Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Apografia 20: Final de Verão


Entre as sete e as oito da noite, fiz novamente a "volta grande" e a "volta pequena" do Choupal. Cinquenta e cinco minutos bem corridos, com uma frescura que me surpreendeu e entusiasmou.
Recebi, entretanto, recados da minha Escola: um documento para eu enviar, alguns esclarecimentos - e, embrulhadas na circunstância, algumas notícias trágicas: a iminente fatalidade de recomeçar o trabalho, de deixar Coimbra, de retomar a rotina sobrevivente que me vai pagando a luz, a água, a comida, o gasóleo, a casa. "Dá-te por satisfeito", avisam-me, avisadamente, alguns familiares. (E eu, egoísta, não me dou por satusfeito...)

Vi homens, à Praça da República, cortando a folhagem das árvores, preparando a cidade para o Outono. No chão, sujeitas à tímida baforada do vento, as decepadas folhas tremiam - como se chorassem por serem dispensadas. Acumulavam-se no chão, sem seventia, desesperadas como funcionários públicos às mãos do FMI.
Eu senti pena das folhas.
Senti também pena dos troncos, condenados à nudez sazonal que lhes há-de parecer para sempre.
E senti pena de mim, pedaço metonímico de raça humana que, estrebuchando embora, não consegue parar o cabrão do Tempo!

Coimbra, 21 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Crvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.claudioantunesboucinha.wordpress.com.]

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Apografia 19: Sextilha com muito ar na rima

Novamente a Tocha, praia formosa e asseada como poucas. Lembra-me (muito, muito) a praia de Mira da minha infância e adolescência, sobretudo porque há aqui também barcos desafiando as ondas, e depois a ansiosa expectativa que precede o regresso das redes.
 Hoje, li o jornal e alguns capítulos de Stanley Gardner, dormitei, molhei-me avulsamente no mar, observei o mundo alegre à volta, saudei aquele Mar que metonimicamente amo há cinquenta anos.
À tardinha, aí pelas sete horas, cumpri no Choupal uma hora e cinco minutos (corrida pontuada por quatro pausas para caminhar e normalizar o fôlego).
Ficou-me da incursão à praia da Tocha uma sextilha ortografada num cantinho do jornal. Aqui a deixo:

Barquinho do meu lembrar
Sai de Mira para o Mar -
Não sei bem se vai pescar
Ou apenas passear
Barquinho do meu lembrar
Vai de mim até ao Mar.


Praia da Tocha, 20 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cm-cantanhede.pt.]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Apografia 18: Silêncio


Dia muito quente em Coimbra. Corrida pelas seis e meia da tarde, no Choupal. Fiz a “volta grande” e a “volta pequena”, quase seguidas. Uma hora e cinco minutos de suor honesto. É um consolo quando, a meio do percurso, a ramagem de mil árvores nos protege do sol. Igualmente gratificante é esta suspensão do ruído que, por instantes, percebo e invariavelmente me agrada. Creio que o corredor solitário é, por natureza, um experimentador de limites.

Penso: o pior da solidão é talvez o silêncio. Mas o melhor da solidão é também o silêncio. Há, portanto, um silêncio bom e um silêncio mau.
Eu preciso regularmente do meu silêncio bom – umas vezes para pensar, outras vezes (diabo de paradoxo!) para não pensar.


Coimbra, 19 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.reocities.com.]

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Apografia 17: Defeitos essenciais


Hoje, Domingo, foi dia de S. Futebol. Jogava o Sporting, o Benfica, o Porto, o Barcelona e o Real Madrid. Necessitei da tarde inteira para, no Centro Comercial Fórum Coimbra, me dedicar ao delicioso ofício de espectador da bola. Ora, para isso, antecipei o meu treino diário e, pelas onze da manhã, estava já no Choupal para a “volta grande”. Tarefa (penosa) para trinta e cinco minutos.

Ando a reler romances policiais (há, na minha biblioteca doméstica, três inteiras prateleiras com exemplares do género). O mais revisitado tem sido o senhor Erle Stanley Gardner. Tenho na cabeça, em particular, uma personagem que odeia de morte um ex-amigo por este o ter traído num negócio. Reflicto.
Há muitas formas de ódio, nem todas estimáveis. Mas pior que muitos ódios é, de facto, a deslealdade e, já agora, a ingratidão. A gente finge que se esquece, mas não se esquece. Nunca se esquece.


Coimbra, 18 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (com os intérpretes das personagens Perry Mason e Della Street) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dvdtalk.com.]

domingo, 18 de agosto de 2013

Apografia 16: Espécie de casa


Encontrei o meu amigo R.C. e, como fazíamos antigamente (há duas barrigas a esta parte), combinámos correr juntos. Entre as dezanove e trinta e as vinte e trinta, fizemos a “volta grande” do Choupal, com espaço para alongamentos no parque de jogos. Pusemos a conversa em dia, rimo-nos da comum gordura, prometemo-nos um copo para breve.
Estar com um amigo verdadeiro é como estar em casa.


Coimbra, 17 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.magrysaudavel.wordpress.com.]

sábado, 17 de agosto de 2013

Apografia 15: Beleza formigável


A minha vida, hoje, passou pela bela praia da Tocha. Céu limpo, mar infinito, uma leve brisa temperando os excessos de sol. Tempo para ver quase duas centenas de gaivotas (a contabilidade é, garanto, razoavelmente segura) viajando, balético-vertiginosas, de norte para o centro da praia, à cata de peixe recém-chegado nas redes.
Regressei a Coimbra por volta das seis da tarde. Às sete e vinte comecei o meu exercício diário: corrida da rua dr. Manuel Almeida e Sousa até à ponte do açude, entrada no percurso do Choupal, continuação até ao hipódromo, regresso pela zona do canil municipal, pausa para alongamentos (observando, de viés, centenas de formigas em filas operárias, num conhecido turno estival), e nova corrida até ao ponto inicial. Quase uma hora de honesto suor.

Ideia para conto: um dia de trabalho de laboriosas formigas. Uma carreirinha segue no sentido de um gafanhoto acabado de morrer. Outra carreirinha regressa, carregando víveres, ao formigueiro. A fila que se dirige àquele gafanhoto devindo comida parece subitamente desorientada: algures no caminho, certa formiga estacou, saiu do alinhamento, estabelecendo grande confusão e, minutos depois, o caos. Uma formiga chefe descobre a causadora da interrupção da rotina e da eficiência. Pergunta-lhe:
- Camarada número 1504, por que diabo de razão saíste da fila?
A interpelada responde, sem tirar os olhos do horizonte:
- Ali ao fundo… veja… há uma espécie de bola de luz caindo sobre o rio…
- E achas isso mais importante do que o nosso trabalho?
- Não sei. Mas é bonito.
A formiga chefe irrita-se:
- Camarada 1504, não sabes que é rigorosamente proibido sair da fila?
A formiga prevaricadora retorque, suspirando, como se chorasse:
- Se eu não saísse da fila, não veria bem isto que lhe mostrei…


Coimbra, 16 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.molelos.no.sapo.pt.]


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Apografia 14: Ainda


A V. foi para o Algarve, com o namorado. Solidariamente, levantei-me pelas sete da manhã e despedi-me com a preocupação do costume. Duas horas e meia depois, andava por Coimbra com a F. e a Mãe, cumprindo tarefas domésticas meticulosamente agendadas no dia anterior. Notaram ambas que estava com cara de poucos amigos. Explico-lhes que é do sono. Ao almoço, em vez do frango de churrasco, preferi melão e sumo. A meio do noticiário, adormeci profundamente.
Ressuscitei pelas sete da noite, comi um pão com fiambre e bebi um café, e fui até ao Choupal correr cerca de quarenta minutos.
Durante os alongamentos, naquela ponte que dá acesso ao percurso pedonal, encontrei amigos de há vinte anos. Reconhecemo-nos com desigual competência (eu decoro rostos, olhares, tiques, vozes, modos de falar - mas tendo a olvidar nomes, o que é sempre embaraçoso). A conversa escorre alegremente: comparamos barrigas (o A., generoso, diz que eu estou na mesma), informamo-nos sobre a descendência que entretanto gerámos, enunciamos óbitos conhecidos, rimo-nos com episódios da nossa pré-história. Depois, despedimo-nos, sem a certeza de nos voltarmos a ver.
A crise também pairou por ali. O L. está desempregado há algum tempo e o subsídio acaba no final de Setembro. A mulher não trabalha, os filhos (bons alunos) estão na universidade. Apesar de tudo, aquele meu amigo esteve sempre jovial durante a conversa. Foi ele que me perguntou, assim que apareci:
- Ainda estás vivo, ó Quim Jorge?
Eu disse:
-Ainda.
Na nova gramática, “ainda” é um advérbio de predicado.
Por uma vez, a nova terminologia linguística faz algum sentido.


Coimbra, 15 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (representando Tom Sawyer e amigos) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.journalofseeing.wordpress.com.]

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Apografia 13: Falta


Saio, correndo, da rua de S. Miguel, aí pelas sete e meia da noite. Passo a Nissan, a Escola Secundária D. Dinis, a Makro, o Diário de Coimbra. Paro junto à placa que diz “Eiras” e faço alongamentos. Regresso logo a seguir, mas mais lentamente, porque está muito calor, demasiado calor, e porque me doem joelhos e músculos. Em casa, faço abdominais, suando exageradamente. Longos cinquenta minutos é o tempo desta prática desportivo-masoquista.
Estendo agora a toalha velha sobre uma cadeira e vejo a primeira parte do Portugal-Holanda. O banho virá depois, como um prémio. No intervalo do jogo, enquanto subo as escadas, ouço certo locutor falar da ténue recuperação da economia. Não quero saber disso. Uma neura com cara de Kierkegaard anda-me pelo cérebro desde manhã.

Na contabilidade do amor, as saudades são uma espécie de IVA. Leia-se: Imposto de Valor Acorrentado.


Coimbra, 14 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Apografia 12: Sobre o habitat (re-visões)


Percurso mais ou menos habitual deste meu Agosto atlético: Rua dr. Manuel Almeida e Sousa, Estação Velha, Fernão de Magalhães, Choupal, e regresso pela estrada de Eiras (com subida, ao Lidl, de primeiríssima categoria). Alongamentos e abdominais no pátio da casa materna, já pelas nove da noite. No total, um generoso suor com a idade de cinquenta minutos.
Observo a cidade, a cidade observa-me.

Em Coimbra, toda a paisagem me parece, mais do que familiar, lógica. A geografia natal permanece em mim, apesar das descoincidências biográficas, apesar da distância, apesar das velhices que fui conhecendo. Edifícios, caminhos, entradas e saídas, proeminências geodésicas, avenidas, ruas, pontes, esquinas, travessas, cúpulas de igreja, universidade, Cafés, fontanários, Eiras, a Estação Velha, a Pedrulha, o Loreto, o Casal Ferrão, luzes e sombras – tudo se afigura formoso, pertinente e certo.
A minha cidade é esta: o seu regaço tem a força e a graça de uma Mãe. Coimbra, sim: uma Mãe com árvores, rio e o tempo todo.


Coimbra, 13 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Apografia 11: Apontamentos com esperança


Percurso de hoje: saio da rua de S. Miguel pelas sete da noite, passo o bairro do Brinca, a Estação Velha, o açude, até chegar ao Estádio Universitário. Aí, faço alguns alongamentos e, já cansado, regresso ao ponto de partida. Uma hora de exercício, pelo menos.
Ocorreu-me, correndo, a ideia de a esperança ser consubstancial ao verbo caminhar (e de caminhar ser, nesta mesma esfera semântica, o infinitivo viver). Vejamos.

A caminhada é também feita de pedras, que mordem os pés, e de rochedos difíceis de escalar.
Às vezes, o caminhante encontra cursos de água que impedem a passagem para a outra margem.
A própria distância, se for grande, tende a prejudicar a respiração e o ânimo.
Pode acontecer, contudo, que a teimosa repetição dos passos vá fazendo das pedras areia, e que nas rochas se vão esculpindo degraus adequados e cómodos.
Pode acontecer que nos cursos de água se mate a sede e que entre as margens se construam pontes.
Pode acontecer que, ao lutar com a distância, se fortaleça a respiração do caminhante, e que nele se reforce e refine a amável persistência.
Embora sofrendo, caminha-se.
Caminho.

Coimbra, 12 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.claretianos.pt.]

Apografia 10: Mãe, sempre


Por causa do Sporting-Fiorentina, corri apenas trinta e cinco minutos, non-stop, da rua de S. Miguel ao “Diário de Coimbra”, e vice-versa. Pude, ainda antes do banho, ver a primeira parte em casa (grande golo do Montero!) e depois vi o resto da nossa vitória no magno lar de minha mãe, com a V.L. ao lado.
Doíam, de novo, as costas à minha mãe. Para aquela mulher se queixar, algo de sério se passa. Custa-me saber que ela sofre tanto com o mal do Tempo: coluna, articulações, sistema respiratório.
Revi há dias uma sua fotografia de 1970, num cartão da segurança social. Conheço muito bem aquele rosto, porque me lembro de o ver nos dias lindos da minha e sua imortalidade, e porque ainda me acontece vê-la exactamente assim (se eu entrefechar os olhos), jovem e saudável como aparece naquela fotografia.
A razão ensina-nos a dividir a vida em passado, presente e futuro. Já o coração é só presente – e esse presente é a vida toda. Às vezes, aleluia, parece até que viver é esta coisa linda que nunca acaba.

Coimbra, 11 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 11 de agosto de 2013

Apografia 9: Adeus a Urbano Tavares Rodrigues


Em casa, fiz os costumeiros exercícios abdominais. Depois, ainda não eram oito e um quarto da noite, fui em corrida até Eiras e voltei. Por trinta e cinco minutos fiz de conta que não estava cansado.
Já em casa, pingando suor, reouço a notícia da morte de Urbano Tavares Rodrigues. Considero-o um bom e honesto escritor. )Nota folclórica: Há alguns anos, fez parte do júri do Concurso Literário de Conto da CGTP, de que fui orgulhosíssimo vencedor. Não esteve na cerimónia de entrega de prémios – já - por motivos de saúde, o que me impossibilitou de o conhecer pessoalmente.)
Pude ler hoje, no jornal do Café (Correio da Manhã), um trecho –muito, muito lindo - do prefácio que o escritor escreveu para Nenhuma Vida, obra ainda inédita, a publicar futuramente pela Dom Quixote. Partilho-o aqui convosco:

Daqui me vou despedindo pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo adeus à agua fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres.

Em contraponto, deliberadamente ignoro o cinismo e a hipocrisia de alguns que, para jornal ver, debitaram admirações ocas e falsas sobre o homem e a obra. Questão de higiene, sobretudo.



Coimbra, 09 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.terraalentejana.blogspot.com.]

sábado, 10 de agosto de 2013

Apografia 8: O tamanho do mundo


Corri cinquenta minutos sem parar, não contando com aqueles segundos a cumprimentar o amigo Januário, que bicicletava na margem do Choupal.
Corri mais rapidamente, hoje, do que tem sido costume. Senti-me forte, talvez capaz de mais cinquenta minutos.
Às oito e meia da noite, passei pela casa da minha mãe e, enquanto fazia alongamentos, pus-me a olhar para o pomar que há nas traseiras do prédio. Na minha cabeça, tratava-se de um território enorme, onde joguei à bola, comi figos, fui índio e cobói, contei e ouvi segredos, cacei lagartixas – um mundo!
Mas vejo, agora, apenas um acanhado espaço, entalado entre o prédio vizinho e o moderno Lidl que está, aliás, no lugar onde era a minha escola primária.
De modo que, concluo, o mundo diminui com a idade. (A literatura, vá lá, é uma compensação.)

Coimbra, 09 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (consensual monumento do kitsch) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.riscadoagiz.blogspot.com.]

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Apografia 7: Constelação da saudade



Para o meu pai
e
para o Mestre João.

É impossível viver sem um mínimo de céu para onde olhar. E poderia parecer, às vezes, que o céu desapareceu, se não houvesse lua ou estrelas que no-lo deixassem ver.
O valor da estrelas é óbvio. Em primeiro lugar, porque nos obrigam a olhar para cima e o simples gesto de as contemplar é já uma libertação da condição rasteira de homens tristes. Depois, porque as estrelas, além de belas, são fisicamente necessárias, por iluminarem e orientarem quem, da terra, as estima.
Ora, há pessoas que passam pela nossa vida como estrelas. Pessoas que, mesmo já não estando, continuam a estar. Memórias de luz que são ainda a luz.

Coimbra, 08 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gaticha.blog.sapo.pt.]

Apografia 6: Santo da casa


Saí da rua de S. Miguel e corri, a razoável ritmo, até à placa que diz Eiras. Fiz alongamentos junto a uma loja chinesa, sob os protestos de um cão que, a cerca de cinquenta metros, felizmente amarrado a uma trela, ladrava e uivava o seu desprezo e a sua raiva face a humanos dados ao desporto. Eu vivia já, então, a alegria de uma história com final feliz que, por muitas horas, me parecera narrativa para acabar mal. Aqui fica o relato.

Desde a tarde de ontem que eu não sabia da minha carteira. Tinha lá algum dinheiro, cartões de débito e de crédito, cartão de cidadão, cartão de contribuinte, carta de condução - e dois ou três versos em estado de barro bruto (à espera de oleiro paciente que lhes desse forma). Vasculhei o meu carro, a minha casa, a casa de minha mãe. Fui a Cafés próximos, à estação de serviço habitual, à padaria da rua. Telefonei à polícia. Contactei até a um banco para saber de eventuais movimentos feitos por eventual ladroagem. Nada. Nada de nada. A carteira não aparecia.
A minha mãe endereçou a S. Gonçalo de Vila Nova uma reza que – garante – trata destes casos. Enquanto tal, eu repetia, sem cessar, a minha própria busca, cada vez com menos esperança: sob mesas, cadeiras, sofás, armários; no interior mais recôndito de todas as gavetas; nos quartos, no escritório, na despensa, na casa-de-banho. Subi e desci escadas como um Sísifo em modo automático.
Até que, dentro de uma maleta da M.P., encontrei uma fotografia do meu sogro, o Mestre João, madeirense falecido a 30 de Julho de 2010 e que foi, talvez, a mais sábia e mais justa das criaturas que já conheci. Lembrei-me do que, há anos, a V.L. nos confidenciara: que a memória do seu querido avô João (meu sogro), esse optimista alegre como um santo pós modernista, tinha poderes. E que fiz eu? Olhei para o rosto sereno da fotografia e murmurei: “Ajude-me, senhor João.”
A seguir, desci novamente as escadas e detive-me junto do aparador que fica no hall de entrada. Já me acontecera colocar a carteira sobre certos copos de cristal que aí esperam, em vão, por uso. Espreitei. Uma vez mais, não vislumbrei nem sinal do objecto perdido. Contudo, em lugar de desistir de olhar, optei por retirar, um a um, todos os copos da frente. Caída, no magro intervalo que havia entre a primeira e a segunda fila, lá encontrei a carteira.
Aliviado como passarinho que, in extremis, escapasse a um poço mortal, soltei uma expressão muito característica do Mestre João: “Basta que sim!”
E depois, claro, ainda lhe disse: “Obrigado.”

Coimbra, 07 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho