Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pai



O meu pai não era perfeito. Nem tudo quanto fez, enquanto vivo, foi bem feito.
Agora, que ido está, que faz ele?
Faz-me falta.

Ribeira de Pena, 19 de Março de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem é de um maravilhoso filho de Luís Filipe Rocha, Adeus, Pai, que vi ao pé da minha amadíssima filha, no Salão de Bombeiros de Ribeira de Pena, já lá vão uns dezassete anos.]

segunda-feira, 17 de março de 2014

Lembro-me...



Ontem, ao final da tarde, meu amigo Daniel Abrunheiro avisou-me, por telefone, de que iria enviar-me um mail muito interessante. É que passavam, explicou, cerca de 40 anos desde aquele dia em que militares vindos das Caldas tinham feito uma espécie de ensaio geral para o dia, mais formoso de todos, 25 de Abril de 1974. A rebelião, como se sabe, foi reprimida pelo regime, circunstância que adiou a chegada da liberdade querida. O Daniel deu-me conta de que, numa crónica então publicada no jornal República por Eugénio Alves, aparecia um texto sobre a revolta de 16 de Março, inteligentemente mascarada de análise da jornada futebolística: o Porto viera a Alvalade perder com o (meu) Sporting por 2-0 e o cronista aproveitou para falar da vitória dos “da capital”, não deixando de dar ânimo aos derrotados com uma nota proverbial e aparentemente anódina – a de que perder uma batalha não significar perder a guerra. A História não demorou senão um mês e uma semana a cobri-lo de razão.

Umas três horas depois desta conversa telefónica, fui ao Jumbo de Vila Real e comprei, por um único eurinho, um curioso livro de Ferreira Fernandes, intitulado Lembro-me que… (Oficina do Livro, Lisboa, 2004). O autor (jornalista reputado, sem dúvida um dos melhores cultores do género crónica que houve-há em Portugal) inspirou-se em duas experiências literárias anteriormente levadas a cabo nos Estados Unidos (por John Brainard, com I remember) e em França (por Georges Perec, com Je me souviens) - e, no seu caso, optou por, mais ou menos de memória, recordar fragmentos do passado que pessoalmente viveu entre 1 de Janeiro e 25 de Abril de 1974.

O mais interessante, neste documento, é o facto de um texto quase exclusivamente jornalístico-factual se tornar, devido à organização narrativa e ao ritmo (anaforicamente pontuado pela expressão “Lembro-me que…” repetida umas 330 vezes), numa literatura bastante próxima da poesia. Este achado genológico tem ainda a embrulhá-lo o aconchego de um amado tema – o 25 de Abril da nossa saudade.

A última frase do livro é: “Lembro-me.” E até esta aparente incompletude (parece que o autor se esqueceu do resto da frase – lembra-se de quê?) é retoricamente bem pensada: o que ali se quer dizer é, enquanto remate lúcido e talvez dorido, que quem viveu Abril não se esquece do que significou aquela data. Não se esquece nem se pode esquecer do que significa (tem de significar, hoje e sempre) aquela data.

E digo-vos: eu também me lembro.



Ribeira de Pena, 16 de Março de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho


terça-feira, 4 de março de 2014

Ao jovem Domingos que não pode ter morrido


A notícia atingiu-me como um pontapé estúpido, uma agressão brutal na cabeça, no coração. O "Luisinho" morreu, disseram-me subitamente, ainda a manhã de Inverno se preparava, em Coimbra, para ser o frio, a ventania e a chuva do costume.
"Luisinho" era como chamavam, em Ribeira de Pena, a um rapaz de quem tive a honra de ser professor. Eu tratava-o pelo nome que encontrei num livro de ponto de há dezoito anos: Domingos.
Era um rapaz inteligente, de bom carácter, amante da literatura, do desporto, dos amigos - e de causas nobres. Ao longo dos anos, apreciei gratamente o seu crescimento em em cidadania, o seu desenvolvimento académico, a sua maturação pessoal. Em alturas diferentes, contou-me que fizera Erasmus, que trabalhava em Vila Real, que tinha projetos. Sabia-me bem, por outro lado, o seu respeito e a sua estima por um antigo professor a envelhecer. 
Contava com ele, como conto, em geral, com os melhores jovens que vou conhecendo e que, na medida das minhas possibilidades, vou ajudando a crescer, para ajudar o futuro a ser melhor. O seu futuro e o meu. O futuro do nosso país, o futuro do mundo.
Uma doença traiçoeira roubou-o. Ao Domingos. Ao futuro.
Há tempos, li alguns textos que o Domingos escreveu, durante uma peregrinação até Santiago de Compostela. A parte dessa diarística por mim lida, tanto quanto agora recordo, não anunciava o fim da sua viagem. E a minha pobre homenagem a este amigo, tão cedo saído da nossa vila comum, é exactamente pensar nele, doravante, como alguém para sempre em demanda de outras paragens. Como se o Domingos não morresse. Como se não morrêssemos.


Coimbra, 02 de Março de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Alvadia, terra natal do Domingos) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cm-rpena.pt.]

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Mãe vista do outro mesmo lado


Eu era menino, tinha a altura da tua cintura

E tu conduzias-me pela mão até à escola

Prevenindo medos e acidentes rodoviários.

Consolaste-me quando o Nuno morreu na curva

Do Café (a mãe dele tinha, ao chorar, as mãos vazias)

E a minha febre curava-se melhor quando tu estavas

Murmurando optimismos, segurando a minha testa durante

O vómito a quarenta graus, naquelas frágeis noites

Da minha imortalidade interrompida. Eras, Mãe, o regaço

Da felicidade completa que só bem se percebe ao recordar-se.

Depois fizeste setenta e quatro anos e ficaste pequenina

Avessa a horários, distraída, tão fraca. Chamas diabretes

À diabetes, dizes palavrões, esqueces-te de nomes

E vomitas muitas vezes, depois das refeições. Eu seguro-te

A testa com a minha mão e garanto-te que a dor já vai passar.

Amo-te tanto, Mãe, não te posso perder. Lembro-me de ouvir

(À altura serena da tua cintura) a promessa de nunca

Morrermos, e naquele tempo nada disto era mentira.

Não digas palavrões, mãe, dá-me a tua mão, eu não deixo

Que te aconteça mal algum. Vamos os dois ver Coimbra

Do outro lado do rio.


Coimbra, 31 de Janeiro de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em maeporacaso.spaceblog.com.]

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Teatro & Poesia (com Amor)


No dia 14 de fevereiro, a convite da Dra. Maria José, responsável pela Biblioteca Municipal do Arco, dinamizei uma oficina de expressão dramática destinada a alunos do Centro Escolar (do 3.º e 4.º anos de escolaridade). No aconchego pretextual do "Dia de S. Valentim", essa invenção dos centros comerciais que, com alguma perícia, podemos tornar numa data formosa e pedagogicamente amável, tive oportunidade de lhes  recordar as diversas formas de sentir e exprimir o Amor, bem como o papel da literatura (e da arte em geral) na compreensão e expressão dos seres humanos. Pude também contribuir (oxalá) para o reforço, neles, do gosto pela poesia e, num plano mais lato, pela leitura e pela escrita. Finalmente, chamei-lhes a atenção para o valor do Teatro enquanto representação profunda e dinâmica de ideias e sentimentos inerentes à condição humana.
Durante cinquenta minutos, lemos e encenámos episódios da vida. Isto é, reflectimos sobre questões importantes e, de um modo geral, divertimo-nos numa espécie de abraço cúmplice (ou cósmico), que nos tornou para sempre, talvez, mutuamente conhecidos e mutuamente estimados.

Raramente me sinto tão útil ou valioso como nestas ocasiões em que me visita a formosa ilusão de estar, por instantes mágicos, ao serviço do Futuro.

Arco de Baúlhe, 14 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[As fotos foram tiradas pela anfitriã formal do evento, a amabilíssima Dra. Maria José.]

S. Valentim assim Joaquim



O amor é uma estrada,
Um caminho, uma ponte
Às vezes é um deserto
Outras vezes uma rua entre a multidão.
Isto é, o amor é
Uma forma de andar por aí -
Espera-me por favor
Até eu chegar a ti.

Ribeira de Pena, 13 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.colorirgratis.com.]

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Espuma dos dias


No devir dos olhares muito limpos
E da lembrança das ternuras vocais
Ficam os lábios nem sempre visíveis
Da querida presença
O abraço incumprido do desejo
Certa luz ficando ou perdendo-se
Um nome arrumado a um canto
Do tempo
Sorrisos anónimos que podiam ser
(Podiam ter sido)
Para mim.
No fundo tudo é adeus
Amor.
Adeus é uma palavra terrivelmente mortal.

Cabeceiras de Basto, 12 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem lembra um romance maravilhoso de Boris Vian, L'écume des jours.]

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Mãe sempre



A rádio sublinhava, ontem, de meia em meia hora, a iminência de muita chuva, rajadas de vento, frio e neve. Antes de nos deitarmos, a MP quis ter a certeza de que a nossa filha estava bem e telefonou-lhe. A resposta deixou-nos dormir. A VL já é uma senhora, quiçá dispensasse a eterna angústia em que os progenitores vivem. Mas, a cada instante, o sangue bate à porta do coração - e que se há-de fazer senão abrir-lhe a porta e responder aos seus apelos?
Hoje, de manhã, o telemóvel tocou. Também a minha Mãe queria saber de nós. Garantimos que estávamos bem. A minha Mãe tem mais de 70 anos. O filho já fez 50. E a sua aflição era, afinal, tão profunda quanto a da MP.
De modo que ser Mãe não se mede por idades de progenitores e gerados. Não tem prazo de validade. É coisa de corpo e alma sem lugar a interrupções. Um estado para sempre, no tempo e no modo, presente. Como, de forma geral, o Amor todo. 

Ribeira de Pena, 10 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bloguedecrioula.wordpress.com.]

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Viver apesar de


Às vezes a vida cansa
Mas um homem dança

Às vezes a meta não se vê
Mas um homem crê

Às vezes o chão magoa
Mas um homem voa

Às vezes o percurso é triste
Mas um homem resiste

Às vezes não há caminho
Mas um homem faz o caminho.

Arco de Baúlhe, 07 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.joanunes.com.]

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Para sempre


 
A flor depois da morte ‘inda respira

Em posteriores odores de si dispersos -

A mortalidade é uma mentira

Porque há versos.

 
Arco de Baúlhe, 03 de Fevereiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Poesia



Deixo a poesia num canto do quarto
E vou trabalhar.
Ela aparece-me por vezes em lugares inconvenientes
E ri-se do meu espanto ou indignação.
“Sai daqui”, digo-lhe então, embaraçado.
Ela ri-se e espreguiça-se, gaiata e trocista,
Sobre um rascunho de acta
Sobre uma grelha de critérios
Sobre um guardanapo de pastelaria
Sobre uma planificação séria.
“Sai tu daí”, grita, fingindo que me beija.
“Já aqui estava antes de ti”, reclamo eu.
“Parece-te”, diz ela. “Eu já aqui andava
Antes de existires.”
Lá acabamos por regressar a casa
Juntos como corpo e sombra
Filhos ambos do mesmo sol.

Ribeira de Pena, 31 de Janeiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.encruzilhadasliterarias.blogspot.com.]

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Exegese do coração


Gosto de imaginar Deus como um Grande Leitor. Leitor, diga-se, do imenso, absoluto, infinito, cósmico Livro dos Tempos. Imagino-O a folhear o Seu livro à hora do morno entardecer do Paraíso. Nós somos personagens - umas vezes principais, outras secundárias. Deus ri-se connosco, zanga-se, comove-se, surpreende-se, castiga-nos, perdoa-nos, perde-se na leitura e volta, uma vez por outra, atrás (divinas analepses,estas).
Quando está cansado, interrompe a leitura e dorme placidamente na sua nuvem preferida (que tem a forma do colo de minha Mãe, há meio século, no quarto humilde da nossa casa). Voltará à leitura apenas quando Lhe apetecer. 
Só no fim dos tempos Ele preencherá a ficha de leitura sobre esta narrativa. E só então saberemos, ó personagens distraídas como eu, o que o Grande Leitor achou do que fomos. Isto é: do que, nesta ilusão chamada Presente, somos.
A eternidade é talvez isso: a ideia com que o maior leitor do universo ficou, ficará de nós.

Ribeira de Pena, 28 de Janeiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho

[Este texto foi originalmente publicado (com ligeiríssimas diferenças) no jornal da Escola Básica de Arco de Baúlhe,o Arco-Íris, em Julho de 2007.A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.escritoradeartes.com]

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

País pessoal em 4 andamentos


1

Portugal é o meu lugar certo:

Chega-me que haja mar

O sol por perto

As horas passando devagar.

 

2

Desamo os portugueses sem amor

Pelo essencial país

Que só algum mapa interior

Percebe e diz.

 

3

Também acordo às vezes acordo indignado

E verbero ferozmente a corrupção

Sinto-me estrangeiro, deslocado

Sem chão –

 

Mas depois o sol lá me aparece

E lembro-me de Mira, a praia Mãe –

De modo que a revolta me falece

E fico bem.

 

4

Ó Portugal ingénuo, distraído

Lírico, trapalhão, trabalhador

Burguês, valdevinos, destemido -

Ó meu amor!

 

Arco de Baúlhe, 27 de Janeiro de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Sobre ver



Há talvez dedos nesse olhar perverso
E todo o real visto é pele ardente;
Toca-se vendo e também o inverso
Na dança involuntária de quem sente.

Cabeceiras de Basto, 24 de Janeiro de 2014.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é do maravilhoso filme A Amante do tenente francês, realizado por Karel Reisz (segundo um argumento de Harold Pinter), com interpretação de  Jeremy Irons e da eterna Meryl Streep.]

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O riso indecente




Houve, na Idade Média, quem relacionasse o riso  com o Diabo. Excessos, ignorância, fundamentalismo enviesado, nós sabemos.
Mas talvez haja, também, a esta luz moderna e lúcida dos nossos tempos, motivos para novamente identificarmos com o velho Satã d'antanho certos esgares zigomáticos de algumas aves sem cerviz. Explico: vi hoje um excremento engravatado a rir-se despudoradamente, contentinho da silva, por ser o défice de 2013, afinal, inferior ao que a troika exigira a Portugal. Isto é, descontado o facto de muitos (como eu) terem sido espoliados dos seus salários, a coisa está a correr bem para os cínicos executivos desta merda a que chamamos Presente.
Eu, que escrupulosamente pago ao Banco, ao Senhorio, à EDP, à TMN, à PT, às Autarquias, às Finanças, aos Senhores das estradas, sou vítima de roubo violento e conspícuo - e há uns vermes sem gramática nem vergonha que se riem...
Estou oficialmente farto de vigaristas e bandidos!


Arco de Baúlhe, 24 de fevereiro de 2014.

Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.athiopia.blogspot.com.]