Levanto-me e sinto nos ossos o mesmo frio de ontem. Espreito a rua fronteira: chuva.
Cansa esta meteorologia austera. Desejo profundamente o sol. Mais: desejo profundamente o Verão, esse devir que já mereço, talvez, após tanta tristeza calendária.
Tenho muitas saudades das manhãs muito claras. Do calor excessivo que nos desperta as sedes e as gulas de víveres e amores. Da música alegre e das mangas arregaçadas. Dos vestidos leves e curtos que, em hipermercados e centros comerciais, sugerem nudezes secretas e próximas. Das múltiplas cores que os dias oferecem, como feiras gaiteiras, para ver e ser. Tenho muitas saudades do Verão.
Tem sido um tempo difícil, este tempo anterior ao Sol.
A minha biografia está sujeita aos ditames indignos da mercearia. Sou, como tantos contemporâneos amáveis, obrigado a aturar, a troco de euros funcionários, a mediocridade governante; os maus modos dos poderosos contextuais (que me exigem obediência ou recato); a má gramática de quem (apesar desse furúnculo vergonhoso) fala grosso e demasiado para cima de mim; a perda de esperança que testemunho nos cafés, nas ruas, nas escolas, nas casas dos portugueses; o desconforto de (ter de) conviver com merda em vez de inteligência e sensibilidade; a pena de os meus alunos terem futuro sem Verão; a dor de a cultura e a arte estarem (por toda a parte, meu Deus, por toda a parte!) às mãos de compadrios partidários e paroquiais; a tortura de o Inverno ter talvez aqui ficado para sempre.
O Verão, senhores. Estou só à espera do Verão.
Ribeira de Pena, 09 de Março de 2013.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da formosa série "Verão Azul") foi colhida - com a devida vénia - em http://www.portugalseries.net.]












