Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 21 de julho de 2012

Beijinho à Odete

A professora Odete Figueiredo é minha colega na Escola Básica de Arco de Baúlhe. Ao longo de uma década, habituei-me a ouvi-la falar de sua mãe. Percebi que se tratava de uma preocupação constante, apenas equiparável – no meu imaginário – à que sinto pela saúde e bem-estar da minha única filha.
Com os anos, bem sei, tornamo-nos encarregados de educação (também) dos nossos pais. E estes, com o tempo, tendem a tornar-se frágeis como cristal muito fino.
A Odete andava há algum tempo com aquela tristeza que os humanos inevitavelmente sofrem perante a inevitabilidade do fim de quem amamos.
Soube que a mãe da Odete partiu ontem. A perda de uma mãe, como a entendo, é um tsunami grande. Um tsunami velho e universal.
Eu estou aqui contigo, Odete, vizinho absoluto da tua Dor.

Coimbra, 21 de Julho de 2102.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto da Odete, durante uma visita de estudo a Ribeira de Pena com os nossos alunos do 7.º ano.]

José Hermano Saraiva, Professor



Sou do 25 de Abril quase da mesma maneira como sou de Coimbra, do Sporting, da minha família e dos meus amigos. E sei que José Hermano Saraiva, ontem falecido, era assumidamente uma pessoa "do Estado Novo".
Dito isto, quero dizer que me habituei a telever e a ler o professor José Hermano Saraiva com invariável sentimento de prazer e admiração.
Não é preciso estarmos sempre de acordo para admirarmos quem é digno da nossa admiração. E nenhuma ideologia ou cartilha de oportunidade podem substituir-se ao meu próprio juízo livre.
José Hermano Saraiva foi um português que, como bem disse um filho seu, ajudou os portugueses a gostarem um pouco mais de si próprios.

Coimbra, 21 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A primeira imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.acorianooriental.pt. A segunda imagem foi colhida na wikipédia.]

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Daniel com Graça









O Daniel Abrunheiro é o maior poeta português vivo e um dos melhores poetas dos séculox XX e XXI. Casou-se hoje com a formosa Graça. Estive no casamento e, mais ou menos por acidente, tive a honra de ser padrinho.
Foi um dia bom e limpo.
Deixai que vos explique este privilégio: se eu tivesse nascido por alturas de 1887, e se Pessoa tivesse chegado a casar com Ophélia (aí por 1930, por exemplo), e se eu fosse amigo muit'antigo do poeta da "Tabacaria", estaria talvez no casamento desse outro génio e a honra seria a mesma. Daqui a um século, irmãos, percebereis o que ora vos digo.
Felicidades, Daniel e Graça.

Coimbra, 20 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos da MP.]

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sete poemas em vez do silêncio

Dia de voltar a Coimbra. Arrumações. Livros e papéis. Papéis para conservar e papéis para deitar no Papelão.
Entre milhares de folhas, salvo (nem sei porquê) algumas com versos (ou rascunhos de versos). Leio-os no silêncio da cozinha, ante os montes habituais. São 11 poemas datados de 1997. Comove-me ouvir a voz de um outr’eu que algures fui. Identifico-me com o poeta aqui e ali.
Enfim, trago sete destes discursos, para já, ao Muito Mar. Não é este um mau destino, se considerarmos a alternativa que era o contentor do outro lado da rua.

POEMA 1: Do Mundo

Sabes, Deus?
O meu problema é a beleza estar tão disseminada –
Custa-me tantinho concentrar o olhar
E o sangue!

POEMA 2: Dos Outros

Vinde até mim pelo lado das virilhas
E contai-me histórias inteligentes,
Sim?
Erectentenderei então a vida
E os outros
E habitarei essa casa maluca de ter saudades.
Se me quereis querendo-vos como devo
Conquistai-me como deve ser.

POEMA 3: Do Amor

O amor é uma flor com dentadura feliz
Em lugares com asas;
O sorriso das flores é prévio a morder
O coração das casas.

Uma metáfora é no amor um trem fértil:
Os moradores de sentir vivem-viajam em trilhos
E habitam o próprio movimento.

A chave de tudo está naquele desejo das flores sorrindo
E na imprudência de olhando-as morrermos devorados –
Tão belas são as mortes perfumadas e às cores!

POEMA 4: Do Régio

Não venhas por aqui,
Diz-me Régio com olhos baços –
E eu olho Régio com olhos lassos
(Há nos meus olhos ironias, não cansaços)
E abro os braços
E voo por ali!

POEMA 5: Do Estatuto do Poeta

O Poeta deve ser possuidor de uma dor verdadeira.
Não sendo possuidor de uma dor verdadeira, deve inventá-la.
Não sendo capaz de inventá-la, deve abdicar de ser Poeta.
Ora isso
(Abdicar de ser poeta por incapacidade de sentir
Ou por incapacidade de inventar uma dor verdadeira)
Dói sempre (verdadeiramente dói)
A um Poeta.

POEMA 6: Da Morte

Morri há minutos.
Escrevo que morri há minutos
Como?
Estou a ver-me morto
Há minutos morto
E alguém (que sou eu)
Segura-me
Evitando que caia.
Aquele que não morri
Parece desesperado,
Mãe.
A morte está ali à porta
Quase irónica (digo:
Quase irónica, mas não:
Parece também hesitante e confusa).
A porta hesita entre fechar-se ou
Não estar ali.

Levanto-me da cama
E escrevo num canto do jornal:
Fazer um poema com isto.

POEMA 7: Da Acta

E nada mais havendo a acrescentar
Deu-se por encerrado este dia
Que depois de querido e gasto
Falecerá às mãos de Deus
E de mim que o secretariei
Aliás sofri.
(Datar e adormecer.)

Ribeira de Pena, 19 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jornale.com.br.]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

In-dependências

Diz-nos a História de todas as seitas que os convertidos mais recentes tendem a ultrapassar, em entusiasmo e militância, os seus mais antigos defensores.
Não por acaso, os chamados cristãos-novos, na Idade Média e até em períodos posteriores (que chegaram, pelo menos, ao século XVIII), eram alguns dos mais diligentes perseguidores de judeus & derivados.
Tratar-se-ia talvez de uma pulsão sobrevivente: os novos “cristãos” quereriam mostrar serviço, provar aos outros (e quiçá a si próprios) que eram tão puros e notáveis como os (insuspeitos) “cristãos velhos”.
Lembrei-me disto ao ver-ouvir Carlos Abreu Amorim, num programa da RTP Informação, no passado dia 16. Indignado com os ataques a Miguel Relvas, o dito Amorim - ex-comentador e novel deputado – acusava a comunicação social, a Impresa, a esquerda (os socialistas e os comunistas) de um conluio genérico e vil contra o ministro.
Por mim, que tenho passado muito tempo a atacar, como posso, o ministro Miguel Relvas, custou-me não haver, naquele catálogo dos perseguidores, um grupo em que eu pudesse incluir-me confortavelmente. Receio que o senhor Amorim não visite o Muito Mar. Mas eu leio-o e ouço-o há muito tempo. Lembro-me dele a atacar gordamente (e com a minha entusiástica concordância) a falta de ética de Coelhos, de Varas, de Sócrates. E, confesso, tenho saudades daquele seu ímpeto crítico e livre.
Percebo que aquele senhor é agora deputado do PSD, vice-presidente do grupo parlamentar. No seu afã de agradar aos novos chefes, ataca até o guru Marcelo, um excêntrico que ousa pensar pela sua própria cabeça.
Custa-me pensar, a posteriori, que aquela antiga independência seria apenas (talvez, talvez) uma obesa candidatura às listas do partido laranja. Pobre Amorim rico.

Coimbra, 17 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dinheirovivo.pt.]


terça-feira, 17 de julho de 2012

Castelos que eram para sempre


Em menino brincava com a areia da praia
em Mira, à beira-mar, no regaço
dos olhos maternos, sob o sol
infinito daquela felicidade original.

Fazia castelos então definitivos, mãe -
E tu eras tão linda como um livro amável:
Vinhas comigo molhar os pés e rias-te
Se a tia Rosário molhasse a saia preta.

Guardei conchas daquele tempo, mãe
(Depois perdi-as). Agora lamento tudo
Sem razão nenhuma senão haver sol
Na nossa rua, mas já não o mar.

Coimbra, 17 de Julho e 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.artexavegapraiademira.blogspot.com.]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Contrafacção



Como certa roupas, determinados óculos e alguns relógios, há muita poesia de má qualidade e falsa. Incautos espíritos poderão, por instantes, confundi-la com versos sérios e grandes, mas facilmente se descobre a mediocridade do material e a incompetência da confecção. Assim:
a) Vestimo-nos de certos versos e eles não vão bem com a alma (curtos nos sonhos, desajeitados nas mágoas, descosidos na música).
b) Olhamos através deles e vê-se quase nada, ainda que às cores.
c) As horas, essas, nunca estão certas.

O bom gosto é a ASAE da poesia.

Coimbra, 16 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dn.pt.]

domingo, 15 de julho de 2012

A hera de Sophia



Tropeço, quase sem querer, num poema de Sophia, que como quase sempre consegue inundar-me de luz e grandeza. O poema (datado de Maio de 1997) diz:
“A meticulosa beleza do real
Onda após onda pétala a pétala
E através do pano branco do todo
A sombra área da hera
Tecedora incessante de grinaldas.”
(In O Búzio de Cós e outros poemas, Lisboa, ed. Caminho, 1997.)
Recolho daquela música perfeita de versos feitos com olhos, pele, coração e muita muita lucidez, a ideia de o Tempo ininterruptamente se ocupar da Criação. A hera (física e simbólica) representa essa constância. A vida vai-se fazendo, pétala a pétala e onda a onda, consubstanciando-se num certo crescimento – ascendente – entre o chão e o céu.
Mas a minha leitura cruza-se, hélas, com o telejornal, isto é, com crise, desemprego, despudor dos poderosos, pobreza, cínicos mercados. Ocorre-me que o nosso tempo prefere o rasteiro chão ao limpo sol, ao justo céu. Que somos, hoje, uma era sem hera.

Coimbra, 15 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.abencerragem.blogspot.pt.]

História de amor


A prima Marília veio a Portugal vender uma casa e um terreno que o avô Fernandes lhe deixara há vinte anos, nas imediações da Figueira da Foz. Era uma senhora divertida, já idosa, emigrada no Brasil desde muito pequena. O senhor Valter dos correios insistiu muito com a familiar: que viesse a Coimbra para falarem, para elaver a Gracinda, para irem às queijadas de Tentúgal. A resposta foi que talvez, mas puxa, cê sabe, as viagens nessa idade custam p’ra caramba – e depois lá veio mesmo, saindo do comboio à Estação Velha.
Ficou um dia apenas com a família conimbricense. Antes de embarcar no alfa para Lisboa, quis ainda tomar um suminho num Café próximo da residência do primo.
A dona do estabelecimento tinha a bonomia de um inspector da Gestapo. Gritava com a empregada, discutia ao telefone com um fornecedor de cerveja, impacientava-se perante hesitações dos clientes juvenis na hora de escolher a marca de um gelado.
A emigrante no Brasil escandalizou-se com o berro que a matrona ao balcão dedicou à empregada e falou:
- Minha quirida, cê tem dji tê calma, meu bem. Todo o mundo precisa dji amor.
Respondeu-lhe a proprietária, tonitruante como um furacão bíblico:
- Ó minha senhora, temos aqui café, chá, sumos, bolos, sandes, tostas, sopas e salgados. Amor não temos!

Coimbra, 14 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.idetoni.blogspot.pt.]

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Sextilha para Soares de Passos


Era de pedra vera
A estrada
Por onde o poeta ia -
E de pedra também era
O coração da amada
Que o não queria.

Arco de Baúlhe-Ribeira de Pena (em viagem), 13 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.infopedia.pt.]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Parábola das equivalências


Quando disseram ao cábula que o curso era de três anos, ele exclamou:

- Equivalha-me Deus!”

Arco de Baúlhe, 12 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.umsonhochamado matilde.blogspot.pt. Escrevi o  texto a 10-07-2012 e publiquei-o nesse dia em primeira instância, no Facebook.]

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Diabo de greve

- Já viste, pá?
- Hã?
- A greve dos médicos…
- Que é que tem?
- É chato, pá. Prejudica as pessoas. Que culpa têm as pessoas, pá, dos problemas dos médicos, hã?
- Os problemas dos médicos também são problemas das pessoas. A começar pela circunstância de os médicos também serem pessoas…
- Pois sim. Não digo que não, mas…
- Mas o quê?
- Deviam fazer greve sem prejudicar os utentes, pá… Não achas?
- A greve é uma forma de luta. E só resulta se se notar. Isso de greves que não prejudiquem ninguém é uma imbecilidade, desculpa lá…
- Olha, pá, o Diabo é que nunca faz greve…
- Não? Achas?
- Pois, pá. Se o Diabo fizesse greve, como é que nós notávamos?
- Sei lá. Talvez estranhássemos estar o mundo sem problemas…
- Exacto. Corria tudo bem. Diríamos: Ó Diabo!  Algo de estranho se passa…
- Tens razão. Mas o cabrão do Diabo deve ter excelentes condições de vida…Não precisa de fazer greve!
- Hã?
- Pois, pá. Não tem problemas com a saúde, a educação, a habitação, o comer, a justiça…
- Pois sim. Mas da maneira que isto anda, haverá um dia em que o próprio Diabo fará greve…
- Deus queira, pá. Deus queira!

[A imagem (aspecto de Penedono, local onde este textinho nasceu) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.heritage2008.greenlines-institute.org.]

O tio do senhor Valter


O senhor Valter, no regresso ao trabalho, depois do almoço, encontrou aquele homem às portas da estação dos correios. A princípio, nem o reconheceu, mas depois atentou melhor no nariz espalmado e largo do sessentão, no sorriso triste de menino grande, no delta prognato a sul do rosto.
- Tio Joaquim?
Um abraço, uma gargalhada, certos segundos remirando-se. Enfim, o motivo da visita (rara, rara) deste irmão mais novo do pai.
- Precisava que me ajudasses a escrever um requerimento, menino.
Explicou-se melhor. Tinha comprado um carro há dois anos em “leasing” (o senhor Joaquim dizia “lisse”) para ir com a esposa, a ti’Ana, vender hortaliça a Coimbra – ao Bairro Norton de Matos, ao Monte Formoso, ao Casal Ferrão, ao Barrro do Brinca, a Santa Apolónia, à Adémia, aos Fornos. Quando a mulher adoecera, coisa ruim dos ossos, lá diminuira a dedicação aos negócios e, claro, as contas haviam descambado.
- O problema é que, sem carro, não ganho dinheiro que se veja e a minha reforma nem para metade da prestação dá. Se os gajos da Martinloc me reduzissem o valor da mensalidade e me devolvessem a carrinha, eu podia pagar-lhes. Precisava de tempo e de compreensão, né?
O senhor Valter levou o tio ao chefe dos correios, pessoa habituada a reclamações e requerimentos, e transmitiu-lhe, em breves palavras, a angústia do familiar.
- Muito bem – disse o chefe, que estava contente porque a filha conseguira entrar na universidade e a mulher cozinhara, para o almoço, uma massinha guisada que era de a gente comer e ajoelhar-se perante Deus.
Mas fez questão de moderar as expectativas do senhor Valter e do senhor seu tio.
- Não vai ser fácil, senhor Joaquim, embora seja evidente que tem razão. A sua situação é até um exemplo claro do que se passa hoje em Portugal.
- Como? – perguntou o vendedor de hortaliça.
- As finanças estão a matar a economia.
O velho figueirense encolheu os ombros e o senhor Valter desconfiou de que o chefe estava a reproduzir, ali, um artigo qualquer que decerto lera na última página do JN.

Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 10de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.devaneiosedesabagos.blogspot.pt/.]

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Arrumações


Domingo, tarde, depois noite.
À pressa, descuidadamente, sem bem olhar para a gaveta, recolho uma camisola e visto-a. É uma camisola muito antiga, como depois percebo, adequada afinal à empresa a que ali me dedico – encaixotar livros, seleccionar papéis para conservar ou deitar fora, ordenar dossiês, proto-preparar as malas de regresso a Coimbra.
A camisola é azul e tem, no canto superior esquerdo, o nobre emblema do Clube de Futebol União de Coimbra (com a cruz de Cristo). Já joguei com um uniforme assim, em manhãs e tardes e noites maravilhosas que, como a mocidade, não voltam mais.
Atravessando o corredor, não resisto e consulto a minha imagem no espelho: barba de dois dias, nuvens brancas disseminadas pelo penteado, olheiras, aquele ricto triste consubstancial à ironia do sorriso. E a camisola: azul coçado, azul velho, um ou outro buraco no lado do emblema (e do coração).
Já tivemos, eu e a roupa, melhores dias. Mas cá estamos, ainda, pele com pele, pregados à mesma cruz de Cristo.


Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 09 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (com azuis ídolos de infância) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.retrofoot2.pt.]

domingo, 8 de julho de 2012

Ensaio da inquietação


“Cantanhede, Cantanhede
Tenho sede de aprender
A lição da Novidade
(A lição da Novidade).
Dá-me sede, Cantanhede,
De aprender e de ser
Cidadão da Liberdade
(Cidadão da Liberdade,
Cidadãos da Liberdade)!”

1. Este texto abre com uma epígrafe, como repararam: trata-se do refrão do hino da Escola Secundária de Cantanhede (letra minha, música do colega Aurélio Malva). Segue-se, com vossa licença, uma historieta, que não é minha e – pior – de que nem sei a exacta fonte. Ouvi-a há muito tempo, talvez nos tempos de liceu ou faculdade; reouvi-a há umas duas semanas na rádio, em viagem de automóvel entre Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, glosada por um romancista português pouco conhecido (Afonso Cruz) à conversa com Carlos Vaz Marques, da TSF. Historieta boa, atentai.
2. Uma criança vê, por longos minutos, um escultor a trabalhar, percebendo que do labor esculpido na pedra vai resultando uma forma reconhecível, viva, amável. Volta-se para o seu pai e pergunta-lhe: “Papá, como sabia o senhor artista que, debaixo da pedra, estava um cavalo?
3. A parábola serve para uma inteira biblioteca de interpretações, mas fico-me por esta: o artista busca no todo a parte que interessa, isto é, resgata do caos um pedaço essencial, valioso, significativo de cosmos. Acrescento: a arte é o fruto do trabalho sobre o real, ofício levado a cabo com a imaginação adequada e com aquela pulsão do belo que preside a todo o acto criador.
4. Quero que isto tenha algo a ver com a Escola. Com a nossa Escola. Com Cantanhede, bem entendido, que é a pátria deste formoso boletim. Mas também com a Escola Pública em geral, esse território em que, avulsos e díspares, nos reunimos em busca de um objectivo comum e consensual: a educação dos nossos alunos, a partilha de conhecimentos, a descoberta de competências, a preparação (tanto quanto possível, justa e virtuosa) do futuro.
5. Vivem-se tempos difíceis. Temo, com muitas razões para esta amargura, que a Escola esteja em vias de extinção. Escola, percebei, como nós (românticos até à medula) a entendemos, a entendíamos. A fúria da poupança orçamental comporta o perigo de confundirmos ideais por que pugnámos nas últimas décadas com alguma substância acessória e descartável. Estou a falar, sobretudo, de cultura. Estou a reagir, por instantes, à nova estrutura curricular prevista para o ensino básico e secundário que deixa ao livre arbítrio dos estabelecimentos de ensino a existência de Educação Artística. E estou a falar também do insuportável aumento do número máximo de alunos por turma (até 30!) que tornará impossível, por exemplo, a aprendizagem séria de uma língua estrangeira.
6. Creio que uma Escola Pública de qualidade, a única que justifica o investimento sério do Estado, precisa de não ter medo nem vergonha de gastar – i.e., de investir - muito dinheiro nos recursos humanos e materiais que a tornam possível e digna. E defendo que a organização da Escola nada ganhará com uma reforma que, para cortar alguma despesa, extinga experiências educativas de sucesso, fundindo/confundindo arbitrariamente escolas (e assim ferindo de morte a identidade de lugares, pessoas, projectos), reduzindo a grandeza da aposta nas bibliotecas, tornando as reuniões de qualquer médio departamento num concílio cheio de magno e semiótico ruído, etc.
7. Os mega-agrupamentos são, em meu entender, a face visível de alguma ferocidade tecnocrática do presente, que lê o mundo pelos óculos merceeiros do deve e haver, com inevitável défice de sensibilidade e bom senso. Não se trata sequer de um problema deste governo; é outrossim de vários governos ao longo da história, semelhantes na arte de ignorar opiniões, estudos e conselhos de quem sabe alguma coisa de educação (professores, por exemplo).
8. Um dia destes completarei trinta anos de profissão. O que mantenho de romântico é a fé no futuro e a convicção – inamovível – com que, aula após aula, projecto após projecto, actividade após actividade, trato bem (d)os meus alunos. No pequeno universo de que ainda disponho para ser professor, vou procurando contagiá-los com a minha paixão pelo Conhecimento, pela Língua, pela Cultura, pela Vida.
9. A muitos dos que nos tutelam não faria mal a leitura de alguns autores. Lembro-me, assim de repente, de Steiner para aprenderem um bocadinho sobre a importância da cultura e sobre o significado de “gramática da esperança”. Ou de Sartre, pra recordarem a indispensável condição do conhecimento para se ser livre, e da liberdade para um homem ser verdadeiramente digno da sua condição (quiçá feliz).
10. De modo que o meu texto (talvez o último que tenho a honra de escrever neste boletim) regressa, desaguando, à epígrafe e à historieta com que se fez retoricamente ao mar: é preciso garantir, na Escola, o acesso às artes e à cultura em geral, para que a Escola seja realmente um alfobre de cidadãos da liberdade; é preciso salvar o essencial – fazer emergir um cavalo (ou uma flor) da caótica, bruta, estúpida pedra do mundo.

Arco de Baúlhe, 27 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi escrito para o Boletim da Biblioteca da (muito querida) Escola Secundária de Cantanhede que, de acordo com notícias recentes - e, em minha opinião, infelizes - se irá agrupar com Febres. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.escantanhede.pt.]