Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A ferida de um Amigo não estar mas ser



A minha pobre irmã num viúvo canto, chorando em forma de novelo negro.

A minha mãe e suas duas irmãs como silente coro, de olhar antigamente espantado.

A restante família do meu Amigo dentro da mesma sala e da mesma Dor.

O meu sobrinho à porta da capela, atordoado como um pássaro infante.

Amigos como formigas, negros e avulsos, buscando migalhas da presença de quem já ausente estava.

Eu - nós - velando o meu Amigo.

Eu sem o meu Amigo, como um calendário sem dias seguintes.

O cabrão do tempo, a puta da morte.



Coimbra, 09 de Julho de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi colocada pelo Daniel Abrunheiro no Facebook.]

terça-feira, 8 de julho de 2014

Conceição, Amigo



O meu Amigo Conceição partiu durante a noite. 
Não sei senão isso. É pouco. É tudo.
Tenho já todas as saudades que em mim pudesse haver.

Que descanse em paz, como se costuma dizer. (Que se há-de dizer quando nenhuma palavra é capaz de dizer tudo e nenhuma outra pode utilizar-se então?)

Adeus, meu antigo, grande e verdadeiro Amigo. Não te esqueço, pá.

Coimbra, 08 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto foi tirada no casamento do Rui Candeias, num certo Maio imortal, talvez há 17 anos.]

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Um rapaz da minha idade engordou muito e teve um AVC



A tarde beijou-me como há quarenta anos -
A mesma luz o mesmo abraço morno a mesma música
(Vago vento aportando-me partidas e chegadas ferroviárias)
Até que um velho atravessou coxeando o meu olhar:
Ali reconheci num incerto meio sorriso
Certo enérgico jogador de futebol
A encher o campo da Lufapo de cortes & remates
Cheio de uma nossa glória paroquial cheia de graça.
Mais ou menos nos dissemos adeus
Ao longe.

A tarde permaneceu talvez igual 
Não já bem minha e depois
A mãe do Jaime viu-me ao portão antigo 
Da casa em que guardo a eterna infância
E disse:
Já soubeste do meu filho, ó Joaquim Jorge?

Coimbra, 07 de Julho e 2014.
Joquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:www.mizebeb.wordpress.com.]

domingo, 6 de julho de 2014

Pedrulha



A Pedrulha é, em génese, uma aldeia na periferia de Coimbra. Com a expansão da cidade, tornou-se numa espécie de bairro encravado na urbe universitária. Um bairro cheio de particularidades folclóricas e humanamente extraordinárias.
A Pedrulha é também o lugar natal do Daniel Abrunheiro, meu Amigo de há décadas. É, digamos assim a sua Macondo.
Tive avô, tios e tias na Pedrulha, de modo que conheço muitas das caras que, em passando por lá, me cumprimentam e chamam pelo nome. O Daniel é, quase sempre, o meu anfitrião-mor, mas até sozinho lá passo sem jamais me sentir estrangeiro ou intruso.
Passei pela Pedrulha hoje. A humanidade deste mundo deixou-me impressões carregadas de graça e de profundidade. Ofereço-vos algumas.

1.           Para aceder da rua da Igreja à travessa do Plátano, tive de descer um pequeno lanço de escadas, em caracol, muito estreito. Ia com pressa, mas deparei-me com uma velhinha que morosamente descia também. Tive de esperar pela minha oportunidade de a ultrapassar. Finalmente, ela surgiu. Disse “Boa tarde” e “Com licença” - e passei-a pela direita. Ouvi, atrás de mim, um suspiro e um desabafo cheio de idade: “Ricas pernas!” Eu, que ia cansado da marcha, era ali invejado pela minha velocidade andarilha. Sim, tudo é relativo, senhor Einstein.

2.           Duas mulheres conversavam, à porta das respectivas casas sobre o desusado movimento de carros e pessoas. Não sabiam que havia, no Clube, o almoço dos antigos campeões de andebol, daquela equipa famosa da Pedrulha que brilhou no século XX, e de que fazia parte – admirai-vos, homens e mulheres de pouca fé! – o Daniel Abrunheiro. Uma das mulheres aventou que devia ser um torneio de cartas e que os homens eram doidos por aquilo. A outra falou em pouca vergonha e confusões prováveis. A primeira retorquiu (cito de cor): “Eu cá gosto de ver gente na Pedrulha. Sem a outra gente, que seria da gente?” Eis Aristóteles e Platão falando pela boca de uma anónima avó pedrulhense.

3.           Quando, entre gargalhadas fraternais, me despedia dos amigos, o Vitinho (ex-colega de liceu, hoje consideradíssimo profissional dos táxis) provocou-me: “Já?!” Lá lhe disse que ia ao hospital ver o Conceição. E então houve uma coisa simplesmente bela: toda a gente, numa espécie de preito uníssono, se fez ali subitamente séria e religiosamente respeitosa. O Vitinho pediu-me que fizesse chegar ao Amigo ausente um abraço e os votos de melhoras. Interiormente comovido, prometi que o faria. Fi-lo.

Isto é, eu gosto de Júlio Dinis. E gosto da Pedrulha.

Coimbra, 05 de Julho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.paronamio.com.]

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Rua Augusta forever



Eu ainda não tinha nascido e já havia mar na vizinhança do meu amor.
Depois, o mar nunca saiu verdadeiramente de ao pé de mim. É uma companhia e é uma força.
Habituei-me a vê-lo, aliás, como a extensão possível da nossa existência. Parece menos acanhada a vida se a acrescentarmos do oceano que está para lá do que somos.
Não é fácil entender o mar, convenhamos. É caprichoso, volúvel, independente como um felino grande. Tão-pouco é fácil o amor.
Queria que o meu amor olhasse também, comigo, o mar e visse: ausências e regressos chegando à costa ou dizendo adeus de longe. Ondas de saudades ou carícias de reencontro. Marés de tudo e de nada.
E queria que o meu amor escutasse ainda o que o mar nos diz, nesse murmúrio milenar com sabor a sal e a peixe: que é tudo eterno se nos esquecermos que não.
Dou ao meu amor o mar.

Ribeira de Pena, 25 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida em http://www.cantinhodomundo.blogspot.com.]

domingo, 22 de junho de 2014

Literatura quê (3)



A literatura somos nós ao espelho (trocista) da feira popular.

Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

Literatura quê (2)



As glórias e as derrotas, o fausto e a miséria, a generosidade e a vileza - tudo concorre para esse discurso dignamente literário que nos assombra e comove.

Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

Literatura quê (1)



A literatura, minha gente,
É a forma consabida
De enunciar esteticamente
A vida.

Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

Espelho ohlepesE



No amor e no hospital
A fragilidade está nos dois lados
Do rosto que olha. Olhar de ver 
E de ser visto.
Assim a mão com que tocamos é
A mão tocada.
Presença e ausência visitam-se
Desejam-se melhoras
Acreditam
Desesperam.
O amor é talvez uma ilusão, mas
Nada mais existe.

Ah, e falta lembrar 
Que se sobe e se desce até
Ao encontro
No mesmo elevador.

Coimbra, 21 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.luizgeremias.blogspot.com.]

sábado, 21 de junho de 2014

Melgas



Na madrugada de 19 para 20 de Junho, aí pelas cinco e meia, acordei com uma sensação de dor na mão direita, algures entre o dedo indicador e o médio. Liguei a luz do candeeiro, procurando em vão a horrível melga.
Desde miúdo que, nestas ocasiões, sinto uma irreprimível vontade de vingança e invisto, tantas vezes, atenção e persistência bíblicas em busca do insecto culpado. Que prazer misterioso este de ver esborrachado - no tecto, na parede ou no chão - o traiçoeiro predador da noite!
Da realidade imediata para a simbólica: ocorre-me que as melgas são especialmente odiosas por atacarem à traição, e por se esconderem após o vil ataque, e por serem nojentos parasitas do nosso sangue, e por nos interromperem a merecida tranquilidade do sono.
De modo que, reparai, eu a escrever, aqui, sou também um convicto matador de melgas! 

Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://vaipaselva.blogspot.com.]

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Sobre o cosmos



Se o cosmos existe?
Garantia: a normalidade, por paradoxal que pareça, é sobretudo caos.
O cosmos acontece quando, no tempo e no espaço coincidentes, seres humanos se conhecem, se reconhecem, se dão, dentro dessa espécie de música que é o amor.
O cosmos, embora escandalosamente breve, existe.

Arco de Baúlhe, 19 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olos.com-au.]

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Entardecer



Quem me dera ter a inocência
Das flores espalhadas pelo campo
Ignorar o fim de outras flores
E o de mim próprio
Ou entender o fim como natural
Variação da geral paisagem
Como a noite antes do dia
O dia depois da noite.

Quem me dera não sentir o fim
Assim
Fim apenas
Simplesmente cinicamente violentamente
Fim.
Quem me dera não saber que não consigo
Guardar o que me falta
Comigo.
Que me dera não sentir a falta
Do que guardar não consigo.

Quem me dera eu hoje ser mesmo
Todas as flores espalhadas pelo campo
Para sempre.

Ribeira de Pena, 18 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do filme História Interminável, de W. Pettersen. Com a devida vénia.]

sábado, 3 de maio de 2014

Gato & lua


O gato olhando a lua
Tem duas luas no rosto
A lua que ele vê nua
Mia na noite de Agosto.
O gato deseja a lua
Por amar vê-la tão nua;
Os olhos que o gato tem
São duas luas também.

Ribeira de Pena, 30 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Nota: Este poeminha nasceu na sequência do visionamento de um filme intitulado "O Gato e a Lua", de Pedro Serrazina.]
[A imagem (referente ao filme supra-referido) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.lumear.blogspot.pt.]

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Amor


Não sei que jornadas
Falta ultrapassar
Mas vamos de mãos dadas
Até ao mar.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (praia de Machico) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.guia-viagens.aeiou.pt.]

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Anteu no ringue


Sou um boxeur frágil mas ousado
Levo pancada até ficar exangue
Respondo com punhos e palavreado
E até ao assalto último chegar
Alimento-me do meu próprio sangue
Para continuar.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ofogareiro.blogspot.pt.]