Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Agostinho & cão

 

Para onde pedalas, Joaquim Agostinho
Em mil novecentos e setenta e dois
Entre o túnel da Estação Velha e a Figueira da Foz?
Tu hás-de morrer no Algarve
Depois de um cão te atrapalhar o destino
E eu hei-de escrever sobre não estares.

Para onde pedalam os meus versos,
Campeão?

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A primeira imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.geopedrados.blospot.com; a segunda foi colhida, com a devida vénia, em http://www.torrresvedrasweb.com.]



Soldado Luís


Talvez houvesse quatro a zero, na segunda parte
E eu, aos treze anos, como um deus
Fosse o tetra-marcador do farto treino;
Talvez nos meus pés nascesse a arte
De, então, ser o melhor dos meus
Natural reizinho desse reino.

Mas depois tudo parou para ver da estrada
O cortejo do soldado do Ralis
E a tarde ali morreu tão empatada
Tão perto de eu chegar a ser feliz –

O nosso treinador, o Belchior
(Democrata só de Abril devindo)
Notou a noite, em vez do meu suor
Caindo.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz arte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.nucleodeestudo25deabril.blogspot.com.]

Abril


Na noite da revolução dos cravos
O meu pai levou-me àquela rua
Onde milhares diziam morte aos pides
E faziam capotar os automóveis.

O meu pai era bate-chapas, gostava de carros
E fez a pergunta reaccionária: Porquê
Que culpa têm os carros?

Um homem (Belchior talvez, impaciente)
Gritou, com o punho ao alto, como flor
Porque sim, senhor.
Porque ali viajou muito inocente.

Eu fiquei com a frase e o punho zunindo
No meu coração de menino amante
Das coisas formosas.
Viva a revolução, quis dizer, mas meu pai
Encolheu os ombros e fez contas às amolgadelas
(Visíveis e invisíveis)
Do nosso furor colectivo.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pplware.sapo.pt.]

Taça de Portugal


Fugiu à história da guerra colonial
Um príncipe preto chamado Dinis;
Marcou, em 73, numa final
E eu fui feliz.

Depois Eusébio chutou contra mim
E perdeu-se a partida.
Foi, eu vos digo, sempre assim
A minha vida.

[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tesouroverde.blogspot.com.]

Salazar


Morreu o homem, disse a vizinha
E a mãe benzeu-se por obrigação.
Fomos à Estação, pela tardinha
Acenar adeuses ao caixão.

A multidão, vista de hoje, era um casal
(Meu pai e minha mãe, muito formosos)
E eu tão eterno e jovial
Tão longe de discursos desgostosos.

Um ébrio muito velho, pobrezinho
Disse é só paleio, é só paleio
O pai ensinou-me que era o vinho
E, depois, a polícia veio.

Tanto barulho, ali, tanto calor
Tanta gente para dizer adeus a um morto -
E eu sozinho dizendo daqui adeus
Àquela  tarde.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sabado.pt.]

Senhora Professora


I

A senhora gritava a aritmética e a ortografia;
Antes do recreio era uma noite muito grande
Nos corações (nus corações) de nós
Silentes
À mercê da régua agressora oficialmente ninguém.

Mas depois havia duas árvores na baliza de cima
E duas pedras na de baixo, com golos
Entre sul e norte
E o suor de oiro nos arredores do drible
Ou do falhanço.
Eu corria à velocidade de uma carreira internacional
E à noite, perante a multidão
(Sonhando ou não)
Agradecia à rua e a Portugal.



II

O recomeço da escola era uma ferida feia
Interrompendo a infância e a bondade do sol.


III

Naquela tarde era o dia em que naquela noite
Falaria o senhor Marcelo, presidente do Conselho
(Depois do Bonanza e das notícias)
E a senhora professora adormeceria a ouvir a continuidade
Do regime
Da sua velhice amargurada.



IV

Vinte valores pela redacção A amizade, eia!
Vem, orgulhosa, a minha mãe à escola
E o pai sorri já nobreoperariamente a ver
Aquele provável brilho que eu haveria de ser.
A redacção contava a queda do Jaimito
(Entre o quadro e a carteira, no sobrado)
Mais o nosso socorro muito aflito
(E só depois o riso disfarçado).

Éramos tão amanhã, tão prestes a ser
Tanta coisa tão distinta de haver morte
Que vistos de agora, ao entardecer,
Parece que de nós fugiu a sorte.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Estes poemas fazem parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem (recordando o Petit Nicolas) foi colhida, com a devida vénia, em http:/www.mesterressaintes.hautelfort.com.]

Menina


Saíam-me os olhos da aula de História
Cada vez que a menina do 5.º B chegava
Ao meu dia, quase sempre de manhã
Como se o verbo ver nascesse ali de ela existir.

Está distraído, menino, olhe o teste
(Depois não diga que não estudou a matéria)-

Então eu regressava à cartografia do papel
À ínclita, de Gama, caravela
Mas a minha Índia era maior que D. Manuel
Era ela.

Coimbra, 13 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever Sobre Não Estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.afelicidadeafinalexiste.blogspot.com.]

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Contrato vital



Tenho um acordo tácito com o Tempo, esse bicho devorador do presente: ele faz de conta que é meu - e eu sou, sem fingimento nem remédio, dele. 
Uso a memória para ter a ilusão de não perder nada. Lembro-me, revivo. Ainda no domingo passado revisitei, na praia de Buarcos, quase toda a minha vida essencial.
Sofro às vezes, claro, por sentir escapar-se-me, por entre os dedos envelhecidos, a areia linda da minha existência. 

Coimbra, 12 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Na imagem, tenho nos braços a minha filha VL e o meu sobrinho RS. Éramos todos, à época, imortais.]

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Loira



Frente à barraquinha de Setembro
Sob um toldo verde, marca Nívea
Havia uma família que hoje lembro
Como o meu baptismo de lascívia.

O chefe deste toldo, novo ainda
Usava um bigode doutoral
E tinha uma esposa muito linda
Que eu via passear no areal.

A filha era uma loira de encantar
Cheia de oceanos no olhar
Que então me roubou sossego e sono;

Em versos que rimavam com luar
Propus-lhe imortais modos de amar

E ela amou-me até vir o Outono.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]

Dia de Finados


Hoje é dia de finados.
Compro flores, levo-as, deposito-as
Nesse mármore superficial da lisa morte.
Fica por segundos o cheiro a rosas brancas
Mas depois regressa o nada que há
Nas coisas depois de morrerem.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem (rosto do grande Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://canalgama.com.]

Quarto & Versos


Há poetas, mãezinha, que me explicam
O teu ar grisalho, a tua desesperança
O fim da tia Rosário (e do pai, e de nós todos).

Eu, antes de saber que havia fim, não percebera
O ouro desses versos, a humanidade
Tão funda e tão vizinha que há
(Que pode haver)
Entre a coisa lida
E a nossa vida.

É preciso viver, mãezita,
Para perceber a fundo
A escrita

O mundo.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem (rosto do grande Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dn.pt.]

Quarto & Fotografias (Seis Poemas)


I

Uma fotografia está colada nas costas da porta:
Meu pai, minha mãe, a tia Rosário, o primo José e eu.
Vejo o meu pai ali muito vivo e rindo
De alguma piada do, então, presente.
Ao lado, havia, há anos, a praia
Mas uma nódoa de café com leite apagou o mar.
Ficou só o meu pai sorrindo
Sem poder navegar.


II

O meu pai cansava-se de estar na praia
Sem nada para fazer.
Olhar para o mar deprimia-o
E ele escapulia-se destas tardes para o Café do Jorge
Para seduzir ou rever balzaquianas avulsas.
 A minha mãe suspirava então em frente ao mar
E de tão ocupada nesta espécie de viuvez nem notava
A minha felicidade e o meu silêncio inteiro.
 Mãe, eu também sabia da dor seguinte à alegria
Mas havia aquele presente e eu não podia não ser novo.



III

No retrato está depois a minha mãe
Nova como a Loren do cinema e das revistas antigas.
Hoje está coberta de tempo e colecciona
Doenças da idade.
Que posso eu fazer senão amá-la cada vez melhor
E comprar-lhe (uma ou duas vezes por mês)
Um champô anti-queda que adie
Ou iluda
A calvície traiçoeira?


IV 

A tia Rosário embala o José a preto e branco.
Foi ela que me ensinou, há muito tempo,
Sobre o tempo,
Que era uma coisa que encarquilhava a pele.
Morreu depois e eu só então soube a verdade:
O que encarquilha, tia, é o coração.


V

Também o José partiu tão demasiado cedo
E eu agora só consigo recordar-me do seu riso
Muito limpo.
Enquanto eu me lembro e ele se ri
Não há morte.


VI

O meu lugar na foto é um menino na escola
E naquele tempo tinha muitos dentes brancos.
Mas o tempo é, sublinho, um tractor traiçoeiro
Que despedaça os nossos corações de vidro:
Veio portanto a gordura e foram-se
(Um a um, meio a meio, pedaço a pedaço)
Os dentes que antes sorriam, confiantes,
Para amanhã.
O poeta às vezes é isso, um sorriso desdentado
Que ama o mundo e afugenta o mundo;
O mundo não entende o seu amor tão especial
E a ele dói-lhe muito a repugnância mundanal.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Estes seis poemas fazem parte de um volume a que chamei Escrever sobe não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.br-pixersize.com.]

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Quarto & bicicleta

Não tive, em criança, triciclos
E sobrevivi ao acne sem motorizadas.
O único veículo da minha juventude foi
Uma bicicleta.
Aprendi caindo a guiar sem cair –
O pai dizia Faz-te gente, rapaz
E eu fiz-me gente e o pai
Morreu.
A bicicleta, hoje, tem ferrugem
E não tem corrente:
Está suspensa de um prego na parede
Da despensa
Como um quadro antigo na parede
Do meu coração.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobe não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.delgadohumberto.blogspot.com.]

Quarto & Aranha



O quarto onde eu dormia em criança
Está vazio por motivo de obras:
A minha mãe decidiu que era hora
De geral pintura das paredes.
Está o quarto vazio também de mim
E eu tão cheio dele e do que nele havia
Em minha meninice – de futuro e de sonhos
E de solidão boa (no intervalo do ruído do mundo).


Descobrimos subitamente, no quarto, uma aranha
Actual, mas talvez trineta de uma outra antiga
Que há quarenta anos, ali mesmo, me assustou
Atravessando a suspensa distância entre a lâmpada
E a única janela do quarto:
Entre a luz da EDP e a luz do sol.


A minha mãe tem o horror de aranhas
E mata aquela com o seco chinelo…
Eu fico a olhar a inútil teia sem inquilino

Deste preciso lugar onde era menino. 

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adesobertaguiada.blogspot.com.]

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Aniversário de falta



Há quatro anos, quando eu e a MP passeávamos melancolicamente pela praia de Machico, ante-sofrendo a morte do Mestre João (meu sogro), tocou o telemóvel. Vi pelos olhos dela que o Mestre João partira. Seriam seis horas do dia 30 de Julho de 2010. 
Eu tinha chegado à Madeira no dia anterior e ainda o visitei, no Hospital do Funchal, umas três horas antes de o óbito ser declarado. Vi-o numa espécie de sono violento, já fora do mundo, ofegante como um atleta no final de uma maratona.
Ao telefone, um mês e meio antes, eu informara-o da compra de bilhetes para o avião e do nosso encontro iminente. Embora feliz, ele quis logo saber o dia exacto da viagem para a Madeira. E, quando lhe disse "29 de Julho", suspirou e lamentou que ainda faltasse tanto tempo...
Talvez adivinhasse o epílogo. Que saudades, senhor João!
Tenho coleccionado, nos últimos anos, muitas despedidas e, na minha cabeça, a presença dos vivos já não me parece, agora, tão mais numerosa e relevante que a dos mortos.
Mas o senhor João continua inesquecivelmente vivo em mim (como, aliás, o meu Pai, o José Manuel, o Francisco Botelho, o jovem Domingos, o querido Conceição). De modo que a morte, digo eu, havendo saudades nos que ainda por aqui ficam, respirando-sofrendo, não será bem o fim. Não é o fim.

Coimbra, 30 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho