Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Contrato vital



Tenho um acordo tácito com o Tempo, esse bicho devorador do presente: ele faz de conta que é meu - e eu sou, sem fingimento nem remédio, dele. 
Uso a memória para ter a ilusão de não perder nada. Lembro-me, revivo. Ainda no domingo passado revisitei, na praia de Buarcos, quase toda a minha vida essencial.
Sofro às vezes, claro, por sentir escapar-se-me, por entre os dedos envelhecidos, a areia linda da minha existência. 

Coimbra, 12 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Na imagem, tenho nos braços a minha filha VL e o meu sobrinho RS. Éramos todos, à época, imortais.]

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Loira



Frente à barraquinha de Setembro
Sob um toldo verde, marca Nívea
Havia uma família que hoje lembro
Como o meu baptismo de lascívia.

O chefe deste toldo, novo ainda
Usava um bigode doutoral
E tinha uma esposa muito linda
Que eu via passear no areal.

A filha era uma loira de encantar
Cheia de oceanos no olhar
Que então me roubou sossego e sono;

Em versos que rimavam com luar
Propus-lhe imortais modos de amar

E ela amou-me até vir o Outono.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]

Dia de Finados


Hoje é dia de finados.
Compro flores, levo-as, deposito-as
Nesse mármore superficial da lisa morte.
Fica por segundos o cheiro a rosas brancas
Mas depois regressa o nada que há
Nas coisas depois de morrerem.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem (rosto do grande Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://canalgama.com.]

Quarto & Versos


Há poetas, mãezinha, que me explicam
O teu ar grisalho, a tua desesperança
O fim da tia Rosário (e do pai, e de nós todos).

Eu, antes de saber que havia fim, não percebera
O ouro desses versos, a humanidade
Tão funda e tão vizinha que há
(Que pode haver)
Entre a coisa lida
E a nossa vida.

É preciso viver, mãezita,
Para perceber a fundo
A escrita

O mundo.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem (rosto do grande Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dn.pt.]

Quarto & Fotografias (Seis Poemas)


I

Uma fotografia está colada nas costas da porta:
Meu pai, minha mãe, a tia Rosário, o primo José e eu.
Vejo o meu pai ali muito vivo e rindo
De alguma piada do, então, presente.
Ao lado, havia, há anos, a praia
Mas uma nódoa de café com leite apagou o mar.
Ficou só o meu pai sorrindo
Sem poder navegar.


II

O meu pai cansava-se de estar na praia
Sem nada para fazer.
Olhar para o mar deprimia-o
E ele escapulia-se destas tardes para o Café do Jorge
Para seduzir ou rever balzaquianas avulsas.
 A minha mãe suspirava então em frente ao mar
E de tão ocupada nesta espécie de viuvez nem notava
A minha felicidade e o meu silêncio inteiro.
 Mãe, eu também sabia da dor seguinte à alegria
Mas havia aquele presente e eu não podia não ser novo.



III

No retrato está depois a minha mãe
Nova como a Loren do cinema e das revistas antigas.
Hoje está coberta de tempo e colecciona
Doenças da idade.
Que posso eu fazer senão amá-la cada vez melhor
E comprar-lhe (uma ou duas vezes por mês)
Um champô anti-queda que adie
Ou iluda
A calvície traiçoeira?


IV 

A tia Rosário embala o José a preto e branco.
Foi ela que me ensinou, há muito tempo,
Sobre o tempo,
Que era uma coisa que encarquilhava a pele.
Morreu depois e eu só então soube a verdade:
O que encarquilha, tia, é o coração.


V

Também o José partiu tão demasiado cedo
E eu agora só consigo recordar-me do seu riso
Muito limpo.
Enquanto eu me lembro e ele se ri
Não há morte.


VI

O meu lugar na foto é um menino na escola
E naquele tempo tinha muitos dentes brancos.
Mas o tempo é, sublinho, um tractor traiçoeiro
Que despedaça os nossos corações de vidro:
Veio portanto a gordura e foram-se
(Um a um, meio a meio, pedaço a pedaço)
Os dentes que antes sorriam, confiantes,
Para amanhã.
O poeta às vezes é isso, um sorriso desdentado
Que ama o mundo e afugenta o mundo;
O mundo não entende o seu amor tão especial
E a ele dói-lhe muito a repugnância mundanal.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Estes seis poemas fazem parte de um volume a que chamei Escrever sobe não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.br-pixersize.com.]

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Quarto & bicicleta

Não tive, em criança, triciclos
E sobrevivi ao acne sem motorizadas.
O único veículo da minha juventude foi
Uma bicicleta.
Aprendi caindo a guiar sem cair –
O pai dizia Faz-te gente, rapaz
E eu fiz-me gente e o pai
Morreu.
A bicicleta, hoje, tem ferrugem
E não tem corrente:
Está suspensa de um prego na parede
Da despensa
Como um quadro antigo na parede
Do meu coração.

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobe não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.delgadohumberto.blogspot.com.]

Quarto & Aranha



O quarto onde eu dormia em criança
Está vazio por motivo de obras:
A minha mãe decidiu que era hora
De geral pintura das paredes.
Está o quarto vazio também de mim
E eu tão cheio dele e do que nele havia
Em minha meninice – de futuro e de sonhos
E de solidão boa (no intervalo do ruído do mundo).


Descobrimos subitamente, no quarto, uma aranha
Actual, mas talvez trineta de uma outra antiga
Que há quarenta anos, ali mesmo, me assustou
Atravessando a suspensa distância entre a lâmpada
E a única janela do quarto:
Entre a luz da EDP e a luz do sol.


A minha mãe tem o horror de aranhas
E mata aquela com o seco chinelo…
Eu fico a olhar a inútil teia sem inquilino

Deste preciso lugar onde era menino. 

Coimbra, 06 de Agosto de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este poema faz parte de um volume a que chamei Escrever sobre não estares (2010). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adesobertaguiada.blogspot.com.]

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Aniversário de falta



Há quatro anos, quando eu e a MP passeávamos melancolicamente pela praia de Machico, ante-sofrendo a morte do Mestre João (meu sogro), tocou o telemóvel. Vi pelos olhos dela que o Mestre João partira. Seriam seis horas do dia 30 de Julho de 2010. 
Eu tinha chegado à Madeira no dia anterior e ainda o visitei, no Hospital do Funchal, umas três horas antes de o óbito ser declarado. Vi-o numa espécie de sono violento, já fora do mundo, ofegante como um atleta no final de uma maratona.
Ao telefone, um mês e meio antes, eu informara-o da compra de bilhetes para o avião e do nosso encontro iminente. Embora feliz, ele quis logo saber o dia exacto da viagem para a Madeira. E, quando lhe disse "29 de Julho", suspirou e lamentou que ainda faltasse tanto tempo...
Talvez adivinhasse o epílogo. Que saudades, senhor João!
Tenho coleccionado, nos últimos anos, muitas despedidas e, na minha cabeça, a presença dos vivos já não me parece, agora, tão mais numerosa e relevante que a dos mortos.
Mas o senhor João continua inesquecivelmente vivo em mim (como, aliás, o meu Pai, o José Manuel, o Francisco Botelho, o jovem Domingos, o querido Conceição). De modo que a morte, digo eu, havendo saudades nos que ainda por aqui ficam, respirando-sofrendo, não será bem o fim. Não é o fim.

Coimbra, 30 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 29 de julho de 2014

Oração da limpeza



Ódios, ressentimentos, incompreensões, burocracias, mediocridades, futilidades, vaidades, boçalidades, invejas, ciúmes, egoísmos, burrices, vinganças, ambições, arranjinhos, carreirismos, vigarices, hipocrisias, mentiras, brutidades, arrogâncias, maledicências,canalhices, plágios, explorações, roubos, cobardias, traições, deslealdades, simonias -

Desamparai-me a loja! Vade retro! Saí de ao pé de mim!
Deixai-me passar. Por favor, deixai-me passar! Peço-vo-lo. Exijo-vo-lo.
Não tenho tempo para vós.
Todo o meu tempo é demasiado curto para o que quero, para o que preciso.
Não estou para vós agora. E se, antes, alguma vez estive, por ingenuidade ou imprudência, perto de vós, lamento-o. Lamento-o profundamente, completamente, absolutamente. Porque eu tenho nojo de vós. 
Livrai-vos, ó impurezas infernais, de me incomodar. Sou hoje intolerante convosco como um animal raivoso. Não vos poderia perdoar que me roubásseis mais tempo!

Coimbra, 28 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A ilustração foi colhida, com a devida vénia, na maravilhosa obra em BD Calvin & Hobbes, do genial Bill Watterson.]

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Notícias do paraíso



Três horas na praia da Tocha e a confirmação (desnecessária, mas sempre grandiosa) de que o Mar é o meu elemento natural. É junto ao oceano, parece-me, que a eternidade fica mais próxima de ser possível e verdade.
A família, uma queijada, um livro, algum sol, o Mar: a tarde hoje foi uma espécie de felicidade-para-sempre.
É verdade que agora, ao escrever a alegre memória, é já noite e vejo, pelas notícias à volta, que o mundo continua imperfeito.
Mas eu estive hoje, durante três horas, na Tocha, antes de o Paraíso anoitecer – e, ó gente de pouca fé, lembro-me bem!

Coimbra, 28 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.rotadabairrada.pt.]

sábado, 26 de julho de 2014

Posteridade


No blogue da vida, há sempre um texto que, talvez sem que o autor o saiba, é o seu derradeiro post.
Também no Muito Mar haverá um texto que, devido à regra da mortalidade humana, será o último que publicarei. Como será esse texto? Que exegese farão do desabafo, provavelmente singelo, deixado neste caderno mais ou menos diário que tenho alimentado? Que dirão, depois, de mim?
Cá entre nós, gostaria de ser um dia recordado como um gajo que gostava de rir, da minha casa (e da minha família em minha casa), de amigos (e de amigos em minha casa), de Coimbra, de literatura, de arte em geral, de Cafés e de café, de futebol (de jogar e de ver), de correr, de conversar, de silêncio, do anoitecer e do amanhecer. De estar vivo.

Fica isto aqui escrito, já - pelo sim, pelo não.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Tempo (memória adverbial)


A minha Mãe nunca estava cansada, o meu Pai apreciava leoninamente o mulherio que passasse, um primo adulto combinava em surdina a noite com uma costureira de Aveiro, a minha tia Rosário contava-nos histórias serenamente, e gravemente nos avisava sobre os perigos do mar. Visto tudo com a ingenuidade dos meus olhos, não havia pecado na terra (então e para sempre).
Em 1970, eu era absolutamente feliz e o mundo todo (que era a praia de Mira) parecia uma casa nova pronta a estrear.
Estive completamente nesse tempo perfeito. Lembro-me bem desse tempo perfeito, que o meu coração tem a memória de um elefante romântico. E diria talvez que esse tempo me faz falta, se eu não estivesse ainda, afinal, dentro dele.

Coimbra, 25 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (que é uma foto da praia da Tocha, mas que podia ser da "minha" praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.leniaturismo08.blogspot.com.]

domingo, 20 de julho de 2014

Proverbial



Eu falo com as estrelas sem ninguém ver
E sinto aquela luz como gente amada
Que deveio estrela em vez de morrer.

É melhor acreditar que nada.

Ribeira de Pena, 20 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.asasdasletras.blogspot.com.]

sábado, 19 de julho de 2014

Milionário ocasional


Quando há sol e ninguém morre, um homem pode sentir-se milionário. Eu fui de minha casa ao Café, sem pressas, levando um caderninho na mão, com a intenção – primeiro – de beber uma cerveja e comer batatas fritas e – segundo – de escrever uma história sobre casas antigas, caso me apetecesse. Em três minutos de marcha descansadinha da silva, pude admirar a pintura dos montes à volta da vila, crianças bicicletando pela idade do ouro adentro, meia dúzia de cães e uma cadela entre o ócio e o cio, um senhor que eu tenho visto envelhecer nos últimos vinte anos e que caminhava em sentido contrário ao meu (ele sorriu e cumprimentou-me, talvez pensando que me tem visto envelhecer nos últimos vinte anos).
Bebi a cerveja, comi batatas fritas, li o JN. E escrevi, em vez da narrativa agendada, este bilhete postal que hei-de pôr no blogue Muito Mar, para se perceber que, às vezes, um pobre homem pode estar milionário. Basta (não sei se já vo-lo disse) que haja sol e ninguém morra.

Ribeira de Pena, 18 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colida, com a devida vénia, em http://www.culturainquieta.com.]

terça-feira, 15 de julho de 2014

Presente



Ainda há passos no silêncio que, por um instante, negam a evidência de estarmos mais sozinhos.
Ainda há sombras à esquina dos dias que, por segundos, se assemelham ao regresso de gente que partiu e nos deixou este fardo absurdo da saudade.
Ainda escutamos a voz e o riso de quem, sem aviso, deixou de estar. 
Ainda nos sucede utilizar o presente do indicativo para falar de alguém já ausente.
Ainda tudo nos parece mentira, delírio, pesadelo.
Tão à deriva estamos, agora. Tão perigosamente frágeis. Tão à mercê da bruta Noite.
Gostava de dar-te ainda um abraço, ó meu Amigo! (Dou-to, afinal, e não apenas em sonhos.)
Estou farto de chorar, pá. Não te rias. Estou sempre a chorar, pá. A sério. Dizem que isto passa. Eu não sei se isto passa.
A boa notícia é que é quase Agosto e que, em breve, revisitarei o mar de que também gostas. (Corrijo: o mar de que também gostavas; recorrijo: o mar de que também gostas).
Aparece, está bem? Tenho uma anedota nova pra te contar.

Ribeira de Pena, 15 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.casa.abril.com.]