Bússola do Muito Mar

Endereço para achamento

jjorgecarvalho@hotmail.com

Número de Ondas

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sonolência

Café de vila. Um velho dormita frente ao jornal. Uma mulher (esposa do adormecido) fala do passado com um outro homem, claramente mais novo do que o casal. Ouço tudo, de forma involuntária ao início, despudoradamente voluntária a seguir. O interlocutor da velha sai do Café, com mesuras amáveis. A velha acorda o marido. Pergunta-lhe se se lembra do Rui. Do filho do Antunes, que estudou para médico. O velho lembra-se.
- É muito bom rapaz. Nunca mais o vi.
A esposa diz-lhe que o Rui Antunes ali esteve e que já saiu. "Tinha pressa, coitado."
- E tu não me acordaste, porquê? - resmunga o velho.
- Para quê? - atira-lhe a mulher. - Estavas a dormir tão bem...
O velho encolhe os ombros e regressa às sonolentas notícias do dia.
Penso: talvez aquele velho nunca mais tenha a oportunidade de ver o tal médico.
Penso isto e, depois, suspiro, com uma espécie de culpa a interromper-me a modorra, ali entre o sumo de maçã e alguns trabalhos de casa de Francês.

Ribeira de Pena, 04 de Junho de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.aorodardotempo.blogspot.pt.]

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Pergunta

 
Entre Ribeira de Pena e o Arco, aí a um quilómetro da ponte de Cavez, vejo uma cobra morta no meio da estrada. É uma cobra cinzenta, mal enrolada sobre si, em forma de ponto de interrogação. Como tenho a mania dos símbolos, vejo ali uma pergunta no meio da minha via rotineira, habitual, funcionária. Isto é, no meio do meu percurso, há talvez esta pergunta: "Para quê, Joaquim Jorge?"
A pergunta é desenhada com uma cobra morta. E eu pergunto-me se não será ela já uma pergunta morta.

Arco de Baúlhe, 3 de Maio de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 18 de maio de 2013

Dívida a Júlio Dinis



Há muitos anos, fiz algo de que me orgulho muito e de que me não orgulho coisa nenhuma: roubei um livro. Eu sei que roubar é feio, que roubar é errado, que roubar é indigno. Nem a desculpa de, à época, eu ter apenas uns oito ou nove anos, é desculpa que se diga. Mas o livro chamava-se As Pupilas do Senhor Reitor, tinha uma capa bonita que sugeria histórias interessantes, ricas, coloridas, aquele quiosque da Rua da Sofia (em Coimbra) era pouco vigiado – e eu, enfim, Deus me perdoe, roubei aquele romance.
A proeza custou-me, nem dez minutos depois, um valente tabefe da minha mãe e a ameaça de que, em regressando à baixa coimbrinha, haveria de devolver o livro, sofrendo a vergonha provável das testemunhas que ali houvesse. Nunca o devolvi. Fiquei, digamos assim, em dívida.
O tempo, paciente, passou.
Li esse livro roubado com o prazer que só as experiências mais lindas e queridas podem provocar. Descobri que Júlio Dinis era (e é) um dos melhores contadores de histórias da nossa literatura. Não do século XIX, atenção. De sempre!
Fiquei tão apaixonado pela sua prosa que, à medida que tinha dinheiro e oportunidade, dei por mim a comprar tudo quanto o autor escrevera. E que pena foi ele ter morrido tão jovem (com cerca de 30 anos) – tanto que decerto ainda teria escrito, para eu ler, para nós lermos!
Sabei que o primeiro romance que Júlio Dinis escreveu não foi As Pupilas do Senhor Reitor. Foi um outro intitulado Uma Família Inglesa. Mas ele quis publicar, em primeiro lugar, As Pupilas. Teve, digo eu, a clara noção de que, no panorama literário português, era com esse romance que impressionaria o público leitor. Tratou-se, digamos assim, de um “cartão de visita” que fabricou e apresentou ao seu mundo, à sua época. Algo como isto: “Olá. Chamo-me Júlio Dinis. Escrevo assim… Gostam?”
No romance, a história fundamental passa-se no campo (talvez na região do Minho). Tudo começa com a vocação de Daniel para os estudos e para os amores. Depois, através da pena genial do escritor, temos numerosos episódios ora divertidos, ora dramáticos: namoros, discussões, anedotas, passeios, uma desfolhada, alguns conflitos, doces reencontros.
Página a página, há um Portugal colorido e vivíssimo que, ao ritmo apaixonado da leitura, nos entra olhos e alma adentro. Nunca talvez o mundo rural foi tão humanamente contado e mostrado como nos contos e, sobretudo, nos romances de Júlio Dinis.
Não por acaso, cerca de 35 anos depois do roubo que acima recordei, eu defendi uma tese de doutoramento, na área da Literatura Portuguesa – e chamei-lhe “Acção, Cenas e Personagens na Narrativa Dinisiana: As Pupilas do Senhor Escritor”. Foi a minha forma de pagar aquela dívida antiga.
Garantia para os meus jovens alunos: vale muito a pena ler este romance. E não é só para quem goste da maravilhosa magia de uma boa narrativa. É também, ainda, para quem (como eu) gosta da ideia – imaginária ou real – de um mundo simples e belo, em que as pessoas vivem simplesmente, formosamente, naturalmente. O mundo em que, afinal, todos nós gostaríamos de viver.
  
Arco de Baúlhe, 17 de Maio de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho

[Texto no âmbito da promoção da leitura que venho a levando a cabo na minha Escola, com outros colegas.]

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Sobre os Poetas


Tive a sorte de ser (fugazmente) contemporâneo de Manuel António Pina, esse grande poeta português dos séculos XX e XXI.
Não havendo, a atrapalhar os olhares e os discursos, o consabido veneno da inveja e da mesquinhez, que melhores testemunhas da excelência de um artista que outros artistas? Ora, tomai: li, hoje, no JN, um pequenino, simples e maravilhoso texto de Álvaro Magalhães sobre o seu amigo Pina. E reproduzo-o agora, com a devida (e grata) vénia:
 
"[Manuel António Pina] Era talvez a pessoa mais inteligente que conheci, e também a mais sábia, a mais talentosa com as palavras de quem era verdadeiramente íntimo.
Ainda  choro a sua perda e avalio, de coração transido, a extensão do vazio que ficou, ao mesmo tempo que agradeço o privilégio de ele me ter existido."

Um poeta limpo a olhar para um grande poeta, voilà. É uma coisa (como direi?) terrivelmente bela!

Arco de Baúlhe, 26 de Abril de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Não voltaremos atrás


Ribeira de Pena, 24 de Abril de 2013, nove e meia da noite. Auditório Municipal não completamente cheio, mas muito bem preenchido de público. Últimos pormenores, últimas instruções sob a forma de  sussurros ou gritos. Uma dúzia de jovens atores já caracterizados. O Carlos Batista, o Marco Andrade, a MP e eu testando luzes, som, power point. A excitação habitual destas ocasiões. (A Luana confessa o grande nervosismo que sente. Digo-lhe que sem nervosismo não há teatro. "Quem não está nervoso não está em condições de actuar. É preciso responsabilidade. A responsabilidade implica nervosismo. Está tudo certo.")
O espectáculo chama-se "25 de Abril contado ao Futuro" e é dedicado a Salgueiro Maia e aos Capitães de Abril em geral. Compreende poesia, teatro, música, documentos fotográficos e excertos de filmes. No final do espectáculo, convida-se o público a cantar "Somos Livres", uma ingénua e linda canção sobre a liberdade. O último verso da composição é "Não voltaremos atrás". Os meus atores (o Bruno, a Luana, a Flávia, a Catarina, o João, o Gonçalo, a Eduarda, o André, a Rafaela, o Paulo, o Fred), no final da música, gritam em crescendo essa frase. A conclusão, em clímax ético-estético, é exactamente essa - a frase consubstancial ao gesto de erguer palavras de ordem (Paz, Pão, Habitação, Saúde, Educação, Justiça Social, Liberdade, Democracia, Igualdade, Solidariedade) e cravos vermelhos.
O meu 25 de Abril, isto é, o 25 de Abril como eu o vejo, foi há trinta e nove anos. E está sempre por fazer, por cumprir. O meu 25 de Abril é hoje. E é amanhã.
Se não nos esquecermos do essencial, os cravos de Abril estão, estarão sempre frescos. São, serão sempre frescos.

Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na página de Facebook do Carlos Manuel Batista, que não desiste de celebrar, em Ribeira de Pena, esta data, e que me desafiou a apresentar o espectáculo. Também lhe dediquei, naturalmente, este "25 de Abril contado ao Futuro".]

quinta-feira, 18 de abril de 2013

25 de Abril contado ao Futuro


Publico aqui no Muito Mar o texto utilizado para a divulgação do espectáculo “25 de Abril contado ao Futuro”, que será apresentado no dia 24 do corrente (e querido) mês.

Vai ter lugar no Auditório da Biblioteca Municipal de Ribeira de Pena, no dia 24 de Abril de 2013, pelas 21h30m, uma performance dramático-poética intitulada “25 de Abril Contado ao Futuro''.
Trata-se de um espectáculo que cruza pequenos trechos de representação e declamação de poesia com imagens e canções evocativas da revolução democrática que ocorreu em Abril de 1974. A encenação é da responsabilidade do professor Joaquim Jorge Carvalho e conta com a participação de uma dezena de alunos da Escola E.B. 2,3 / Secundária de Ribeira de Pena.
Com a realização deste evento, o município de Ribeira de Pena pretende celebrar uma data que significou (e significa), acima de tudo, a conquista da Liberdade e o início de uma grande modernização do nosso país. Independentemente das diferenças ideológicas e político-partidárias que existam na sociedade contemporânea, o 25 de Abril representa hoje, consensualmente, uma indiscutível e saudável viragem na História recente de Portugal que, com algum atraso em relação a outras nações europeias, se tornou, em 1974, um Estado democrático.
Convidam-se, desde já, todos os Ribeirapenenses [e Amigos em geral] a marcar presença neste espectáculo que é, afinal, um grato tributo aos que, no passado, lutaram pela Liberdade e que é também uma ousada afirmação de esperança. 
Porque, em boa verdade, o Futuro também se faz com memória e gratidão.
Contamos convosco!

Ribeira de Pena, 17 de Abril de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[O cartaz aqui publicado (com a devida vénia) é da autoria do ribeirapenense Carlos Manuel Batista, um importante elemento da organização desta actividade.]

Abraço & gratidão


Deus perdoa, o Tempo não. Sem me pedir licença, o calendário celebrou cinquenta anos do que sou. Piedosamente, amigos & familiares felicitaram-me pelo fenómeno, via telefone ou facebook. Aqui fica um agradecimento sincero, não obstante esta minha indignação face ao despotismo do Tempo que (já vos tinha dito?) não perdoa.
A bondade da vida, no matter what, tem decerto que ver convosco, ó queridos contemporâneos amáveis. Muito obrigado, pois!

Ribeira de Pena, 17 de Abril de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto é do ano 1986, século nunca passado.]

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Elogio do Dicionário


Eu gosto de dicionários.
Mais do que todos, gosto do Dicionário de Língua Portuguesa. Habituei-me, desde muito novo, a consultá-lo, a confiar no que ele me dissesse, a colher nele a sabedoria que normalmente só encontramos em pessoas muito velhinhas e muito inteligentes.
Bem sei, hoje há - na internet - o Google e outros motores de busca. Mas não é a mesma coisa. O meu Dicionário-livro tem um ritmo adequado às minhas dúvidas e à minha curiosidade. Não está dependente da electricidade, do alcance de rede, da meteorologia, de tarifário & saldo, da eventual existência de pirataria informática ou erros de informação. Bato à porta da sua sabedoria, entro nele com olhos, dedos, cérebro – e beneficio sempre da sua luz como uma planta do sol.
Encanta-me a possibilidade de conhecer o sentido de algumas palavras em que, leitura a leitura, vou tropeçando no meu quotidiano leitor. E também me acontece, por acaso, enquanto ando à procura do significado de certos vocábulos, descobrir novos termos, que depois utilizo gulosamente, adequadamente, orgulhosamente.
Por exemplo, gostei muito de saber que havia uma palavra para dizer alma grande (bondosa, generosa, amável): longanimidade. Ou, há muito mais tempo, que obsoleto quer dizer ultrapassado, fora de moda, inútil (e que o nome certo relacionado com esse adjectivo é obsolescência).
Comoveu-me a ideia de que tristeza já foi (e ainda é, se quisermos) tristura. Que beleza também se pode dizer pulcritude. E que há outros preciosos substantivos (nomes) terminados em ude: atitude, beatitude, similitude, plenitude, completude.
Desconhecer palavras é um pouco como andar perdido no universo da linguagem. O Dicionário é uma luz, uma saída segura e certa. Também é, de certo modo, uma espécie de oxigénio da comunicação: conhecemos mais palavras, respiramos melhor. Vamos mais longe, mais alto, mais fundo, porque temos fôlego para tal.
É muito bela a minha, nossa Língua Portuguesa. Digo bela, mas poderia igualmente dizer linda, ou formosa, ou melodiosa, ou até amada. O Dicionário oferece-me mil adjectivos para exprimir o meu amor e a minha admiração. (Mil adjectivos é uma hipérbole. Hipérbole é um recurso estilístico que consiste numa forma de exagero retórico. Sei isto porque, há muito tempo, consultei o Dicionário e aprendi.)
O Dicionário é meu Amigo com maiúscula. Amigo ínclito. Ínclito significa ilustre e celebrado. Se não acreditas, vai ao Dicionário.           

Arco de Baúlhe, 12 de Abril de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[Texto elaborado para a Biblioteca da Escola Básica de Arco de Baúlhe, no âmbito do trabalho de promoção da leitura.]

sexta-feira, 5 de abril de 2013

CIL (Conhecimento Implícito da Língua)


Navegar é meu destino,
Não vivo sem navegar.
Mar é, por mim, feminino:
Vejo-sinto-digo a mar.

Ribeira de Pena, 04 de Abril de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (amado mar de Machico) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.aguadepena.blogspot.com.]

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Café da periferia

A chuva vai lavando o planeta. Para cá do vidro, a condição humana espera.
Uma nesga de sol espreita do céu. Gotículas de ouro sucedem nas árvores fronteiras, escorrendo das folhas. O entardecer estende vagarosamente o seu manto.
- Que horas são? – pergunta a velha.
- São horas - respondeu o velho. - Temos de ir.
- Espera um bocadinho – pediu a velha. – Deixa que a chuva passe.
- A chuva não passa – disse o velho.
- Passa sim – garantiu a velha. – Tudo passa.

Coimbra, 31 de Março de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cronicadeumamorlouco.wordpress.com.]

domingo, 31 de março de 2013

Raça Etérea

Nesta semana sem aulas, pude oferecer-me mais generosamente o prazer da leitura: José Vilhena (vários), Vargas Llosa (O Sonho do Celta), Daniel Abrunheiro (Raça Etérea).
Deixai que vos ofereça algumas linhas sobre este livro (ainda inédito) de Daniel Abrunheiro.
O escritor, que é - em Portugal - decerto o mais importante do meu tempo, inventou uma nova forma de escrever. Não é a primeira vez que o noto e digo. Genologicamente, reitero, é um objectivo problema ou um maravilhoso desafio para eventuais estudiosos, conforme os tomates da perspectiva: poesia (sobretudo Isso), crónica, narrativa, aqui e ali laivos de texto dramático misturam-se e interpenetram-se. Por dentro de cada frase ou período, explodem imagens, brotam anacolutos, serpenteiam anástrofes e hipérbatos, acendem-se hipálages. A leitura lá vai atrás dessa escrita acrobático-artística e, mal tendo tempo para respirar face a tanta novidade incontinente, corresponde-lhe como pode em sensibilidade e ourivesaria.
Tenho pena de o meu calendário ser tão pequeno para tanta exegese merecida! Pior que pena: remorsos por não replicar devida e oportunamente esta riqueza manuscrita.
Sem olhar para o livro, sou agora capaz de citar - como uma música aprendida de repente - algumas ideias, certos ritmos, singulares frases. Por exemplo: a ideia de o poeta ter de escrever para não prescrever. Ou aqueloutra de cada pessoa ser uma janela para vermos o mundo.
Olho  ainda para o (vo)lume lido e salta-me à vista uma página marcada (59.2). Sublinhei ali:
"Isto de caminhos que por aí vão - tudo vias-sacras.
É individual a visão  - como património são o visto e o invisível."
Última nota (que vai sendo em mim um inevitável estribilho): é um monumental escândalo o instituído silêncio (de aqui & de agora) que a recepção literária portuguesa consagra a Daniel Abrunheiro. Um nome, grito eu, muito maior do que esta coisa acessória e efémera chamada Presente.

Coimbra, 30 de Março de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto do D.A.) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amadeubaptista.blogspot.pt.]

sexta-feira, 29 de março de 2013

Fardo


O presidente do Chipre declarou, falando sobre o futuro do seu país, que todos se tinham de preparar para suportar "o fardo".
Somos também cipriotas, como é evidente. E é este o futuro que os senhores da Europa têm para nos oferecer: um fardo. A existência humana volta a ser encarada com olhos medievais: expiamos a culpa de estarmos vivos, o erro de querermos ser felizes (ainda) na Terra, a estupidez de acalentarmos sonhos acima das nossas possibilidades.
Não se trata apenas de não haver dinheiro. Hoje, não há esperança. Não há futuro. Nada há senão este túnel longo, feio, cínico - sem luz à vista.
Vamos percebendo, aliás, que a luz é para quem tem dinheiro. E isso da esperança, do futuro e da luz é talvez dispensável. Quiçá um vício. Ora, como já se dizia no país do Estado Novo, quem não tem dinheiro não tem vícios...

Coimbra, 29 de Março de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (representando a bela Europa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mitologiagreca.blogspot.pt.]

Ressurreição


O sol nunca desiste de nascer
Para quem não desiste de o ver.

Coimbra, 28 de Março de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.azulverdecha.blospot.pt.]

quarta-feira, 27 de março de 2013

Casa


Subo à Praça da República, bordejo o Jardim Botânico, desço a Ladeira das Alpenduradas, estaciono ao Calhabé, tomo um café no Girassolum. Tenho tempo para matar (como se não fosse o tempo o verdadeiro matador da história toda) e leio serenamente o Diário de Coimbra. Chove sans cesse. No regresso, passo pelo Parque Manuel Braga, pela torguiana Portagem, pela Fernão de Magalhães e pela Estação Velha, subindo enfim à foz maternal que é a Rua Dr. Manuel Almeida e Sousa. A minha rua ou a rua dona de mim, porque afinal sou (para quem aqui me conhece) um rapaz daquela rua. Beijo à Mãe, duas ou três piadas sobre a economia e a idade, carro & casa.
Chove ainda. Ao longe, ouço (parece-me que ouço) os mesmos comboios de há trinta anos, chegando-partindo.
Pelas cinco e quarenta e cinco, da janela do meu quarto, testemunho um entardecer triste.
Há pouca primavera por enquanto, admito. Mas é tudo tão familiar, senhores, tão Coimbra, tão aqui que não posso deixar de me sentir bem. Em casa.

Coimbra, 26 de Março de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto VLC]

segunda-feira, 25 de março de 2013

O romancista, segundo Kundera


 Numa dissertação de mestrado que redigi há mais de dez anos (sintomaticamente intitulada “Álvaro Guerra, Ruy Belo e José Saramago – a importância da literatura na emancipação ética do real”), explorei com algum pormenor a distinção entre o historiador e o escritor face ao real. Pareceu-me – então como hoje – um exercício produtivo.
Relativamente ao conto, à novela e ao romance, essa distinção entre o ofício do historiador e o dos contadores literários pressupunha a comum intenção da narrativa, mas iluminava (modéstia à parte, com rigor) algumas essenciais diferenças.
Num brutal resumo, direi agora que a narrativa literária, ao contrário do que se passa com a investigação histórica, não se sente obrigada a uma obediência estrita à factualidade tout court. A literatura, enquanto arte, acrescenta subjectividade aos eventos, aos calendários, às personalidades. A reinvenção do real está, digamos assim, na sua natureza genológico-modal. E não se trata, sublinho, de mentir, mas de transcender (esteticamente) a realidade, acrescentando-lhe sentido (ou sentidos).
À época, confesso, eu não lera ainda A Arte do Romance, de Kundera. Mas experimentei - já em 2009 e agora - na leitura e releitura desta obra uma sensação de grata cumplicidade com tão brilhante escritor. Respigo, entre outros trechos luminosos, dois exemplos da lucidez kunderiana:

«Um historiador conta os acontecimentos que se passaram. […]O romance não examina  realidade, mas sim a existência. E a existência não é o que se passou, a existência é o campo das possibilidades humanas, tudo o que o homem pode vir a ser, tudo aquilo de que ele é capaz. Os romancistas elaboram o mapa da existência ao descobrirem esta ou aquela possibilidade humana. Mas, mais uma vez, existir significa “estar-no-mundo”. É preciso, portanto, compreender quer a personagem quer o seu mundo como possibilidades.» (Milan Kundera, A Arte do Romance, Lisboa, Ed. Dom Quixote, página 58.)

«O romancista […] é um explorador da existência.» (Milan Kundera, ob.cit., página 60.)
 
Sobre esta última asserção, faltará acrescentar que o leitor de romances, enquanto testemunha ocular, anda mais ou menos a par do romancista. Isto é, esta exploração não é exclusiva da escrita; também comete a leitura.


Coimbra, 25 de Março de 2013.

Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.leyaonline.com.]