Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

domingo, 12 de agosto de 2012

Pátria


Pátria – o que é?
Ocorre-me apenas a ideia de uma língua comum, de um espaço comum, de memórias comuns, de um compreensivo aconchego identitário onde cabem pessoas, lugares, músicas, livros, edifícios, histórias.
A minha pátria é sobretudo Coimbra. Mas Coimbra tem muitas ruas, nela coexistindo muitas ideias de pátria. Muitas pátrias.
Questão outra: há uma pátria para o Homem?
Resposta óbvia: o mundo. Mas muitas ruas tem o mundo.

Coimbra, 12 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Ana Rita) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.trekearth.com.]

sábado, 11 de agosto de 2012

Pão de cada dia


O Sol acende-se à ordem das aves
E o meu dia é outra vez primeiro –
Dia, digo, novo como a palavra mãe
Na boca de um infante de oito ou nove meses
Quando a semiótica é ainda pura como tangerinas de quintal.
Antes do Lidl há uns mil metros de imortalidade a passo
(A rotina, havendo tempo e Sol, é uma sólida eternidade):
Saúdo-te, pois, manhã da minha rua
S. Miguel, ou Manuel Almeida e Sousa, ou
Simplesmente Coimbra que é
A minha rua toda sempre e tudo!
Sabei que se está bem nesta coisa d’agora d’agosto
Que há nos meus passos olhos mãos
E (para que a coisa se não perca) no papel.
Olhai: raparigas fluindo na paisagem são também
Aves (agora silentes) cantando por dentro
E o Sol dá-lhes, claro, a luz que merecem
Até cegarmos.
Saúdo-te, manhã, e levo pão
(ainda quente de nascer)
À minha mãe.

Coimbra, 10 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.skysrapercity.com.]

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Cantiga para Pedro e Inês


- Não nos basta a Razão,
Ó Joaquim?
- Não.
- Não?
- Dá-me a tua mão
(Agora sim).

Coimbra, 10 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (Pátio da Inquisição, Coimbra) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.members.virtualtourist.com.]

Míngua


Três e vinte da tarde, praia da Tocha. Dois tractores vão recolhendo as redes que, antes, os pescadores haviam lançado no horizonte.
Locais e turistas aproximam-se, dolentes e curiosos. Preparam-se as máquinas fotográficas (ou os telemóveis). Os rostos dos pescadores denotam preocupação, maior a cada minuto. Eu, que tenho alguma experiência espectadora (praia de Mira, século XX), adivinho ali o drama: pescaria provavelmente pobre.
Assim é. Pouco pescado aparece no fundo da longa malha castanha.
Uma mulher, decerto indígena, atira para aquele sénior calvo que arruma as redes chegadas à areia:
- Ó M., isto nem para a bucha dá.
O homem encolhe os ombros.
Um dos tractores afasta-se até desaparecer. Nós seguimo-lo.

Tocha, 08 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Leituras d'Estio


Leio sans cesse: no remanso da sala, à tardinha; no Café, a cada intervalo das voltas doméstico-contribuintes; no quarto, até chegar o sono ou o barulho das aves madrugadoras.
Deliciei-me ultimamente com Tabucchi (O Tempo Envelhece Depressa), confirmei o génio de Daniel Abrunheiro (Cadernos de poesia, de diarística, de crónica, de metanarrativas, sem outra ordem que a da desconcertante poética do Autor); folheei na Fnac o estimulante Matura Idade, de David Mourão-Ferreira (com prefácio razoável de Vasco Graça Moura); estou a reler (e já vou a meio) o Alma, de Manuel Alegre. Mas sobretudo tenho revisitado o grande José Vilhena, que narrativamente me traz certo Portugal e certos portugueses, que sempre me fez (faz) sorrir e - nem sei bem como isto funciona - sempre me comove.
Bem sei, senhores, bem sei, que há literárias diferenças entre Vilhena e os outros que supra-menciono. Patamares, talvez. O próprio Vilhena no-lo lembra a cada passo e diverte-se com tal. Mas eu, residente neste hospital de doidos que tantas vezes é a minha contemporaneidade, preciso muito desta simplicidade e deste riso franco e chão! De Vilhena em vez de Vileza.
Compreendeis?

Coimbra, 08 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com adevida vénia, em http://www.blogdaruaonze.blogs.sapo.pt
.]

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Mortalidade (aliterada)


Esvai-se já o ex-Verão menino
(A pressa é no prazer parte do preço);
Soa ao sul um cego, doce sino
Sucede ao sonho o sono - e adormeço.

Coimbra, 07 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quadrilha inquilina (glosando Drummond)


Gonçalves despediu José
Que ficou desempregado e não pagou a renda
Que o senhorio exigiu até ao final do mês
Que veio depressa e trouxe a polícia
Que despejou José
Que caiu no alcoolismo
Que mata milhões de pessoas por ano em Portugal
Que parece um país próximo do fim
Que é triste.

Coimbra, 06 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.molon.de/galleries/Portugal/Coimbra.]

domingo, 5 de agosto de 2012

Melodia em ver


A música escreve-se entre céu e chão
Enquanto, divina, a senhora passa;
São o ritmo as ancas fugindo à visão
É melodia a tela morrendo com graça.

Arganil, 02 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da inesquecível Kim Basinger) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.movioladigital.blogspot.com.]

sábado, 4 de agosto de 2012

Campo do Bolão, iniciados


Geometrias e acasos sobre o relvado
Alegram a normal manhã dormente.
O sô Zé quer saber o resultado
(Acordou hoje mais tarde inexplicavelmente) –
Estamos a ganhar, mas nunca fiando,
Responde o sô Fernando,
Nunca fiando.

Coimbra, 04 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tophl.com.]

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Cá se fazem, cãs se pagam


Fui a uma cabeleireira da rua natal cortar o cabelo. A senhora é minha conhecida e muito competente no seu serviço. Eu vou lá poucas vezes porque, em regra, trato da tosquia em Vila Pouca de Aguiar, mas o presente mês é de férias e eu cá estou por esta amada Coimbra.
Confirmei às primeiras tesouradas que a maior parte do meu cabelo é agora branca. Deus! Ainda me lembro de ver, há uns quinze anos, as primeiríssimas cãs (e de como ainda me dei ao trabalho de, então, arrancar quaisquer fios de neve que, aqui e ali, detectasse).
Este peso de envelhecer, que nunca me abandona, tornou-se agora mais bruto, mais doloroso, mais conspícuo. Inclemente é o Tempo. Mata-nos o Tempo.
A cabeleireira pergunta-me com a amabilidade costumeira:
- É o habitual?
E eu respondi, não pensando no volume capilar ou no penteado:
- É, sim. O habitual.

Coimbra, 03 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.]

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Escrita


Acredito na tela anterior à pintura –
Escrevo como quem devolve à vida a cor.
Sou garimpeiro de luz, arrumador
De formas, repositor de ternura.

Coimbra, 02 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http//www.artcamargo.com.]

Decência zero



[Nota: Este texto usa linguagem que pode ferir os espíritos mais sensíveis.]

Ler as notícias na net tem, como tudo, vantagens e desvantagens. Eu, se pudesse escolher, optaria sempre pelo papel - a letra impressa nas árvores, o corpo do texto tocado por dedos simultâneos aos olhos. Adiante, não é disso que quero falar.
O pior que há nos jornais netlidos é a inevitabilidade de convivermos com alguma da escumalha mais estúpida e bestial do planeta: gente inimiga da inteligência, do bom senso, das boas maneiras, da gramática, da ortografia.
Falo dos “leitores/comentadores”. São criaturas que não se dispensam de opinar sobre futebol, jogos olímpicos, economia, saúde, justiça, educação, moda, literatura, segurança, história, televisão, filosofia, sexo, automóveis, ecologia, aborto, adopção de crianças, desaparecimento de Maddie, casamento de Luciana Abreu, medula óssea para o filho do Carlos Martins, situação na Síria. Etc. Etc. Etc.
Ontem, perante a notícia catastrófica dos quinze mil professores que ficam com “horário zero” (e o pressuposto de mais uns vinte mil contratados para ficarem para sempre afastados do ensino), eufóricos energúmenos aplaudiram. Um deles (e traduzo para Português, a bem da decência) escreveu:
Não percebo esta preocupação com gente que ganha 3.000 Euros por mês e tem 5 meses de férias.”
Perante tais excrementos (isto é, opiniões revestidas a escarro e merda), que há senão a resposta asseada do silêncio?
Toma lá, pois, o meu silêncio, ó estimável cabrão ignorante!

PS (ainda antes do silêncio prometido): Terrível é saber que, em situações de crise, estes discursos tendem a tornar-se normais. Ora, isto de os Anormais serem a Norma não é, desculpai, bom sinal!

Coimbra, 02 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http//www.iol.pt.]

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Penedono


Conviver com a majestade das pedras e dos montes
Olhar do alto do castelo a mínima condição que sou
Passear como um estrangeiro rendido pela leda limpa Serenidade
Sentir em cada rua o antigo respeito dos homens pela terra
Estar no planeta deste Instante como em minha casa

Penedono, 01 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
(Foto JJC)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ganhar a vida



Durante a manhã, ouvi uma bela reportagem da TSF sobre gente que, cansada de trabalhos pouco estimulantes, de trabalhos sem futuro, ou da falta de trabalho, decidiu apostar em modos menos convencionais de trabalhar e de "ganhar a vida". Denominador comum era a ideia de se perseguir, tanto (ou mais) do que a mera subsistência, a felicidade, o bem-estar, a paz de cada um consigo próprio.
Entre outros, avultava o exemplo de João Quadros (escritor-argumentista que alimenta, com textos por vezes geniais, alguns dos melhores humoristas da nossa praça como Herman ou Bruno Nogueira).
Este autor foi em tempos gestor de recursos humanos numa empresa (isso ou coisa que o valha). Certo dia, durante uma reunião muito grave & séria, pensou na possibilidade de ir - um dia - para a Suíça trabalhar nas vindimas. Subitamente, deu por si a pensar: "E se fosse agora mesmo?"
De modo que pediu para ir à casa-de-banho e não voltou lá.
De acordo com o seu testemunho, João Quadros é, hoje, feliz. Diz que cada um deve fazer profissionalmente aquilo que lhe dá prazer e, sobretudo, aquilo em que acha que é melhor.
Eu decidi ser professor porque acreditei (e, vá lá, ainda acredito) que é neste território que posso ser feliz e repartir com os meus contemporâneos parte significativa das minhas principais qualidades.
Mas já me aconteceu, desde que David Justino foi ministro, e depois a inenarrável Maria de Lurdes Rodrigues, e depois outros, pensar nas vindimas. Talvez um dia peça para ir à casa-de-banho...

Coimbra, 31 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ionline.pt.]

segunda-feira, 30 de julho de 2012

João, Mestre


Há dois anos, pela hora exacta em que escrevo, eu vi um homem agonizando numa cama do hospital do Funchal. Tinha uma barba de talvez dois dias, o cabelo desusadamente enorme, uma máscara de oxigénio sobre a boca e o nariz, os olhos fechados para o mundo, a respiração ofegante e desesperada como a de um náufrago doutro Noé.
Era o meu sogro. Na Madeira, chamavam-lhe quase todos “mestre João”; não eu, que me habituei a chamar-lhe “senhor João” – e contudo lhe reconhecia, como os demais, essa condição maior de virtuoso e exemplar professor da vida.
Eu e a MP falávamos sobre ele aí pelas seis da tarde do dia 30 de Julho de 2010, passeando melancolicamente pela promenade de Machico. Não sabendo então como dizer a minha falta de esperança em melhoras, optei por me lembrar apenas, em voz alta, de episódios pícaros ou épicos que o Mestre João protagonizara há (parecia-nos) tão pouco tempo.
Depois, o telefone tocou. Era a L. a dar-nos conta de que falecera o pai, sogro, avô, vizinho, amigo de tanta gente.
Trouxe-me o casamento este bónus nada despiciendo: ter por sogro o Mestre João. Isto é, conhecer um sábio que era santo, um santo que era sábio. E tão profunda impressão me causou, senhores, que é como se este homem bom estivesse para sempre vivo.

Coimbra, 30 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho