Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Decência zero



[Nota: Este texto usa linguagem que pode ferir os espíritos mais sensíveis.]

Ler as notícias na net tem, como tudo, vantagens e desvantagens. Eu, se pudesse escolher, optaria sempre pelo papel - a letra impressa nas árvores, o corpo do texto tocado por dedos simultâneos aos olhos. Adiante, não é disso que quero falar.
O pior que há nos jornais netlidos é a inevitabilidade de convivermos com alguma da escumalha mais estúpida e bestial do planeta: gente inimiga da inteligência, do bom senso, das boas maneiras, da gramática, da ortografia.
Falo dos “leitores/comentadores”. São criaturas que não se dispensam de opinar sobre futebol, jogos olímpicos, economia, saúde, justiça, educação, moda, literatura, segurança, história, televisão, filosofia, sexo, automóveis, ecologia, aborto, adopção de crianças, desaparecimento de Maddie, casamento de Luciana Abreu, medula óssea para o filho do Carlos Martins, situação na Síria. Etc. Etc. Etc.
Ontem, perante a notícia catastrófica dos quinze mil professores que ficam com “horário zero” (e o pressuposto de mais uns vinte mil contratados para ficarem para sempre afastados do ensino), eufóricos energúmenos aplaudiram. Um deles (e traduzo para Português, a bem da decência) escreveu:
Não percebo esta preocupação com gente que ganha 3.000 Euros por mês e tem 5 meses de férias.”
Perante tais excrementos (isto é, opiniões revestidas a escarro e merda), que há senão a resposta asseada do silêncio?
Toma lá, pois, o meu silêncio, ó estimável cabrão ignorante!

PS (ainda antes do silêncio prometido): Terrível é saber que, em situações de crise, estes discursos tendem a tornar-se normais. Ora, isto de os Anormais serem a Norma não é, desculpai, bom sinal!

Coimbra, 02 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http//www.iol.pt.]

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Penedono


Conviver com a majestade das pedras e dos montes
Olhar do alto do castelo a mínima condição que sou
Passear como um estrangeiro rendido pela leda limpa Serenidade
Sentir em cada rua o antigo respeito dos homens pela terra
Estar no planeta deste Instante como em minha casa

Penedono, 01 de Agosto de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
(Foto JJC)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ganhar a vida



Durante a manhã, ouvi uma bela reportagem da TSF sobre gente que, cansada de trabalhos pouco estimulantes, de trabalhos sem futuro, ou da falta de trabalho, decidiu apostar em modos menos convencionais de trabalhar e de "ganhar a vida". Denominador comum era a ideia de se perseguir, tanto (ou mais) do que a mera subsistência, a felicidade, o bem-estar, a paz de cada um consigo próprio.
Entre outros, avultava o exemplo de João Quadros (escritor-argumentista que alimenta, com textos por vezes geniais, alguns dos melhores humoristas da nossa praça como Herman ou Bruno Nogueira).
Este autor foi em tempos gestor de recursos humanos numa empresa (isso ou coisa que o valha). Certo dia, durante uma reunião muito grave & séria, pensou na possibilidade de ir - um dia - para a Suíça trabalhar nas vindimas. Subitamente, deu por si a pensar: "E se fosse agora mesmo?"
De modo que pediu para ir à casa-de-banho e não voltou lá.
De acordo com o seu testemunho, João Quadros é, hoje, feliz. Diz que cada um deve fazer profissionalmente aquilo que lhe dá prazer e, sobretudo, aquilo em que acha que é melhor.
Eu decidi ser professor porque acreditei (e, vá lá, ainda acredito) que é neste território que posso ser feliz e repartir com os meus contemporâneos parte significativa das minhas principais qualidades.
Mas já me aconteceu, desde que David Justino foi ministro, e depois a inenarrável Maria de Lurdes Rodrigues, e depois outros, pensar nas vindimas. Talvez um dia peça para ir à casa-de-banho...

Coimbra, 31 de Julho de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ionline.pt.]

segunda-feira, 30 de julho de 2012

João, Mestre


Há dois anos, pela hora exacta em que escrevo, eu vi um homem agonizando numa cama do hospital do Funchal. Tinha uma barba de talvez dois dias, o cabelo desusadamente enorme, uma máscara de oxigénio sobre a boca e o nariz, os olhos fechados para o mundo, a respiração ofegante e desesperada como a de um náufrago doutro Noé.
Era o meu sogro. Na Madeira, chamavam-lhe quase todos “mestre João”; não eu, que me habituei a chamar-lhe “senhor João” – e contudo lhe reconhecia, como os demais, essa condição maior de virtuoso e exemplar professor da vida.
Eu e a MP falávamos sobre ele aí pelas seis da tarde do dia 30 de Julho de 2010, passeando melancolicamente pela promenade de Machico. Não sabendo então como dizer a minha falta de esperança em melhoras, optei por me lembrar apenas, em voz alta, de episódios pícaros ou épicos que o Mestre João protagonizara há (parecia-nos) tão pouco tempo.
Depois, o telefone tocou. Era a L. a dar-nos conta de que falecera o pai, sogro, avô, vizinho, amigo de tanta gente.
Trouxe-me o casamento este bónus nada despiciendo: ter por sogro o Mestre João. Isto é, conhecer um sábio que era santo, um santo que era sábio. E tão profunda impressão me causou, senhores, que é como se este homem bom estivesse para sempre vivo.

Coimbra, 30 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

domingo, 29 de julho de 2012

Domingo na Tocha (Infinitivo familiar)


Ir à praia ver o mar
Comer frango na floresta
Ler, dormir & passear
Ter a festa que nos resta.
                                               
Tocha, 29 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.olhares.sapo.pt.]

Glosa de Ruy Belo





 
É triste no outono concluir
Que era o verão a única estação” (Ruy Belo)

Para sempre quero no Verão viver
E nada mais desejo, amor, em sorte!
O Outono aborrece como envelhecer
E o Inverno é estúpido como a morte.

Tocha, 29 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.norastode ruybelo.blogspot.pt.]

sábado, 28 de julho de 2012

Conversa com o Daniel


Eu dizia-lhe, sobre alguns termos, expressões e arquitecturas sintácticas da sua escrita, que aquilo era a Língua Portuguesa lutando pela sua pureza original. A desesperada Língua Portuguesa resistindo, estrebuchando.
Quase ao mesmo tempo, à roda da ideia dita, coincidimos na imagem de peixes saltando nas redes da praia de Mira, ainda exuberantemente vivos antes de, à falta de mar, morrerem.
E a essa imagem seguiu-se, na minha cabeça, a imagem (bela e trágica) do rouxinol de Bernardim despedindo-se formosamente da vida.
Isso tudo, enfim, para agora vos dizer, sobre a literatura de Daniel Abrunheiro (e sobre a grande literatura em geral), que há nela, quase sempre, uma espécie de despedida esteticamente administrada. A vida dizendo(-se) adeus ao melhor que a vida é. A vida, via linguagem, abrindo-nos janelas para o segredo essencial da vida. Rouxinol desmaterializando-se num fumo de música, peixes acrobatas com saudades do oceano.

PS: Recomendo a visita a http://www.canildodaniel.blogspot.com. Evidentemente.

Coimbra, 28 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.coisinhasdo5c.blogspot.pt.]

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Praça do Coração



O meu coração é uma antiga praça
Com árvores e esplanada ao fundo.
Se passares por lá, amor, abraça
O quanto há aí de nós e mundo
(Posterior, presente, anterior) -
Abraça, ai, a graça desse espaço!
Se passares por lá, ó meu amor,
Dá-me um abraço.

Coimbra, 27 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem (foto da Praça da República, Coimbra) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com/.]

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Quadra sobre a dificuldade de lidar com as horas passando


Ao deus da Melancolia
Voto quanto faço-posso:
Saudades de cada dia
De cada dia o pão nosso.

Coimbra, 26 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Queima das fitas. Imagem com cerca de dez anos, refotografada em 2012.]

quarta-feira, 25 de julho de 2012

4 fragmentos da vida urbana




1. Hipermercado

A matriarca distrai-se a verificar algumas minudências técnicas dos iogurtes e, quando retoma a marcha, empurra com a carteira um cartaz que diz “Promoções – 10% de desconto no seu cartão”. Ela bem se apercebe da desarrumação que causou e talvez hesite por um segundo, mas acaba por encolher os ombros e seguir. O filho vai atrás. Não tem mais de doze anos, mas claramente reprova a incúria da mãe. De modo discreto, levanta do chão o cartaz e recoloca-o no lugar onde antes estivera.
A mulher, já na zona dos gelados, chama-o, zangada por ele ter ficado para trás.

2. Estrada

À minha frente, vai um utilitário azul, de matrícula recente. Assisto, enquanto conduzo, a um ataque de fúria do (imagino) marido, que divide o olhar entre a estrada e (imagino) a esposa, gritando e gesticulando como um macaco em guerra. Da pobre destinatária desta ira só vislumbro a cabeleira loira caindo pela esquerda do banco. À rotunda que contornamos ao fundo do Monte Formoso, o homem dá uma espécie de safanão à mulher e, de indicador em riste, vocifera (imagino) ameaças terríveis.
Deixo de assistir ao drama logo a seguir porque tomo o caminho da baixa e o outro carro ruma à auto-estrada.


3. Estação Velha

Uma moça de uns trinta anos grita ao telemóvel. Insulta alguém, obviamente, e noto-lhe por segundos um fio de saliva selvagem escorrendo-lhe dos lábios. Eu e os taxistas ouvimos distintamente, no discurso da rapariga, epítetos como “porco” e “vigarista”, enviados (como pedras) pelo aparelho. Do outro lado, alguém lhe deverá ter dedicado os mesmos mimos porque, ditos pela moça, aparecem na forma enfática de “Tu é que” (“Tu é que és porco”, “Tu é que é vigarista”).
Apesar de tudo, há ali algo de feminino e belo, sobretudo quando ela, talvez para recuperar o fôlego, levanta o rosto para o céu e inspira profundamente.


4. Peões

Um rapaz e uma rapariga (ambos altos – ele vestido sei lá como; ela graciosa como uma gazela no National Geographic, de saia vermelha, comprida e fina, toda colada ao corpo) atravessam a estrada a correr, indiferentes ao claxon de um (talvez) delegado de propaganda médica vestido de Renault Mégane. Ouço-lhes as gargalhadas já no outro lado da avenida, no passeio fronteiro à estação rodoviária.
Ela sacode o cabelo, talvez com calor. Ele beija-a (por mim), como é sua obrigação.

Coimbra, 25 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

terça-feira, 24 de julho de 2012

Reencontro




Há quinze anos que não o via. Foi em tempos um jogador de futebol a quem, nos distritais de Coimbra, se adivinhavam glórias mundiais. Bom conversador, galã emérito e razoável contador de anedotas, muito brilhava no Café Lusa-Nova perorando sobre desporto, mulheres, férias de Verão.
Quando comecei a jogar no União de Coimbra, ele achava que inevitavelmente eu próprio viria a cumprir o seu anunciado destino (entretanto devindo outra coisa, como por norma sucede aos seres humanos). Na sua previsão, eu acabaria num Sporting, num Benfica ou num estrangeiro.
O melhor de tudo foi eu ter conseguido, com apenas dezassete anos, o direito a fazer parte do grupo mais engraçado do Café. Mais velho que eu dez ou onze anos, o A. deixou-me entrar no seu círculo de charlas, rindo-se das minhas piadas e escutando até em silêncio uma qualquer opinião sobre Eça de Queirós. (Disse-me, certa vez, que era para si um completo mistério isto de eu ler tantos livros e simultaneamente gostar de futebol como gostava).
Soube agora que está há uma década em Tenerife e que aí trabalha na área da construção civil. O seu discurso já soa um bocadinho a castelhano verdadeiro (e não tenho a certeza de que o fenómeno seja inteiramente involuntário). Mantém o sentido de humor e, apesar de a cabeleira já lhe rarear e de o penteado muito ter encanecido, lá continua a mirar a paisagem feminina com a gula de um lobo jovem.
Em verdade vos digo: foi um prazer conversar com este amigo, ali pela manhã quente da Rua Visconde da Luz. Regressa a Tenerife no final de Julho e só voltará à (nossa) cidade em Dezembro, se o patrão deixar.
À despedida, rindo, desejo que não sejam precisos outros quinze anos para nos reencontrarmos. Ele exclama:
- Assim não há-de ser! Coño!

Coimbra, 24 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é de Os Amigos de Alex (no original, The Big Chill), filme de 1983 que Laurence Kasdan realizou.]

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Frio

É tão frio quando já é tarde
Tão inverno sermos flores caídas.
É uma profunda dor ser-se só olhar
E trocar-se o amor por fotografias velhas…

É tão mais frio quando já é nunca
E, em vez de sermos, apagamos
A luz.

Coimbra, 23 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[O poema foi escrito em  1997. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.poesiapensamento.blogspot.com.]

domingo, 22 de julho de 2012

Corrida


Corre enquanto o corpo preste
(Do Choupal a nunca mais).
Mal sabes de onde vieste
Nada sobre aonde vais!

Coimbra, 23 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cantigasdomaio.blogspot.pt.]

sábado, 21 de julho de 2012

Beijinho à Odete

A professora Odete Figueiredo é minha colega na Escola Básica de Arco de Baúlhe. Ao longo de uma década, habituei-me a ouvi-la falar de sua mãe. Percebi que se tratava de uma preocupação constante, apenas equiparável – no meu imaginário – à que sinto pela saúde e bem-estar da minha única filha.
Com os anos, bem sei, tornamo-nos encarregados de educação (também) dos nossos pais. E estes, com o tempo, tendem a tornar-se frágeis como cristal muito fino.
A Odete andava há algum tempo com aquela tristeza que os humanos inevitavelmente sofrem perante a inevitabilidade do fim de quem amamos.
Soube que a mãe da Odete partiu ontem. A perda de uma mãe, como a entendo, é um tsunami grande. Um tsunami velho e universal.
Eu estou aqui contigo, Odete, vizinho absoluto da tua Dor.

Coimbra, 21 de Julho de 2102.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto da Odete, durante uma visita de estudo a Ribeira de Pena com os nossos alunos do 7.º ano.]

José Hermano Saraiva, Professor



Sou do 25 de Abril quase da mesma maneira como sou de Coimbra, do Sporting, da minha família e dos meus amigos. E sei que José Hermano Saraiva, ontem falecido, era assumidamente uma pessoa "do Estado Novo".
Dito isto, quero dizer que me habituei a telever e a ler o professor José Hermano Saraiva com invariável sentimento de prazer e admiração.
Não é preciso estarmos sempre de acordo para admirarmos quem é digno da nossa admiração. E nenhuma ideologia ou cartilha de oportunidade podem substituir-se ao meu próprio juízo livre.
José Hermano Saraiva foi um português que, como bem disse um filho seu, ajudou os portugueses a gostarem um pouco mais de si próprios.

Coimbra, 21 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A primeira imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.acorianooriental.pt. A segunda imagem foi colhida na wikipédia.]