sexta-feira, 20 de julho de 2012
Daniel com Graça
O Daniel Abrunheiro é o maior poeta português vivo e um dos melhores poetas dos séculox XX e XXI. Casou-se hoje com a formosa Graça. Estive no casamento e, mais ou menos por acidente, tive a honra de ser padrinho.
Foi um dia bom e limpo.
Deixai que vos explique este privilégio: se eu tivesse nascido por alturas de 1887, e se Pessoa tivesse chegado a casar com Ophélia (aí por 1930, por exemplo), e se eu fosse amigo muit'antigo do poeta da "Tabacaria", estaria talvez no casamento desse outro génio e a honra seria a mesma. Daqui a um século, irmãos, percebereis o que ora vos digo.
Felicidades, Daniel e Graça.
Coimbra, 20 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Fotos da MP.]
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Sete poemas em vez do silêncio
Dia de voltar a Coimbra. Arrumações. Livros e papéis. Papéis para conservar e papéis para deitar no Papelão.
Entre milhares de folhas, salvo (nem sei porquê) algumas com versos (ou rascunhos de versos). Leio-os no silêncio da cozinha, ante os montes habituais. São 11 poemas datados de 1997. Comove-me ouvir a voz de um outr’eu que algures fui. Identifico-me com o poeta aqui e ali.
Enfim, trago sete destes discursos, para já, ao Muito Mar. Não é este um mau destino, se considerarmos a alternativa que era o contentor do outro lado da rua.
POEMA 1: Do Mundo
Sabes, Deus?
O meu problema é a beleza estar tão disseminada –
Custa-me tantinho concentrar o olhar
E o sangue!
POEMA 2: Dos Outros
Vinde até mim pelo lado das virilhas
E contai-me histórias inteligentes,
Sim?
Erectentenderei então a vida
E os outros
E habitarei essa casa maluca de ter saudades.
Se me quereis querendo-vos como devo
Conquistai-me como deve ser.
POEMA 3: Do Amor
O amor é uma flor com dentadura feliz
Em lugares com asas;
O sorriso das flores é prévio a morder
O coração das casas.
Uma metáfora é no amor um trem fértil:
Os moradores de sentir vivem-viajam em trilhos
E habitam o próprio movimento.
A chave de tudo está naquele desejo das flores sorrindo
E na imprudência de olhando-as morrermos devorados –
Tão belas são as mortes perfumadas e às cores!
POEMA 4: Do Régio
Não venhas por aqui,
Diz-me Régio com olhos baços –
E eu olho Régio com olhos lassos
(Há nos meus olhos ironias, não cansaços)
E abro os braços
E voo por ali!
POEMA 5: Do Estatuto do Poeta
O Poeta deve ser possuidor de uma dor verdadeira.
Não sendo possuidor de uma dor verdadeira, deve inventá-la.
Não sendo capaz de inventá-la, deve abdicar de ser Poeta.
Ora isso
(Abdicar de ser poeta por incapacidade de sentir
Ou por incapacidade de inventar uma dor verdadeira)
Dói sempre (verdadeiramente dói)
A um Poeta.
POEMA 6: Da Morte
Morri há minutos.
Escrevo que morri há minutos
Como?
Estou a ver-me morto
Há minutos morto
E alguém (que sou eu)
Segura-me
Evitando que caia.
Aquele que não morri
Parece desesperado,
Mãe.
A morte está ali à porta
Quase irónica (digo:
Quase irónica, mas não:
Parece também hesitante e confusa).
A porta hesita entre fechar-se ou
Não estar ali.
Levanto-me da cama
E escrevo num canto do jornal:
Fazer um poema com isto.
POEMA 7: Da Acta
E nada mais havendo a acrescentar
Deu-se por encerrado este dia
Que depois de querido e gasto
Falecerá às mãos de Deus
E de mim que o secretariei
Aliás sofri.
(Datar e adormecer.)
Ribeira de Pena, 19 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.jornale.com.br.]
quarta-feira, 18 de julho de 2012
In-dependências
Diz-nos a História de todas as seitas que os convertidos mais recentes tendem a ultrapassar, em entusiasmo e militância, os seus mais antigos defensores.
Não por acaso, os chamados cristãos-novos, na Idade Média e até em períodos posteriores (que chegaram, pelo menos, ao século XVIII), eram alguns dos mais diligentes perseguidores de judeus & derivados.
Tratar-se-ia talvez de uma pulsão sobrevivente: os novos “cristãos” quereriam mostrar serviço, provar aos outros (e quiçá a si próprios) que eram tão puros e notáveis como os (insuspeitos) “cristãos velhos”.
Lembrei-me disto ao ver-ouvir Carlos Abreu Amorim, num programa da RTP Informação, no passado dia 16. Indignado com os ataques a Miguel Relvas, o dito Amorim - ex-comentador e novel deputado – acusava a comunicação social, a Impresa, a esquerda (os socialistas e os comunistas) de um conluio genérico e vil contra o ministro.
Por mim, que tenho passado muito tempo a atacar, como posso, o ministro Miguel Relvas, custou-me não haver, naquele catálogo dos perseguidores, um grupo em que eu pudesse incluir-me confortavelmente. Receio que o senhor Amorim não visite o Muito Mar. Mas eu leio-o e ouço-o há muito tempo. Lembro-me dele a atacar gordamente (e com a minha entusiástica concordância) a falta de ética de Coelhos, de Varas, de Sócrates. E, confesso, tenho saudades daquele seu ímpeto crítico e livre.
Percebo que aquele senhor é agora deputado do PSD, vice-presidente do grupo parlamentar. No seu afã de agradar aos novos chefes, ataca até o guru Marcelo, um excêntrico que ousa pensar pela sua própria cabeça.
Custa-me pensar, a posteriori, que aquela antiga independência seria apenas (talvez, talvez) uma obesa candidatura às listas do partido laranja. Pobre Amorim rico.
Coimbra, 17 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dinheirovivo.pt.]
terça-feira, 17 de julho de 2012
Castelos que eram para sempre
Em menino brincava com a areia da praia
em Mira, à beira-mar, no regaço
dos olhos maternos, sob o sol
infinito daquela felicidade original.
Fazia castelos então definitivos, mãe -
E tu eras tão linda como um livro amável:
Vinhas comigo molhar os pés e rias-te
Se a tia Rosário molhasse a saia preta.
Guardei conchas daquele tempo, mãe
(Depois perdi-as). Agora lamento tudo
Sem razão nenhuma senão haver sol
Na nossa rua, mas já não o mar.
Coimbra, 17 de Julho e 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.artexavegapraiademira.blogspot.com.]
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Contrafacção
Como certa roupas, determinados óculos e alguns relógios, há muita poesia de má qualidade e falsa. Incautos espíritos poderão, por instantes, confundi-la com versos sérios e grandes, mas facilmente se descobre a mediocridade do material e a incompetência da confecção. Assim:
a) Vestimo-nos de certos versos e eles não vão bem com a alma (curtos nos sonhos, desajeitados nas mágoas, descosidos na música).
b) Olhamos através deles e vê-se quase nada, ainda que às cores.
c) As horas, essas, nunca estão certas.
O bom gosto é a ASAE da poesia.
Coimbra, 16 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.dn.pt.]
domingo, 15 de julho de 2012
A hera de Sophia
Tropeço, quase sem querer, num poema de Sophia, que como quase sempre consegue inundar-me de luz e grandeza. O poema (datado de Maio de 1997) diz:
“A meticulosa beleza do realOnda após onda pétala a pétalaE através do pano branco do todoA sombra área da heraTecedora incessante de grinaldas.”(In O Búzio de Cós e outros poemas, Lisboa, ed. Caminho, 1997.)
Recolho daquela música perfeita de versos feitos com olhos, pele, coração e muita muita lucidez, a ideia de o Tempo ininterruptamente se ocupar da Criação. A hera (física e simbólica) representa essa constância. A vida vai-se fazendo, pétala a pétala e onda a onda, consubstanciando-se num certo crescimento – ascendente – entre o chão e o céu.
Mas a minha leitura cruza-se, hélas, com o telejornal, isto é, com crise, desemprego, despudor dos poderosos, pobreza, cínicos mercados. Ocorre-me que o nosso tempo prefere o rasteiro chão ao limpo sol, ao justo céu. Que somos, hoje, uma era sem hera.
Coimbra, 15 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.abencerragem.blogspot.pt.]
História de amor
A prima Marília veio a Portugal vender uma casa e um terreno que o avô Fernandes lhe deixara há vinte anos, nas imediações da Figueira da Foz. Era uma senhora divertida, já idosa, emigrada no Brasil desde muito pequena. O senhor Valter dos correios insistiu muito com a familiar: que viesse a Coimbra para falarem, para elaver a Gracinda, para irem às queijadas de Tentúgal. A resposta foi que talvez, mas puxa, cê sabe, as viagens nessa idade custam p’ra caramba – e depois lá veio mesmo, saindo do comboio à Estação Velha.
Ficou um dia apenas com a família conimbricense. Antes de embarcar no alfa para Lisboa, quis ainda tomar um suminho num Café próximo da residência do primo.
A dona do estabelecimento tinha a bonomia de um inspector da Gestapo. Gritava com a empregada, discutia ao telefone com um fornecedor de cerveja, impacientava-se perante hesitações dos clientes juvenis na hora de escolher a marca de um gelado.
A emigrante no Brasil escandalizou-se com o berro que a matrona ao balcão dedicou à empregada e falou:
- Minha quirida, cê tem dji tê calma, meu bem. Todo o mundo precisa dji amor.
Respondeu-lhe a proprietária, tonitruante como um furacão bíblico:
- Ó minha senhora, temos aqui café, chá, sumos, bolos, sandes, tostas, sopas e salgados. Amor não temos!
Coimbra, 14 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.idetoni.blogspot.pt.]
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Sextilha para Soares de Passos
Era de pedra vera
A estrada
Por onde o poeta ia -
E de pedra também era
O coração da amada
Que o não queria.
Arco de Baúlhe-Ribeira de Pena (em viagem), 13 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.infopedia.pt.]
quinta-feira, 12 de julho de 2012
Parábola das equivalências
“Quando disseram ao
cábula que o curso era de três anos, ele exclamou:
- Equivalha-me Deus!”
Arco de Baúlhe, 12 de Julho de
2012.
Joaquim Jorge Carvalho[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.umsonhochamado matilde.blogspot.pt. Escrevi o texto a 10-07-2012 e publiquei-o nesse dia em primeira instância, no Facebook.]
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Diabo de greve
- Já viste, pá?
- Hã?
- A greve dos médicos…
- Que é que tem?
- É chato, pá. Prejudica as pessoas. Que culpa têm as pessoas, pá, dos problemas dos médicos, hã?
- Os problemas dos médicos também são problemas das pessoas. A começar pela circunstância de os médicos também serem pessoas…
- Pois sim. Não digo que não, mas…
- Mas o quê?
- Deviam fazer greve sem prejudicar os utentes, pá… Não achas?
- A greve é uma forma de luta. E só resulta se se notar. Isso de greves que não prejudiquem ninguém é uma imbecilidade, desculpa lá…
- Olha, pá, o Diabo é que nunca faz greve…
- Não? Achas?
- Pois, pá. Se o Diabo fizesse greve, como é que nós notávamos?
- Sei lá. Talvez estranhássemos estar o mundo sem problemas…
- Exacto. Corria tudo bem. Diríamos: Ó Diabo! Algo de estranho se passa…
- Tens razão. Mas o cabrão do Diabo deve ter excelentes condições de vida…Não precisa de fazer greve!
- Hã?
- Pois, pá. Não tem problemas com a saúde, a educação, a habitação, o comer, a justiça…
- Pois sim. Mas da maneira que isto anda, haverá um dia em que o próprio Diabo fará greve…
- Deus queira, pá. Deus queira!
[A imagem (aspecto de Penedono, local onde este textinho nasceu) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.heritage2008.greenlines-institute.org.]
O tio do senhor Valter
O senhor Valter, no regresso ao trabalho, depois do almoço, encontrou aquele homem às portas da estação dos correios. A princípio, nem o reconheceu, mas depois atentou melhor no nariz espalmado e largo do sessentão, no sorriso triste de menino grande, no delta prognato a sul do rosto.
- Tio Joaquim?
Um abraço, uma gargalhada, certos segundos remirando-se. Enfim, o motivo da visita (rara, rara) deste irmão mais novo do pai.
- Precisava que me ajudasses a escrever um requerimento, menino.
Explicou-se melhor. Tinha comprado um carro há dois anos em “leasing” (o senhor Joaquim dizia “lisse”) para ir com a esposa, a ti’Ana, vender hortaliça a Coimbra – ao Bairro Norton de Matos, ao Monte Formoso, ao Casal Ferrão, ao Barrro do Brinca, a Santa Apolónia, à Adémia, aos Fornos. Quando a mulher adoecera, coisa ruim dos ossos, lá diminuira a dedicação aos negócios e, claro, as contas haviam descambado.
- O problema é que, sem carro, não ganho dinheiro que se veja e a minha reforma nem para metade da prestação dá. Se os gajos da Martinloc me reduzissem o valor da mensalidade e me devolvessem a carrinha, eu podia pagar-lhes. Precisava de tempo e de compreensão, né?
O senhor Valter levou o tio ao chefe dos correios, pessoa habituada a reclamações e requerimentos, e transmitiu-lhe, em breves palavras, a angústia do familiar.
- Muito bem – disse o chefe, que estava contente porque a filha conseguira entrar na universidade e a mulher cozinhara, para o almoço, uma massinha guisada que era de a gente comer e ajoelhar-se perante Deus.
Mas fez questão de moderar as expectativas do senhor Valter e do senhor seu tio.
- Não vai ser fácil, senhor Joaquim, embora seja evidente que tem razão. A sua situação é até um exemplo claro do que se passa hoje em Portugal.
- Como? – perguntou o vendedor de hortaliça.
- As finanças estão a matar a economia.
O velho figueirense encolheu os ombros e o senhor Valter desconfiou de que o chefe estava a reproduzir, ali, um artigo qualquer que decerto lera na última página do JN.
Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 10de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.devaneiosedesabagos.blogspot.pt/.]
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Arrumações
Domingo, tarde, depois noite.
À pressa, descuidadamente, sem bem olhar para a gaveta, recolho uma camisola e visto-a. É uma camisola muito antiga, como depois percebo, adequada afinal à empresa a que ali me dedico – encaixotar livros, seleccionar papéis para conservar ou deitar fora, ordenar dossiês, proto-preparar as malas de regresso a Coimbra.A camisola é azul e tem, no canto superior esquerdo, o nobre emblema do Clube de Futebol União de Coimbra (com a cruz de Cristo). Já joguei com um uniforme assim, em manhãs e tardes e noites maravilhosas que, como a mocidade, não voltam mais.
Atravessando o corredor, não resisto e consulto a minha imagem no espelho: barba de dois dias, nuvens brancas disseminadas pelo penteado, olheiras, aquele ricto triste consubstancial à ironia do sorriso. E a camisola: azul coçado, azul velho, um ou outro buraco no lado do emblema (e do coração).
Já tivemos, eu e a roupa, melhores dias. Mas cá estamos, ainda, pele com pele, pregados à mesma cruz de Cristo.
Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 09 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho[A imagem (com azuis ídolos de infância) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.retrofoot2.pt.]
domingo, 8 de julho de 2012
Ensaio da inquietação
“Cantanhede, Cantanhede
Tenho sede de aprender
A lição da Novidade
(A lição da Novidade).
Dá-me sede, Cantanhede,
De aprender e de ser
Cidadão da Liberdade
(Cidadão da Liberdade,
Cidadãos da Liberdade)!”
1. Este texto abre com uma epígrafe, como repararam: trata-se do refrão do hino da Escola Secundária de Cantanhede (letra minha, música do colega Aurélio Malva). Segue-se, com vossa licença, uma historieta, que não é minha e – pior – de que nem sei a exacta fonte. Ouvi-a há muito tempo, talvez nos tempos de liceu ou faculdade; reouvi-a há umas duas semanas na rádio, em viagem de automóvel entre Arco de Baúlhe e Ribeira de Pena, glosada por um romancista português pouco conhecido (Afonso Cruz) à conversa com Carlos Vaz Marques, da TSF. Historieta boa, atentai.
2. Uma criança vê, por longos minutos, um escultor a trabalhar, percebendo que do labor esculpido na pedra vai resultando uma forma reconhecível, viva, amável. Volta-se para o seu pai e pergunta-lhe: “Papá, como sabia o senhor artista que, debaixo da pedra, estava um cavalo?”
3. A parábola serve para uma inteira biblioteca de interpretações, mas fico-me por esta: o artista busca no todo a parte que interessa, isto é, resgata do caos um pedaço essencial, valioso, significativo de cosmos. Acrescento: a arte é o fruto do trabalho sobre o real, ofício levado a cabo com a imaginação adequada e com aquela pulsão do belo que preside a todo o acto criador.
4. Quero que isto tenha algo a ver com a Escola. Com a nossa Escola. Com Cantanhede, bem entendido, que é a pátria deste formoso boletim. Mas também com a Escola Pública em geral, esse território em que, avulsos e díspares, nos reunimos em busca de um objectivo comum e consensual: a educação dos nossos alunos, a partilha de conhecimentos, a descoberta de competências, a preparação (tanto quanto possível, justa e virtuosa) do futuro.
5. Vivem-se tempos difíceis. Temo, com muitas razões para esta amargura, que a Escola esteja em vias de extinção. Escola, percebei, como nós (românticos até à medula) a entendemos, a entendíamos. A fúria da poupança orçamental comporta o perigo de confundirmos ideais por que pugnámos nas últimas décadas com alguma substância acessória e descartável. Estou a falar, sobretudo, de cultura. Estou a reagir, por instantes, à nova estrutura curricular prevista para o ensino básico e secundário que deixa ao livre arbítrio dos estabelecimentos de ensino a existência de Educação Artística. E estou a falar também do insuportável aumento do número máximo de alunos por turma (até 30!) que tornará impossível, por exemplo, a aprendizagem séria de uma língua estrangeira.
6. Creio que uma Escola Pública de qualidade, a única que justifica o investimento sério do Estado, precisa de não ter medo nem vergonha de gastar – i.e., de investir - muito dinheiro nos recursos humanos e materiais que a tornam possível e digna. E defendo que a organização da Escola nada ganhará com uma reforma que, para cortar alguma despesa, extinga experiências educativas de sucesso, fundindo/confundindo arbitrariamente escolas (e assim ferindo de morte a identidade de lugares, pessoas, projectos), reduzindo a grandeza da aposta nas bibliotecas, tornando as reuniões de qualquer médio departamento num concílio cheio de magno e semiótico ruído, etc.
7. Os mega-agrupamentos são, em meu entender, a face visível de alguma ferocidade tecnocrática do presente, que lê o mundo pelos óculos merceeiros do deve e haver, com inevitável défice de sensibilidade e bom senso. Não se trata sequer de um problema deste governo; é outrossim de vários governos ao longo da história, semelhantes na arte de ignorar opiniões, estudos e conselhos de quem sabe alguma coisa de educação (professores, por exemplo).
8. Um dia destes completarei trinta anos de profissão. O que mantenho de romântico é a fé no futuro e a convicção – inamovível – com que, aula após aula, projecto após projecto, actividade após actividade, trato bem (d)os meus alunos. No pequeno universo de que ainda disponho para ser professor, vou procurando contagiá-los com a minha paixão pelo Conhecimento, pela Língua, pela Cultura, pela Vida.
9. A muitos dos que nos tutelam não faria mal a leitura de alguns autores. Lembro-me, assim de repente, de Steiner para aprenderem um bocadinho sobre a importância da cultura e sobre o significado de “gramática da esperança”. Ou de Sartre, pra recordarem a indispensável condição do conhecimento para se ser livre, e da liberdade para um homem ser verdadeiramente digno da sua condição (quiçá feliz).
10. De modo que o meu texto (talvez o último que tenho a honra de escrever neste boletim) regressa, desaguando, à epígrafe e à historieta com que se fez retoricamente ao mar: é preciso garantir, na Escola, o acesso às artes e à cultura em geral, para que a Escola seja realmente um alfobre de cidadãos da liberdade; é preciso salvar o essencial – fazer emergir um cavalo (ou uma flor) da caótica, bruta, estúpida pedra do mundo.
Arco de Baúlhe, 27 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Este texto foi escrito para o Boletim da Biblioteca da (muito querida) Escola Secundária de Cantanhede que, de acordo com notícias recentes - e, em minha opinião, infelizes - se irá agrupar com Febres. A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.escantanhede.pt.]
sábado, 7 de julho de 2012
Concha
Sábado invisível. Um dia inteiro de alienação voluntária, consciente, grata. Nem por um instante saí de casa, nem por um minuto pus os pés na varanda, nem por sombras me apeteceu trocar os calções e a t-shirt por roupa de ir à rua. Sábado, digamos, só de livros, de televisão e de uns seis episódios de "Will & Grace". (Intervalos para conversar com a MP, para dormitar, para dez minutos de computador.)
Desde pequeno que preciso, de vez em quando, de uma concha mínima, um refúgio invisível que me livre do mundo - e dispense o mundo de me aturar. Já fui este Robinson Crusoë, ao longo das décadas que sou, na despensa da casa materna, numa arrecadação exterior contígua a uma capoeira, num canto esconso do meu quarto, numa casa de praia em Mira, na casa da família madeirense, num quarto de estudante em Edimburgo, em pensões ou hotéis lisboetas (sem estrelas), em bibliotecas municipais, numa pastelaria pacata ou no meu carro (entre aulas ou reuniões).
Morre-se por um bocadinho para recarregar a alma de paciência e de ilusão. Morre-se para voltar.
Isto escrito, vou agora acabar de morrer por mais umas horas.
E devo voltar.
Ribeira de Pena, 07 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.culturamix.com/.]
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Trás-os-Montes
Naquela terra, era normal os poetas subirem a um monte cheio de árvores e flores para, em silêncio, ficarem horas inteiras a observar a longínqua praia. Era também comum ver sair dos olhos dos poetas (de cada poeta) uma gaivota que, como se de versos voadores se tratasse, batia asas rumo ao mar distante.
Quando um forasteiro passeando pelo areal se dava subitamente conta de certo bando de gaivotas mergulhando nas ondas, vindas todas de uma montanha a vários quilómetros dali, perguntava sempre:
- O que é isto?
E os locais respondiam-lhe invariavelmente o mesmo:
- São poetas com saudades do mar.
[…]
Mais à noite, os meus olham fecham-se, reabrindo-se de manhã com olheiras à volta. As olheiras são o reflexo da gaivota dentro da minha cabeça, antes do voo.
Vila Real, 06 de Julho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.geografia-psol.blogspot.pt.]
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