Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 4 de outubro de 2014

Lunar


Quando, em 1969, perguntaram à mãe de Nel Armstrong se o feito do filho a surpreendera, ela deve ter dito:
- Não, senhor. Não, senhor. Porque aquele rapaz, desde que me lembro, andou sempre na lua.

Coimbra, já 04 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.telegraph.co.uk.]

Lírico-cardiograma


O coração não precisa de carteira. Paga tudo em forma de amor - e, na maioria do casos, ainda recebe troco.

Ribeira de Pena, 03 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sidneyrezende.com.]

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Vidas outras



Para sobreviver, com alguma sanidade mental, aos dias mais pesados, um professor tem de inscrever, na sua cabeça e na sua alma, duas ideias básicas, só aparentemente contraditórias:
a) a do optimismo humanista,  que garante valer a sempre pena o esforço, o empenho, a esperança;
b) a do pragmatismo burguês, que reduz o exercício da profissão à sua expressão mínima, a de um mero suporte económico-financeiro.
A primeira destas ideias funciona como pressuposto para a eficácia da atividade docente. Se não acreditarmos no que fazemos (no sentido dos nossos gestos, no alcance dos nossos gestos), não conseguimos, como ensinou Torga, salvar seja o que for. Mais: não conceber que o nosso ofício é capaz, de facto, de operar milagres, ainda que subtis, ainda que pequeninos, seria entender a generosidade de cada uma das nossas aulas como um triste, banal e patético capricho. Seria resignarmo-nos. Seria desistirmos. Ora, o trabalho faz-se, na Escola como na vida em geral, com os persistentes, os resistentes.
Questão: e quando tudo corre mal? E quando a realidade nos ataca, nos fere, nos desanima?
Resposta: alínea b). 
A nossa vida não pode circunscrever-se à profissão. Tem de haver, em cada um de nós, para cada um de nós, a possibilidade de outros mundos. De outras vidas.
Não digo que a profissão não seja uma parte importante da vida. No meu caso, é uma parte essencial. Mas não é única, muito longe disso. De vez em quando, é preciso desligar como um médico que, despindo a bata, suspende por horas a angústia das situações-limite, de vida quase morte, de morte quase vida. Como nós, o médico precisa de respirar.
A felicidade também compreende a vida (as vidas) que há para lá ou para cá do ofício diário. Falo de leituras, viagens, conversas, família, amigos, futebol, presunto, cerveja, café, televisão, cinema, música, praia. Falo de dormir. Falo de preguiçar. Falo de amar.
É verdade que, tantas vezes, a profissão é também um lugar de felicidade. Sei-o bem. Mas ai de nós se for o único!
Dito (escrito) isto, vou só corrigir o trabalho de casa do 8.ºA e, logo a seguir, desligar. Sair da vida funcionária. Despir a bata dos horários com campainha e livro de ponto. Daqui a pouco, quero assistir descansado a uma jornada mais da Champions. O Ministério não tem nada com isso.

Ribeira de Pena, 01 de Outubro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portalresende.com.]

sábado, 27 de setembro de 2014

Coimbra


Aprendi que somos de uma terra muito mais que temos uma terra. Eu sou de Coimbra. 
O destino quis pôr à prova a minha fidelidade, a verdade que havia na minha devoção primeira: levou-me aos poucos para cada vez mais longe, de escola em escola. O meu amor, como um vinho doce, veio a tornar-se ainda mais apurado, mais especial. 
De modo que, a cada separação (uma semana, quinze dias, três semanas), tendo a sofrer mais e mais. E a desejar, com maior urgência, quase desespero, viajar para Coimbra. 
Na verdade, quando viajo para Coimbra, já não vou a Coimbra. Regresso. 
Até já, meu amor de onde sou.

Ribeira de Pena, 27 de Setembro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.best.uc.pt.]

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Menina


A minha filha faz hoje trinta anos. À MP e a mim custa-nos a aceitar que o tempo passe tão depressa.
A V entrou pela nossa vida como um intruso frágil e, à velocidade da luz, tornou-se personagem principal na história da nossa existência.
Fomos abençoados com uma cria linda e inteligente. Não tinha de ser assim para que a amássemos, mas foi assim. O seu percurso escolar encheu-nos de baba mal disfarçada. A sua curiosidade alimentou-nos o maravilhoso espanto de existir. O seu sentido de humor tornou mais colorido o mundo que juntos percorremos.
É já uma mulher, naturalmente. O relógio avança. Mas ainda é a nossa menina. A sério: ao falar dela, ainda dizemos "a menina" (em pontual alternativa, " a miúda").
Assim que a menina nasceu, passei a saber mesmo do que se falava quando se falava de amor incondicional. No fundo, é estar disponível para a proteger até ao limite. Isso compreende, na minha cabeça, a eventualidade de dar a vida por ela. Não tenho a mínima dúvida sobre o conceito: o amor pelos filhos é, para pais verdadeiros, um verdadeiro curso sobre a noção de amor incondicional. Quando ela, há duas semanas, regressou da Madeira, quatro dias antes de nós, eu rezei mentalmente: "Meu Deus, se algum dos dois voos tiver de cair, que não seja o da minha filha." E eu, acreditai, sentia o que pensava (a MP também).
A minha filha tem trinta anos, não sei se já vo-lo disse.
Tenho muito orgulho na minha menina.

Ribeira de Pena, 02 de Setembro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 17 de agosto de 2014

Baía


A baía de Machico tem, quase sempre, a forma de um abraço. O mar aninha-se nela como uma criança grande que regressa a casa. Às vezes, a rebentação marítima redesenha a costa - e o que era harmonia afigura-se uma briga de amantes caprichosos.
O amor tem marés.

Machico, 16 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em Madeiras - Gentes & Lugares.]

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Saudades do senhor Luís


Faleceu o senhor Luís Monteiro, marido da senhora Dona Lurdes Monteiro, pai da Ju e da Alexandra, vizinho e amigo da minha família. Soube-o hoje à tarde pelas lágrimas telefonadas da minha mãe. Eu, a MP e a VL ficámos profundamente tristes. Que pena tenha por, estando a um oceano de distância, não poder prestar-lhe uma última homenagem no funeral...
Hei-de, claro, logo que possível, falar com a sua família. E não me esquecerei nunca nunca nunca do senhor Luís vivo, esse ser elegante e correcto que atravessou, desde a infância, a minha vida mais pura. Até sempre, senhor Luís!

Machico, 15 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.meioambienteculturamix.com.]

Machico - liturgia do 1.º dia


Um homem procura, no chão da marginal, com o auxílio de um aparelho semelhante a uma bengala, objectos de metal que valham, talvez, o esforço da procura. A minha vida toda ali.

Uma funcionária limpa, com uma vassoura, cheia de paciência e de rigor, o lixo que a humanidade e a natureza produziram no dia anterior. A minha vida toda ali.

Um velho corre desajeitadamente atrás de um carro, gritando "Estou aqui!", desesperando por não o verem e perder a boleia.  A minha vida toda ali.

Um menino passa alegremente de bicicleta, metido num mundo muito próprio e muito secreto, feliz como um pássaro. A minha vida toda ali.

Uma senhora de idade indefinida sai da igreja com um suspiro nos olhos, quem sabe viajante entre o Visível e o Ausente que consabidamente há nas saudades. A minha vida toda ali.

Um homem contempla o mar, à procura de razões para seguir em frente. Cá estou. A minha vida toda aqui.

Machico, 15 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[O título do texto teve a colaboração do meu Amigo Daniel Abrunheiro, que sugeriu o termo "liturgia". A imagem foi colhida em http://wwwffotos2.blogs.sapo.pt..]

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Moinho Velho, ao Arnado

Ando por Coimbra feliz e leve como uma criança conduzindo um carrinho de choques na pista da feira popular. Divirto-me da forma mais pura, mais simples, mais próxima do menino que, em 1973, metia a ficha na viatura número 14 e driblava o trânsito colorido. "Nova corrida, nova viagem", ouvia-se entre cada aventura - e lá estavam, na curva certa, o meu pai e a minha mãe debitando conselhos e sorrindo, parecendo ali (como eu) alegres e imorredoiros.
Agora, à razão de alguns euros de gasóleo por dia, vou  levar e buscar a VL ao emprego (ela falou ontem na televisão, ena!), vou levar e buscar o A ao treino, ajudo a F a tratar das suas formalidades viúvas, faço compras, passeio com a MP, dou (sozinho) um salto a certo Café tranquilo, perto de casa, para sumo e literatura.
Gosto estranhamente deste ofício de motorista quase livre. Isto é, gosto desta condição de formiguinha urbana, que é feliz apenas por pertencer à cidade também sua. E quem me dera nunca sair desta rotina amada! Quem me dera ficar para sempre nesta paisagem conhecida, cheia de lugares pessoais, carregada de memórias e sentidos absolutamente meus (irreproduzíveis, é verdade, noutras geografias)!
Hoje, entre as dez e meia e o meio-dia, li um livro de Prosper Mérimée, extraordinário escritor francês do século XIX. Fi-lo num Café coimbrinha, junto a uma parede de vidro transparente que oferecia, à minha atenção irregular, o espectáculo da cidade viva, com gente e carros passando, em ritmo apressado ou vagaroso, rumo aos pontuais destinos de cada circunstância transeunte.
No livro de Mérimée, encontrei contos que relatavam lutas militares, intrigas de amor e ciúme, sonhos e frustrações, episódios épicos e pícaros, drama e humor. E era como se na leitura, feita no lado de cá, estivesse afinal o recheio humano do que, para lá do vidro do Café, eu ia vendo.
Creio que toda a vida tenho estado junto a uma parede assim. Uma parede de vidro transparente (mas às vezes, translúcido; mas às vezes, opaco) que, em vez de separar dimensões, une.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto do Café referido no texto) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mogumogumunch.wordpress.com.] 

Estrada bela


Calha eu cansar-me, com certeza,
Se é maior o desejo que o ensejo!
Nunca me canso é da beleza
Que adivinho ou sinto ou vejo -

Triste seria, ó camarada,
Não haver beleza
(Não ver, sentir, adivinhar beleza).
Que deserto seria a estrada!
Que tristeza!

Coimbra, 12 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.zazzle.pt.]

Cão & Cadela



O meu primeiro cão morreu atropelado
E eu lembro aquele choro do Zé-Tó
(Irmão do menino que eu então era).

Decidi que cães nunca mais –
Só porque a minha filha me pediu tanto
É que tenho, hoje, esta cadela terminal
(Chamada Dara)
Morrendo de esclerose no inverno cego.

Porque é muito triste amar
(Como Sophia ensinou, por outras palavras)
Quem dura tão menos do que o nosso amor.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema é o último de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem é da falecida Dara, que esteve na nossa família até há cerca de quatro anos.]

Agostinho & cão

 

Para onde pedalas, Joaquim Agostinho
Em mil novecentos e setenta e dois
Entre o túnel da Estação Velha e a Figueira da Foz?
Tu hás-de morrer no Algarve
Depois de um cão te atrapalhar o destino
E eu hei-de escrever sobre não estares.

Para onde pedalam os meus versos,
Campeão?

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A primeira imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.geopedrados.blospot.com; a segunda foi colhida, com a devida vénia, em http://www.torrresvedrasweb.com.]



Soldado Luís


Talvez houvesse quatro a zero, na segunda parte
E eu, aos treze anos, como um deus
Fosse o tetra-marcador do farto treino;
Talvez nos meus pés nascesse a arte
De, então, ser o melhor dos meus
Natural reizinho desse reino.

Mas depois tudo parou para ver da estrada
O cortejo do soldado do Ralis
E a tarde ali morreu tão empatada
Tão perto de eu chegar a ser feliz –

O nosso treinador, o Belchior
(Democrata só de Abril devindo)
Notou a noite, em vez do meu suor
Caindo.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz arte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.nucleodeestudo25deabril.blogspot.com.]

Abril


Na noite da revolução dos cravos
O meu pai levou-me àquela rua
Onde milhares diziam morte aos pides
E faziam capotar os automóveis.

O meu pai era bate-chapas, gostava de carros
E fez a pergunta reaccionária: Porquê
Que culpa têm os carros?

Um homem (Belchior talvez, impaciente)
Gritou, com o punho ao alto, como flor
Porque sim, senhor.
Porque ali viajou muito inocente.

Eu fiquei com a frase e o punho zunindo
No meu coração de menino amante
Das coisas formosas.
Viva a revolução, quis dizer, mas meu pai
Encolheu os ombros e fez contas às amolgadelas
(Visíveis e invisíveis)
Do nosso furor colectivo.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pplware.sapo.pt.]

Taça de Portugal


Fugiu à história da guerra colonial
Um príncipe preto chamado Dinis;
Marcou, em 73, numa final
E eu fui feliz.

Depois Eusébio chutou contra mim
E perdeu-se a partida.
Foi, eu vos digo, sempre assim
A minha vida.

[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tesouroverde.blogspot.com.]