Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Refrega


É pequeno e pobre o meu poder,
que tão pouco ordeno, quase nada
obtenho, por exemplo, a proibir
a morte, a suspender despedidas, a
ressuscitar-te juvevirginal chegando,
lembras-te, oferecendo-me o beijo
para sempre primeiro.

Defendo-me mal, tu sabes, apenas
sobrevivo.
Atiro canhões de naïves nuvens contra
o exército da mo(r)dernidade, isto é,
o cimento diário que nos atiram
para cima, e a minha guerra é afinal 
talvez ridícula e improdutiva, apesar
de melodiosa e às vezes bela.

A prosa, meu amor, vai-nos ganhando
o mundo.
E até a minha revolta frequentemente é 
mal compreendida:
vê tu como eu ergo um poema contra
a brutidade inimiga
e o impronunciável general vencedor confunde 
estes meus versos
na ousada folha branca
com uma usada rendição.

Mas não, amor, não.

Vila Real, 09 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ocontraditorio.pt.]

2 quadras com desejo no fim (cf. Le plaisir du texte, de Barthes)


1
Basta a sugestão indicial
De coxa ou quase seio que não vejo
Para eu me acender da seminal
Dor talvez amável do desejo.

2
Sei bem dessa mínima nudez
Minúscula janela de ensejo
Que acende no meu olhar burguês
Selvagens labaredas de desejo.

Vila Real, 10 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do filme de Brian de Palma, Testemunha de um crime) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhar.sapo.pt.]

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Os Cinco, de Enid Blyton: a aventura de ler

Enid Blyton nasceu em Londres, em 1897. Embora a sua escrita se tenha destinado, maioritariamente, aos mais jovens, é hoje um dos nomes mais populares da literatura universal. Desde cedo revelou uma capacidade notável para criar histórias cheias de aventura e emoção. Os seus heróis não se limitavam, na maior parte dos casos, a uma história em particular: a autora parecia não ser capaz de se desligar tão facilmente destas personagens tão cheias de vida, pelo que em muitos casos um título dava início a uma série de volumes. Foi o caso, por exemplo, de Noddy, Os Cinco, Os Sete, ou As gémeas.
Enid Blyton foi um fenómeno em matéria de imaginação e labor. Ao longo da sua existência de 71 anos, escreveu cerca de 800 livros. As suas obras estão traduzidas um pouco por todo o mundo, em mais de noventa línguas.
Esta autora inglesa marcou maravilhosamente a minha infância e o meu princípio de adolescência. Habituei-me a comprar, um a um, os livros da colecção “Os cinco” e muitas vezes tive a sensação de que o Júlio, a Ana, o David, a Zé e até o cão Tim eram meus colegas diários de brincadeiras e cumplicidades.
Quando casei, tinha um irmão pequeno, de dez anos apenas. Notei que ele estava triste por eu sair de casa e, num rasgo emotivo, ofereci-lhe os vinte e um volumes da coleção de “Os cinco”. Ele, infelizmente nunca foi dado à leitura e, como me confessou mais tarde, não chegou a ler um dos voluminhos sequer. Mas, doze anos mais tarde, na altura do seu próprio casamento, teve também um gesto sublime: sabendo que a minha filha, então já com nove anos, adorava ler, veio a minha casa e ofereceu-lhe os vinte e um livros da colecção…
As aventuras destas cinco personagens (sim, o fiel e corajoso Tim também é uma personagem) têm uma dimensão de “policial”, mistério e suspense. Mas são sobretudo viagens por lugares interessantíssimos, em que os jovens primos (Júlio, David e Ana são primos da simpática e “arrapazada” Zé) vivem histórias emocionantes, separados da autoridade e conforto das respectivas famílias, solucionando enigmas ou reparando injustiças com esforço, bravura e inteligência.
Como eu invejei, tantas vezes, as merendas deliciosas que, no intervalo ou no fim das aventuras, as mães da Zé ou dos outros três primos preparavam para os esfomeados jovens!
Sei que houve já uma série televisiva inspirada nestes heróis e que hoje podemos rever as histórias em DVD. Mas nada – nada mesmo! – consegue substituir a magia de, pela leitura, viajarmos com os primos mais aventureiros que jamais conheci!
A colecção completa compreende os seguintes títulos: Os Cinco na Ilha do Tesouro (1942); Os Cinco numa Nova Aventura (1943); Os Cinco Voltam à Ilha (1944); Os Cinco e os Contrabandistas (1945); Os Cinco e o Circo (1946); Os Cinco e os Espiões (1947); Os Cinco e os Comboios Misteriosos (1948); Os Cinco Metem-se em Sarilhos (1949); Os Cinco e a Cigana (1950); Os Cinco e as Jóias Roubadas (1951); Os Cinco Divertem-se a Valer (1952); Os Cinco e a Luz Destruidora (1953); Os Cinco no Pântano Misterioso (1954); Os Cinco numa Aventura Americana (1955); Os Cinco e as Passagens Secretas (1956); Os Cinco e os Aviadores Desaparecidos (1957); Os Cinco e o Mistério na Neve /1958); Os Cinco e os Gémeos Silenciosos (1960); Os Cinco nos Rochedos do Demónio (1961); Os Cinco e a Ilha dos Murmúrios (1962); Os Cinco e o Cientista Distraído (1963).
No ano em que Enid Blyton publicou o último livro de “Os cinco”, nascia em Coimbra um bebé gordinho a quem deram o nome de Joaquim Jorge Carvalho. Mal sabia ele que, à sua espera, estavam vinte e uma aventuras prontinhas a consumir…

Arco de Baúlhe, 06 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[Texto elaborado no âmbito da promoção da leitura na Escola Básica de Arco de Baúlhe.]



O Soldado João, de Luísa Ducla Soares: literatura contra a guerra



Luísa Ducla Soares nasceu em Lisboa, a 20 de julho de 1939. Licenciou-se em Letras, em Filologia Germânica. Iniciou a sua atividade profissional como tradutora, consultora literária e jornalista. Foi diretora da revista de divulgação cultural Vida, entre 1971 e 1972. Escreveu para diversos jornais e revistas. No campo da criação literária, estreou-se com um livro de poemas, intitulado Contrato, em 1970. Trabalhou, como secretária adjunta no Gabinete do Ministro da Educação (entre 1976 e 1978). Trabalha, desde 1979, na Biblioteca Nacional.
Como escritora, orientou a sua atividade para a literatura destinada a crianças e jovens, tendo publicado mais de 80 obras. A sua obra foi considerada, desde cedo, uma das mais importantes na área da literatura infanto-juvenil de língua portuguesa. Recusou, por motivos políticos, o Grande Prémio de Literatura Infantil que o governo de Marcelo Caetano quis atribuir-lhe, em 1973, pelo seu livro História da Papoila. Recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian para o melhor livro do biénio 1984-1985 por 6 Histórias de Encantar e, em 1996, foi galardoada com o Grande Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da sua obra. Em 2004 foi selecionada como candidata portuguesa ao Prémio Hans Christian Andersen.
O livro O Soldado João relata-nos uma simples e interessantíssima história sobre um certo militar que, no quotidiano da guerra, adota uma atitude profundamente humanista e divertida, muito diversa da que seria previsível e normal para um combatente. No início, os seus superiores reagem negativamente àquele comportamento tão pouco convencional e, no âmbito da atividade guerreira, tão pouco produtivo. No final da história, contudo, acaba por ser ele a promover, com as suas ações originais e surpreendentes, a apetecida paz.
Pormenor interessante: esta formosa história, que Luísa Ducla Soares tão bem conta (e Assunção Melo tão bem ilustra), lê-se em menos de meia hora.
Conselho de Amigo para os meus queridos alunos: vão à prateleira certa e escolham O Soldado João. Vale muito a pena.

Arco de Baúlhe, 22 de Outubro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[Texto elaborado no âmbito da promoção da leitura na Escola Básica de Arco de Baúlhe.]

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O(u)rografia



Quem passa por Trás-os-Montes
Sofre a ausência do mar;
Traz um olhar para os montes
Leva os montes no olhar.

Ribeira de Pena, 06 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A fotografia foi colhida, com a devida vénia, em http://www.omelhordeportugalestaaqui.wordpress.com.]

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Fazer o quê


Ando a reler, sem pressa, os volumes de À la recherche du temps perdu, de Proust. Estive, ainda há pouco, no quarto do narrador, cúmplice de uma certa angústia sua-minha: que fazer com o nosso tempo? 
Eu não sei quantos anos me faltam nesta viagem que, por minha vontade, duraria até sempre. A vida, claro. Sei (sabei), de qualquer modo, que serão sempre anos de menos, tendo em conta os sonhos que, como estrelas na noite, me vão iluminando apetites, murmurando beijos, interrompendo neuras e cansaços. 
Tenho ainda nas minhas mãos um milhão de gestos certos por fazer. 
Há ainda muito tempo e muito mundo, senhor Proust, para lá do perdido.

Ribeira de Pena, 04 de Novembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poeta


Vale o poeta pouco
No mundo industrial:
Distrai-se, ledo ou louco,
Só a passear
E a só ver e amar
O essencial.

Ribeira de Pena, 22 de Outubro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adilsoncosta.com.]

Quase


 
Enquanto não caem as folhas
São
Quase pássaros
São
Quase voo.

Ribeira de Pena, 22 de Outubro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.orizamartins.com.]

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A gramática e a querida literatura




1. Uma excelente aluna queixava-se, no final do ano lectivo passado, do facto de, nas aulas de Português (esclareço: nas minhas aulas de Português), haver pouco tempo para ler. Explico melhor (explicou-me ela melhor): apetecia-lhe que, nas aulas de Português, houvesse mais tempo para ler. Mais tempo para saborear a magia dos livros, das histórias, das palavras bailarinas ou acrobatas.
2. Eis, da minha parte, uma confissão triste: ela tinha razão. Ela tem razão. Culpo a extensão dos programas. E culpo, em particular, a obscena quantidade de conteúdos gramaticais a ensinar ou a consolidar.
3. Alguns amáveis teóricos defendem a possibilidade de se leccionar gramática nos (suaves e breves) intervalos da leitura e da escrita. Sugiro a quem, de boa -fé, queira estudar o assunto o favor de espreitar os programas de Português do 5.º. do 6.º, do 7.º, do 8.º e do 9.º ano. Verificarão facilmente que não é possível cumprir os programas, em matéria de gramática, sem efectivamente limitar o exercício da leitura, da interpretação, da discussão dos textos e da escrita a partir dos textos lidos - com óbvio dano da qualidade e do prazer das aulas de Português. Eu sei disso porque amo a literatura. E sei-o do ponto de vista do aluno (que também fui e, em boa verdade, continuo sendo) e, naturalmente, do ponto de vista do docente.
4. Uma real reforma no ensino do Português, que realmente quisesse elevar as competências dos alunos na comunicação oral e escrita, passaria pela supressão tout court, no primeiro e segundo ciclos, do ensino da gramática (na sua dimensão, sublinho, de conhecimento explícito da língua). No terceiro ciclo, o trabalho no território do conhecimento explícito da língua deveria limitar-se a aspectos verdadeiramente básicos. Só no ensino secundário se justificaria o ensino da gramática com a profundidade e a complexidade a que, no presente, se obrigam os alunos do terceiro ciclo. Mais: neste caso, os alunos do ensino secundário (em particular, os de humanidades) deveriam ter, além de Português, uma disciplina específica e exclusivamente ocupada da gramática – a que poderíamos, talvez, chamar “Gramática da Língua Portuguesa”.
5. Sei que o que digo não coincide com a vontade oficial da contemporaneidade. Mas eu colho da minha velhice esta possibilidade da livre expressão, sem medo e sem falsos pudores. Digo o que penso.

Cabeceiras de Basto, 18 de Outubro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www. neverendingstory.com.]

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Praia de Mira forever

Guardo nos meus olhos a praia, a Mãe,
A eternidade horizontal do mar
E tudo acorda quando, sonhando,
A vida verdadeira me regressa.

Ainda tenho o sal algures na boca
E o sol anos setenta no meu rosto
Ainda tenho o riso do meu Pai
E o vinho sossegado do Avô.

Acordo quando durmo, novamente
Em Mira, entre a macia mão da Mãe
E os alvores de amores inaugurais
Que eu, ao mesmo tempo, era e lia.

Vemos, todos vivos, a tele-gabriela
No café do jorge. Eis o certo instante
Em que a juvenil estrangeira, de repente,
Me dá um olhar verde como um beijo.

(Olhai que a poesia é talvez isto, os olhos
Abertos por dentro, a amável praia possível
Para sempre, Portugal campeão de hóquei,
Joaquim Agostinho explicado pelo Pai.)

Ribeira de Pena, 10 de Outubro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Tele-Visões


 
No último fim-de-semana (antes, durante e depois das eleições), vi muita televisão. A minha memória, que é feita de amor e (menos frequentemente) de inteligência, reteve quatro programas. Recordo-os aqui, brevemente.

1.           No canal Syfy, um documentário mostra como seria a Terra se, subitamente, deixasse de haver nela gente. Isto é, pessoas. Isto é, humanidade. O exercício é, por natureza, impossível: a especulação habitante do condicional (“como seria” a Terra, disse eu) implica a presença do olhar humano. Mas adiante. O que me importa sublinhar, no devir assombrado daquele documentário, é a confirmadíssima pequenez e irrelevância da civilização humana, à luz magna do Tempo maiúsculo, essa eternidade feita de milhares-milhões de anos. Segundo os cálculos dos académicos envolvidos no argumentário do filme, em menos de cem mil anos (um piscar de olhos, na biografia do universo), qualquer vestígio da nossa presença teria desaparecido. E estava eu preocupado com o método de Hondt aplicado à minha Junta de Freguesia!

2.           Na TV Record, há um programa intitulado, salvo erro, “O Caldeirão do Huk”. Uma das rubricas compreende a transformação da habitação de determinada família, normalmente muito pobre, que a produção elege entre (adivinho) milhares de pedidos. No domingo, dia 29 de Setembro, o milagre tocou à porta de habitantes de Pará de Minas, no interior do Brasil. Vi uma mão de trinta e dois anos, viúva, com sete filhos a cargo. Filhos, recordo-me, muito bonitos e com idades entre um e quinze anos. O que me comoveu, naquela pobreza quase obscena, foi o amor (corrijo: o AMOR) que manifestamente existia entre mãe e filharada. Pormenor: era uma família que, por razões de penúria financeira, nunca se aviara num supermercado. A mãe contava a história do último réveillon (foi assim que ela disse: réveillon) do agregado, na casa muito pobre daquele bairro muito pobre. Só havia, para a ceia, feijão e arroz. E, a meio da cozedura, tinha-se acabado o gás do fogão. Um dos filhos (talvez com 12 anos) revoltou-se e chorou no ombro da progenitora. Esta prometeu-lhe, então, sem saber por que razão o fazia, que no ano seguinte tudo estaria melhor. Também explicou ao repórter que, no início de cada mês, quando recebia o magro salário, levava um dos filhos a almoçar numa lanchonete ou restaurante da zona, de modo a que a descendência tivesse contacto com lugares mais bonitos, onde se comia com garfo e faca. Porquê? “Porque a cultura é muito importante”, explicou a mãe. Eu chorei durante a reportagem, confesso. E, quando os vizinhos de favela gritavam, felizes, à chegada dos camiões para obras de transformação da casa, “Ela merce! Ela merece!”, também eu o gritei interiormente: “Ela merece!” Ela, quero dizer, a heroína exemplar daquela vida, a minha irmã brasileira, minha querida irmã do planeta Terra.

3.           Num dos canais de notícias, vi uma reportagem sobre a vida nas prisões dos Estados Unidos. Entre tantos acidentes humanos, havia aquele rapaz de dezanove anos, à espera de ser condenado a prisão perpétua, que confessava ter assassinado um homem devido a uma dívida de vinte dólares. Explicava, cândido: “Não me queria pagar. Por isso, matei aquele filho da puta!” O repórter quis saber o que sentia o preso, perante a perspectiva de uma vida inteira na prisão. O entrevistado levou alguns segundos a escolher a resposta, depois disse: “Alívio.” Relief, man! No desenvolvimento, entre sorrisos tristes, diz que nunca conheceu o pai, que a mãe (alcoólica, drogada e ocasionalmente prostituta) raramente estava em casa. Que o irmão mais velho andava sempre a fugir, quer da polícia, quer dos outros gangues. Que a irmã era prostituta desde pequena e que desprezava a família. A prisão – repetia – era um alívio. Eu percebo. Isto é, dói-me que a prisão, qualquer prisão, represente um alívio para este preso, para qualquer preso, mas percebo. Como não?

 

Arco de Baúlhe, intervalo d’almoço (antes de voltar à poesia do Daniel Abrunheiro), 04 de Outubro de 20132.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mises.org.br.]

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Neuro-meteorologia


Ouço o rumor fascista da chuva
E depois vejo a paisagem morrendo
Sob a lágrima outonal
Em mim.

A depressão aparece em forma de gotas
Mas é gasoso o seu abraço seguinte
Pele e coração adentro
Serpenteando.

O fim do Verão é um veneno mortal
Este vento sou eu gemendo as saudades
Da praia feliz e da limpa luz
De Coimbra.

Ribeira de Pena, 26 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.doyoudrinkcoffee.blogspot.com.]

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

António Ramos Rosa

 



Morreu ontem, mas não bem, António Ramos Rosa. Digo que não bem morreu porque este homem escreveu. Melhor: porque este homem escreveu muitas e lindas páginas. Creio que a literatura, se for mesmo boa, é razoavelmente imorredoira. E é esse pedaço de Ramos Rosa que foge, afinal, à escravidão da notícia de sua morte.
Há vinte anos, numa das Escolas onde lecionei, tive cinco alunos espanhóis, beneficiários de um qualquer programa de intercâmbio. Foram, durante um período letivo, estudantes verdadeiramente interessados e meritórios. Lembro-me de, à despedida, ter oferecido, a cada um deles, um livrinho de poemas. O autor era - adivinhais - António Ramos Rosa. Esse será, talvez, um eficaz testemunho da admiração que nutro, desde há muito, por este nosso poeta (tão) solar.
Na minha dissertação de doutoramento, tive oportunidade de o citar, a propósito de um belíssimo poema, intitulado “O horizonte das palavras”. Aí, António Ramos Rosa explica a pulsão da escrita como a tentativa aturada, constante, sistemática, dedicada e inevitável de encontrar as palavras que digam o mundo, o nosso mundo, e nos digam a nós no mundo. As palavras não substituem o mundo, sublinhe-se; mas são uma necessidade para encontrar uma linguagem, uma estratégia, um equilíbrio, um alvor, um horizonte de verdade essencial que anima quem escreve (e, em sendo bem sucedida a comunicação, quem lê):
 
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.



(Cf. António Ramos Rosa, Acordes, Quetzal Editores 1990, 2.ª edição, p. 81.)

 

Adeus, mas não bem adeus, António Ramos Rosa.
 
Cabeceiras de Basto, 25 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho



 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Talvez hipérbole


Ouço, durante algum do entardecer, à mesa de um Café, certo velho queixando-se dos governantes: o roubo de reforma, os serviços cortados na vila, o preço dos medicamentos, a filha desempregada. Percebo que há ali um crescendo lírico-nervoso. O homem acaba mesmo por desabafar, numa espécie de nostalgia revolucionária:
"Isto era pegar no governo todo e lançá-lo ao mar!"
Depois, como se se arrependesse do volume e da violência do enunciado, acrescenta, olhando de viés para mim:
"Que eu, diga-se, não tenho nada contra o mar..."

Ribeira de Pena, 18 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

Ser poeta


O poeta é um ser que nasce com a necessidade de dizer, dizendo-se. A sua linguagem, como a sua vida, tende a alimentar-se das várias vidas que vai conhecendo e da sua própria - e, por outro lado, a alimentar, com essa sua vida e as que vai (a seu modo) fazendo suas, as vidas dos outros homens.
Vive-se, vê-se, sente-se, diz-se. De muitas pobrezas, diria, se faz a riqueza do poema feito.
Em Mar me quer, de Mia Couto (Lisboa, Ed. Caminho, 2000), aí pela página 47, leio:
"O caracol se parece com o poeta: lava a língua no caminho da sua viagem."

Cabeceiras de Basto, 19 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho