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Número de Ondas

sábado, 12 de julho de 2014

Aparente Julho


Um dos mais alegres dias da minha vida sucedeu há cerca de 17 anos. Foi o dia em que a minha irmã se casou com o meu amigo Conceição.
Eu só soube que o meu amigo era namorado da minha irmã numa fase adiantada dessa relação. Fazíamos, em certo Verão de 1996, o nosso jogging choupalino e ele mandou-me parar. Disse-me:
- Ó pá, eu gosto muito da tua irmã e temos saído às vezes.
Fiquei muito sério e, num jacto, respondi:
- Tenho apenas uma irmã e poucos amigos verdadeiros. Se te portares mal, fico à mesma só com uma irmã e com menos um amigo.
Ele riu-se e assegurou-me que tinha boas intenções. E, de facto, tinha.
No dia do casamento, reuniram-se muitos familiares, amigos e conhecidos de ambos os noivos – e, numa dessas coincidências cósmicas que raramente ocorrem, aconteceu esse dia tão intensamente festivo, tão magicamente alegre. Um dia inesquecível, senhores, um dia (como hei-de dizer?) imorredoiro.
Mas, à noite, quando eu, a MP e a VL nos preparávamos para regressar a Ribeira de Pena, tive um vislumbre de tragédia: vi a mesa da sala materna exibindo os restos (mortais) da festa, já sem gente, povoada de pedaços de bolo em guardanapos sujos, garrafas – de vinho ou sumo – vazias ou já encetadas e descuidadamente abertas, a toalha com nódoas de comida, as cadeiras desarrumadas. O silêncio. A minha mãe dessa vez abraçou-se a mim, chorando. Disse-me:
- Deixa lá, filho. É a vida…
“A vida”, ali, significava a sua solidão deveniente: os filhos todos já casados, a casa inteira cheia de nada.
Dezassete anos depois, revi muitos dos rostos daquele dia festivo, mas o motivo, agora, era a brutal partida do meu amigo-cunhado José António Conceição. E eu dou, de súbito, com a minha irmã e a minha mãe novamente juntas, com o meu sobrinho ao lado.
Não se trata, ai de nós, de um regresso ao passado primaveril que em 1997 éramos ainda. É o Outono. Aliás, o Inverno.
Este calor de Julho não me engana. Não me consegue enganar. Que eu sinto claramente o frio desta história verdadeira.

Coimbra, 12 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 11 de julho de 2014

História Familiar (1)

[Conto de minha autoria, incluído na obra 39 Poemas e Contos Contra o Racismo (Edição ACIDI)]



Eu não falo e só olho à volta quando ninguém está a olhar para mim. Vivo dentro de uma nuvem e quase mais ninguém entra nela (só a minha mãe e a minha irmã, às vezes, porque ambas não são bem outras pessoas, são como se fosse eu próprio).
Eu sou aquele à direita, na fotografia sobre o aparador. Eu sou aquele junto à senhora de vestido verde com a barriga grande. A senhora de vestido verde é a minha mãe. O meu pai, na fotografia, é aquele homem alto com um bebé ao colo. O bebé cresceu e tornou-se o meu irmão grande. Isto é, o meu irmão tornou-se maior do que eu.
Eu lembro-me do dia em que a fotografia foi tirada. Era uma manhã de Verão. Estava connosco um Estranho. Estava connosco um Outro. O meu pai pediu ao Outro que nos tirasse uma fotografia. (“Ó primo, tire-nos uma fotografia.”) A praia também ficou na fotografia, por detrás do cabelo da minha mãe. A praia chama-se Figueira da Foz. Ainda lá vamos, mas é raro. O Outro já morreu. Ouvi o meu pai, um dia, lamentar a sua morte por ser ainda tão novo para morrer. (“Coitado do teu primo. Era ainda tão novo para morrer.”) Por mim, acho que é sempre cedo para se morrer, mas isto não se aplica aos Outros, porque os Outros, como eu os vejo, já estão mortos, mesmo que estejam vivos. Na fotografia, a minha mãe tem a barriga muito grande. Soube, depois, que havia um bebé dentro da sua barriga. O bebé apareceu em nossa casa a um domingo. Era uma menina. A minha mãe mostrou-ma e disse-me que eu agora já tinha também uma irmã. (“Olha. Agora também já tens uma irmã.”)
Gosto de passar despercebido. Preciso de passar despercebido. A maior parte das vezes consigo passar despercebido. As pessoas, quase todas, são Outros. Quero dizer: quase todas passam por mim como se eu fosse ninguém. É como se a minha nuvem fosse um manto mágico e eu andasse pelo mundo tão invisível como um sonho secreto.
Mas eu sei muito. Vejo quase tudo, ouço quase tudo, sinto quase tudo.
O meu pai tem o cabelo avermelhado e os olhos claros. A sua voz é forte. É uma voz que assusta de início, mas que se torna mansa logo a seguir.
A minha irmã tem os olhos azuis. Ao princípio, achava que era um bocadinho de céu em visita à minha casa. A sua voz parece um canto de ave pequenina ou, então, um longínquo murmúrio do mar, entre a Figueira da Foz e Buarcos. A sua voz. Estou a ouvi-la só por falar nela. A minha irmã toca-me ao de leve na cabeça e eu, apesar de normalmente não gostar que me toquem (sobretudo que me toquem na cabeça), consigo ficar quieto, sem gritar nem fugir. Só a ela e à minha mãe concedo esse direito.
O meu irmão é, visto-sentido de dentro da minha nuvem, mau. O meu irmão é mau. Ouço-o gritar com a minha mãe, o meu pai, a minha irmã. Interrompe, com gargalhadas ou resmungos, a música ou o mar que é sempre a minha irmã contando histórias da universidade. Eu corro, nessas ocasiões, para o meu quarto e sento-me na cama a abanar a cabeça para a frente e para trás, até a minha raiva adormecer e eu sentir que a minha nuvem já se recompôs. A minha nuvem quebra-se e recompõe-se, é assim. Quando isso acontece, sinto muito calor na cara e os cavalos dentro do meu coração deixam de correr como doidos. O regresso da minha nuvem faz-se como se ela fosse um puzzle grande: os seus cacos tornam-se, de novo, uma nuvem inteira.
Ouço frequentemente o meu irmão a empurrar a mesa e as cadeiras, a bater com as portas, a sair de casa, sempre aos gritos. Por vezes, berra na minha direcção:

-O autista é que manda nesta casa de doidos! Tenho de vos pedir desculpa de ser normal, não?

História Familiar (2)

[Conto de minha autoria, incluído na obra 39 Poemas e Contos Contra o Racismo (Edição ACIDI)]




A minha mãe tem uma voz doce. A minha mãe tem a voz de uma nuvem. É como se eu falasse pela sua língua. Sinto-a sempre tão próxima que, às vezes, não sei se é ela ou eu próprio alisando os cobertores, ajeitando a almofada ou desligando o interruptor do candeeiro. A minha mãe cheira a flores, a pão com manteiga, a frutos, ou talvez seja eu que sinto jasmins no meu quarto por ouvi-la falar de jasmins, ou que identifico o odor de maçãs por causa da cor do seu vestido, ou que sonho com pão quando ouço, logo de manhã, os seus passos muito vivos na cozinha.

Ao domingo, almoça connosco uma espécie de pai mais velho. É o pai do meu pai. É o meu avô. O meu avô tem os olhos do meu pai, o nariz do meu pai, a boca do meu pai (com menos dentes). Assobia como o meu pai para chamar o nosso cão. O meu pai chama-lhe pai, e eu fico a pensar, dentro da minha nuvem, que isso é muito estranho. O meu avô é, como eu o vejo-sinto, mau. O meu avô berra tanto como o meu irmão. Toda a gente parece ter medo dele. O meu irmão também parece ter medo dele, embora o meu avô poucas vezes se zangue consigo. Quando o meu avô se enerva, parece que há uma trovoada ou uma guerra dentro da cozinha ou da sala de nossa casa: o meu avô fica vermelho como um fogo grande, sai de casa a dizer que o meu pai é um banana. (“És um banana! Um banana, filho!”) O meu avô chama filho ao meu pai, é de facto muito estranho. Por causa do meu avô, detesto os domingos. À hora das refeições, fico ao seu lado e, para não tremer, costumo fechar os olhos e fazer de conta que ele não existe, não existe, não existe.

A minha irmã chama-se Clara. A mãe esteve a conversar baixinho com ela, num canto da cozinha. Falam assim para mais ninguém ouvir o que dizem. Mas eu ouço e elas não se importam. O avô não gosta que falem baixinho, quero dizer, não gosta que falem sem que ele possa ouvir. Queixa-se ao meu pai (que é seu filho), diz que é uma falta de respeito para com o chefe da casa. (“Ouviste? É uma falta de respeito para com o chefe da casa, meu banana!”) Chefe significa que manda. A mãe fica triste com as palavras do avô. Se o meu pai fala consigo do assunto, ela grita, muito nervosa, ou fica em silêncio. O meu pai dá-se mal com os silêncios ou os gritos da minha mãe: antes de se fechar no quarto, batendo a porta, o rosto torna-se-lhe vermelho, os olhos grandes e maus, as mãos agitadas como uma renda frágil. O meu irmão ri-se e diz que a culpa é da Clara. A Clara tem um amigo especial, como bem percebi na conversa sussurrada na cozinha. Eu quis saber quem é. Perguntei-lho com os olhos e estalinhos na boca. Quando não estou muito nervoso, eu consigo fazer estalinhos na boca. A Clara sorriu, com aquela doçura dela que é um céu para mim. A mãe é que me explicou que a Clara tinha um namorado. (“A Clarinha tem um namorado.”)

História Familiar (3)

[Conto de minha autoria,  incluído na obra 39 Poemas e Contos Contra o Racismo (Edição ACIDI)



Sei o que são namorados: é como a minha mãe e o meu pai juntos naquela fotografia do seu quarto, ambos com os rostos tão mais novos, quando ainda não eram a minha mãe e o meu pai. Um dia, disse-me a mãe, a Clara vai ser mãe de alguém como eu. (“Um dia, filho, a Clarinha também vai ser mãe de alguém como tu.”) Mas talvez a minha irmã venha a ser, um dia, mãe de alguém mais fácil do que eu.
O meu pai ouviu a minha mãe e ficou muito preocupado, vi-o na cara severa que deitou sobre o jantar. A mãe, aflita, murmurou-lhe alguma coisa (eu tentei ouvir, mas em vão). O avô e o meu irmão gargalharam, os dois muito longe da nuvem boa que devia haver sempre. O pai limpou os lábios num guardanapo azul e, sem dar tempo a gritos do avô ou do meu irmão, autorizou que o amigo da Clarinha viesse almoçar connosco no próximo domingo (“Podes trazer o teu namorado, filha.”). Domingo é um dia diferente. A mãe vai à missa, o pai trata da casota do cão, o meu irmão e a minha irmã dormem, quase sempre, até muito tarde e o avô, depois de cheirar o almoço, vai ao quiosque comprar um jornal com muitas páginas e muitas notícias.
Neste domingo, a minha irmã entrou na sala acompanhada de um Estranho. De um Outro. O meu irmão murmurou qualquer coisa, mas mais para dentro de si, nem eu consegui ouvi-lo. Talvez dissesse algo mau, como de costume. O meu pai cumprimentou o Outro com um passou-bem. A minha mãe deu-lhe dois beijinhos na cara (um beijinho em cada face). A minha irmã trouxe o Outro até mim e disse qualquer coisa, decerto algo doce, porque era a minha irmã falando comigo. Eu deixei que o Outro me tocasse no ombro direito, sem gostar disso, mas tão-pouco fugindo do toque. Aconteceu que senti que aquele Outro era parte, talvez, da minha irmã, isto é, não me pareceu que ele se tratasse verdadeiramente de alguém estranho. A Clara disse-me junto ao ouvido que o Outro era o seu namorado, o Carlos. “Este é o meu namorado. É o Carlos.” A minha irmã chama-se Clara. O Outro chama-se Carlos. Olhando de soslaio para o Outro, soube que ele tinha o mesmo sorriso da minha irmã. Tenho percebido que os sorrisos e a brutidade das pessoas são coisas contagiosas. No caso dos sorrisos, é algo bom, é até um prazer acolher rostos destes na minha nuvem. No caso da brutidade, é uma coisa assustadora. Basta pensar na raiva que passou, creio eu, do meu avô para o meu irmão. É como se de um bicho do mal pudessem nascer outros bichos, muitos bichos cheios de vontade de invadir a minha nuvem e talvez de me destruir.
Um dia, escondido num canto da minha garagem, dei com o meu irmão e o meu avô preparando a morte de uma aranha. A aranha era gorda e, decerto prevendo o que lhe ia acontecer, aninhara-se entre o armário das ferramentas e uma velha cadeira de metal. Pensei, na altura, que era assim também, em geral, a minha vida: acantonado, muito bem fechadinho na minha querida nuvem, à espera que os outros se fossem embora. A aranha também queria decerto que o meu avô e o meu irmão a deixassem quieta e em paz, na sua nuvenzinha de aranha de garagem. O meu avô e o meu irmão riam-se sem alegria. Vi o meu avô acender um isqueiro e aproximá-lo da aranha. E depois a aranha começou a arder. Sucedeu então que o meu irmão gritou, agarrando-se ao avô. Assustei-me de o ver tão assustado, mas não deixei de observar o resto da cena. Vi muitas aranhas, muitas aranhas pequeninas saindo da aranha sua mãe, todas correndo e morrendo quase ao mesmo tempo.



Tenho medo de aranhas. Não gosto de aranhas. Mas tive pena daquela porque, na verdade, o seu medo do meu avô era igual ao medo que, a cada domingo, eu costumava sentir. O meu avô chamou maricas ao meu irmão (“És um maricas, rapaz!”) Eu fui para o meu quarto abanar a cabeça, para trás e para frente, sentado aos pés da minha cama, da minha cama muito bem feita pela minha mãe. Tive de esperar muito tempo, dessa vez, até ao regresso da minha nuvem querida. Porque a minha nuvem quebra-se e recompõe-se, é assim. Digamos que é uma espécie de puzzle contra a desgraça. A minha nuvem protege-me, salva-me de morrer.

História Familiar (4)

[Conto de minha autoria, incluído na obra 39 Poemas e Contos e Contra o Racismo (Edição ACIDI)




No domingo em que a Clara trouxe o Carlos, o meu avô atrasou-se. O meu avô chegou já depois de todos termos almoçado. Na mesa, apenas estava ainda o meu pai e eu. O meu avô queixou-se do barulho à noite junto de sua casa. Disse que a sua rua estava cheia de vândalos e que a polícia não queria saber. (“A minha rua está cheia de vândalos! A polícia não quer saber!”) Depois, saímos para o jardim e o meu avô viu o Carlos brincando com o cão. Olhou para o Carlos como se ele fosse apenas um Outro qualquer, sem nada que ver com a Clara, e ordenou-lhe que não tocasse no cão (“Não toque no cão, ouviu?”). A seguir, houve muito barulho, tanto barulho, demasiado barulho, muitos cacos rompendo a paz da rua, da casa, da minha nuvem. Todos pareciam gritar. O meu avô gritava mais do que todos. O pai gemia como se ralhasse-chorasse com as mesmas palavras. A mãe chamava pela Clara (“Clara! Clarinha!”), muito aflita, com o cabelo caindo-lhe desajeitadamente sobe o olhar. O meu irmão soltou uma gargalhada da casa de banho, aparecendo com a escova dos dentes na mão e um fio de espuma escorrendo-lhe da boca. O meu avô perguntou, berrando, ao meu pai:
- Mas afinal quem é o preto?
O preto era, visto pelo meu avô, o Outro. Acho que preto era mesmo a sua forma de dizer o Outro. O Outro, para mim, já era o Carlos. O Carlos saiu de nossa casa com um olhar triste. Saiu, segundo me pareceu, como se caminhasse dentro de uma nuvem sua. Ainda assim, sorriu-me, e na boca vi-lhe o mesmo sorriso que costumo ver na minha irmã Clara.
O avô não quis a sopa que a mãe lhe ofereceu. Disse que a paciência tinha limites (“A paciência tem limites, catano!”). Eu fui para o quarto da Clara e sentei-me a olhar para ela, abanando um pouco a cabeça para a frente e para trás. Ela tocou na minha mão e eu deixei. Se eu fosse capaz de falar, dizia-lhe ali que ela era um céu e que, em ela querendo, eu a deixaria habitar a minha nuvem; que, em ela querendo, eu lhe daria a minha nuvem. A minha nuvem, Clara, comigo dentro, para tu estares, para tu viveres. Para tu, explico, fugires dos gritos que a brutidade produz e espalha, como aranhas más.
O meu pai disse ao meu avô que já era hora de crescer. Que já era hora de todos crescerem. O avô começou a gritar, o pai começou a gritar. O meu avô gritava muito alto. O meu pai gritava mais alto do que o meu avô. A minha mãe tinha os olhos molhados e tocou na mão do meu pai. Gosto muito de ver a mão dela na mão dele. Certa noite, vi a minha mãe e o meu pai amontoados, sob os cobertores da sua cama. Os dois como se fossem um apenas. Assustei-me com o som que faziam, uma correria de sussurros magoados. Eu julguei que estivessem ambos a chorar. Mas eles olharam para mim e eu vi-senti que estavam felizes. O meu pai deslizou para o seu lado da cama e a minha mãe sorriu para mim, inteira e linda, com os olhos molhados. Ela quis saber se estava tudo bem comigo (“Está tudo bem contigo, meu querido?”) e havia na sua voz e no seu rosto muita felicidade, tanta felicidade.
No final daquela tarde de domingo, a minha mãe tinha também os olhos molhados e a sua mão estava na mão do meu pai. Notei como ela o mirava ternamente, como se lhe agradecesse o ter gritado com o meu avô. O Carlos disse obrigado ao meu pai. (“Obrigado, senhor José.”) A Clara sorriu. O meu irmão ficou em silêncio. O meu irmão não costuma ficar em silêncio. O meu irmão ficou em silêncio, como se estivesse nessa altura muito livre da brutidade habitual. O meu avô saiu de casa e agora vem visitar-nos menos vezes.
Eu gosto do meu pai e da minha mãe. Gosto um pouco menos do meu irmão, mas afinal o meu irmão não é bem mau. Tem-me parecido menos bruto, o meu irmão. É por isso que digo que o meu irmão não é bem mau. É só alguém incompletamente bom. Gosto mais, sem dúvida, da minha irmã, a Clara. O Carlos está muitas vezes com ela. Já ninguém o vê como Outro. Está com a minha irmã, é uma parte da minha irmã. É o Carlos.
O meu avô, há dias, pôs-se a falar para mim. Tinha bebido o vinho todo da garrafa do almoço, enquanto o pai e a mãe estavam no sótão a arrumar roupas e calçado. Creio que não lhe passou pela cabeça que eu o entendesse. Falava como se não falasse. Tinha a voz esponjosa como se tivesse a boca cheia de batatas cozidas. Lá foi dizendo que gostava de toda a gente, até de mim. (“Até de ti, criatura!”). E que ninguém o compreendia, que a família tinha endoidecido, que todos um dia se haveriam de arrepender, que lhe haveriam de pedir desculpa, e que só quando o Outro se fosse embora é que tudo voltaria à normalidade (“Ninguém me compreende. A família endoideceu. Um dia, todos se hão-de arrepender e hão-de pedir-me desculpa. Só quando o preto se for embora é que tudo volta à normalidade…”)
O meu avô, visto-sentido como eu o vejo-sinto, é que é o Outro.


FIM

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A ferida de um Amigo não estar mas ser



A minha pobre irmã num viúvo canto, chorando em forma de novelo negro.

A minha mãe e suas duas irmãs como silente coro, de olhar antigamente espantado.

A restante família do meu Amigo dentro da mesma sala e da mesma Dor.

O meu sobrinho à porta da capela, atordoado como um pássaro infante.

Amigos como formigas, negros e avulsos, buscando migalhas da presença de quem já ausente estava.

Eu - nós - velando o meu Amigo.

Eu sem o meu Amigo, como um calendário sem dias seguintes.

O cabrão do tempo, a puta da morte.



Coimbra, 09 de Julho de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colocada pelo Daniel Abrunheiro no Facebook.]

terça-feira, 8 de julho de 2014

Conceição, Amigo



O meu Amigo Conceição partiu durante a noite. 
Não sei senão isso. É pouco. É tudo.
Tenho já todas as saudades que em mim pudesse haver.

Que descanse em paz, como se costuma dizer. (Que se há-de dizer quando nenhuma palavra é capaz de dizer tudo e nenhuma outra pode utilizar-se então?)

Adeus, meu antigo, grande e verdadeiro Amigo. Não te esqueço, pá.

Coimbra, 08 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi tirada no casamento do Rui Candeias, num certo Maio imortal, talvez há 17 anos.]

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Um rapaz da minha idade engordou muito e teve um AVC



A tarde beijou-me como há quarenta anos -
A mesma luz o mesmo abraço morno a mesma música
(Vago vento aportando-me partidas e chegadas ferroviárias)
Até que um velho atravessou coxeando o meu olhar:
Ali reconheci num incerto meio sorriso
Certo enérgico jogador de futebol
A encher o campo da Lufapo de cortes & remates
Cheio de uma nossa glória paroquial cheia de graça.
Mais ou menos nos dissemos adeus
Ao longe.

A tarde permaneceu talvez igual 
Não já bem minha e depois
A mãe do Jaime viu-me ao portão antigo 
Da casa em que guardo a eterna infância
E disse:
Já soubeste do meu filho, ó Joaquim Jorge?

Coimbra, 07 de Julho e 2014.
Joquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:www.mizebeb.wordpress.com.]

domingo, 6 de julho de 2014

Pedrulha



A Pedrulha é, em génese, uma aldeia na periferia de Coimbra. Com a expansão da cidade, tornou-se numa espécie de bairro encravado na urbe universitária. Um bairro cheio de particularidades folclóricas e humanamente extraordinárias.
A Pedrulha é também o lugar natal do Daniel Abrunheiro, meu Amigo de há décadas. É, digamos assim a sua Macondo.
Tive avô, tios e tias na Pedrulha, de modo que conheço muitas das caras que, em passando por lá, me cumprimentam e chamam pelo nome. O Daniel é, quase sempre, o meu anfitrião-mor, mas até sozinho lá passo sem jamais me sentir estrangeiro ou intruso.
Passei pela Pedrulha hoje. A humanidade deste mundo deixou-me impressões carregadas de graça e de profundidade. Ofereço-vos algumas.

1.           Para aceder da rua da Igreja à travessa do Plátano, tive de descer um pequeno lanço de escadas, em caracol, muito estreito. Ia com pressa, mas deparei-me com uma velhinha que morosamente descia também. Tive de esperar pela minha oportunidade de a ultrapassar. Finalmente, ela surgiu. Disse “Boa tarde” e “Com licença” - e passei-a pela direita. Ouvi, atrás de mim, um suspiro e um desabafo cheio de idade: “Ricas pernas!” Eu, que ia cansado da marcha, era ali invejado pela minha velocidade andarilha. Sim, tudo é relativo, senhor Einstein.

2.           Duas mulheres conversavam, à porta das respectivas casas sobre o desusado movimento de carros e pessoas. Não sabiam que havia, no Clube, o almoço dos antigos campeões de andebol, daquela equipa famosa da Pedrulha que brilhou no século XX, e de que fazia parte – admirai-vos, homens e mulheres de pouca fé! – o Daniel Abrunheiro. Uma das mulheres aventou que devia ser um torneio de cartas e que os homens eram doidos por aquilo. A outra falou em pouca vergonha e confusões prováveis. A primeira retorquiu (cito de cor): “Eu cá gosto de ver gente na Pedrulha. Sem a outra gente, que seria da gente?” Eis Aristóteles e Platão falando pela boca de uma anónima avó pedrulhense.

3.           Quando, entre gargalhadas fraternais, me despedia dos amigos, o Vitinho (ex-colega de liceu, hoje consideradíssimo profissional dos táxis) provocou-me: “Já?!” Lá lhe disse que ia ao hospital ver o Conceição. E então houve uma coisa simplesmente bela: toda a gente, numa espécie de preito uníssono, se fez ali subitamente séria e religiosamente respeitosa. O Vitinho pediu-me que fizesse chegar ao Amigo ausente um abraço e os votos de melhoras. Interiormente comovido, prometi que o faria. Fi-lo.

Isto é, eu gosto de Júlio Dinis. E gosto da Pedrulha.

Coimbra, 05 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.paronamio.com.]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Rua Augusta forever



Eu ainda não tinha nascido e já havia mar na vizinhança do meu amor.
Depois, o mar nunca saiu verdadeiramente de ao pé de mim. É uma companhia e é uma força.
Habituei-me a vê-lo, aliás, como a extensão possível da nossa existência. Parece menos acanhada a vida se a acrescentarmos do oceano que está para lá do que somos.
Não é fácil entender o mar, convenhamos. É caprichoso, volúvel, independente como um felino grande. Tão-pouco é fácil o amor.
Queria que o meu amor olhasse também, comigo, o mar e visse: ausências e regressos chegando à costa ou dizendo adeus de longe. Ondas de saudades ou carícias de reencontro. Marés de tudo e de nada.
E queria que o meu amor escutasse ainda o que o mar nos diz, nesse murmúrio milenar com sabor a sal e a peixe: que é tudo eterno se nos esquecermos que não.
Dou ao meu amor o mar.

Ribeira de Pena, 25 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida em http://www.cantinhodomundo.blogspot.com.]

domingo, 22 de junho de 2014

Literatura quê (3)



A literatura somos nós ao espelho (trocista) da feira popular.

Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

Literatura quê (2)



As glórias e as derrotas, o fausto e a miséria, a generosidade e a vileza - tudo concorre para esse discurso dignamente literário que nos assombra e comove.

Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

Literatura quê (1)



A literatura, minha gente,
É a forma consabida
De enunciar esteticamente
A vida.

Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

Espelho ohlepesE



No amor e no hospital
A fragilidade está nos dois lados
Do rosto que olha. Olhar de ver 
E de ser visto.
Assim a mão com que tocamos é
A mão tocada.
Presença e ausência visitam-se
Desejam-se melhoras
Acreditam
Desesperam.
O amor é talvez uma ilusão, mas
Nada mais existe.

Ah, e falta lembrar 
Que se sobe e se desce até
Ao encontro
No mesmo elevador.

Coimbra, 21 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.luizgeremias.blogspot.com.]

sábado, 21 de junho de 2014

Melgas



Na madrugada de 19 para 20 de Junho, aí pelas cinco e meia, acordei com uma sensação de dor na mão direita, algures entre o dedo indicador e o médio. Liguei a luz do candeeiro, procurando em vão a horrível melga.
Desde miúdo que, nestas ocasiões, sinto uma irreprimível vontade de vingança e invisto, tantas vezes, atenção e persistência bíblicas em busca do insecto culpado. Que prazer misterioso este de ver esborrachado - no tecto, na parede ou no chão - o traiçoeiro predador da noite!
Da realidade imediata para a simbólica: ocorre-me que as melgas são especialmente odiosas por atacarem à traição, e por se esconderem após o vil ataque, e por serem nojentos parasitas do nosso sangue, e por nos interromperem a merecida tranquilidade do sono.
De modo que, reparai, eu a escrever, aqui, sou também um convicto matador de melgas! 

Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://vaipaselva.blogspot.com.]