quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Ditosa pátria minha estrada
A minha viagem começa nos olhos
E é mais do coração que do alcatrão.
Vou de carro, voo-me fora do carro
E sou mais de asas que de casas.
A minha viagem vai para lá do volante
E há sempre mais mar em mim que lar.
Fecho a porta, abro o mundo inteiro
E canto-me mais a vida que a lida.
A minha viagem é muito mais do que uma viagem.
Cabeceiras de Basto, 15 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.flick.br.com.]
domingo, 12 de outubro de 2014
"Je déteste l'école"
Passou recentemente pela
RTP2 um belo documentário sobre certo projecto que, em França, se está fazendo
sob a égide do Ministério da Educação gaulês. Trata-se, em resumo, da tentativa
de segurar na escola aqueles alunos que, no ensino regular, foram colecionando reprovações,
processos disciplinares, suspensões, desistências. Tanto quanto percebi, os
alunos – enquadrados em turmas muito reduzidas – têm aulas em carpintarias, ateliês
de arte, oficinas de chapa, mecânica ou pintura, empresas de agropecuária, escolas
de circo. Pontualmente, têm aulas de língua materna (leitura, sobretudo). Uma
vez por semana, reúnem-se com os formadores e fazem a sua autoavaliação – que é,
logo na hora, criticamente monitorizada pelo corpo docente.
O projecto é para durar
cinco anos, após o que se procederá à sua avaliação pelos governantes. Coisa
séria, portanto.
Por cá, sei de turmas com
duas dezenas de alunos, em boa parte semelhantes aos discentes que vi no
programa francês. Frequentam cursos de educação e formação, cursos
profissionais, cursos vocacionais. Mas os nossos alunos têm aulas tradicionais,
fundamentalmente semelhantes às que são leccionadas no ensino convencional,
regular. Morrem de tédio, cumprem pena, revoltam-se mais ou menos
agressivamente. Que lhes fazemos? Damos-lhes mais do mesmo, à espera quiçá que
a paixão nasça do desespero ou do cansaço.
Eu não detesto a escola.
Nunca detestarei a escola. O que “detesto”, para usar o verbo do título deste
documentário, é a Escola – assim mesmo, com maiúscula - não ser capaz de se
reinventar na medida do necessário (e, vá lá, do possível).
Coimbra, 12 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem faz parte da maravilhosa bibliografia de Bill Watterson - Calvin & Hobbes, naturalmente. Com a devida vénia...]
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Casa Sonetone (não Sonotone)
- Boa tarde. É da casa
Sonotone?
-
Não, minha senhora. Aqui fala da casa Sonetone.
- A sério? Devo ter
visto mal na lista telefónica…
- Mal não direi, minha
senhora. Viu talvez algo diferente do que esperava.
- Mas qual é o vosso ramo
de negócio, afinal?
- A nossa especialidade,
minha senhora, são sonetos.
- Ah, então é mesmo
engano, porque eu não preciso nem hei-de precisar …
- Minha senhora, não me
leve a mal o atrevimento, mas nisto de sonetos é melhor não os pôr de lado
antes de os conhecer.
- Pois sim, mas eu
queria era falar com um especialista em audição… Está ouvir-me?
- Muito bem, minha
senhora. E tem sido um prazer, garanto-lhe…
- Obrigada. Mas não vale
a pena continuar a conversa.
- Vale sempre a pena,
minha senhora.
- Não me parece. Os
senhores aí não tratam da surdez de ouvidos, pois não?
- Não, de facto.
Tratamos é da surdez de olvidos. De olvidos, não se esqueça.
- Não me olvidarei. Se
vier a precisar de ajuda nessa área, contacto-vos…
- Agradeço, minha
senhora. Verá que, se vier a ser nossa cliente, não se arrependerá.
- Veremos. Sabe que, na
casa Sonotone, há senhores a explicar a doença à pessoa.
- Nós, na Sonetone,
temos Pessoa a explicar a doença aos senhores.
- Mas também oferecem
aparelhos como na casa Sonotone?
- Nós, na casa Sonetone,
oferecemos amparelhos.
- Amparelhos?...
- Sim. Aparelhos para o
amparo.
- Interessante… E
funcionam a electricidade?
- Funcionam à base de
luz, minha senhora.
- E se não houver luz?
- Há sempre luz
garantida nos sonetos. Vai incorporada de origem.
- Pois bem, está a
convencer-me…Vou encomendar um soneto…
- Minha senhora, será um
prazer. Chamo a sua atenção, já agora, para uma promoção que estamos a fazer:
na compra de três sonetos, acumula uma quadra ou dois tercetos no nosso cartão
de pontos. Está interessada?
- Estou, sim. Espero que
seja como o senhor diz…
- Verá que vai ficar
feliz!
- Ah, que engraçado!
Respondeu-me com uma rima…
- Pois respondi. É oferta
da casa. Com licença…
Ribeira de Pena, 08 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto surgiu-me durante a viagem entre o Arco e Ribeira de Pena, depois de o Daniel Abrunheiro me falar do fabrico recente de mais um (seu) soneto. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cuidarte.com.]
Imortalidade de amigo (a propósito de uma batata com a forma de um coração)
Tenho um amigo que deixou aparentemente de
aparecer nas ruas por onde os meus passos andam. Diz-se que morreu. Mas eu
vejo-o todos os dias, ouço-o todos os dias, sinto-o vivamente a cada instante.
De modo que, vamos lá a ver se nos entendemos,
ele morreu coisa nenhuma. Anda comigo para sempre. Para sempre é até eu
existir.
Não perceber isto (ou falar do número da
sua campa, ou falar da viuvez e orfandade dos dias seguintes a não sei quê que
não consigo dizer) redunda em desespero e choro. Já me aconteceu. Mas sucede
cada vez menos porque eu preciso de não dar em doido, porque eu preciso de
trabalhar, porque eu preciso de seguir em frente – e porque o meu amigo (não
esquecer, jamais esquecer) está vivo.
Estás vivo, pá.
Cabeceiras de Basto, 07 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto da VL, que descobriu na nossa cozinha, em Coimbra,
certa batata com a forma de um coração.]
sábado, 4 de outubro de 2014
Lunar
Quando, em 1969, perguntaram à mãe de Nel Armstrong se o feito do filho a surpreendera, ela deve ter dito:
- Não, senhor. Não, senhor. Porque aquele rapaz, desde que me lembro, andou sempre na lua.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.telegraph.co.uk.]
Lírico-cardiograma
O coração não precisa de carteira. Paga tudo em forma de amor - e, na maioria do casos, ainda recebe troco.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sidneyrezende.com.]
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Vidas outras
Para sobreviver, com alguma sanidade mental, aos dias mais pesados, um professor tem de inscrever, na sua cabeça e na sua alma, duas ideias básicas, só aparentemente contraditórias:
a) a do optimismo humanista, que garante valer a sempre pena o esforço, o empenho, a esperança;
b) a do pragmatismo burguês, que reduz o exercício da profissão à sua expressão mínima, a de um mero suporte económico-financeiro.
A primeira destas ideias funciona como pressuposto para a eficácia da atividade docente. Se não acreditarmos no que fazemos (no sentido dos nossos gestos, no alcance dos nossos gestos), não conseguimos, como ensinou Torga, salvar seja o que for. Mais: não conceber que o nosso ofício é capaz, de facto, de operar milagres, ainda que subtis, ainda que pequeninos, seria entender a generosidade de cada uma das nossas aulas como um triste, banal e patético capricho. Seria resignarmo-nos. Seria desistirmos. Ora, o trabalho faz-se, na Escola como na vida em geral, com os persistentes, os resistentes.
Questão: e quando tudo corre mal? E quando a realidade nos ataca, nos fere, nos desanima?
Resposta: alínea b).
A nossa vida não pode circunscrever-se à profissão. Tem de haver, em cada um de nós, para cada um de nós, a possibilidade de outros mundos. De outras vidas.
Não digo que a profissão não seja uma parte importante da vida. No meu caso, é uma parte essencial. Mas não é única, muito longe disso. De vez em quando, é preciso desligar como um médico que, despindo a bata, suspende por horas a angústia das situações-limite, de vida quase morte, de morte quase vida. Como nós, o médico precisa de respirar.
A felicidade também compreende a vida (as vidas) que há para lá ou para cá do ofício diário. Falo de leituras, viagens, conversas, família, amigos, futebol, presunto, cerveja, café, televisão, cinema, música, praia. Falo de dormir. Falo de preguiçar. Falo de amar.
É verdade que, tantas vezes, a profissão é também um lugar de felicidade. Sei-o bem. Mas ai de nós se for o único!
Dito (escrito) isto, vou só corrigir o trabalho de casa do 8.ºA e, logo a seguir, desligar. Sair da vida funcionária. Despir a bata dos horários com campainha e livro de ponto. Daqui a pouco, quero assistir descansado a uma jornada mais da Champions. O Ministério não tem nada com isso.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portalresende.com.]
sábado, 27 de setembro de 2014
Coimbra
Aprendi que somos de uma terra muito mais que temos uma terra. Eu sou de Coimbra.
O destino quis pôr à prova a minha fidelidade, a verdade que havia na minha devoção primeira: levou-me aos poucos para cada vez mais longe, de escola em escola. O meu amor, como um vinho doce, veio a tornar-se ainda mais apurado, mais especial.
De modo que, a cada separação (uma semana, quinze dias, três semanas), tendo a sofrer mais e mais. E a desejar, com maior urgência, quase desespero, viajar para Coimbra.
Na verdade, quando viajo para Coimbra, já não vou a Coimbra. Regresso.
Até já, meu amor de onde sou.
Ribeira de Pena, 27 de Setembro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.best.uc.pt.]
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Menina
A minha filha faz hoje trinta anos. À MP e a mim custa-nos a aceitar que o tempo passe tão depressa.
A V entrou pela nossa vida como um intruso frágil e, à velocidade da luz, tornou-se personagem principal na história da nossa existência.
Fomos abençoados com uma cria linda e inteligente. Não tinha de ser assim para que a amássemos, mas foi assim. O seu percurso escolar encheu-nos de baba mal disfarçada. A sua curiosidade alimentou-nos o maravilhoso espanto de existir. O seu sentido de humor tornou mais colorido o mundo que juntos percorremos.
É já uma mulher, naturalmente. O relógio avança. Mas ainda é a nossa menina. A sério: ao falar dela, ainda dizemos "a menina" (em pontual alternativa, " a miúda").
Assim que a menina nasceu, passei a saber mesmo do que se falava quando se falava de amor incondicional. No fundo, é estar disponível para a proteger até ao limite. Isso compreende, na minha cabeça, a eventualidade de dar a vida por ela. Não tenho a mínima dúvida sobre o conceito: o amor pelos filhos é, para pais verdadeiros, um verdadeiro curso sobre a noção de amor incondicional. Quando ela, há duas semanas, regressou da Madeira, quatro dias antes de nós, eu rezei mentalmente: "Meu Deus, se algum dos dois voos tiver de cair, que não seja o da minha filha." E eu, acreditai, sentia o que pensava (a MP também).
A minha filha tem trinta anos, não sei se já vo-lo disse.
Tenho muito orgulho na minha menina.
Joaquim Jorge Carvalho
domingo, 17 de agosto de 2014
Baía
A baía de Machico tem, quase sempre, a forma de um abraço. O mar aninha-se nela como uma criança grande que regressa a casa. Às vezes, a rebentação marítima redesenha a costa - e o que era harmonia afigura-se uma briga de amantes caprichosos.
O amor tem marés.
Machico, 16 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em Madeiras - Gentes & Lugares.]
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Saudades do senhor Luís
Faleceu o senhor Luís Monteiro, marido da senhora Dona Lurdes Monteiro, pai da Ju e da Alexandra, vizinho e amigo da minha família. Soube-o hoje à tarde pelas lágrimas telefonadas da minha mãe. Eu, a MP e a VL ficámos profundamente tristes. Que pena tenha por, estando a um oceano de distância, não poder prestar-lhe uma última homenagem no funeral...
Hei-de, claro, logo que possível, falar com a sua família. E não me esquecerei nunca nunca nunca do senhor Luís vivo, esse ser elegante e correcto que atravessou, desde a infância, a minha vida mais pura. Até sempre, senhor Luís!
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.meioambienteculturamix.com.]
Machico - liturgia do 1.º dia
Um homem procura, no chão da marginal, com o auxílio de um aparelho semelhante a uma bengala, objectos de metal que valham, talvez, o esforço da procura. A minha vida toda ali.
Uma funcionária limpa, com uma vassoura, cheia de paciência e de rigor, o lixo que a humanidade e a natureza produziram no dia anterior. A minha vida toda ali.
Um velho corre desajeitadamente atrás de um carro, gritando "Estou aqui!", desesperando por não o verem e perder a boleia. A minha vida toda ali.
Um menino passa alegremente de bicicleta, metido num mundo muito próprio e muito secreto, feliz como um pássaro. A minha vida toda ali.
Uma senhora de idade indefinida sai da igreja com um suspiro nos olhos, quem sabe viajante entre o Visível e o Ausente que consabidamente há nas saudades. A minha vida toda ali.
Um homem contempla o mar, à procura de razões para seguir em frente. Cá estou. A minha vida toda aqui.
Machico, 15 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[O título do texto teve a colaboração do meu Amigo Daniel Abrunheiro, que sugeriu o termo "liturgia". A imagem foi colhida em http://wwwffotos2.blogs.sapo.pt..]
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Moinho Velho, ao Arnado
Ando por Coimbra feliz e leve como uma criança conduzindo um carrinho de choques na pista da feira popular. Divirto-me da forma mais pura, mais simples, mais próxima do menino que, em 1973, metia a ficha na viatura número 14 e driblava o trânsito colorido. "Nova corrida, nova viagem", ouvia-se entre cada aventura - e lá estavam, na curva certa, o meu pai e a minha mãe debitando conselhos e sorrindo, parecendo ali (como eu) alegres e imorredoiros.
Agora, à razão de alguns euros de gasóleo por dia, vou levar e buscar a VL ao emprego (ela falou ontem na televisão, ena!), vou levar e buscar o A ao treino, ajudo a F a tratar das suas formalidades viúvas, faço compras, passeio com a MP, dou (sozinho) um salto a certo Café tranquilo, perto de casa, para sumo e literatura.
Gosto estranhamente deste ofício de motorista quase livre. Isto é, gosto desta condição de formiguinha urbana, que é feliz apenas por pertencer à cidade também sua. E quem me dera nunca sair desta rotina amada! Quem me dera ficar para sempre nesta paisagem conhecida, cheia de lugares pessoais, carregada de memórias e sentidos absolutamente meus (irreproduzíveis, é verdade, noutras geografias)!
Hoje, entre as dez e meia e o meio-dia, li um livro de Prosper Mérimée, extraordinário escritor francês do século XIX. Fi-lo num Café coimbrinha, junto a uma parede de vidro transparente que oferecia, à minha atenção irregular, o espectáculo da cidade viva, com gente e carros passando, em ritmo apressado ou vagaroso, rumo aos pontuais destinos de cada circunstância transeunte.
No livro de Mérimée, encontrei contos que relatavam lutas militares, intrigas de amor e ciúme, sonhos e frustrações, episódios épicos e pícaros, drama e humor. E era como se na leitura, feita no lado de cá, estivesse afinal o recheio humano do que, para lá do vidro do Café, eu ia vendo.
Creio que toda a vida tenho estado junto a uma parede assim. Uma parede de vidro transparente (mas às vezes, translúcido; mas às vezes, opaco) que, em vez de separar dimensões, une.
Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto do Café referido no texto) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mogumogumunch.wordpress.com.]
Estrada bela
Calha eu cansar-me, com certeza,
Se é maior o desejo que o ensejo!
Nunca me canso é da beleza
Que adivinho ou sinto ou vejo -
Triste seria, ó camarada,
Não haver beleza
(Não ver, sentir, adivinhar beleza).
Que deserto seria a estrada!
Que tristeza!
Coimbra, 12 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.zazzle.pt.]
Cão & Cadela
E eu lembro aquele
choro do Zé-Tó
(Irmão do menino que eu
então era).
Decidi que cães nunca
mais –
Só porque a minha filha
me pediu tanto
É que tenho, hoje, esta
cadela terminal
(Chamada Dara)
Morrendo de esclerose
no inverno cego.
Porque é muito triste
amar
(Como Sophia ensinou,
por outras palavras)
Quem dura tão menos do
que o nosso amor.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema é o último de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem é da falecida Dara, que esteve na nossa família até há cerca de quatro anos.]
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