Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Canção de mim



Escuta, amor, a canção
Da minha vida a correr
Ouve nela a expressão
Dos meus dias a valer.

A música são melodias
Do meu pobre coração:
Tristezas e alegrias
Eu entre o céu e o chão.

O refrão para me cantares
É o silêncio das lembranças
Ou o barulho do mar
Na praia em que fui criança.

Arco de Baúlhe, 14 de Janeiro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gloriaisizaka.blogspot.com.]

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Ronaldo & George Steiner

Reagi como adolescente idólatra a mais uma conquista de Ronaldo. Talvez este entusiasmo tenha algo que ver com a comum portugalidade, a origem madeirense que há em parte da minha família, a passagem pelo amado Sporting, o seu berço humilde a anteceder a glória. Mas é mais do que isso, tenho a certeza. Ronaldo é o expoente de uma paixão que há muito me habita - o Futebol. Televejo-o com canina fidelidade e saboreio casa êxtase como se se tratasse de uma experiência religiosa. George Steiner explica-nos que a "presença de Deus" se manifesta de cada vez que testemunhamos uma espécie de "perfeição". Tenho sido visitado por essa coisa inefável na forma de um livro, de um poema, de uma canção, de um filme, de um amigo, do Amor. E na forma de dribles, fintas, golos. A ideia de Deus está, pois, por exemplo, num golo de calcanhar contra o Valência, quase no final da época passada, estava eu em Vila Real com uma resma de testes para corrigir.
Obrigado, Cristiano.

Cabeceiras de Basto, 13 de Janeiro de 2015.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Fósforo (variação de "carpe diem")



De repente, de repente
É já morta é já perdida
A juventude da gente
A formosura da gente…

E a melhor lição de vida
Que a vida dá simplesmente
É vivermos o presente
Por não haver outra vida.

 Ribeira de Pena, 30 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mdemulher.abril.com. Este poema foi escrito no contexto da peça “Call Center Literário” (Ribeira de Pena, 30-06-2014). A peça foi apresentada em Setembro de 2014, no Auditório Municipal de Ribeira de Pena, durante as II Jornadas Camilianas.]

Livro



Livro fechado esperando
Leitores que o salvem do Nada –
Vive e brilha apenas quando
O vemos e, nele entrando,
Um encontro lhe acontece:

Pois é o livro um amigo
Que se o leitor o merece
Ouve bem falar consigo.

Num livro fechado habita
O sonho de um escritor
E entre o leitor e a escrita
Há uma história de amor!


Ribeira de Pena, 30 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tulipa2.wordpress.com. Este poema foi escrito no contexto da peça “Call Center Literário” (Ribeira de Pena, 30-06-2014). A peça foi apresentada em Setembro de 2014, no Auditório Municipal de Ribeira de Pena, durante as II Jornadas Camilianas.]

Ferida lida



É maior o amor que a vida
Porque esta acaba e aquele não.
Mas se a vida
Ao amor é reunida
Fica igual ao tempo o coração:
Amor - ferida.
Amor - de perdição.

Ribeira de Pena, 30 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema foi escrito no contexto da peça “Call Center Literário” (Ribeira de Pena, 30-06-2014). A peça foi apresentada em Setembro de 2014, no Auditório Municipal de Ribeira de Pena, durante as II Jornadas Camilianas.]

Pátria ou assim



Na minha pátria desejo
 
Um rio vivo de sossego

(Poderia ser o Tejo

Mas eu prefiro o Mondego) –
 

Minha pátria é um não-lugar

Feito de capricho puro:

Na terra sonho com mar

No mar mais terra procuro.

 
Minha pátria é outro lado:

A mãe (tão nova!) na lida

E o pai cantando o fado

Durante o banho da vida.
 
 
Coimbra, 23 de Novembro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida na net e foi já utilizada neste blogue, em Janeiro de 2012. Com a devida vénia, naturalmente.]

Poesia (definição num verso)


Poesia é dar a palavra à palavra.

Arco de Baúlhe, 24 de Novembro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.coisautil.pt.]

terça-feira, 4 de novembro de 2014

In Finitude


 
O velho saboreia a maçã

E o sol que o consola na tarde linda –

Não já o sol puro da manhã

Mas sol ainda.

 
Depois cai sobre as casas o ocaso

E há em vez do sol filosofia:

Vai-se suspirando em passo raso

O velho já sem fruto, já sem dia.

 
Vila Real, 01 de Novembro de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.br.123rf.com.]

O que falta para tudo estar certo


 
Perguntas-me a razão desta tristeza

Que nunca bem me desaparece, só

Se esconde e adia, às vezes, quando há sol.

Perguntas-me o que me falta

Para enfim sermos inteiramente felizes

(Perguntas-me se é por não ser já Verão).

Digo-te que também é isso, mas não

Apenas isso, não sequer essencialmente isso.

Era preciso, meu amor, nunca morrermos

Para tudo estar certo.

 

Vila Real, 01 de Novembro de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.a-educologia.blogspot.com.]

Flutuação com lábios


Sorris e morre a lei da gravidade
(É por sorrires que nasce esta leveza).
É tão mais leve a realidade
Quando há beleza.

 

Vila Real, 01 de Novembro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem faz parte da maravilhosa saga de Calvin & Hobbes, do genial Bill Watterson. Com a devida vénia.]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Tempo todo



Vivem connosco os nossos vivos e os nossos mortos. Todos em nós vivos. O meu pai gostava de falar das mulheres com um sorriso maroto nos lábios operários. Que diria ele desta senhora muito vistosa que atravessa a rua, como se desfilasse, cheia de curvas e de promessas nos olhos e na boca pequenina? O meu amigo Conceição gostava de falar de futebol ridicularizando, a cada passo, as certezas absolutas de jogadores, treinadores, directores. Que diria ele do anafado comentador que verbera, na televisão, quem ousa brincar com o técnico do seu clube? O meu sogro gostava de falar de Deus e da sua ideia (muito simples) de Igreja. Que diria ele de quem ataca medievalmente este papa novo que propõe a tolerância e o sorriso onde têm residido, até agora, o sectarismo e a severidade?
A minha mãe gosta de falar do passado. Eu também. Porque, perceba-se, é tudo presente.

Cabeceiras de Basto, 30 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do filme Adeus, pai, de Luís Filipe Rocha (1996). Com a devida vénia.]

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Discurso sobre a ideia delicada de resistir



Pode suceder que um professor leve três horas a preparar uma aula, seleccionando textos, filmes e canções, fabricando guiões e fichas de análise, arquitectando exposições e debates, conciliando as dimensões do esforço e do prazer - e que, no dia seguinte, os seus alunos adormeçam nas aulas, ou se agridam, ou arrotem, ou exibam orgulhosas flatulências que fazem rir os colegas.
Pode suceder que um professor hesite, às tantas, entre persistir ou desistir.
Eu percebo muito bem que tenha de haver na Escola espaço para todos. Defendo-o até. Mas não pode deixar de haver, por outro lado, espaço para a Escola dentro dos alunos que a frequentam. Dentro de, sublinho, todos os alunos que a frequentam. Chame-se isso respeito ou, de forma mais lata e elementar, civilização.
Tenho dito.

Ribeira de Pena, 22 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.altamiroborges.blogspot.com.]

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Beijo solar

Acordo ao som déspota do telemóvel-despertador. Custa-me sempre abandonar aquela morna conjugalidade do leito, mas saio. Sofro, corredor afora, as primeiras lambadas de frio. Espreito o exterior, da janela sobranceira à vila: algumas pessoas cruzam escuramente a rua, pontuando o silêncio do som funcionário dos seus passos. Escolho a roupa, dirijo-me à casa de banho, faço a higiene habitual, ofereço-me cinco minutos de brevíssimo prazer sob o chuveiro quente. Visto-me a olhar, já preocupado, para as horas. Beijo a MP, sigo para a cozinha, mordisco (nem sempre) uma fatia de pão e saio escadas abaixo, com a pasta pesando-me já na mão direita. Entro no carro, sintonizo a TSF, indigno-me com o orçamento para 2015, preparo o dinheiro da portagem. São oito horas e vinte e três minutos, faltam dois quilómetros para chegar ao Arco. Suspiro, quase em desespero: repetição, rotina, cansaço, tédio. Porque, penso, este é um dia igual aos anteriores e, muito provavelmente, aos seguintes.
Mas eis que uma carícia de sol me invade o habitáculo, vinda (creio) do lado esquerdo (nascente?), e que o meu coração decide desenhar-me, na dura boca, um sorriso doce. Um anjo qualquer diz-me ao ouvido: "É tão bom estar vivo, Joaquim Jorge! Olha o Sol. Vê que nenhum dia é igual a outro..."
Eu aceito. Sigo para a lida, mais animado. Amanhã é sexta-feira - joga o Real Madrid com o Levante e o (meu) Sporting com o Porto.
De modo que perdoo, por enquanto aos deuses, que ainda não seja Verão.

Arco de Baúlhe, 17 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://welovemotogeo.com.]

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ditosa pátria minha estrada


A minha viagem começa nos olhos
E é mais do coração que do alcatrão.

Vou de carro, voo-me fora do carro
E sou mais de asas que de casas.

A minha viagem vai para lá do volante
E há sempre mais mar em mim que lar.

Fecho a porta, abro o mundo inteiro
E canto-me mais a vida que a lida.

A minha viagem é muito mais do que uma viagem.

Cabeceiras de Basto, 15 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flick.br.com.]

domingo, 12 de outubro de 2014

"Je déteste l'école"


Passou recentemente pela RTP2 um belo documentário sobre certo projecto que, em França, se está fazendo sob a égide do Ministério da Educação gaulês. Trata-se, em resumo, da tentativa de segurar na escola aqueles alunos que, no ensino regular, foram colecionando reprovações, processos disciplinares, suspensões, desistências. Tanto quanto percebi, os alunos – enquadrados em turmas muito reduzidas – têm aulas em carpintarias, ateliês de arte, oficinas de chapa, mecânica ou pintura, empresas de agropecuária, escolas de circo. Pontualmente, têm aulas de língua materna (leitura, sobretudo). Uma vez por semana, reúnem-se com os formadores e fazem a sua autoavaliação – que é, logo na hora, criticamente monitorizada pelo corpo docente.
O projecto é para durar cinco anos, após o que se procederá à sua avaliação pelos governantes. Coisa séria, portanto.
Por cá, sei de turmas com duas dezenas de alunos, em boa parte semelhantes aos discentes que vi no programa francês. Frequentam cursos de educação e formação, cursos profissionais, cursos vocacionais. Mas os nossos alunos têm aulas tradicionais, fundamentalmente semelhantes às que são leccionadas no ensino convencional, regular. Morrem de tédio, cumprem pena, revoltam-se mais ou menos agressivamente. Que lhes fazemos? Damos-lhes mais do mesmo, à espera quiçá que a paixão nasça do desespero ou do cansaço.
Eu não detesto a escola. Nunca detestarei a escola. O que “detesto”, para usar o verbo do título deste documentário, é a Escola – assim mesmo, com maiúscula - não ser capaz de se reinventar na medida do necessário (e, vá lá, do possível).

Coimbra, 12 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem faz parte da maravilhosa bibliografia de Bill Watterson - Calvin & Hobbes, naturalmente. Com a devida vénia...]