confessando-me formosas saudades de África. O elegante senhor Luís a caminho da paragem para o seu café da tarde. O senhor Pimentel, sempre apressado e sempre (como conseguia?) com um sorriso de festa. O meu pai explicando, com gestos arrapazados, como se jogava futebol à brasileira. O meu avô a imaginar e a fazer candeeiros com o material mais à mão. O meu tio Toni gargalhando saudavelmente no intervalo de uma sandes excessiva. O jovem Abel, recém-saído do serviço militar obrigatório, contando anedotas pouco antes de ser atropelado à curva do Lusa-Nova. Isto, sublinho, no que se refere à morte propriamente dita.
Mas também a velhice é um problema grande para quem tem memória. Por exemplo, o Bonacho inventando piruetas com bola antes de não se ter tornado, inexplicavelmente, o melhor jogador da sua geração. As meninas mais bonitas do universo, minhas vizinhas de prédio ou de rua, antes da gordura, das olheiras, das depressões ou da droga. Os meus irmãos cheios, como eu, de beleza, saúde e sonhos, muito antes da realidade que se sabe. A minha mãe com diabetes e pena de não ser já capaz de mudar sozinha o mundo. As pessoas da minha rua vendo-se, no meu ar grisalho e nos meus passos agora menos ágeis, ao espelho da sua própria finitude.
A memória é um tesouro, dizem. Talvez. Mas é também um problema, porque ocorre-nos pensar no mundo que havia antes de haver (só) isto.
E o relógio, queira a gente ou não, lá continua a trabalhar.

Arco, 20 de Fevereiro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em www.sapo.pt.]

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O dia antes da felicidade


Mestre João, o meu sogro já falecido, porém eternamente vivo na minha cabeça, costumava dizer, perante qualquer queixume nosso de dores físicas (uma gripe, uma distensão muscular, uma cefaleia), que "isso" era "uma coisa que aparece sempre antes da morte". Lembrei-me desta verdade há dias, durante a leitura de uma interessantíssima novela, da autoria do italiano Erric De Luca.
A Olívia Sofia ofereceu-me (mais) esse livro - e eu agora devo-lhes - a ela e ao dito livro - algumas palavras.
Chama-se O Dia Antes da Felicidade. É um livro pequenino, uma narrativa escorreita e hábil, uma coisa simples e fresca como, direi, a água.
A história narrada compreende a infância e juventude do eu contador, numa Itália pobre e receosa, ali pelos anos 40 do século XX, quando a grande guerra e as sequelas da grande guerra assombravam quantos viviam naquele lugar e naquele calendário.
Pela voz sábia de alguns adultos, mas também pela mão de livros e pela própria experiência que a vida lhe vai oferecendo (factos, medos, deslumbramentos, sonhos, amores, sexo), o narrador aprende quanto de essencial lhe é dado aprender sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre o destino.
Aprende, por exemplo, que o tempo não é "uma montanha", mas sim "um bosque" - e que é a partir da folha que descobrimos a árvore matricial que importa e, talvez, o futuro. Que o sofrimento é sempre a véspera da felicidade, e que a felicidade é sempre a memória remanescente do que vem (ou há-de vir) depois. Que o sémen é, no amor, o "sangue branco" da plenitude. Que cada chegada é, na nossa vida, o momento de partir. Que se sofre por termos partido e também, se não partirmos, por não termos partido.
Em verdade vos digo eu, no devir da leitura deste livro, que já não me lembro do dia em que o não tinha lido. Era, sei-o agora, como diria Mestre João ou Erric De Luca, o dia antes da felicidade de o ler.

Ribeira de Pena, 03 de fevereiro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

Meu amor é tão mentira que


Disse Pedro, diz-se, quando se viu
Sem Inês:
Meu amor é tão mentira que ninguém te veja
Agora.
Eu nem sequer acredito que não estejas,
Sabes?
Vê como o meu olhar vai para lá
Da rua
Como assim os meus olhos sabem da tua presença
Próxima
Ainda que outros não te percebam no horizonte
Mais cercano.
Descubro-te eu bem, apesar de seres às vezes
Invisível
Porque te vejo, sabes, para além da óbvia
Realidade
Porque te sei essencialmente, amor, essencialmente,
Essencialmente
Porque recuso a mediocridade das rosas
Fáceis.

Vê tu também, amor, se me vês.

Póvoa de Varzim, 02 de Fevereiro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Demis Roussos, forever and ever

 
 
A morte de Demis Roussos é um pouco parte da minha própria morte, essa coisa escura e fria que, aos poucos, sinto e de vez em quando ainda combato com (irregular) entusiasmo. Comprei discos deste grego universal, dancei apaixonadamente slows com os seus temas, decorei versos (em inglês e em francês), sonhei com uma miúda do sétimo ano ao som de forever and ever, despedi-me de algumas impossibilidades ao som de goodbye my love goodbye.
A mortalidade faz parte da vida, eu sei. Mas nunca bem se compreende, creio igualmente, esse absurdo. É uma lei, digamos, que se nos impõe de modo ora subtil ora brutal.
Eu morri, de certa forma, quando ouvi dizer que Demis Roussos já não era deste mundo. À minha memória chegaram imagens e melodias que, hélas!, também vão deixando de ser deste mundo. E distintamente ouvi, na minha cabeça, sobrepondo-se ao ruído das vozes mundanas que me rodeavam, certo título do grande Ruy Belo antecipando o fim da sua viagem por cá: "Despeço-me da terra da alegria". Pois.

Arco de Baúlhe, fim do dia (com gripe), 30 de janeiro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho