Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Sobre o cosmos



Se o cosmos existe?
Garantia: a normalidade, por paradoxal que pareça, é sobretudo caos.
O cosmos acontece quando, no tempo e no espaço coincidentes, seres humanos se conhecem, se reconhecem, se dão, dentro dessa espécie de música que é o amor.
O cosmos, embora escandalosamente breve, existe.

Arco de Baúlhe, 19 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olos.com-au.]

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Entardecer



Quem me dera ter a inocência
Das flores espalhadas pelo campo
Ignorar o fim de outras flores
E o de mim próprio
Ou entender o fim como natural
Variação da geral paisagem
Como a noite antes do dia
O dia depois da noite.

Quem me dera não sentir o fim
Assim
Fim apenas
Simplesmente cinicamente violentamente
Fim.
Quem me dera não saber que não consigo
Guardar o que me falta
Comigo.
Que me dera não sentir a falta
Do que guardar não consigo.

Quem me dera eu hoje ser mesmo
Todas as flores espalhadas pelo campo
Para sempre.

Ribeira de Pena, 18 de Junho de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do filme História Interminável, de W. Pettersen. Com a devida vénia.]

sábado, 3 de maio de 2014

Gato & lua


O gato olhando a lua
Tem duas luas no rosto
A lua que ele vê nua
Mia na noite de Agosto.
O gato deseja a lua
Por amar vê-la tão nua;
Os olhos que o gato tem
São duas luas também.

Ribeira de Pena, 30 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
Nota: Este poeminha nasceu na sequência do visionamento de um filme intitulado "O Gato e a Lua", de Pedro Serrazina.]
[A imagem (referente ao filme supra-referido) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.lumear.blogspot.pt.]

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Amor


Não sei que jornadas
Falta ultrapassar
Mas vamos de mãos dadas
Até ao mar.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (praia de Machico) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.guia-viagens.aeiou.pt.]

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Anteu no ringue


Sou um boxeur frágil mas ousado
Levo pancada até ficar exangue
Respondo com punhos e palavreado
E até ao assalto último chegar
Alimento-me do meu próprio sangue
Para continuar.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ofogareiro.blogspot.pt.]

domingo, 27 de abril de 2014

Destino (com epígrafe de Célan)


Le dur désir de durer.”
(Paul Célan)

Ainda duro, amor, ainda duro
E espanto-me de mim deveniente.
A vida cá me trouxe ao meu futuro
Mas o futuro é, afinal, presente.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Paul Célan) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pirresel.typepad.fr.]

Substância (poema que não quis rimar)


Os naufrágios fazem parte da navegação
Como viagens são quantas fiz
Quantas perdi, quantas sonho
E esta talvez em curso.
Assim as ausências me são também:
Quanto já perdi, quanto me falta.
No meu sangue correm saudades e desejos
Ao ritmo inconstante do coração.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.sutildesvairo.blogspot.com.]

sábado, 26 de abril de 2014

O Mistério das Coisas Erradas, de Fátima Marinho


O meu colega Paulo Pinto emprestou-me o livro O Mistério das Coisas Erradas, de Fátima Marinho. Conheço a autora desde que ambos fizemos, há dois anos, parte do júri do Concurso Literário de Conto Infantil da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Ouvira já, antes, referências elogiosas à escrita desta “cabeceirense” (adoptiva). Reencontrei-a no contexto de uma avaliação externa a que o Agrupamento de Escolas foi sujeito e em que Fátima Marinho participou como elemento da equipa inspectiva. Em todas as ocasiões, senti nela uma espécie de força feita de serenidade e lucidez invulgares. A sua escrita confirmou amplamente essa sugestão.
O livro O Mistério das Coisas Erradas é, do ponto de vista genológico, um conjunto de contos, pontuado epigraficamente por poemas. Contudo, os próprios segmentos narrativos incluem, sobretudo no final, apontamentos (comentários) de cariz profundamente poético, um pouco à semelhança do que encontramos, por exemplo, no final de capítulos dos romances saramaguianos.
A autora serve-se do barro da sua experiência enquanto professora para, de modo formoso e simples, nos relatar histórias de meninos e meninas que, devido às suas características específicas, saem do reduto confortável da “normalidade”. Para além de apontamentos humanos de altíssimo interesse, há nestas histórias margem para uma reflexão rigorosa e bela acerca da condição humana. Aprendemos (como a autora aprendeu/aprende) que é um erro e uma injustiça desistirmos de quem é diferente; que todos os seres são, a seu modo, versões da realização da Vida, igualmente dignas de atenção e de apreço; que um verdadeiro professor nunca deixa de aprender, incluindo com os seus (putativos) aprendentes; que a todo o momento podemos dar e receber, numa espécie de democracia ética e estética que não vem nos livros.
No capítulo “Com que calças andará o meru pequenote”, a professora/narradora (entre outras medidas) estimula uma criança, vítima de agressões diárias, a resistir e a sobreviver, até que o tempo o liberte do jugo de adultos indignos. O tempo, como sabemos, joga a favor de quem tem tempo.
Em “Cinco escudos”, a narradora percebe que uma criança fez uma promessa a Deus por si, isto é, pela sua professora. A criança, depois, irá querer saber se Deus satisfez o seu pedido, porque dessa circunstância resultará (ou não) o seu pagamento. Escreve Fátima Marinho: “A ternura vinda de mãos, supostamente, adversas à lentidão do afago espanta-nos […].”
No capítulo III, “O Mistério das Coisas Erradas” (que dá título ao volume), uma menina com trissomia 21, inicialmente vítima de incompreensão e desafecto e, depois, salva pelo amor de um familiar, aprende (ou intui), no usufruto da vida à medida do que a vida lhe oferece, que ”o mistério das coisas erradas é que também elas estão certas”.
Em “A fraqueza às vezes cresce e fica forte”, um menino cuja “deficiência” o condenara a nunca saber ler, segundo a cínica ciência dos rótulos, consegue salvar-se desse fado e lê.
Em “O Que São Mouras Encantadas?”, uma aluna apercebe-se da singularidade da professora e esta descoberta será ponto de partida para a narradora explicar à aluna que em todos os seres há, de facto, uma singularidade própria. E que todas as singularidades se podem irmanar, por exemplo, no gesto cósmico de olhar e namorar o mar.
Em “segredos”, uma criança sobrevive à brutalidade de vários abusos do pai (sobre si e sobre a mãe e irmãos) - e, depois, com o amor resiliente dos melhores seres humanos, perdoa.
Em “Ter asas e voar”, uma menina inspira-se no encanto da professora por colares de pedras e, querendo dizer o quanto ama a docente, recolhe duas pedras no caminho e guarda-as para lhas oferecer. A narradora guardou estas pedras e, sempre que necessário, interroga-as, nelas buscando a resposta para avulsas agruras do quotidiano. História(s) de amor, portanto.
No capítulo VIII, “Mas Será Que a Minha Colega Sabe?”, um rapaz convive com a sua “deficiência”, vencendo todas as limitações com denodo e dignidade. Evolui na vida escolar, para espanto de pessimistas encartados, e namora. O seu maior desejo: que a namorada nunca o visse como “deficiente”.
Em “Simplesmente Maria”, uma aluna quer morrer por sentir que ninguém gosta verdadeiramente de si. A professora/narradora explica-lhe, pacientemente, que em todos nós há momentos de desânimo, mas que, para além do “poço” momentâneo em que caímos, se encontra sempre a possibilidade de “flores na relva” e de “sol”. O contrário de morrer (ou de querer morrer) pode ser, como se vê, não estarmos sós.
No capítulo “Pastor, Pastorzinho, Porque Vais Sozinho?” (um dos meus preferidos), um menino, contra todas as probabilidades, aprende a ler e, desde esse momento, nunca mais está sozinho. Costumo dizer isto mesmo aos meus alunos sobre o encanto e o poder da leitura.
No capítulo “Juro Que Não Hei-de Ser Infeliz”, a personagem Dolores vence as suas limitações e singra na vida profissionalmente. Encontra, depois, um namorado, que é estrangeiro e lhe escreve em francês. A professora/narradora traduz os textos, mas a Dolores quer também ouvir en français as manifestações do amado: “-Só quero ouvir o som das palavras com que ele pensa em mim!” Escreve Fátima Marinho: “Interrogo-me se Confúcio, Dante ou Camões alguma vez terão pensado acerca do som das palavras de quem neles pensava. Na parte que me cabe, foi com a Dolores que aprendi a deter-me na ternura do som das palavras de quem pensa em mim.”
No capítulo “Para Onde Vai a Água?”, fala-se do Paulo, um menino que usava recorrentemente calão e maus modos na relação com colegas e professores, para além de se deslocar quase sempre em corrida de mãos abertas, como se voasse. Percebe-se que na criança, para além de cómodas explicações científicas sobre “deficiência”, colidem duas dimensões – a chã realidade da pobreza e da falta de afecto e a ânsia (secreta, mal percebida) de outros mundos para onde um ser humano possa (pudesse) voar.
No último capítulo, “Somos Filhos da Madrugada”, um aluno com (como se diz) “necessidades educativas especiais” aprende a gostar de música, revelando mesmo, em determinada altura, uma desconcertante cumplicidade com José Afonso (“o Zeca”). À música - como à arte, em geral - também se pode chegar simplesmente pelo coração.
Nota final: gostei mesmo muito deste livrinho.
Termino este apontamento com uma ideia que Fátima Marinho formosamente enuncia (e que, num outro plano, já encontrara em George Steiner): a de que a realidade é um processo, algo em constante devir, pelo que são frequentemente precipitados e erróneos os rótulos que os homens lançam sobre o que não sabem ou não compreendem bem. No poema que introduz (como epígrafe) o capítulo “O Que São Mouras Encantadas?”, lemos:
“Talvez o mar saiba
Que vida é um pedaço de silêncio
Guardado numa janela sem horizonte
Uma fonte perto da estrada
Uma caminhada
Ou simplesmente o vento
Onde correm os espíritos dos mortos
E a contradição de estarmos por aqui
Sem sabermos o segredo que nos trouxe…
Talvez as Mouras Encantadas existam por aí
E sejam elas a razão pela qual os pássaros voam
As flores rompem a terra áspera
As flores esperam que a felicidade espreite
Talvez amanhã…
Que hoje não estamos prontos para ser felizes.”

Também eu penso que a felicidade é isso mesmo: uma possibilidade, muitas vezes feita de simples instantes, que chega só quando estamos (verdadeiramente) prontos.

Ribeira de Pena, 26 de Abril de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Adeus a Vasco Rodrigues


A morte, como eu a vejo, é sempre estúpida.
Os mais velhos ensinam-nos que é apenas uma parte da vida, mas a mim foi-me sempre demasiado difícil compreender essa finitude definitiva, essa irrevogabilidade das partidas e das separações.
Tudo se torna ainda mais insensato quando se trata de um jovem, demasiadamente jovem para partir. Morreram três em Braga, num acidente que (como havemos de dizer?) não podia ter acontecido. Um deles chamava-se Vasco, tinha 19 anos, era (é) filho, sobrinho, neto de conhecidos e amigos ribeirapenenses. A MP recorda-se de um rapaz educado, alegre, inteligente.
Não me lembrava de um funeral tão concorrido e emotivo como este a que assisti, na tarde chuvosa e ventosa do dia 25 de Abril. Igreja cheia de gente, exterior cheio de gente. Gente cheia de comum dor. Entre muitas imagens impressivas, ficou-me a de um jovem universitário, trajado a rigor, que permaneceu à chuva e ao vento, a uns vinte metros de mim, durante a hora e meia da celebração religiosa. Ocorreu-me que o seu rosto molhado seria, em partes iguais, resultado de meteorologia e de lágrimas.
Dei um abraço à avó e ao tio do Vasco, e murmurei-lhes o clichê habitual: “Força! Força!” E, de certo modo, foi também isso que, na homilia, todos ouvimos dos religiosos oficiantes, com a diferença de que estes, para atenuar o nosso sofrimento, ali descreviam a morte como “antecâmara da vida eterna” [sic].

Apesar da minha formação católica, eu não tenho, infelizmente, esta tão convicta certeza acerca do destino das almas e do paraíso a haver. Mas estou certo desta minha profunda tristeza e desta minha absoluta solidariedade para com o pai do Vasco, da mãe do Vasco, dos irmãos do Vasco, da família e amigos do Vasco. É só esse pobre céu que tenho para lhes oferecer, queridos amigos: estar presente e juntar a minha dor à vossa. Força!

Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Idade da prudência


Ontem, durante a minha sexta sessão de jogging desde que cheguei a Coimbra, dei uma topada numa pedra e caí desamparado sobre um chão pejado de pedras. A MP, olhando depois para as minhas mãos e os meus joelhos, exclamou: "Pareces Cristo!" (Referia-se, naturalmente, ao sangue e às feridas que, mesmo após o banho, se mantiveram visíveis e feias.)
Não é a primeira vez que me acontece este fenómeno. Aí pelos 35 anos de idade, comecei a correr de forma mais económica, deslocando-me com passos mais curtos e mais lentos, elevando menos os pés, controlando melhor a respiração. Tornou-se, por isso, mais frequente a colisão dos pés com obstáculos do percurso - pedras, ramos, vegetação, desníveis.
A solução para este problema não é, obviamente, deixar de correr. É reforçar a concentração, os cuidados, antecipando e prevenindo situações perigosas.
Deixai que salte agora, como sempre faço, desta narrativa para uma leitura metafórico-alegórica, isto é, para o lado de lá dos episódios apenas avulsos. Que procure uma explicação compreensiva e cósmica.
Ei-la, talvez: a acumulação dos anos tem este lado penoso que é termos de reformar hábitos, resignando-nos às possibilidades de funcionamento que o corpo e a mente nos vão permitindo. Mas é também uma oportunidade para, fazendo uso da sabedoria que o Tempo maiúsculo nos oferece, interpretar a vida de modo mais eficaz e confortável.
Foz de quanto digo: vou correr hoje com redobrada atenção. 
Ou seja, vou correr prudentemente, sabiamente.

Coimbra, 21 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.futebolarcoberdense.blogspot.com.]

domingo, 20 de abril de 2014

Algumas notas sobre a noção de beleza


Não chega chorar a falta da beleza.
Não chega recordar a beleza perdida.
Não chega fazer de conta que a beleza não é essencial.
Não chega a gente contentar-se com um arremedo da beleza.
Não chega usar os sentidos para alcançar a beleza verdadeira. 
Não chega ficar à espera que a beleza essencial nos venha visitar.
É preciso acrescentar à procura o coração. 
É preciso acrescentar à possibilidade do encontro a fé. 
É preciso limpar a nossa atenção da poeira suja dos dias. 
É preciso ensinar à realidade o caminho para o infinito.
É preciso que haja imaginação. 
É preciso que haja amor.
A beleza virá.
A beleza acaba sempre por vir, naturalmente.

Coimbra, 19 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (cartaz do Cinema Paraíso, de G. Tornatore) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.intratecal.wordpress.com.]

sábado, 19 de abril de 2014

Quadra de amor


A sina da minha vida
Não se lê na minha mão;
Lê-se na palma sofrida
Do meu amor temporão.

Coimbra, 19 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.wikihow.com. Já agora, aqui fica uma nota - colhida em dicionário - sobre o sentido (complexo) de "temporão": «Originalmente, significava "aquilo que vinha antes do tempo próprio, normal", "precoce, prematuro"; O termo evoluiu depois semanticamente, passando a compreender o sentido de "serôdio", ou seja, "aquilo que aparece já fora do tempo certo, convencional". Assim, hoje já significa "aquilo que vem quando menos se espera, seja antes, seja depois".» Aquilo que, direi eu, acontece no matter what.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Mil anos de Gabo



Morreu Gabriel García Márquez, "Gabo" para os amigos. 
Lembro-me que lhe atribuíram o Nobel em 1982, ano em que entrei para Letras, em Coimbra. Devo confessar, contudo, que não li livros seus senão alguns anos mais tarde. O Daniel Abrunheiro falou-me, certa tarde, à porta da Brasileira, com absoluto deslumbramento, do romance Cem Anos de Solidão. Fiquei tão tocado por esse enlevo pelo colombiano que juntei alguns trocos e comprei, talvez na Livraria 115, aquele livro. Também me recordo de certo colega de Filosofia que, apercebendo-se da minha aquisição, suspirou e disse:
- Que inveja, Joaquim Jorge! Quem me dera estar a ler pela primeira vez esse romance!
Era Verão. Em Mira, numa espécie de garagem que eu, a MP e a VL alugámos para férias, pus-me a ler o romance. Tocado por um encanto cósmico, obsessivo, quase dispensei a comida, a conversa, os passeios. Creio que a minha mulher e a minha filha, por momentos, terão pensado: "Está doido!" E estava, sim, estava - doido pela escrita de García Márquez, pelo modo de contar, pela cor e ritmo de cenas e de personagens. (Um crítico espanhol explicou um dia, de forma lapidar, este poder tão extraordinário: "Domínio absoluto da narrativa.")
Por dia e meio, sem espaço para sonos ou outras interrupções, li, li, li. O final do romance, torrencial e surpreendente, misturava passado, presente e futuro, realidade e fantasia demencial, plausibilidade e implausibilidade. No devir da leitura, eu senti-me esmagado, perdidamente apaixonado pelo colombiano maravilhoso que fora capaz de inventar aquele modo tão novo de me contar histórias.
Depois, claro, li Crónica de Uma Morte AnunciadaO Amor nos Tempos de CóleraNinguém Escreve ao CoronelContos Peregrinos, tudo! Comprei também Viver para contá-la, li (emprestada pelo Conceição) uma biografia não autorizada sobre o escritor e gravei até, em VHS, um documentário sobre a sua vida e obra (que o Daniel, aliás, ainda não me devolveu).
Muitos alunos meus leram já comigo excertos da sua obra, ou ouviram-me falar de aspectos relativos ao território da narrativa que, frequentemente, exemplifico com a narrativa do grande, grande escritor. 
Já reli, ao longo destes anos, muitos dos seus livros e, como é normal nos grandes textos, a leitura (fruitiva, exegética) é sempre uma novidade. Sempre uma primeira vez.
A mim, que compreendo e sinto a literatura como uma espécie de (pessoal) religião, custa-me muito a morte física deste deus verdadeiro. Mas como percebemos, por exemplo, em O Amor nos Tempos de Cólera, só aparentemente é que a morte é mais forte ou definitiva que a vida. Que algumas vidas, pelo menos. Daqui a mil anos, a sua literatura estará por certo, ainda e para sempre, muito viva. Poderá isto parecer pouco no momento da sua partida. E, sim, é muito pouco. Mas a ideia consola-me, querido Gabo.

Coimbra, 17 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

Voz


Comemorou-se o "Dia Mundial da Voz" e alguns especialistas aproveitaram para divulgar as chamadas "profissões de risco" neste território do uso da comunicação oral. Na lista, lá aparecia, naturalmente, a profissão de professor.
A minha preocupação à roda desta questão não é recente. Contribuí, aliás, no presente ano lectivo, no seio do meu Agrupamento, para a organização de uma actividade versando a temática do uso da voz na profissão docente - e pude confirmar, na ocasião, a importância da prevenção e do tratamento de alguns problemas.
Já me aconteceu estar afónico por diversas vezes. Uma delas ocorreu há uns 30 anos, era eu ainda estudante universitário. Um grupo de jovens, cúmplices do prazer do café e dos livros (i.e., da vida), estava sentado à mesa do Tropical, em Coimbra. Lembro-me que, na nossa mesa, se discutia literatura francesa e preferências de modos e géneros literários. Eu tentei, por duas ou três vezes, entrar na conversa, mas o aparelho fonador recusava-se a servir-me o propósito, e tudo se me reduzia a um silvo patético e talvez risível. Resignei-me ao silêncio de ouvir. De certa forma, uma parte importante de mim, ali, inexistiu. Foi um dia de sofrimento, esse. A recuperação da fala apareceu-me só um ou dois dias depois, como uma libertação.
É também por isso que associo a ideia de liberdade à ideia de ter voz. 
E, já agora, quando gratamente falo de Abril, estou a falar porque quero, porque gosto e porque posso. Quero dizer: porque sou livre!

Coimbra, 17 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bocaderua.co.br.]

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Corrida



Durante o dia de ontem, recebi numerosos e amáveis cumprimentos pelo  meu aniversário. Para além de abraços e beijos in loco, chegaram-me mimos via telefone, via e_mail, via facebook.
Ocorreu-me, a propósito, esta imagem: um ciclista cumpre mais uma volta no circuito da vida. Sobre a meta parcial, quando ainda há presumíveis voltas por enfrentar, um querido público, composto por familiares, amigos e conhecidos, vem animá-lo a prosseguir, transmitindo-lhe palavras de apoio e carinho.
O ciclista agradece e pedala, prosseguindo.

Assim comigo: agradeço e prossigo.

Coimbra, 16 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bikerce.info.com.]