Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Moinho Velho, ao Arnado

Ando por Coimbra feliz e leve como uma criança conduzindo um carrinho de choques na pista da feira popular. Divirto-me da forma mais pura, mais simples, mais próxima do menino que, em 1973, metia a ficha na viatura número 14 e driblava o trânsito colorido. "Nova corrida, nova viagem", ouvia-se entre cada aventura - e lá estavam, na curva certa, o meu pai e a minha mãe debitando conselhos e sorrindo, parecendo ali (como eu) alegres e imorredoiros.
Agora, à razão de alguns euros de gasóleo por dia, vou  levar e buscar a VL ao emprego (ela falou ontem na televisão, ena!), vou levar e buscar o A ao treino, ajudo a F a tratar das suas formalidades viúvas, faço compras, passeio com a MP, dou (sozinho) um salto a certo Café tranquilo, perto de casa, para sumo e literatura.
Gosto estranhamente deste ofício de motorista quase livre. Isto é, gosto desta condição de formiguinha urbana, que é feliz apenas por pertencer à cidade também sua. E quem me dera nunca sair desta rotina amada! Quem me dera ficar para sempre nesta paisagem conhecida, cheia de lugares pessoais, carregada de memórias e sentidos absolutamente meus (irreproduzíveis, é verdade, noutras geografias)!
Hoje, entre as dez e meia e o meio-dia, li um livro de Prosper Mérimée, extraordinário escritor francês do século XIX. Fi-lo num Café coimbrinha, junto a uma parede de vidro transparente que oferecia, à minha atenção irregular, o espectáculo da cidade viva, com gente e carros passando, em ritmo apressado ou vagaroso, rumo aos pontuais destinos de cada circunstância transeunte.
No livro de Mérimée, encontrei contos que relatavam lutas militares, intrigas de amor e ciúme, sonhos e frustrações, episódios épicos e pícaros, drama e humor. E era como se na leitura, feita no lado de cá, estivesse afinal o recheio humano do que, para lá do vidro do Café, eu ia vendo.
Creio que toda a vida tenho estado junto a uma parede assim. Uma parede de vidro transparente (mas às vezes, translúcido; mas às vezes, opaco) que, em vez de separar dimensões, une.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto do Café referido no texto) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mogumogumunch.wordpress.com.] 

Estrada bela


Calha eu cansar-me, com certeza,
Se é maior o desejo que o ensejo!
Nunca me canso é da beleza
Que adivinho ou sinto ou vejo -

Triste seria, ó camarada,
Não haver beleza
(Não ver, sentir, adivinhar beleza).
Que deserto seria a estrada!
Que tristeza!

Coimbra, 12 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.zazzle.pt.]

Cão & Cadela



O meu primeiro cão morreu atropelado
E eu lembro aquele choro do Zé-Tó
(Irmão do menino que eu então era).

Decidi que cães nunca mais –
Só porque a minha filha me pediu tanto
É que tenho, hoje, esta cadela terminal
(Chamada Dara)
Morrendo de esclerose no inverno cego.

Porque é muito triste amar
(Como Sophia ensinou, por outras palavras)
Quem dura tão menos do que o nosso amor.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema é o último de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem é da falecida Dara, que esteve na nossa família até há cerca de quatro anos.]

Agostinho & cão

 

Para onde pedalas, Joaquim Agostinho
Em mil novecentos e setenta e dois
Entre o túnel da Estação Velha e a Figueira da Foz?
Tu hás-de morrer no Algarve
Depois de um cão te atrapalhar o destino
E eu hei-de escrever sobre não estares.

Para onde pedalam os meus versos,
Campeão?

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A primeira imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.geopedrados.blospot.com; a segunda foi colhida, com a devida vénia, em http://www.torrresvedrasweb.com.]



Soldado Luís


Talvez houvesse quatro a zero, na segunda parte
E eu, aos treze anos, como um deus
Fosse o tetra-marcador do farto treino;
Talvez nos meus pés nascesse a arte
De, então, ser o melhor dos meus
Natural reizinho desse reino.

Mas depois tudo parou para ver da estrada
O cortejo do soldado do Ralis
E a tarde ali morreu tão empatada
Tão perto de eu chegar a ser feliz –

O nosso treinador, o Belchior
(Democrata só de Abril devindo)
Notou a noite, em vez do meu suor
Caindo.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz arte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.nucleodeestudo25deabril.blogspot.com.]

Abril


Na noite da revolução dos cravos
O meu pai levou-me àquela rua
Onde milhares diziam morte aos pides
E faziam capotar os automóveis.

O meu pai era bate-chapas, gostava de carros
E fez a pergunta reaccionária: Porquê
Que culpa têm os carros?

Um homem (Belchior talvez, impaciente)
Gritou, com o punho ao alto, como flor
Porque sim, senhor.
Porque ali viajou muito inocente.

Eu fiquei com a frase e o punho zunindo
No meu coração de menino amante
Das coisas formosas.
Viva a revolução, quis dizer, mas meu pai
Encolheu os ombros e fez contas às amolgadelas
(Visíveis e invisíveis)
Do nosso furor colectivo.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pplware.sapo.pt.]

Taça de Portugal


Fugiu à história da guerra colonial
Um príncipe preto chamado Dinis;
Marcou, em 73, numa final
E eu fui feliz.

Depois Eusébio chutou contra mim
E perdeu-se a partida.
Foi, eu vos digo, sempre assim
A minha vida.

[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tesouroverde.blogspot.com.]

Salazar


Morreu o homem, disse a vizinha
E a mãe benzeu-se por obrigação.
Fomos à Estação, pela tardinha
Acenar adeuses ao caixão.

A multidão, vista de hoje, era um casal
(Meu pai e minha mãe, muito formosos)
E eu tão eterno e jovial
Tão longe de discursos desgostosos.

Um ébrio muito velho, pobrezinho
Disse é só paleio, é só paleio
O pai ensinou-me que era o vinho
E, depois, a polícia veio.

Tanto barulho, ali, tanto calor
Tanta gente para dizer adeus a um morto -
E eu sozinho dizendo daqui adeus
Àquela  tarde.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sabado.pt.]

Senhora Professora


I

A senhora gritava a aritmética e a ortografia;
Antes do recreio era uma noite muito grande
Nos corações (nus corações) de nós
Silentes
À mercê da régua agressora oficialmente ninguém.

Mas depois havia duas árvores na baliza de cima
E duas pedras na de baixo, com golos
Entre sul e norte
E o suor de oiro nos arredores do drible
Ou do falhanço.
Eu corria à velocidade de uma carreira internacional
E à noite, perante a multidão
(Sonhando ou não)
Agradecia à rua e a Portugal.



II

O recomeço da escola era uma ferida feia
Interrompendo a infância e a bondade do sol.


III

Naquela tarde era o dia em que naquela noite
Falaria o senhor Marcelo, presidente do Conselho
(Depois do Bonanza e das notícias)
E a senhora professora adormeceria a ouvir a continuidade
Do regime
Da sua velhice amargurada.



IV

Vinte valores pela redacção A amizade, eia!
Vem, orgulhosa, a minha mãe à escola
E o pai sorri já nobreoperariamente a ver
Aquele provável brilho que eu haveria de ser.
A redacção contava a queda do Jaimito
(Entre o quadro e a carteira, no sobrado)
Mais o nosso socorro muito aflito
(E só depois o riso disfarçado).

Éramos tão amanhã, tão prestes a ser
Tanta coisa tão distinta de haver morte
Que vistos de agora, ao entardecer,
Parece que de nós fugiu a sorte.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Estes poemas fazem parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem (recordando o Petit Nicolas) foi colhida, com a devida vénia, em http:/www.mesterressaintes.hautelfort.com.]

Menina


Saíam-me os olhos da aula de História
Cada vez que a menina do 5.º B chegava
Ao meu dia, quase sempre de manhã
Como se o verbo ver nascesse ali de ela existir.

Está distraído, menino, olhe o teste
(Depois não diga que não estudou a matéria)-

Então eu regressava à cartografia do papel
À ínclita, de Gama, caravela
Mas a minha Índia era maior que D. Manuel
Era ela.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.afelicidadeafinalexiste.blogspot.com.]

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Contrato vital



Tenho um acordo tácito com o Tempo, esse bicho devorador do presente: ele faz de conta que é meu - e eu sou, sem fingimento nem remédio, dele. 
Uso a memória para ter a ilusão de não perder nada. Lembro-me, revivo. Ainda no domingo passado revisitei, na praia de Buarcos, quase toda a minha vida essencial.
Sofro às vezes, claro, por sentir escapar-se-me, por entre os dedos envelhecidos, a areia linda da minha existência. 

Coimbra, 12 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Na imagem, tenho nos braços a minha filha VL e o meu sobrinho RS. Éramos todos, à época, imortais.]

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Loira



Frente à barraquinha de Setembro
Sob um toldo verde, marca Nívea
Havia uma família que hoje lembro
Como o meu baptismo de lascívia.

O chefe deste toldo, novo ainda
Usava um bigode doutoral
E tinha uma esposa muito linda
Que eu via passear no areal.

A filha era uma loira de encantar
Cheia de oceanos no olhar
Que então me roubou sossego e sono;

Em versos que rimavam com luar
Propus-lhe imortais modos de amar

E ela amou-me até vir o Outono.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]

Dia de Finados


Hoje é dia de finados.
Compro flores, levo-as, deposito-as
Nesse mármore superficial da lisa morte.
Fica por segundos o cheiro a rosas brancas
Mas depois regressa o nada que há
Nas coisas depois de morrerem.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem (rosto do grande Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://canalgama.com.]

Quarto & Versos


Há poetas, mãezinha, que me explicam
O teu ar grisalho, a tua desesperança
O fim da tia Rosário (e do pai, e de nós todos).

Eu, antes de saber que havia fim, não percebera
O ouro desses versos, a humanidade
Tão funda e tão vizinha que há
(Que pode haver)
Entre a coisa lida
E a nossa vida.

É preciso viver, mãezita,
Para perceber a fundo
A escrita

O mundo.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem (rosto do grande Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dn.pt.]

Quarto & Fotografias (Seis Poemas)


I

Uma fotografia está colada nas costas da porta:
Meu pai, minha mãe, a tia Rosário, o primo José e eu.
Vejo o meu pai ali muito vivo e rindo
De alguma piada do, então, presente.
Ao lado, havia, há anos, a praia
Mas uma nódoa de café com leite apagou o mar.
Ficou só o meu pai sorrindo
Sem poder navegar.


II

O meu pai cansava-se de estar na praia
Sem nada para fazer.
Olhar para o mar deprimia-o
E ele escapulia-se destas tardes para o Café do Jorge
Para seduzir ou rever balzaquianas avulsas.
 A minha mãe suspirava então em frente ao mar
E de tão ocupada nesta espécie de viuvez nem notava
A minha felicidade e o meu silêncio inteiro.
 Mãe, eu também sabia da dor seguinte à alegria
Mas havia aquele presente e eu não podia não ser novo.



III

No retrato está depois a minha mãe
Nova como a Loren do cinema e das revistas antigas.
Hoje está coberta de tempo e colecciona
Doenças da idade.
Que posso eu fazer senão amá-la cada vez melhor
E comprar-lhe (uma ou duas vezes por mês)
Um champô anti-queda que adie
Ou iluda
A calvície traiçoeira?


IV 

A tia Rosário embala o José a preto e branco.
Foi ela que me ensinou, há muito tempo,
Sobre o tempo,
Que era uma coisa que encarquilhava a pele.
Morreu depois e eu só então soube a verdade:
O que encarquilha, tia, é o coração.


V

Também o José partiu tão demasiado cedo
E eu agora só consigo recordar-me do seu riso
Muito limpo.
Enquanto eu me lembro e ele se ri
Não há morte.


VI

O meu lugar na foto é um menino na escola
E naquele tempo tinha muitos dentes brancos.
Mas o tempo é, sublinho, um tractor traiçoeiro
Que despedaça os nossos corações de vidro:
Veio portanto a gordura e foram-se
(Um a um, meio a meio, pedaço a pedaço)
Os dentes que antes sorriam, confiantes,
Para amanhã.
O poeta às vezes é isso, um sorriso desdentado
Que ama o mundo e afugenta o mundo;
O mundo não entende o seu amor tão especial
E a ele dói-lhe muito a repugnância mundanal.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Estes seis poemas fazem parte de um volume a que chamei Escrever sobe não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.br-pixersize.com.]