Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

domingo, 13 de abril de 2014

Homem rio de Abril


Há homens que são como rios, cursos de frescura, fomes em movimento ansiando por alguma foz digna de si, espelhos éticos que nos lembram a urgência de não ceder, de não desistir, de acreditar.
Salgueiro Maia incomodará decerto muitos excrementos que, por trágico acidente, tomaram o leme do nosso destino colectivo. Eles sabem (ou pressentem) que o futuro não é deles. Que é dos rios que correm. Que há-de ser da decência e do bem.
Maia, para mim, é Abril. Abril é uma lição. E é sempre. 
Sempre!

Coimbra, 13 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 12 de abril de 2014

O Macaco contado por Manuel António Pina

 
Sobre a mediocridade, senão indigência, de algumas personagens da nossa vida pública, sobretudo da política, já quase tudo terá sido dito. Mas, no caso daqueles deputados que, em enxurradas regulares, chegam ao parlamento, com a cartilha decorada e a cerviz pronta a curvar-se à voz dos chefes, vale sempre a pena puxar da pena e explicar-lhes muito bem a merda que são.
A última vergonha de que me recordo é a mudança de voto na questão da co-adoção por casais homossexuais. Passo por cima da hipocrisia mais óbvia - a de o discurso oficial de individualidades e claques colidir ruidosamente, em muitos casos, com a natureza verdadeira das suas personalidades e do seu modo de vida. Saliento, antes, a pouca importância que cada destes deputados atribui à sua consciência, facilmente vendida pelo conforto de uma cadeira parlamentar sob o nédio rabo. Vi alguns, coitados, embrulharem pobres explicações em má gramática e nenhum pudor - e em verdade vos digo que se enterravam ainda mais!
Tudo me veio, de novo, à lembrança ético-biliar na sequência de uma (re)leitura feita ao final da manhã, neste sábado tão formoso que me foi dado gozar - Queres Bodalo?, um livro escrito por Manuel António Pina e ilustrado por Pedro Proença (Lisboa, Ed. C.M. Lisboa/Museu Bordalo Pinheiro, 2005). Um dos contos intitula-se "O Pedido de Casamento", uma narrativa feita com base em bibliografia (passiva e ativa) sobre Rafael Bordalo Pinheiro. Neste conto, Pina fala de um macaco que, graças à sua esperteza, ao dinheiro e aos contactos que adquire na alta sociedade, se vai tornando importante, a ponto de obrigar os contemporâneos a esquecerem-se (ou a fingir que se esqueciam) da sua condição de macaco.
Até um pai, sabedor da aproximação do macaco à filha casadoira, esquece a indignação instintiva ("Um homem não, um macaco") e, tomando conhecimento da sua riqueza e das suas relações (a esposa dizia-lhe: "Um futuro ministro, Adalberto, um futuro ministro!"), acaba por ceder, não sem que certa empregada evidencie alguma estranheza ("olhando ainda uma última vez para trás, tentando descortinar como esconderia Basílio [o macaco] o rabo, se por dentro das calças se por baixo da casaca").
Eu creio que, na vida actual e pública, a cauda dos macacos se vê, com facilidade, na geral falta de ética e na lancinante pobreza da gramática e do vocabulário.

Coimbra, 12 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 11 de abril de 2014

O racionalismo é uma coisa do Inverno



Descartes desconfiava dos nossos sentidos. E apontava para o exemplo do sol que, visto de longe (da Terra), parecia uma laranja.
Ora, eu hoje levantei-me cedo e, ainda antes de chegar ao carro, devorei logo cinco gomos do sol de Coimbra.
Soube-me bem. Soube-me muito bem.
E monsieur Descartes, uma vez mais, não tinha razão.

Coimbra, 11 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.artcar.blogs.sapo.pt.

sábado, 5 de abril de 2014

Fruta de época




Na árvore delicada
da Melancolia
Colho fruta delicada -
Poesia.
Alguém quer uma talhada?
Alguém quer uma fatia?

Arco de Baúlhe, 04 de Abril de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (de Kostas Syrtariotis) foi colhida, com a devida vénia, em http://www. wordpress.com. Uma primeira versão deste poeminha foi escrita, a pedido da minha colega Olívia Sofia, tendo como mote um poema de Eugénio de Andrade, e foi teatralmente apresentada, no Sarau da Escola, por alunos do 2.º ciclo.]

quarta-feira, 26 de março de 2014

Mar que falta


Acontece-me, às vezes, sofrer da falta de mar.
Olho em volta e vejo muita beleza, é verdade: montanhas como corpos espreguiçando-se, árvores posando como dançarinas do meu caminho, algum rio correndo como se adivinhasse o que sinto. Mas falta o mar. Mas falta aquele horizonte mais belo de todos. Mas falta esse amor misterioso e constante que me acompanha desde que me lembro de o ver.
Porque a minha vida verdadeira começou na praia de Mira, num tempo em que eu era imortal. Naquele dia em que, à minha frente, surgiu aquele felino lindo e poderoso. Mar de Mira. Mar para sempre rumo. Mar para sempre destino.
Fazes-me falta.

Ribeira de Pena, 26 de Março de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (querida praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.soudagandara.blogspot,pt.]

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pai



O meu pai não era perfeito. Nem tudo quanto fez, enquanto vivo, foi bem feito.
Agora, que ido está, que faz ele?
Faz-me falta.

Ribeira de Pena, 19 de Março de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem é de um maravilhoso filho de Luís Filipe Rocha, Adeus, Pai, que vi ao pé da minha amadíssima filha, no Salão de Bombeiros de Ribeira de Pena, já lá vão uns dezassete anos.]

segunda-feira, 17 de março de 2014

Lembro-me...



Ontem, ao final da tarde, meu amigo Daniel Abrunheiro avisou-me, por telefone, de que iria enviar-me um mail muito interessante. É que passavam, explicou, cerca de 40 anos desde aquele dia em que militares vindos das Caldas tinham feito uma espécie de ensaio geral para o dia, mais formoso de todos, 25 de Abril de 1974. A rebelião, como se sabe, foi reprimida pelo regime, circunstância que adiou a chegada da liberdade querida. O Daniel deu-me conta de que, numa crónica então publicada no jornal República por Eugénio Alves, aparecia um texto sobre a revolta de 16 de Março, inteligentemente mascarada de análise da jornada futebolística: o Porto viera a Alvalade perder com o (meu) Sporting por 2-0 e o cronista aproveitou para falar da vitória dos “da capital”, não deixando de dar ânimo aos derrotados com uma nota proverbial e aparentemente anódina – a de que perder uma batalha não significar perder a guerra. A História não demorou senão um mês e uma semana a cobri-lo de razão.

Umas três horas depois desta conversa telefónica, fui ao Jumbo de Vila Real e comprei, por um único eurinho, um curioso livro de Ferreira Fernandes, intitulado Lembro-me que… (Oficina do Livro, Lisboa, 2004). O autor (jornalista reputado, sem dúvida um dos melhores cultores do género crónica que houve-há em Portugal) inspirou-se em duas experiências literárias anteriormente levadas a cabo nos Estados Unidos (por John Brainard, com I remember) e em França (por Georges Perec, com Je me souviens) - e, no seu caso, optou por, mais ou menos de memória, recordar fragmentos do passado que pessoalmente viveu entre 1 de Janeiro e 25 de Abril de 1974.

O mais interessante, neste documento, é o facto de um texto quase exclusivamente jornalístico-factual se tornar, devido à organização narrativa e ao ritmo (anaforicamente pontuado pela expressão “Lembro-me que…” repetida umas 330 vezes), numa literatura bastante próxima da poesia. Este achado genológico tem ainda a embrulhá-lo o aconchego de um amado tema – o 25 de Abril da nossa saudade.

A última frase do livro é: “Lembro-me.” E até esta aparente incompletude (parece que o autor se esqueceu do resto da frase – lembra-se de quê?) é retoricamente bem pensada: o que ali se quer dizer é, enquanto remate lúcido e talvez dorido, que quem viveu Abril não se esquece do que significou aquela data. Não se esquece nem se pode esquecer do que significa (tem de significar, hoje e sempre) aquela data.

E digo-vos: eu também me lembro.



Ribeira de Pena, 16 de Março de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho


terça-feira, 4 de março de 2014

Ao jovem Domingos que não pode ter morrido


A notícia atingiu-me como um pontapé estúpido, uma agressão brutal na cabeça, no coração. O "Luisinho" morreu, disseram-me subitamente, ainda a manhã de Inverno se preparava, em Coimbra, para ser o frio, a ventania e a chuva do costume.
"Luisinho" era como chamavam, em Ribeira de Pena, a um rapaz de quem tive a honra de ser professor. Eu tratava-o pelo nome que encontrei num livro de ponto de há dezoito anos: Domingos.
Era um rapaz inteligente, de bom carácter, amante da literatura, do desporto, dos amigos - e de causas nobres. Ao longo dos anos, apreciei gratamente o seu crescimento em em cidadania, o seu desenvolvimento académico, a sua maturação pessoal. Em alturas diferentes, contou-me que fizera Erasmus, que trabalhava em Vila Real, que tinha projetos. Sabia-me bem, por outro lado, o seu respeito e a sua estima por um antigo professor a envelhecer. 
Contava com ele, como conto, em geral, com os melhores jovens que vou conhecendo e que, na medida das minhas possibilidades, vou ajudando a crescer, para ajudar o futuro a ser melhor. O seu futuro e o meu. O futuro do nosso país, o futuro do mundo.
Uma doença traiçoeira roubou-o. Ao Domingos. Ao futuro.
Há tempos, li alguns textos que o Domingos escreveu, durante uma peregrinação até Santiago de Compostela. A parte dessa diarística por mim lida, tanto quanto agora recordo, não anunciava o fim da sua viagem. E a minha pobre homenagem a este amigo, tão cedo saído da nossa vila comum, é exactamente pensar nele, doravante, como alguém para sempre em demanda de outras paragens. Como se o Domingos não morresse. Como se não morrêssemos.


Coimbra, 02 de Março de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Alvadia, terra natal do Domingos) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cm-rpena.pt.]

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Mãe vista do outro mesmo lado


Eu era menino, tinha a altura da tua cintura

E tu conduzias-me pela mão até à escola

Prevenindo medos e acidentes rodoviários.

Consolaste-me quando o Nuno morreu na curva

Do Café (a mãe dele tinha, ao chorar, as mãos vazias)

E a minha febre curava-se melhor quando tu estavas

Murmurando optimismos, segurando a minha testa durante

O vómito a quarenta graus, naquelas frágeis noites

Da minha imortalidade interrompida. Eras, Mãe, o regaço

Da felicidade completa que só bem se percebe ao recordar-se.

Depois fizeste setenta e quatro anos e ficaste pequenina

Avessa a horários, distraída, tão fraca. Chamas diabretes

À diabetes, dizes palavrões, esqueces-te de nomes

E vomitas muitas vezes, depois das refeições. Eu seguro-te

A testa com a minha mão e garanto-te que a dor já vai passar.

Amo-te tanto, Mãe, não te posso perder. Lembro-me de ouvir

(À altura serena da tua cintura) a promessa de nunca

Morrermos, e naquele tempo nada disto era mentira.

Não digas palavrões, mãe, dá-me a tua mão, eu não deixo

Que te aconteça mal algum. Vamos os dois ver Coimbra

Do outro lado do rio.


Coimbra, 31 de Janeiro de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em maeporacaso.spaceblog.com.]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Teatro & Poesia (com Amor)


No dia 14 de fevereiro, a convite da Dra. Maria José, responsável pela Biblioteca Municipal do Arco, dinamizei uma oficina de expressão dramática destinada a alunos do Centro Escolar (do 3.º e 4.º anos de escolaridade). No aconchego pretextual do "Dia de S. Valentim", essa invenção dos centros comerciais que, com alguma perícia, podemos tornar numa data formosa e pedagogicamente amável, tive oportunidade de lhes  recordar as diversas formas de sentir e exprimir o Amor, bem como o papel da literatura (e da arte em geral) na compreensão e expressão dos seres humanos. Pude também contribuir (oxalá) para o reforço, neles, do gosto pela poesia e, num plano mais lato, pela leitura e pela escrita. Finalmente, chamei-lhes a atenção para o valor do Teatro enquanto representação profunda e dinâmica de ideias e sentimentos inerentes à condição humana.
Durante cinquenta minutos, lemos e encenámos episódios da vida. Isto é, reflectimos sobre questões importantes e, de um modo geral, divertimo-nos numa espécie de abraço cúmplice (ou cósmico), que nos tornou para sempre, talvez, mutuamente conhecidos e mutuamente estimados.

Raramente me sinto tão útil ou valioso como nestas ocasiões em que me visita a formosa ilusão de estar, por instantes mágicos, ao serviço do Futuro.

Arco de Baúlhe, 14 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos foram tiradas pela anfitriã formal do evento, a amabilíssima Dra. Maria José.]

S. Valentim assim Joaquim



O amor é uma estrada,
Um caminho, uma ponte
Às vezes é um deserto
Outras vezes uma rua entre a multidão.
Isto é, o amor é
Uma forma de andar por aí -
Espera-me por favor
Até eu chegar a ti.

Ribeira de Pena, 13 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.colorirgratis.com.]

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Espuma dos dias


No devir dos olhares muito limpos
E da lembrança das ternuras vocais
Ficam os lábios nem sempre visíveis
Da querida presença
O abraço incumprido do desejo
Certa luz ficando ou perdendo-se
Um nome arrumado a um canto
Do tempo
Sorrisos anónimos que podiam ser
(Podiam ter sido)
Para mim.
No fundo tudo é adeus
Amor.
Adeus é uma palavra terrivelmente mortal.

Cabeceiras de Basto, 12 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem lembra um romance maravilhoso de Boris Vian, L'écume des jours.]

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Mãe sempre



A rádio sublinhava, ontem, de meia em meia hora, a iminência de muita chuva, rajadas de vento, frio e neve. Antes de nos deitarmos, a MP quis ter a certeza de que a nossa filha estava bem e telefonou-lhe. A resposta deixou-nos dormir. A VL já é uma senhora, quiçá dispensasse a eterna angústia em que os progenitores vivem. Mas, a cada instante, o sangue bate à porta do coração - e que se há-de fazer senão abrir-lhe a porta e responder aos seus apelos?
Hoje, de manhã, o telemóvel tocou. Também a minha Mãe queria saber de nós. Garantimos que estávamos bem. A minha Mãe tem mais de 70 anos. O filho já fez 50. E a sua aflição era, afinal, tão profunda quanto a da MP.
De modo que ser Mãe não se mede por idades de progenitores e gerados. Não tem prazo de validade. É coisa de corpo e alma sem lugar a interrupções. Um estado para sempre, no tempo e no modo, presente. Como, de forma geral, o Amor todo. 

Ribeira de Pena, 10 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bloguedecrioula.wordpress.com.]

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Viver apesar de


Às vezes a vida cansa
Mas um homem dança

Às vezes a meta não se vê
Mas um homem crê

Às vezes o chão magoa
Mas um homem voa

Às vezes o percurso é triste
Mas um homem resiste

Às vezes não há caminho
Mas um homem faz o caminho.

Arco de Baúlhe, 07 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.joanunes.com.]

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Para sempre


 
A flor depois da morte ‘inda respira

Em posteriores odores de si dispersos -

A mortalidade é uma mentira

Porque há versos.

 
Arco de Baúlhe, 03 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho