Guardo nos meus olhos a praia, a Mãe,
A eternidade horizontal do mar
E tudo acorda quando, sonhando,
A vida verdadeira me regressa.
Ainda tenho o sal algures na boca
E o sol anos setenta no meu rosto
Ainda tenho o riso do meu Pai
E o vinho sossegado do Avô.
Acordo quando durmo, novamente
Em Mira, entre a macia mão da Mãe
E os alvores de amores inaugurais
Que eu, ao mesmo tempo, era e lia.
Vemos, todos vivos, a tele-gabriela
No café do jorge. Eis o certo instante
Em que a juvenil estrangeira, de repente,
Me dá um olhar verde como um beijo.
(Olhai que a poesia é talvez isto, os olhos
Abertos por dentro, a amável praia possível
Para sempre, Portugal campeão de hóquei,
Joaquim Agostinho explicado pelo Pai.)
Ribeira de Pena, 10 de Outubro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Tele-Visões
No
último fim-de-semana (antes, durante e depois das eleições), vi muita
televisão. A minha memória, que é feita de amor e (menos frequentemente) de inteligência,
reteve quatro programas. Recordo-os aqui, brevemente.
1.
No
canal Syfy, um documentário mostra como seria a Terra se, subitamente, deixasse
de haver nela gente. Isto é, pessoas. Isto é, humanidade. O exercício é, por
natureza, impossível: a especulação habitante do condicional (“como seria” a Terra, disse eu) implica a
presença do olhar humano. Mas adiante. O que me importa sublinhar, no devir assombrado
daquele documentário, é a confirmadíssima pequenez e irrelevância da
civilização humana, à luz magna do Tempo maiúsculo, essa eternidade feita de
milhares-milhões de anos. Segundo os cálculos dos académicos envolvidos no
argumentário do filme, em menos de cem mil anos (um piscar de olhos, na
biografia do universo), qualquer vestígio da nossa presença teria desaparecido.
E estava eu preocupado com o método de Hondt aplicado à minha Junta de Freguesia!
2.
Na
TV Record, há um programa intitulado, salvo erro, “O Caldeirão do Huk”. Uma das
rubricas compreende a transformação da habitação de determinada família,
normalmente muito pobre, que a produção elege entre (adivinho) milhares de
pedidos. No domingo, dia 29 de Setembro, o milagre tocou à porta de habitantes
de Pará de Minas, no interior do Brasil. Vi uma mão de trinta e dois anos,
viúva, com sete filhos a cargo. Filhos, recordo-me, muito bonitos e com idades
entre um e quinze anos. O que me comoveu, naquela pobreza quase obscena, foi o
amor (corrijo: o AMOR) que manifestamente existia entre mãe e filharada. Pormenor:
era uma família que, por razões de penúria financeira, nunca se aviara num
supermercado. A mãe contava a história do último réveillon (foi assim que ela disse: réveillon) do agregado, na casa muito pobre daquele bairro muito
pobre. Só havia, para a ceia, feijão e arroz. E, a meio da cozedura, tinha-se
acabado o gás do fogão. Um dos filhos (talvez com 12 anos) revoltou-se e chorou
no ombro da progenitora. Esta prometeu-lhe, então, sem saber por que razão o fazia,
que no ano seguinte tudo estaria melhor. Também explicou ao repórter que, no
início de cada mês, quando recebia o magro salário, levava um dos filhos a
almoçar numa lanchonete ou restaurante da zona, de modo a que a descendência
tivesse contacto com lugares mais bonitos, onde se comia com garfo e faca.
Porquê? “Porque a cultura é muito importante”, explicou a mãe. Eu chorei
durante a reportagem, confesso. E, quando os vizinhos de favela gritavam, felizes,
à chegada dos camiões para obras de transformação da casa, “Ela merce! Ela merece!”,
também eu o gritei interiormente: “Ela merece!” Ela, quero dizer, a heroína exemplar
daquela vida, a minha irmã brasileira, minha querida irmã do planeta Terra.
3.
Num
dos canais de notícias, vi uma reportagem sobre a vida nas prisões dos Estados
Unidos. Entre tantos acidentes humanos, havia aquele rapaz de dezanove anos, à
espera de ser condenado a prisão perpétua, que confessava ter assassinado um
homem devido a uma dívida de vinte dólares. Explicava, cândido: “Não me queria
pagar. Por isso, matei aquele filho da puta!” O repórter quis saber o que
sentia o preso, perante a perspectiva de uma vida inteira na prisão. O entrevistado
levou alguns segundos a escolher a resposta, depois disse: “Alívio.” Relief, man! No desenvolvimento, entre
sorrisos tristes, diz que nunca conheceu o pai, que a mãe (alcoólica, drogada e
ocasionalmente prostituta) raramente estava em casa. Que o irmão mais velho andava
sempre a fugir, quer da polícia, quer dos outros gangues. Que a irmã era prostituta
desde pequena e que desprezava a família. A prisão – repetia – era um alívio.
Eu percebo. Isto é, dói-me que a prisão, qualquer prisão, represente um alívio
para este preso, para qualquer preso, mas percebo. Como não?
Arco de Baúlhe, intervalo d’almoço
(antes de voltar à poesia do Daniel Abrunheiro), 04 de Outubro de 20132.
Joaquim Jorge Carvalho[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mises.org.br.]
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
Neuro-meteorologia
Ouço o rumor fascista da chuva
E depois vejo a paisagem morrendo
Sob a lágrima outonal
Em mim.
A depressão aparece em forma de gotas
Mas é gasoso o seu abraço seguinte
Pele e coração adentro
Serpenteando.
O fim do Verão é um veneno mortal
Este vento sou eu gemendo as saudades
Da praia feliz e da limpa luz
De Coimbra.
Ribeira de Pena, 26 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.doyoudrinkcoffee.blogspot.com.]
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
António Ramos Rosa
Morreu
ontem, mas não bem, António Ramos Rosa. Digo que não bem morreu
porque este homem escreveu. Melhor: porque este homem escreveu muitas
e lindas páginas. Creio que a literatura, se for mesmo boa, é
razoavelmente imorredoira. E é esse pedaço de Ramos Rosa que foge,
afinal, à escravidão da notícia de sua morte.
Há
vinte anos, numa das Escolas onde lecionei, tive cinco alunos espanhóis,
beneficiários de um qualquer programa de intercâmbio. Foram, durante um período
letivo, estudantes verdadeiramente interessados e meritórios. Lembro-me de, à
despedida, ter oferecido, a cada um deles, um livrinho de poemas. O autor era -
adivinhais - António Ramos Rosa. Esse será, talvez, um eficaz testemunho
da admiração que nutro, desde há muito, por este nosso poeta (tão) solar.
Na
minha dissertação de doutoramento, tive oportunidade de o citar, a propósito
de um belíssimo
poema, intitulado “O horizonte das palavras”. Aí, António Ramos Rosa
explica a pulsão da escrita como a
tentativa aturada, constante, sistemática, dedicada e inevitável de encontrar
as palavras que digam o mundo, o nosso mundo, e nos digam a nós no mundo. As
palavras não substituem o mundo, sublinhe-se; mas são uma necessidade para
encontrar uma linguagem, uma estratégia, um equilíbrio, um alvor, um horizonte de verdade essencial que anima
quem escreve (e, em sendo bem sucedida a comunicação, quem lê):
Eu sou agora o que a linguagem mostra
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.
(Cf. António Ramos Rosa, Acordes, Quetzal Editores 1990, 2.ª edição, p. 81.)
nas suas verdes estratégias, nas suas pontes
de música visual: o equilíbrio preenche os buracos
com arcos, colinas e com árvores.
Um alvor nasceu nas palavras e nos montes.
O impronunciável é o horizonte do que é dito.
(Cf. António Ramos Rosa, Acordes, Quetzal Editores 1990, 2.ª edição, p. 81.)
Adeus, mas não bem adeus, António Ramos Rosa.
Cabeceiras de Basto, 25 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Talvez hipérbole
Ouço, durante algum do entardecer, à mesa de um Café, certo velho queixando-se dos governantes: o roubo de reforma, os serviços cortados na vila, o preço dos medicamentos, a filha desempregada. Percebo que há ali um crescendo lírico-nervoso. O homem acaba mesmo por desabafar, numa espécie de nostalgia revolucionária:
"Isto era pegar no governo todo e lançá-lo ao mar!"
Depois, como se se arrependesse do volume e da violência do enunciado, acrescenta, olhando de viés para mim:
"Que eu, diga-se, não tenho nada contra o mar..."
Ribeira de Pena, 18 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
Ser poeta
O poeta é um ser que nasce com a necessidade de dizer, dizendo-se. A sua linguagem, como a sua vida, tende a alimentar-se das várias vidas que vai conhecendo e da sua própria - e, por outro lado, a alimentar, com essa sua vida e as que vai (a seu modo) fazendo suas, as vidas dos outros homens.
Vive-se, vê-se, sente-se, diz-se. De muitas pobrezas, diria, se faz a riqueza do poema feito.
Em Mar me quer, de Mia Couto (Lisboa, Ed. Caminho, 2000), aí pela página 47, leio:
"O caracol se parece com o poeta: lava a língua no caminho da sua viagem."
Cabeceiras de Basto, 19 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Higiene poética
Lave-se o poema, isto é,
Salve-se o poema de todo o banzé
Retórico palavroso e vão, ou seja,
De todo o falar que dizer não seja.
Arco de Baúlhe, 13 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.verdadeexpressa.blogspot.com.]
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Realidade não
A realidade mundial está cheia de percentagens, de estatísticas, de gráficos, de metas e objectivos, de folhas apaneleiradas de Excell, de índices, de previsões, de projectos dejectos abjectos.
A realidade é, ao entardecer da vida, um nojo.
Viajar, portanto, pela linguagem, até muito fora daqui!
Ribeira de Pena, 06 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
Restos
Sorvo os restos do Verão como a velhinha que colhe da fruteira, na cozinha, os últimos frutos, expurgando-os pacientemente da podridão e do pó.
Cabeceiras de Basto, 04 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Bens essenciais
Pago, como a maioria de quem ainda tem emprego, os meus compromissos com o salário de cada mês: renda de casa, alimentação, gasóleo, empréstimos bancários, roupa, água,
luz, gás. Dou o meu sangue
funcionário pelo soldo mensal que paga a sobrevivência.
Temo, contudo, que aquilo de que
verdadeiramente preciso para ser feliz é coisa outra. Vejamos…
Preciso
de sol. Preciso de mar (ou da ideia de mar disponível para, assim que possa,
nos encontrarmos). Preciso de pessoas (sobretudo, das pessoas que amo). Preciso
da minha casa. Preciso de tempo. Preciso de solidão boa. Preciso de paz.
Preciso de ideais. Preciso da minha cidade. Preciso de palavras. Preciso de
livros. Preciso de justiça. Preciso de histórias. Preciso de saber. Preciso de
liberdade. Preciso de ordem. Preciso de conversar. Preciso de sentido (aliás,
de sentidos). Preciso de lógica. Preciso de asseio. Preciso de verdade. Preciso
de chegar (ou de acreditar que chegarei, ou de que estou a chegar). Preciso de
Beleza.
Coimbra, 03 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto da praia de Mira) foi colhida, com a devida
vénia, em http://www.fotodependente.com.]
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Incondicionalmente
Para
a VL
Amo
a minha filha. Amo-a incondicionalmente.
Mas
não é tudo fácil na história deste amor. Às vezes, divergimos, querelamos,
amuamos. Quando, sem sombra de dúvida, a culpa é minha, trata-se quase sempre
de eu ser exigente com as pessoas que amo e admiro. Tendo a vê-las à altura do
que são e do que podem ser, suportando pouco que, por distracção, fiquem – aqui
e ali – aquém da sua justa realização.
Talvez
eu exagere.
Peço-te desculpa, Vanovska. É aliás provável que já não mude. Mas,
mesmo quando sou irritante, é por amor.
Desejo-te
longa e feliz vida! Conta com o pai. Enquanto ele for vivo, há-de estar sempre
a teu lado. Incondicionalmente. (E sei que isto vale também para a mãe. Temos,
ambos, muito orgulho em ti.)
Já
agora: “incondicionalmente” significa “sem condições”. Qualquer jurista sabe
isso, pá…
Coimbra, 03 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
domingo, 1 de setembro de 2013
Apografia 30 (e última): Infinitivo psico-verbal
Outra tarde passada em Buarcos, com a MP e a VL. Viemos
de fugida, porque à noite haveria Sporting-Benfica na televisão. Era preciso
tempo para banho e, logo a seguir, viagem até ao centro comercial.
Pelas seis e meia da tarde, fiz ainda o percurso
mínimo do Choupal. Trinta minutos, talvez menos. Dou agora por encerrado,
formalmente, o meu Agosto corredor. Foi curto. A querida vida é sempre curta.
(Parêntesis: gostaria muito que a saúde da minha Mãe fosse
melhor. Gostaria muito que o meu tio T., no hospital há uma semana, ficasse
bom. É tão fraco o meu desejo contra a cínica realidade.)
Eu sou, mais do que um corredor, um caminhante. E de
muitos caminhos se faz o meu caminhar. De muitas partidas se faz o meu começar.
De muitas chegadas se faz o meu chegar. Infinitivo, infinitivo, infinitivo.
Remate razoável disto tudo: a minha vida é, no essencial, infinitiva como o mar
visto da foz.
PS: Termina aqui a série de “apografias” com que
decidi pontuar os meus dias de férias. Aliás, de liberdade. Terei decerto saudades
deste processo físico e mental que, com a amada Coimbra em fundo, alegremente
protagonizei.
Coimbra, 31 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto do grande Carlos Lopes!) foi colhida, com a
devida vénia, em http://www.forumsccp.com.]
sábado, 31 de agosto de 2013
Apografia 29: Heaney forever
Passei o dia em Buarcos, com a MP e a VL. Sol, mar
maravilhoso (não obstante o friozinho da água, pois), o tempo suspenso como
habitualmente acontece nestes instantes voadores, no dificultoso reino da
felicidade.
Aí pelas seis da tarde, corri pela marginal – dois
mil e duzentos metros até à subida que leva à Serra da Boa Viagem, e dois mil e
duzentos metros no regresso ao ponto de partida. Foram cinquenta minutos de
exercício com (digamos assim) o mar à cabeceira.
À noite, frango de churrasco com a família
(incluindo a Mãe) e oportunidade para telever a segunda parte de um grande
jogo, o Chelsea - Bayern de Munique. Rico serão, portanto.
Soube, no final deste dia 30, que morreu o grande
poeta Seamus Heaney, autor que leio e admiro desde 1982. Foi, como se sabe,
Prémio Nobel da Literatura, em 1995. Lembro-me muitas vezes de um verso seu,
que ironicamente glosa uma discussão interminável que ainda ocupa boa parte da
humanidade: a existência ou não de vida após a morte. Heaney punha assim o problema
(cito de cor):
“Is there life
before death?”
Os grandes poetas também morrem? Talvez sim…
E, contudo, no que me caiba a mim decidir, direi
que não. Que nunca.
Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.narrativemagazine.com.]
Apografia 28: Carrocel sazonal
Mais tarde do que habitualmente, faço o jogging
choupalino em velocidade razoável. Começo às oito da noite, acabo às nove menos
um quarto. Houve tempo para antes, falar com o meu amigo RC e combinar, sem
certezas, um jogo de futebol para sete de Setembro.
O fim do Verão incomoda-me como uma ferida
estúpida. Lembro-me do que sentia, em criança, quando terminava o tempo da
minha viagem em carrinhos de choque, durante as festas da cidade. Saía do
veículo como saio – percebo agora – do meu amado Agosto: contrariado,
deficientemente resignado. Triste.
Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adapcede.org.]
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Apografia 27: Sucesso, dinheiro, poder
Dia prévio ao regresso da MP. Corro uma hora no
costumeiro percurso choupalino, entre as seis e meia e as sete e meia do meu
entardecer coimbrinha. Tenho tempo, enquanto suo, para mastigar uma
curiosa afirmação do cantor (e actor) Will Smith, que li à hora do café, no Correio da Manhã. Deixo-a aqui:
“O dinheiro e o sucesso não mudam as pessoas.
Apenas nos revelam quem realmente as pessoas são.”
Eu acrescentaria a estas duas variantes (dinheiro,
sucesso) uma terceira: o poder. Amen.
Coimbra, 28 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.dreamstime.com.]
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