Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 28 de outubro de 2012

Saudades do professor Manuel Carneiro


Coube-me escrever o discurso para a cerimónia de entrega de prémios do Concurso Literário de Conto Infantil de Cabeceiras de Basto. Para o final do enunciado, agendei uma singela homenagem ao escritor Manuel António Pina, um dos grandes poetas da nossa língua. Achei justo o tributo e, do ponto de vista da retórica em causa, indicado para aquela ocasião: afinal, tratava-se de, à roda do escritor-jornalista falecido recentemente, celebrar a ideia de literatura (e, em termos mais latos) o interesse e a utilidade da própria cultura.
Ao chegar à biblioteca municipal, no Arco, uma notícia terrível interromperia aquela gloriosa tarde de sol. "Morreu o professor Manuel Carneiro..."
O professor Manuel Carneiro foi meu circunstancial "aluno" na Universidade Sénior; meu actor na peça "Julieu e Rometa" (fazendo, com graça e competência, o papel de Julieu); meu colega no Júri do Concurso Literário de Cabeceiras de Bastos. E foi, sobretudo, um prestigiado e  admirado companheiro, cúmplice do bom humor, do gosto pela arte e pelo conhecimento, do amor pela língua portuguesa.
À pressa e sob esse profundo atropelamento que é perdermos uma pessoa verdadeiramente querida, juntei à homenagem a Pina - no discurso - uma homenagem (não menos sentida) ao professor Manuel Carneiro.
A vida e a morte não dependem só da nossa vontade. Mas o esquecimento ou a lembrança, sim.
Por mim, à falta de melhor alternativa, não deixarei que me morra a memória desta extraordinária pessoa.
Amigo Manuel Carneiro, foi uma grande honra e um grande prazer conhecê-lo. Abraço eterno.

Coimbra, 28 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A foto - que o professor Manuel Carneiro me enviou, há anos, via Facebook - foi tirada na noite do espectáculo teatral que tive a oportunidade de encenar com os queridos actores da Universidade Sénior, há já quatro anos, no Auditório do Mercado Municipal.]



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Acaso ocaso

O aluno desenha no papel um coração.
Depois faz do papel um avião
E lança-o no ar, mas não
Voa e cai no chão.

 

Arco de Baúlhe, 26 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.zazzle.com.]

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Aurora


A aurora que falta é uma razão definitiva
para não morrer.

Arco de Baúlhe, fim d'aulas, 25 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Odor (ó dor!)


À noite, na infância, ouço vozes estranhas. A mãe vem ao quarto e pede-me que durma no sofá. No corredor, diviso gente, malas, um casaco comprido pendurado no bengaleiro. A causa do desassossego chama-se Manuel do Redondo e é amigo do avô, pai do pai. É um velho, como o avô (o avô dirá que se trata de um rapaz do seu tempo). Vem da aldeia para uma consulta. O pai sussurra à mãe que o velho está muito doente. De modo que, por causa do intruso nocturno, eu durmo na sala.
De manhã, bebo o habitual café com leite antes da escola. A mãe vai ao meu quarto buscar-me a roupa e a pasta e explica-me que o velhinho e o pai saíram muito cedo para a consulta.
Sigo para a escola e noto que a bota esquerda está molhada. Não chove, contudo, pelo que é um mistério esta humidade no meu pé esquerdo e aquela mancha mais escura no peito da bota. Ando na segunda classe, a professora chama-se Dona Angélica, gosto da Beatriz e da Manuela João. O meu maior amigo é o Jaime Alves dos Santos. Ele comenta, entre risos, que cheira a mijo na sala. A professora funga e olha, desconfiada, para os meus dois colegas mais pobres.
Ao almoço, revejo o velho. Está desanimado com a conversa do médico e regressará nessa tarde, de camioneta, para sua a aldeia. (A aldeia onde, meses depois, se realizará o seu funeral.)
A mãe pergunta-lhe se dormiu bem. Ele garante que sim. E pede desculpa por, na pressa da manhã, se ter esquecido de despejar o penico. Eu acho estranha aquela conversa porque, ao contrário do que se passava na casa dos avós, não havia penicos em minha casa. O meu pai explica-nos, enquanto o velho arruma a mala lá dentro no quarto, que a doença era nos intestinos mas talvez afectasse também a mente. E suspira:
- Coitado do ti' Manel.
Eu volto para a escola, depois. Ao sair, noto que a bota esquerda tresanda ainda a urina e, por isso, troco de calçado.


Ribeira de Pena, 22 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.portocity.olx.pt.]

sábado, 20 de outubro de 2012

Tributo (triste) a Manuel António Pina

Manuel António Pina é um dos grandes poetas contemporâneos da língua portuguesa. Mais: enquanto criador de uma escrita tão lúcida-original-inteligente-bela, trata-se de um dos grandes escritores de sempre, pelo menos segundo a bitola da minha própria experiência leitora e do meu coração.
Bem sei, quando morre alguém de valor notório, não obstante os eventuais ódios rasteiros que andam à roda de toda a gente (importante ou não), é comum abrir-se logo a torneira dos clichês: saudades muitas, imortalidade garantida, perda irreparável. Pois bem, senhores, também os clichês podem ser verdades profundas.
Creio que Pina foi um destes raros casos que sucedem na cultura de aparecer um autor que trabalha e simultaneamente refresca-enriquece-aumenta a língua utilizada como barro da (sua, pessoal) arte literária.
Nos últimos dez anos, tenho devotadamente lido e divulgado a poesia deste singularíssimo escritor que, a par de Ruy Belo e de Daniel Abrunheiro, me parece o que de mais interessante aconteceu na poesia do meu tempo. O autor de Nenhuma palavra e nenhuma lembrança conseguiu o milagre de abrir as portas dos seus versos à música e às palavras dos dias reais. A realidade vê-se melhor ao ritmo dos seus poemas; a sua poesia incorpora ritmos e palavras da rua, sem que essa profanação voluntária e competente prejudique a sagrada formosura das composições poéticas. Os poemas de Pina são sempre uma novidade, mas – e eis o génio! – parece sempre tudo simples e natural ao ler e ao dizer.
Como bem escrever a grandeza e originalidade do poeta sem cair na poça e na lama de clichês?
Por mim, fico-me para já pela inscrição, aqui, deste singelo testemunho: muitos versos de Manuel António Pina iluminaram e mudaram a minha forma de compreender e dizer o mundo; de compreender e dizer a existência; de compreender e dizer o amor.
Não é isso, vo-lo juro, coisa pouca!

PS: O director do JN, Manuel Tavares, querendo homenagear o jornalista-escritor-camarada-amigo, decidiu que o espaço da coluna “Por outras palavras”, que Pina todos os dias assinava naquele jornal (na última página), ficará doravante em branco. É um tributo nobre; mas seria talvez mais bonito e mais útil que, nesse espaço, aparecesse a partir de agora, diariamente, um poema do mesmo autor. Decerto os herdeiros do poeta não se oporiam à ideia – e muitos, que de Manuel António Pina apenas conheciam as maravilhosas crónicas, teriam ensejo de conhecer também a sua poesia de primeiríssima água.

Ribeira de Pena, 20 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.osol.pt.]

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Montra


 
 
Uma lágrima pluvial desliza obliquamente, de cima para baixo, à minha frente, no lado exterior do vidro que há entre o olhar e a rua. Leva a cair o tempo de um sereno café, no remanso suspenso da lida. A televisão debita as chagas da crise e muitas das cínicas retóricas do nosso desgoverno. A lágrima repousa, depois, no chão cinzento do passeio fronteiro à escrita. Gravo no papel a precária imortalidade deste momento cósmico: eu e o fio de chuva tombando. Isto é, o destino oblíquo da matéria viva em geral, rumando ao horizontal fim que há para tudo, todos.

 
Arco de Baúlhe, 19 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.downloadswallpapers.com.]

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Chuva

Em momentos de nostalgia, Deus recolhe o Sol
(que é Deus a rir-se em forma de criança)
E pode acontecer que chova.
Não deixa de ser coisa divina
A bondade caindo do céu
Mas também me sucede muitas vezes
Entrar a chuva por dentro de mim
E doer-me a ausência de sol como se fosse
Para sempre.

Arco de Baúlhe, 18 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.]

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Esperar o quê


Múrmura vai caindo a chuva
Sobre as casas, os carros, mim correndo –
Vejo-a da mesa habitual, na pastelaria
Por entre o vapor do café e este reformado
Ininterrupto como um gerúndio triste.

A minha paciência já foi, Senhor, maior –
Agora é uma só coisa cardiovascular
De ritmo nem sempre certo, nem sempre doce
Coisa menos dada à constatação da beleza
Que do desemprego.

E vou adivinhando nos transeuntes visíveis
Cúmplices dores e apagamentos de todos.
Rareiam, aliás, os sorrisos pela rua acima
Por haver aqui muita mercearia falida
Muita penúria de finanças e de sonhos.

A esperança emigrou para outro qualquer sítio
Ou tempo.

Arco de Baúlhe, 17 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jmaf-mymobile.blogspot.com.]

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Surrealismo doméstico


O governo explica cinicamente que o assalto feito, pela via dos impostos, visa afinal um propósito bondoso: acudir às necessidades do Estado. A retórica compreende uma delicada noção – a de que é legítimo optar por esta brutidade em determinado contexto de urgência e desespero.

Espera-se que esta tese faça o seu caminho. Os que, por falta de dinheiro, não estejam capazes de fazer face aos seus compromissos (casa, cartões de crédito, transportes, alimentação), à luz do superior ensinamento tutelar, assaltarão talvez bancos e supermercados, fugindo depois em táxi ou autocarro por aí à mão – sem pagar, naturalmente.

 
Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 12 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.delagoabayword.wordpress.com.]

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Sair daqui


Ronaldo voltou a marcar, em Espanha, ao serviço do Real Madrid.
O ministro Gaspar e o consultor Borges ainda mandam em Portugal.
Assim vamos. Prazer ali, nojo aqui. Vida: coisa delicada, complexa, desconcertante, desigual, para sempre de altos e baixos.

Ribeira de Pena, 09 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com o devido respeito, em http://www.abola.pt.]

sábado, 6 de outubro de 2012

Infinito não


De muitas mortes hei morrido antes do Fim;
De muitas vidas se tem feito o vivo enlevo.
Infinito é quant' há depois de mim
Mas isso, por estar vivo, não descrevo.

Arco, 04 de Outubro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (representação do sonho, por Dali) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.complexowill.blogspot.pt.]

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Contemporâneo




O rio descemos juntos, meu irmão
E juntos somos parte da paisagem;
Talvez haja mar no fim, ou não –
Mas, ai, juntos somos a viagem!

Arco de Baúlhe, 28 de Setembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (a lembrar a viagem de Huck, escrita por Twain) foi colhida, com a devida  vénia, em http://www.fotosearch.de.]

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Fotografias antigas (Notas a sépia) - 3

Muito Bom

Percebi muito cedo que copiar um texto para o caderno, como fazíamos na escola primária, não era já bem copiar um texto. Era mais experimentar certo mesmo caminho, de letras e sentidos, que outra pessoa fizera; sentir nos dedos e na cabeça (às vezes também no coração) as mesmas ideias que outrem sentira; fazer uma cúmplice ginástica de sintaxe e de melodia, irmanado no mesmo ofício da comunicação que alguém (por si, por mim, por nós, connosco) inaugurara.
A minha caligrafia, aí pelos oito anos, era já tão formosa como poderia jamais ser. (A lembrança é ainda mais dramática quando hoje dou por mim a inscrever gatafunhos ilegíveis nos meus diários de bordo!) De modo que, em 1971, a professora (dona Angélica) fez-me uma festinha no crânio e cumprimentou-me publicamente pela perfeição caligráfica, num elogia público que despertou sorrisos na menina Manuela João, a mais bonita (a par da Beatriz) das condiscípulas. A classificação da professora – “Muito Bom”, mãe! - ficou no lado direito da folha como uma certificação de excelência olímpica. Mas o mais importante, soube-o logo, era depois eu lembrar-me para sempre de algumas palavras estranhas e rigorosas, bem como de inteiras frases lindas sobre Portugal, tudo tesouros que o texto copiado me ensinara.
Não só tal, confesso. Numa espécie de continuidade poética, permaneceria também o orgulho da minha mãe e, mais distraído, do meu pai.
E ainda aquele sorriso da Manuela João em tudo quanto eu para sempre visse nos dias seguintes à glória de bem escrever.

Arco de Baúlhe, 25 de Setembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Fotografias antigas (Notas a sépia) - 2

O primeiro dia

Chego à escola pela primeira vez. É em Lavacolhos, Fundão. Hei-de por lá ficar durante duas semanas, modo encontrado pelos pais para contornar a impossibilidade de matrícula em Coimbra, na Escola do Casal Ferrão. A professora, Dona Angélica, tinha dito que só no ano seguinte seria possível o meu ingresso no mundo dos livros: havia muitos alunos inscritos em Coimbra e eu só completava os seis anos em Abril...
Lavacolhos é a terra do meu avô materno, António dos Reis Mateus. Há por lá ainda tios e primos afastados. A terra afigura-se-me, à primeira vista, um planeta estranho, rude, frio. Minha mãe, carregando ao colo a Fátima (irmã mais nova, quatro anos apenas), lá tenta despedir-se, mas eu agarro-me desesperadamente à sua mão.
- Tem de ser - assevera.
Choro. A professora desta escola iniciática chama-se talvez Natália. Nós diremos sempre, em vez do seu nome, "Senhora professora". É uma mulher já antiga, pouco afectuosa. Puxa-me com vigor para a segunda carteira da direita e sugere à minha mãe que volte ao meio-dia.
Vejo as lágrimas da minha mãe através das minhas próprias lágrimas. Há mais gente como eu e a minha mãe naquela manhã de Outubro. E há mais lágrimas como as nossas. Os meus colegas, conhecidos já uns dos outros, miram-me com curiosidade trocista.
A minha mãe parte. Experimento a solidão mais triste de todas. É como se me obrigassem a nascer outra vez e não houvesse à minha espera qualquer aconchego compensatório.
Depois, a professora desenha no quadro: a e i o u. Nós repetimos e os sons vão-se casando, na minha memória, com as letras, até se tornarem - letras e sons - coisas unas, indissolúveis, lógicas.
Com isto, uma felicidade instala-se e troco as lágrimas do início por um sorriso grato.
Ao almoço, mostro à minha mãe o que aprendi. A minha mãe acaricia-me. Decido-me a saber mais e a fazer mais para outras (futuras, novas) carícias merecidas.
Desde aí que a minha vida é um pouco construída nesse sentido: mostrar-me à minha mãe, ser digno das suas carícias.

Arco de Baúlhe, hora d'almoço, 20 de Setembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Quadra contra desistir


Some-te de mim, Saudade!
T’arrenego, Depressão!
Só perdi a Mocidade –
O resto, não!


Ribeira de Pena, já  18 de Setembro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.umpovoarasca.blogs.sapo.pt.]