Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Apografia 12: Sobre o habitat (re-visões)


Percurso mais ou menos habitual deste meu Agosto atlético: Rua dr. Manuel Almeida e Sousa, Estação Velha, Fernão de Magalhães, Choupal, e regresso pela estrada de Eiras (com subida, ao Lidl, de primeiríssima categoria). Alongamentos e abdominais no pátio da casa materna, já pelas nove da noite. No total, um generoso suor com a idade de cinquenta minutos.
Observo a cidade, a cidade observa-me.

Em Coimbra, toda a paisagem me parece, mais do que familiar, lógica. A geografia natal permanece em mim, apesar das descoincidências biográficas, apesar da distância, apesar das velhices que fui conhecendo. Edifícios, caminhos, entradas e saídas, proeminências geodésicas, avenidas, ruas, pontes, esquinas, travessas, cúpulas de igreja, universidade, Cafés, fontanários, Eiras, a Estação Velha, a Pedrulha, o Loreto, o Casal Ferrão, luzes e sombras – tudo se afigura formoso, pertinente e certo.
A minha cidade é esta: o seu regaço tem a força e a graça de uma Mãe. Coimbra, sim: uma Mãe com árvores, rio e o tempo todo.


Coimbra, 13 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Apografia 11: Apontamentos com esperança


Percurso de hoje: saio da rua de S. Miguel pelas sete da noite, passo o bairro do Brinca, a Estação Velha, o açude, até chegar ao Estádio Universitário. Aí, faço alguns alongamentos e, já cansado, regresso ao ponto de partida. Uma hora de exercício, pelo menos.
Ocorreu-me, correndo, a ideia de a esperança ser consubstancial ao verbo caminhar (e de caminhar ser, nesta mesma esfera semântica, o infinitivo viver). Vejamos.

A caminhada é também feita de pedras, que mordem os pés, e de rochedos difíceis de escalar.
Às vezes, o caminhante encontra cursos de água que impedem a passagem para a outra margem.
A própria distância, se for grande, tende a prejudicar a respiração e o ânimo.
Pode acontecer, contudo, que a teimosa repetição dos passos vá fazendo das pedras areia, e que nas rochas se vão esculpindo degraus adequados e cómodos.
Pode acontecer que nos cursos de água se mate a sede e que entre as margens se construam pontes.
Pode acontecer que, ao lutar com a distância, se fortaleça a respiração do caminhante, e que nele se reforce e refine a amável persistência.
Embora sofrendo, caminha-se.
Caminho.

Coimbra, 12 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.claretianos.pt.]

Apografia 10: Mãe, sempre


Por causa do Sporting-Fiorentina, corri apenas trinta e cinco minutos, non-stop, da rua de S. Miguel ao “Diário de Coimbra”, e vice-versa. Pude, ainda antes do banho, ver a primeira parte em casa (grande golo do Montero!) e depois vi o resto da nossa vitória no magno lar de minha mãe, com a V.L. ao lado.
Doíam, de novo, as costas à minha mãe. Para aquela mulher se queixar, algo de sério se passa. Custa-me saber que ela sofre tanto com o mal do Tempo: coluna, articulações, sistema respiratório.
Revi há dias uma sua fotografia de 1970, num cartão da segurança social. Conheço muito bem aquele rosto, porque me lembro de o ver nos dias lindos da minha e sua imortalidade, e porque ainda me acontece vê-la exactamente assim (se eu entrefechar os olhos), jovem e saudável como aparece naquela fotografia.
A razão ensina-nos a dividir a vida em passado, presente e futuro. Já o coração é só presente – e esse presente é a vida toda. Às vezes, aleluia, parece até que viver é esta coisa linda que nunca acaba.

Coimbra, 11 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 11 de agosto de 2013

Apografia 9: Adeus a Urbano Tavares Rodrigues


Em casa, fiz os costumeiros exercícios abdominais. Depois, ainda não eram oito e um quarto da noite, fui em corrida até Eiras e voltei. Por trinta e cinco minutos fiz de conta que não estava cansado.
Já em casa, pingando suor, reouço a notícia da morte de Urbano Tavares Rodrigues. Considero-o um bom e honesto escritor. )Nota folclórica: Há alguns anos, fez parte do júri do Concurso Literário de Conto da CGTP, de que fui orgulhosíssimo vencedor. Não esteve na cerimónia de entrega de prémios – já - por motivos de saúde, o que me impossibilitou de o conhecer pessoalmente.)
Pude ler hoje, no jornal do Café (Correio da Manhã), um trecho –muito, muito lindo - do prefácio que o escritor escreveu para Nenhuma Vida, obra ainda inédita, a publicar futuramente pela Dom Quixote. Partilho-o aqui convosco:

Daqui me vou despedindo pouco a pouco, lutando com a minha angústia e vencendo-a, dizendo adeus à agua fresca do mar e dos rios onde nadei, ao perfume das flores e das crianças, e à beleza das mulheres.

Em contraponto, deliberadamente ignoro o cinismo e a hipocrisia de alguns que, para jornal ver, debitaram admirações ocas e falsas sobre o homem e a obra. Questão de higiene, sobretudo.



Coimbra, 09 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.terraalentejana.blogspot.com.]

sábado, 10 de agosto de 2013

Apografia 8: O tamanho do mundo


Corri cinquenta minutos sem parar, não contando com aqueles segundos a cumprimentar o amigo Januário, que bicicletava na margem do Choupal.
Corri mais rapidamente, hoje, do que tem sido costume. Senti-me forte, talvez capaz de mais cinquenta minutos.
Às oito e meia da noite, passei pela casa da minha mãe e, enquanto fazia alongamentos, pus-me a olhar para o pomar que há nas traseiras do prédio. Na minha cabeça, tratava-se de um território enorme, onde joguei à bola, comi figos, fui índio e cobói, contei e ouvi segredos, cacei lagartixas – um mundo!
Mas vejo, agora, apenas um acanhado espaço, entalado entre o prédio vizinho e o moderno Lidl que está, aliás, no lugar onde era a minha escola primária.
De modo que, concluo, o mundo diminui com a idade. (A literatura, vá lá, é uma compensação.)

Coimbra, 09 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (consensual monumento do kitsch) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.riscadoagiz.blogspot.com.]

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Apografia 7: Constelação da saudade



Para o meu pai
e
para o Mestre João.

É impossível viver sem um mínimo de céu para onde olhar. E poderia parecer, às vezes, que o céu desapareceu, se não houvesse lua ou estrelas que no-lo deixassem ver.
O valor da estrelas é óbvio. Em primeiro lugar, porque nos obrigam a olhar para cima e o simples gesto de as contemplar é já uma libertação da condição rasteira de homens tristes. Depois, porque as estrelas, além de belas, são fisicamente necessárias, por iluminarem e orientarem quem, da terra, as estima.
Ora, há pessoas que passam pela nossa vida como estrelas. Pessoas que, mesmo já não estando, continuam a estar. Memórias de luz que são ainda a luz.

Coimbra, 08 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gaticha.blog.sapo.pt.]

Apografia 6: Santo da casa


Saí da rua de S. Miguel e corri, a razoável ritmo, até à placa que diz Eiras. Fiz alongamentos junto a uma loja chinesa, sob os protestos de um cão que, a cerca de cinquenta metros, felizmente amarrado a uma trela, ladrava e uivava o seu desprezo e a sua raiva face a humanos dados ao desporto. Eu vivia já, então, a alegria de uma história com final feliz que, por muitas horas, me parecera narrativa para acabar mal. Aqui fica o relato.

Desde a tarde de ontem que eu não sabia da minha carteira. Tinha lá algum dinheiro, cartões de débito e de crédito, cartão de cidadão, cartão de contribuinte, carta de condução - e dois ou três versos em estado de barro bruto (à espera de oleiro paciente que lhes desse forma). Vasculhei o meu carro, a minha casa, a casa de minha mãe. Fui a Cafés próximos, à estação de serviço habitual, à padaria da rua. Telefonei à polícia. Contactei até a um banco para saber de eventuais movimentos feitos por eventual ladroagem. Nada. Nada de nada. A carteira não aparecia.
A minha mãe endereçou a S. Gonçalo de Vila Nova uma reza que – garante – trata destes casos. Enquanto tal, eu repetia, sem cessar, a minha própria busca, cada vez com menos esperança: sob mesas, cadeiras, sofás, armários; no interior mais recôndito de todas as gavetas; nos quartos, no escritório, na despensa, na casa-de-banho. Subi e desci escadas como um Sísifo em modo automático.
Até que, dentro de uma maleta da M.P., encontrei uma fotografia do meu sogro, o Mestre João, madeirense falecido a 30 de Julho de 2010 e que foi, talvez, a mais sábia e mais justa das criaturas que já conheci. Lembrei-me do que, há anos, a V.L. nos confidenciara: que a memória do seu querido avô João (meu sogro), esse optimista alegre como um santo pós modernista, tinha poderes. E que fiz eu? Olhei para o rosto sereno da fotografia e murmurei: “Ajude-me, senhor João.”
A seguir, desci novamente as escadas e detive-me junto do aparador que fica no hall de entrada. Já me acontecera colocar a carteira sobre certos copos de cristal que aí esperam, em vão, por uso. Espreitei. Uma vez mais, não vislumbrei nem sinal do objecto perdido. Contudo, em lugar de desistir de olhar, optei por retirar, um a um, todos os copos da frente. Caída, no magro intervalo que havia entre a primeira e a segunda fila, lá encontrei a carteira.
Aliviado como passarinho que, in extremis, escapasse a um poço mortal, soltei uma expressão muito característica do Mestre João: “Basta que sim!”
E depois, claro, ainda lhe disse: “Obrigado.”

Coimbra, 07 de Agosto de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Apografia 5: Casa de partida


Durante cinquenta e cinco minutos, fiz o que na tropa se designava por “mar-cor” (marcha e corrida). A casa de partida foi a casa da minha mãe, aí pelas oito horas da noite. (Nota: nunca me soou tão bem a expressão “casa de partida”). Andei pela baixa, cruzei-me com indígenas e turistas correndo também, atravessei a ponte, tornei à Estação Velha pelo Choupal.
Por alguns segundos, no caminho de regresso à casa de partida, atravesso um túnel – e sobre mim, nos exactos instantes da penumbra durante, um comboio passa fragorosamente, rumo à Figueira da Foz.
Aquele barulho ferroviário incomoda-me. Mas invejo-lhe a força e o destino. Boa parte da minha biografia tem sido assim.

Coimbra, 06 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida situação, em http://www.panoramio.com.]

Apografia 4: Coisas sobre caminho e caminhar



Corri apenas meia hora (Casal Ferrão, açude, Fernão de Magalhães). O corpo pediu-me, hoje, alguma clemência. Atendi-o.
Sou revisitado, após o banho, pelo espanhol António Machado e pela nossa Sophia. Esta (cito de cor) fala de navegadores que “navegavam sem o mapa / que faziam”. Aquele lembrava ao “caminero” que, em boa verdade, “no hay camino”, porque “el camino se hace andando”.
Aproveito estes motes preciosos e gloso-os – isto é, caminho com eles, caminho sobre eles.
O caminho começa no lugar em que se inicia a caminhada.
O caminho termina no lugar em que cessam os passos caminhantes. Contudo, o caminho também é feito de pausas, porque as pernas, o coração e o cérebro precisam, aqui e ali, de descansar.
O caminho é sempre mais curto do que o caminhante interiormente teme ou deseja.
O caminho é feito de muita terra. De subidas, descidas, planícies, pântanos, pedras, pomares, desertos. E de pontes e estradas. E de água e ar.
O caminho é a vida das gentes entre quase nada e alguma coisa.

Coimbra, 05 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Apografia 3: O valor do Presente

Vinte horas e dois minutos. Saio da rua de S. Miguel, passo pelo bairro do Brinca, a Estação Velha, a avenida Fernão de Magalhães, o largo da Portagem, a ponte de Santa Clara, o Estádio Municipal. Uma pausa para alongamentos, olhos sobranceiros ao Mondego (muito cheio, hoje). Retomo a corrida, à beira-rio e só paro, por minutos na rua Manuel Almeida e Sousa, para rápida visita à Mãe. Já em casa, entro no chuveiro mais de uma hora depois de iniciado o exercício.
Durante os alongamentos, pensei no fascismo que, muitas vezes, há nessa autoridade do Passado e do Futuro. Isto é, no respeitinho que temos pela tradição e pelos vindouros. Não descreio da necessidade (afectiva e civilizacional) de ter em conta a história o mundo, ou de pensar nas consequências dos nossos actos para os habitantes da Terra no próximo século. Mas tendo a estrebuchar um pouco quando sinto que, em nome do ocorrido ou do a ocorrer, me empurram para uma espécie de miséria ou culpa, sem demais alternativas. Mas o Presente também tem direitos. Também tem de ter direitos. Será isto um – digamos – egoísmo contemporâneo?
O que é o Tempo, afinal, se o segmentarmos convencionalmente? Vejamos…
O Passado são os pais dos meus avós. Aliás: os avós de todos os pretéritos avós.
O Futuro são os netos dos nossos netos. Aliás: os netos de todos os nossos netos.
O Presente é o que resta: nós, os nossos avós, os nossos pais, os nossos filhos, os nossos netos.
De modo que: o Presente não é tudo, claro, mas eu exijo mais respeitinho pelo Presente que é quase tudo quanto tenho.

PS: Ortega Y Gasset, para explicar (lapidarmente) a importância do contexto histórico, inventou a expressão “o homem e a sua circunstância”. Julgo que esta expressão, se se visse ao espelho, veria algo como “o Tempo e a sua (muita ou pouca) humanidade”.

Coimbra, 04 de Agosto (parabéns, Nelo!), de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 4 de agosto de 2013

Apografia 2: Utilidade das árvores maiores

Dezanove horas e vinte minutos. Sigo, correndo, da ponte do Açude, até à zona do hipódromo, Choupal adentro, regressando pela margem esquerda, sempre à beira-rio. Faço alongamentos e abdominais, na companhia de teimosas moscas que salivam pelo meu suor ou, talvez, pelo gel que me escorre generosamente das patilhas. Chego ao carro pelas vinte horas e dez minutos. Cinquenta minutos, não mais, de exercício. Sinto, por essa altura, um estranho cansaço que me apanha pernas, braços e pescoço.
O meu olhar corrente deteve-se sobretudo na vegetação choupalina, de dimensões evidentemente diversas e contíguas entre si: canas, arbustos, árvores grandes. Resisto à hierarquização da importância. Arbustos, canas, árvores mais pequenas, árvores maiores – tudo faz parte do todo.
Mas, confesso eu, dá-me muito jeito que existam, na paisagem da minha corrida, árvores que se destaquem, que me ajudem a perceber onde estou, até onde posso ir. É assim, julgo, também com a espécie humana. Não há problema em sermos canas, arbustos, árvores pequeninas, se formos dignos dessa condição, isto é, se essa for mesmo a máxima condição a que podemos – naturalmente, legitimamente -  aspirar. (Por mim, sempre gostei do aconchego da áurea mediocritas.)
Não obstante, necessitamos, em todas as épocas, de gente que, como as árvores grandes, nos expliquem a diferença entre a preguiça residente e as possibilidades de viagem por nós acima. Marcas geodésicas, direi, entre o chão e o céu.

Coimbra, 03 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Apografia 1: Beleza & olhar

Inauguro neste blogue uma nova modalidade de texto, que cruzará dados objectivos sobre a minha actividade físico-desportiva com pequenas observações. Devaneios, filosofias, desabafos, construções na areia da linguagem. Decidi que estes muito curtos textos terão o nome (etiqueta) de “Apografias”. Porque sim.

Apografia 1

Hoje, dia 02 de Agosto, pelas 19h30m, fui do número 90 da rua da minha infância, ali ao Casal Ferrão, até ao Estádio Universitário, passando pela avenida Fernão de Magalhães, a Portagem, a ponte de Santa Clara – e regressando, lavado de grosso suor, pela ponte do Açude, a Estação Velha e o Lidl. Cerca de uma hora e dez minutos de corrida lenta. Entre o Estádio Universitário e a ponte do Açude, ocorreu-me isto:

“A beleza é. O nosso olhar está. A vida da beleza é estar à espera de um olhar digno de si. A missão do olhar é andar à procura da beleza. A beleza é, por natureza, uma ideia eterna e singular. O olhar é plural – é feito de muitos olhares. Um olhar encontra a beleza como um homem encontra uma mulher bonita: com persistência, paciência, competência, concentração e sorte. (Às vezes, apenas com sorte.) Com o aperfeiçoamento do exercício olhador, um olhar pode tornar-se belo. A poética é, de certa forma, um olhar que subiu de estar a ser.”

Coimbra, 02 de Agosto de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Uma história para homens sem juízo


Comprei, em saldos, um livrinho de Jacques Prévert publicado originalmente em 1963 (ano do meu nascimento) e que a Teorema em boa hora decidiu recuperar. Chama-se Histórias para meninos sem juízo (tradução para Português de Pedro Tamen). Recorrendo ao universo da fábula, o autor fala – sobretudo – da sociedade dos homens.
Houve um excerto que me impressionou particularmente e que ecoa qualquer coisa do Animal Farm, de Orewll. Relatando a exploração a que os cavalos eram submetidos pelos homens, o narrador dá conta da iminente revolta equídea e diz (páginas 62-67):
«Então, todos os outros pobres cavalos começarão a compreender e irão todos juntos falar-lhes grosso. // Os cavalos: “Meus senhores, está bem que puxemos os vossos carros e as vossas charruas, que façamos as vossas corridas e todo o trabalho, mas hão-de reconhecer que é um serviço que lhes prestamos e vocês têm que retribuir; muitas vezes comem-nos depois de mortos, e não temos nada a dizer quanto a isso, já que gostam: é como com o pequeno-almoço da manhã, há os que tomam aveia com café no leito, outros aveia com chocolate, cada um tem os seus gostos; mas também muitas vezes nos batem, e isso não deve tornar a acontecer.” // “Além disto, queremos aveia todos os dias, água fresca todos os dias, e também férias, e que nos respeitem – somos cavalos, não somos bois.” // “Ao primeiro que nos bater, mordemos-lhe.” // “O segundo que nos bater matamo-lo, e pronto.” // E os homens irão compreender que foram um pouco longe de mais e hão-de tornar-se mais cordatos. // O cavalo ri-se ao pensar em todas estas coisas que de certeza hão-de acontecer um dia. // Apetece-lhe cantar, mas está sozinho e só gosta de cantar em coro; então, mesmo assim, grita: “Viva a liberdade!” // Em outras ilhas, outros cavalos ouvem-nos e gritam por sua vez com todas as forças: “Viva a liberdade!” // Todos os homens das ilhas e os do continente ouvem estes gritos e perguntam a si mesmos que será, mas depois tranquilizam-se e dizem encolhendo os ombros: // “Não é nada, são cavalos.” // Mas mal sabem eles o que os cavalos lhes preparam.»

Fiquei a relinchar para os meus botões: Que tem isto a ver comigo? Connosco?

Coimbra, 30 de Julho de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Julho essencial



Não quero tudo, na verdade
Quero só um pouco do que possa ter.
O Tempo explica a desnecessidade
De tudo querer.

O coração reduz-se sabiamente
A um quarto de hotel minimalista
Sereno, disponível e silente
Como a praia antes do turista.

Basta-me o pouco que encontrar:
Visões, café, livros dispersos
Golos do Sporting, algum mar
Fé no que houver depois dos versos.

Quero ver passar mulheres bonitas
Dormir sem pressa e comer
Meloa, pão, batatas fritas
Envelhecer sem bem envelhecer.

Quero ter os meus amores comigo
Brincar à imortalidade neste terno
Baloiço do Presente meu amigo
Enquanto não vem o bruto Inverno.

Não quero tudo, juro, não
Quero senão este Presente
Isto é, amor, algum Verão
E a tua mão na minha, ternamente.

Ribeira de Pena, 27 de Julho de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

Escola Pública


Uma Escola pública deve ser capaz de ensinar Português., Matemática, Ciências, Inglês, Francês, História, Geografia. Mas deve ser mais do que isso: deve proporcionar experiências com a arte, a filosofia, a cultura em geral.
Os tempos que hoje vivemos são, contudo, pouco favoráveis à visão humanista e compreensiva que defendo. Alguns por ideologia pós-fascista, outros por ignorância militante, outros ainda por interesses mais ou menos inconfessáveis - querem a Escola pública reduzida ao osso elementar, por isso considerando a literatura, a música, o desporto ou o desenho como coisa acessória e despicienda.
Aqui fica o que julgo dessa gentalha (deputados de muitas assembleias, governantes de muitos governos, comentadores de muitas rádios e televisões, taxistas de muitas ruas, whatever): sois uma cambada de retrógrados, de bimbos, de imbecis. Uma escória criminosa que a História julgará (infelizmente, demasiado tarde) com o certo rigor a haver.


Ribeira de Pena, 09 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho