segunda-feira, 7 de julho de 2014
Um rapaz da minha idade engordou muito e teve um AVC
A tarde beijou-me como há quarenta anos -
A mesma luz o mesmo abraço morno a mesma música
(Vago vento aportando-me partidas e chegadas ferroviárias)
Até que um velho atravessou coxeando o meu olhar:
Ali reconheci num incerto meio sorriso
Certo enérgico jogador de futebol
A encher o campo da Lufapo de cortes & remates
Cheio de uma nossa glória paroquial cheia de graça.
Mais ou menos nos dissemos adeus
Ao longe.
A tarde permaneceu talvez igual
Não já bem minha e depois
A mãe do Jaime viu-me ao portão antigo
Da casa em que guardo a eterna infância
E disse:
Já soubeste do meu filho, ó Joaquim Jorge?
Coimbra, 07 de Julho e 2014.
Joquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http:www.mizebeb.wordpress.com.]
domingo, 6 de julho de 2014
Pedrulha
A Pedrulha é, em génese, uma aldeia na periferia de Coimbra.
Com a expansão da cidade, tornou-se numa espécie de bairro encravado na urbe
universitária. Um bairro cheio de particularidades folclóricas e humanamente
extraordinárias.
A Pedrulha é também o lugar natal do Daniel Abrunheiro, meu
Amigo de há décadas. É, digamos assim a sua Macondo.
Tive avô, tios e tias na Pedrulha, de modo que conheço
muitas das caras que, em passando por lá, me cumprimentam e chamam pelo nome. O
Daniel é, quase sempre, o meu anfitrião-mor, mas até sozinho lá passo sem
jamais me sentir estrangeiro ou intruso.
Passei pela Pedrulha hoje. A humanidade deste mundo
deixou-me impressões carregadas de graça e de profundidade. Ofereço-vos algumas.
1.
Para aceder da rua da Igreja à travessa
do Plátano, tive de descer um pequeno lanço de escadas, em caracol, muito
estreito. Ia com pressa, mas deparei-me com uma velhinha que morosamente descia
também. Tive de esperar pela minha oportunidade de a ultrapassar. Finalmente,
ela surgiu. Disse “Boa tarde” e “Com licença” - e passei-a pela direita. Ouvi,
atrás de mim, um suspiro e um desabafo cheio de idade: “Ricas pernas!” Eu, que
ia cansado da marcha, era ali invejado pela minha velocidade andarilha. Sim, tudo
é relativo, senhor Einstein.
2.
Duas mulheres conversavam, à porta das
respectivas casas sobre o desusado movimento de carros e pessoas. Não sabiam
que havia, no Clube, o almoço dos antigos campeões de andebol, daquela equipa
famosa da Pedrulha que brilhou no século XX, e de que fazia parte – admirai-vos,
homens e mulheres de pouca fé! – o Daniel Abrunheiro. Uma das mulheres aventou
que devia ser um torneio de cartas e que os homens eram doidos por aquilo. A
outra falou em pouca vergonha e confusões prováveis. A primeira retorquiu (cito
de cor): “Eu cá gosto de ver gente na Pedrulha. Sem a outra gente, que seria da
gente?” Eis Aristóteles e Platão falando pela boca de uma anónima avó
pedrulhense.
3.
Quando, entre gargalhadas fraternais, me
despedia dos amigos, o Vitinho (ex-colega de liceu, hoje consideradíssimo
profissional dos táxis) provocou-me: “Já?!” Lá lhe disse que ia ao hospital ver
o Conceição. E então houve uma coisa simplesmente bela: toda a gente, numa
espécie de preito uníssono, se fez ali subitamente séria e religiosamente respeitosa.
O Vitinho pediu-me que fizesse chegar ao Amigo ausente um abraço e os votos de
melhoras. Interiormente comovido, prometi que o faria. Fi-lo.
Isto é, eu gosto de Júlio Dinis. E gosto da Pedrulha.
Coimbra,
05 de Julho de 2014.
Joaquim
Jorge Carvalho
[A imagem foi
colhida, com a devida vénia, em http://www.paronamio.com.]
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Rua Augusta forever
Eu ainda não tinha nascido e já havia mar na vizinhança do meu amor.
Depois, o mar nunca saiu verdadeiramente de ao pé de mim. É uma companhia e é uma força.
Habituei-me a vê-lo, aliás, como a extensão possível da nossa existência. Parece menos acanhada a vida se a acrescentarmos do oceano que está para lá do que somos.
Não é fácil entender o mar, convenhamos. É caprichoso, volúvel, independente como um felino grande. Tão-pouco é fácil o amor.
Queria que o meu amor olhasse também, comigo, o mar e visse: ausências e regressos chegando à costa ou dizendo adeus de longe. Ondas de saudades ou carícias de reencontro. Marés de tudo e de nada.
E queria que o meu amor escutasse ainda o que o mar nos diz, nesse murmúrio milenar com sabor a sal e a peixe: que é tudo eterno se nos esquecermos que não.
Dou ao meu amor o mar.
Ribeira de Pena, 25 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida em http://www.cantinhodomundo.blogspot.com.]
domingo, 22 de junho de 2014
Literatura quê (3)
A literatura somos nós ao espelho (trocista) da feira popular.
Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Literatura quê (2)
As glórias e as derrotas, o fausto e a miséria, a generosidade e a vileza - tudo concorre para esse discurso dignamente literário que nos assombra e comove.
Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Literatura quê (1)
A literatura, minha gente,
É a forma consabida
De enunciar esteticamente
A vida.
Coimbra, 22 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Espelho ohlepesE
No amor e no hospital
A fragilidade está nos dois lados
Do rosto que olha. Olhar de ver
E de ser visto.
Assim a mão com que tocamos é
A mão tocada.
Presença e ausência visitam-se
Desejam-se melhoras
Acreditam
Desesperam.
O amor é talvez uma ilusão, mas
Nada mais existe.
Ah, e falta lembrar
Que se sobe e se desce até
Ao encontro
No mesmo elevador.
Coimbra, 21 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.luizgeremias.blogspot.com.]
sábado, 21 de junho de 2014
Melgas
Na madrugada de 19 para 20 de Junho, aí pelas cinco e meia, acordei com uma sensação de dor na mão direita, algures entre o dedo indicador e o médio. Liguei a luz do candeeiro, procurando em vão a horrível melga.
Desde miúdo que, nestas ocasiões, sinto uma irreprimível vontade de vingança e invisto, tantas vezes, atenção e persistência bíblicas em busca do insecto culpado. Que prazer misterioso este de ver esborrachado - no tecto, na parede ou no chão - o traiçoeiro predador da noite!
Da realidade imediata para a simbólica: ocorre-me que as melgas são especialmente odiosas por atacarem à traição, e por se esconderem após o vil ataque, e por serem nojentos parasitas do nosso sangue, e por nos interromperem a merecida tranquilidade do sono.
De modo que, reparai, eu a escrever, aqui, sou também um convicto matador de melgas!
Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://vaipaselva.blogspot.com.]
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Sobre o cosmos
Se o cosmos existe?
Garantia: a normalidade, por paradoxal que pareça, é sobretudo caos.
O cosmos acontece quando, no tempo e no espaço coincidentes, seres humanos se conhecem, se reconhecem, se dão, dentro dessa espécie de música que é o amor.
O cosmos, embora escandalosamente breve, existe.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olos.com-au.]
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Entardecer
Quem me dera ter a inocência
Das flores espalhadas pelo campo
Ignorar o fim de outras flores
E o de mim próprio
Ou entender o fim como natural
Variação da geral paisagem
Como a noite antes do dia
O dia depois da noite.
Quem me dera não sentir o fim
Assim
Fim apenas
Simplesmente cinicamente violentamente
Fim.
Quem me dera não saber que não consigo
Guardar o que me falta
Comigo.
Que me dera não sentir a falta
Do que guardar não consigo.
Quem me dera eu hoje ser mesmo
Todas as flores espalhadas pelo campo
Para sempre.
Ribeira de Pena, 18 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do filme História Interminável, de W. Pettersen. Com a devida vénia.]
sábado, 3 de maio de 2014
Gato & lua
O gato olhando a lua
Tem duas luas no rosto
A lua que ele vê nua
Mia na noite de Agosto.
O gato deseja a lua
Por amar vê-la tão nua;
Os olhos que o gato tem
São duas luas também.
Ribeira de Pena, 30 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Nota: Este poeminha nasceu na sequência do visionamento de um filme intitulado "O Gato e a Lua", de Pedro Serrazina.]
[A imagem (referente ao filme supra-referido) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.lumear.blogspot.pt.]
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Amor
Não
sei que jornadas
Falta
ultrapassar
Mas
vamos de mãos dadas
Até
ao mar.
Ribeira
de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim
Jorge Carvalho
[A
imagem (praia de Machico) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.guia-viagens.aeiou.pt.]
segunda-feira, 28 de abril de 2014
Anteu no ringue
Sou
um boxeur frágil mas ousado
Levo
pancada até ficar exangue
Respondo
com punhos e palavreado
E
até ao assalto último chegar
Alimento-me
do meu próprio sangue
Para
continuar.
Ribeira
de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim
Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com
a devida vénia, em http://www.ofogareiro.blogspot.pt.]
domingo, 27 de abril de 2014
Destino (com epígrafe de Célan)
“Le
dur désir de durer.”
(Paul
Célan)
Ainda
duro, amor, ainda duro
E
espanto-me de mim deveniente.
A
vida cá me trouxe ao meu futuro
Mas
o futuro é, afinal, presente.
Ribeira
de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim
Jorge Carvalho
[A
imagem (de Paul Célan) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pirresel.typepad.fr.]
Substância (poema que não quis rimar)
Os
naufrágios fazem parte da navegação
Como
viagens são quantas fiz
Quantas
perdi, quantas sonho
E
esta talvez em curso.
Assim
as ausências me são também:
Quanto
já perdi, quanto me falta.
No meu
sangue correm saudades e desejos
Ao
ritmo inconstante do coração.
Ribeira
de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim
Jorge Carvalho
[A
imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sutildesvairo.blogspot.com.]
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