Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Realidade não


A realidade mundial está cheia de percentagens, de estatísticas, de gráficos, de metas e objectivos, de folhas apaneleiradas de Excell, de índices, de previsões, de projectos dejectos abjectos.
A realidade é, ao entardecer da vida, um nojo.

Viajar, portanto, pela linguagem, até muito fora daqui!

Ribeira de Pena, 06 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

Restos


Sorvo os restos do Verão como a velhinha que colhe da fruteira, na cozinha, os últimos frutos, expurgando-os pacientemente da podridão e do pó.

Cabeceiras de Basto, 04 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Bens essenciais


Pago, como a maioria de quem ainda tem emprego, os meus compromissos com o salário de cada mês: renda de casa, alimentação, gasóleo, empréstimos bancários, roupa, água, luz, gás. Dou o meu sangue funcionário pelo soldo mensal que paga a sobrevivência. 
Temo, contudo, que aquilo de que verdadeiramente preciso para ser feliz é coisa outra. Vejamos…

Preciso de sol. Preciso de mar (ou da ideia de mar disponível para, assim que possa, nos encontrarmos). Preciso de pessoas (sobretudo, das pessoas que amo). Preciso da minha casa. Preciso de tempo. Preciso de solidão boa. Preciso de paz. Preciso de ideais. Preciso da minha cidade. Preciso de palavras. Preciso de livros. Preciso de justiça. Preciso de histórias. Preciso de saber. Preciso de liberdade. Preciso de ordem. Preciso de conversar. Preciso de sentido (aliás, de sentidos). Preciso de lógica. Preciso de asseio. Preciso de verdade. Preciso de chegar (ou de acreditar que chegarei, ou de que estou a chegar). Preciso de Beleza.

Coimbra, 03 de Setembro de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto da praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fotodependente.com.]


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Incondicionalmente

Para a VL



Amo a minha filha. Amo-a incondicionalmente.
Mas não é tudo fácil na história deste amor. Às vezes, divergimos, querelamos, amuamos. Quando, sem sombra de dúvida, a culpa é minha, trata-se quase sempre de eu ser exigente com as pessoas que amo e admiro. Tendo a vê-las à altura do que são e do que podem ser, suportando pouco que, por distracção, fiquem – aqui e ali – aquém da sua justa realização.
Talvez eu exagere. 

Peço-te desculpa, Vanovska. É aliás provável que já não mude. Mas, mesmo quando sou irritante, é por amor.
Desejo-te longa e feliz vida! Conta com o pai. Enquanto ele for vivo, há-de estar sempre a teu lado. Incondicionalmente. (E sei que isto vale também para a mãe. Temos, ambos, muito orgulho em ti.)

Já agora: “incondicionalmente” significa “sem condições”. Qualquer jurista sabe isso, pá…

Coimbra, 03 de Setembro de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 1 de setembro de 2013

Apografia 30 (e última): Infinitivo psico-verbal


Outra tarde passada em Buarcos, com a MP e a VL. Viemos de fugida, porque à noite haveria Sporting-Benfica na televisão. Era preciso tempo para banho e, logo a seguir, viagem até ao centro comercial.

Pelas seis e meia da tarde, fiz ainda o percurso mínimo do Choupal. Trinta minutos, talvez menos. Dou agora por encerrado, formalmente, o meu Agosto corredor. Foi curto. A querida vida é sempre curta.

(Parêntesis: gostaria muito que a saúde da minha Mãe fosse melhor. Gostaria muito que o meu tio T., no hospital há uma semana, ficasse bom. É tão fraco o meu desejo contra a cínica realidade.)

Eu sou, mais do que um corredor, um caminhante. E de muitos caminhos se faz o meu caminhar. De muitas partidas se faz o meu começar. De muitas chegadas se faz o meu chegar. Infinitivo, infinitivo, infinitivo.

Remate razoável disto tudo: a minha vida é, no essencial, infinitiva como o mar visto da foz.



PS: Termina aqui a série de “apografias” com que decidi pontuar os meus dias de férias. Aliás, de liberdade. Terei decerto saudades deste processo físico e mental que, com a amada Coimbra em fundo, alegremente protagonizei.

Coimbra, 31 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (foto do grande Carlos Lopes!) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.forumsccp.com.]

sábado, 31 de agosto de 2013

Apografia 29: Heaney forever


Passei o dia em Buarcos, com a MP e a VL. Sol, mar maravilhoso (não obstante o friozinho da água, pois), o tempo suspenso como habitualmente acontece nestes instantes voadores, no dificultoso reino da felicidade.
Aí pelas seis da tarde, corri pela marginal – dois mil e duzentos metros até à subida que leva à Serra da Boa Viagem, e dois mil e duzentos metros no regresso ao ponto de partida. Foram cinquenta minutos de exercício com (digamos assim) o mar à cabeceira.
À noite, frango de churrasco com a família (incluindo a Mãe) e oportunidade para telever a segunda parte de um grande jogo, o Chelsea - Bayern de Munique. Rico serão, portanto.

Soube, no final deste dia 30, que morreu o grande poeta Seamus Heaney, autor que leio e admiro desde 1982. Foi, como se sabe, Prémio Nobel da Literatura, em 1995. Lembro-me muitas vezes de um verso seu, que ironicamente glosa uma discussão interminável que ainda ocupa boa parte da humanidade: a existência ou não de vida após a morte. Heaney punha assim o problema (cito de cor):

“Is there life before death?”

Os grandes poetas também morrem? Talvez sim…
E, contudo, no que me caiba a mim decidir, direi que não. Que nunca.

Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.narrativemagazine.com.]

Apografia 28: Carrocel sazonal


Mais tarde do que habitualmente, faço o jogging choupalino em velocidade razoável. Começo às oito da noite, acabo às nove menos um quarto. Houve tempo para antes, falar com o meu amigo RC e combinar, sem certezas, um jogo de futebol para sete de Setembro.

O fim do Verão incomoda-me como uma ferida estúpida. Lembro-me do que sentia, em criança, quando terminava o tempo da minha viagem em carrinhos de choque, durante as festas da cidade. Saía do veículo como saio – percebo agora – do meu amado Agosto: contrariado, deficientemente resignado. Triste.

Coimbra, 29 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.adapcede.org.]

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Apografia 27: Sucesso, dinheiro, poder


Dia prévio ao regresso da MP. Corro uma hora no costumeiro percurso choupalino, entre as seis e meia e as sete e meia do meu entardecer coimbrinha. Tenho tempo, enquanto suo, para mastigar uma curiosa afirmação do cantor (e actor) Will Smith, que li à hora do café, no Correio da Manhã. Deixo-a aqui:

“O dinheiro e o sucesso não mudam as pessoas. Apenas nos revelam quem realmente as pessoas são.”

Eu acrescentaria a estas duas variantes (dinheiro, sucesso) uma terceira: o poder. Amen.

Coimbra, 28 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.dreamstime.com.]

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Apografia 26: Despovoamento


Sete horas e meia da noite. Corro novamente a “volta grande” e a “volta pequena” do Choupal. Regresso pela Estação Velha, o Lidl, a rua dr. Manuel Almeida e Sousa. Chego às oito e meia. Ainda há calor. Verão & incêndios, diz a minha Mãe.
Do portão da casa materna, olhos voltados na direcção de Eiras, a paisagem é semelhante à que vi, numa qualquer tarde de 1973.

Vejo agora uma casa em ruínas, no cimo do monte, entre a estrada inferior e o Ingote. Lembro-me dessa casa quando ainda viva: gente entrando e saindo, crianças brincando na vegetação fronteira, uma senhora idosa saindo de um táxi, muito elegante e carregada de sacos, o carteiro com medo do cão.
O Tempo é um deus despovoador.

Coimbra, 27 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (uma casa qualquer para ilustrar razoavelmente o meu texto) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.wikipedia-org.]

Apografia 25: Cantiga precisa-se


Das sete e meia da noite às oito horas e vinte e quatro, fiz corrida non-stop no Choupal do costume. Durante esta viagem física e mental, ocorreu-me uma ideia para letra de fado coimbrinha. Concretizei o poema no dia seguinte, em Café da zona de Eiras. 


Suspira a bela, ao luar
Mal escondendo de quem passa
O pranto doce.
Custa-lhe não escutar
Cantigas dignas da graça
Que ela fosse.

Percebo bem a tristeza
Da frágil flor, suplicando
À janela.
É que precisa a Beleza
Que sempre se vá cantando
Que é bela!

Coimbra, 27 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.literatodovale.blogspot.pt.]

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Apografia 24: Mortalidade


Dói-me o ombro esquerdo e um tendão perto do tornozelo (também esquerdo).
Já fiz gelo, já apliquei uma pomada anti-inflamatória, já repousei. A sensação de dor permanece em mim, teimosamente. Hesito, hoje, em correr.
Mas custa-me interromper esta prova estival que me impus desde Julho. Decido-me, afinal, às seis e meia da tarde, por um treino mais  ligeiro: apenas vinte e cinco minutos entre o Choupal e o açude, em modo de resistência; regresso mais lento, em modo de “endurance”.

Soube que o meu tio T. está bastante doente, no hospital. A conversa, em casa da Mãe, estende-se tristemente para as temáticas da velhice e da doença. Ainda me doem ombro e perna. A minha Mãe sente-se cansada. Uma brisa fria parece anunciar o fim do meu amado Verão.
O Verão é bom. A vida também. Custa-me tanto que haja fim.

Coimbra, 25 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

Apografia 23: Reportagem

Casa de partida (Mãe), Estação Velha, Choupal, hipódromo, regresso. Início da corrida às seis da tarde. Chegada às sete e meia. O exercício físico propriamente dito não ultrapassou os trinta e cinco minutos, mas a passagem pelo Choupal tomou-me mais tempo do que habitualmente. Explico-o.

Na vala que desvia (virtuosamente) a água do Mondego para os campos agrícolas, vi um cão grande e negro debatendo-se, nadando de forma desajeitada, lutando pela vida, não conseguindo subir até à margem. Pareceu-me uma tarefa quase impossível, aquela, porque o cimento que alberga a água é uma espécie de parede oblíqua, decerto impeditiva da aderência de mãos ou. No caso, patas. O cão desesperava. O dono, um rapaz de vinte e poucos anos, perseguia o animal, à velocidade da corrente. Um outro rapaz gritava pelo animal e pelo amigo, correndo também. Eu estava no lado contrário daquela margem e doía-me não poder ajudar.
O dono do cão conseguiu ganhar uns dez metros de vantagem e deitou-se sobre a vala, estendo as mãos enquanto aguardava a passagem do cão. O cão percebeu o socorro e aproximou-se do salvador. Por um instante julgámos que iria conseguir solucionar o problema. Afinal, o homem acabou por cair também.
Agora, cão e homem debatiam-se, levados pela feroz corrente. O amigo do dono tentou deitar-se e oferecer os pés como ponto de apoio. Ia caindo também. Transeuntes, cúmplices daquele desespero, tentavam ajudar. Todos corriam (todos corríamos) ao longo da vala, porque a corrente filha-da-puta nunca abrandava.
Um homem apareceu subitamente com um longo ramo que fora buscar à mata. Três homens seguraram o ramo que o dono do cão conseguiu dificultosamente alcançar, sempre com o cão junto a si, puxado pela coleira. A história acaba com abraços, o cão saracoteando-se e algumas lágrimas nascidas da emoção.
Limpei as minhas e segui o percurso habitual. A vida é um fertilíssimo palco de histórias más e histórias boas. Hoje, boa.

Coimbra, 24 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fabiodutra.com.br.]

sábado, 24 de agosto de 2013

Apografia 22: Cansaço


Hoje, mais à noite, joga o Sporting. Antecipo, por isso, a corrida. Saio de casa às cinco, sob o sol ainda feroz deste Agosto que vai chegando ao fim. Por cerca de uma hora, aguento o suor e, mais para o final, a sede. Entre o açude e o Choupal, escutei o coro misterioso de mil pássaros, em suas casas vegetais. Aqui e ali, entre as ervas e os arbustos do caminho, há animais que, ouvindo os meus passos, mudam rapidamente de lugar. Talvez ratos, ou lagartixas, cobras, cães, gatos. A sudação atrai a nuvem habitual das moscas, dos mosquitos, das melgas. Somos uma multidão naquele percurso corredor.
Canso-me? Sim, mas não me aborreço por estar cansado. A minha fadiga, no Verão, é dolente e pacífica. E os meus passos, mesmo lentos, parecem-me sempre seguros e certos.

Coimbra, 23 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dm.dei.uc.pt.]

Apografia 21: Verão (tão) breve


Sete horas da noite: corro a “volta grande” do Choupal (vai-se até ao hipódromo volta-se) e a “volta pequena” (estende-se o exercício até ao açude e regressa-se). Cinquenta minutos, uma vez mais, ao ritmo muito digno dos meus cinquenta aninhos – reparai, amigos, no nome que hoje assina esta apografia…

Temo que se esteja a esgotar o meu amado Agosto – isto é, Coimbra, o tempo fingindo-se parado, a minha Mãe perto, as saudáveis corridas ao fim da tarde, estas tão lindas horas livres e solares do Presente.
Entendo o Verão como um beijo sazonal de Deus.

Coimbra, 22 de Agosto de 2013.
Jogging Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.bairrodaboavista-lisboa.blogspot.com.]


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Apografia 20: Final de Verão


Entre as sete e as oito da noite, fiz novamente a "volta grande" e a "volta pequena" do Choupal. Cinquenta e cinco minutos bem corridos, com uma frescura que me surpreendeu e entusiasmou.
Recebi, entretanto, recados da minha Escola: um documento para eu enviar, alguns esclarecimentos - e, embrulhadas na circunstância, algumas notícias trágicas: a iminente fatalidade de recomeçar o trabalho, de deixar Coimbra, de retomar a rotina sobrevivente que me vai pagando a luz, a água, a comida, o gasóleo, a casa. "Dá-te por satisfeito", avisam-me, avisadamente, alguns familiares. (E eu, egoísta, não me dou por satusfeito...)

Vi homens, à Praça da República, cortando a folhagem das árvores, preparando a cidade para o Outono. No chão, sujeitas à tímida baforada do vento, as decepadas folhas tremiam - como se chorassem por serem dispensadas. Acumulavam-se no chão, sem seventia, desesperadas como funcionários públicos às mãos do FMI.
Eu senti pena das folhas.
Senti também pena dos troncos, condenados à nudez sazonal que lhes há-de parecer para sempre.
E senti pena de mim, pedaço metonímico de raça humana que, estrebuchando embora, não consegue parar o cabrão do Tempo!

Coimbra, 21 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Crvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.claudioantunesboucinha.wordpress.com.]