Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Quando eu morrer


Os versos são da imorredoira Sophia M. B. Andresen (cito de cor):

"Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar."

Há muitos anos que os trago inscritos no coração, por ser aqui tão certa a enunciação da urgência de viver, de experimentar o que vale a pena, de saborear com o corpo e a alma quanto a vida tenha para nos oferecer.
Há um lado triste, ironicamente triste, neste discurso: a poetisa voltará apenas na forma de versos (de, digamos, música), nunca mais regressando de facto, na sua plenitude de pele, olhos e sangue à praia amada, isto é, ao exercício livre de observar-sentir o mar.
Leio sempre este poema como um aviso solene sobre o imprudente desperdício da nossa existência:
"Cuidado, Joaquim Jorge, cuidado! O tempo vai-se esgotando."

De modo que preciso, hoje mesmo, de dizer a quem estimo e amo que os estimo e os amo. E de urgentemente ir ver o mar.

Arco de Baúlhe (à espera de uma oral de Francês), 28 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (retrato de Sophia, feito por Arpad Szenes) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.leiturapartilhada.blogspot.pt/.]]

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Momento

Escrevo a meio da manhã, após haver terminado de preparar uma oral de Francês. Como tantos portugueses, sofro hoje a ansiedade que há antes dos grandes momentos: mais logo, Portugal defronta a Espanha e, se ganhar, vai à final do Euro. Bem sei, daqui a uns dez anos esta circunstância não terá importância alguma; mas eu sou um ser do presente, vivo à medida dessa condição estreita. Este é o Momento.
Calculo que Deus, Romancista absoluto, já escreveu esta história. Dono conhecido de todas as analepses e prolepses, já saberá o divino Autor, neste preciso instante (que a mim parece só o presente), tudo quanto aconteceu na euro-narrativa.
Gosto excessivamente de futebol, confesso. É aliás essa a minha forma habitual de gostar (seja do que for). Por isso dou tanta importância aos jogos em que entra Cristiano Ronaldo: nele percebo um génio do meu tempo aproximar-se daquilo a que - falando de bola, relvado e balizas – se poderá chamar a maiúscula Perfeição. Vejo-o evoluir numa partida como se visse Cesário descobrindo a música certa para uma quadra, ou Pessoa oferecendo um espelho inteligente à humanidade ocidental. Depois, o facto de haver esta coincidência de sermos portugueses (e de ainda haver portugueses, não obstante os mercados) contribui para a excelência deste Momento.
De modo que alinharemos assim: Rui Patrício, João Pereira, Bruno Alves, Pepe, Fábio Coentrão, Miguel Veloso, Raúl Meireles, João Moutinho, Dani, Hugo Almeida, Cristiano Ronaldo, eu, a MP, a VL, etc.
Lá estarei, no Ali Babá, morrendo com a MP a cada jogada por nós ou contra nós. Hei-de ser o mais glorioso (e orgulhoso) alienado do planeta, de certeza.
Ganhe ou perca. Deus Narrador lá saberá.

Ribeira de Pena, 27 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.atelevisao.com.]

terça-feira, 26 de junho de 2012

Voyeur d’été


Abençoo este calor acidental
Que obriga a feminil condição
Ao têxtil abandono corporal
E a uma animal transpiração.

Formigam mil donzelas em viagem
P’las ruas deste dia ledo e lindo;
Cúmplice sou delas na paisagem
Mas eu ficando e, ai, elas partindo.

Vila Real, 26 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.postaisdamarta.blogspot.pt.]

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Data querida


Sou uma casa. Sou uma casa já um pouco velha.
Não me é possível ser para sempre uma casa nova, como outrora fui, mas dá gosto ver que as paredes se mantêm erguidas e fortes, que o telhado resiste à bruta invasão do tempo, que há ainda dentro de mim uma espécie de refúgio interior imune à passagem das horas.
À volta da casa que sou, há flores. São já parte da casa. A casa parece, com as flores em redor, mais nova e mais bonita. O próprio tempo parece uma circunstância amável, cúmplice de nós.
Vieste para a minha vida como flores. Sou, por isso, uma casa com flores à volta. E somos (agora também com aquela jurista bonita da DECO) uma casa digna dessa condição quasimortal.
Obrigado, meu amor, por teres vindo para sermos.


Arco de Baúlhe, 25 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fernandompinto.buzznet.com.]

domingo, 24 de junho de 2012

Eu, isto é, o Mondego

No choupal do meu destino
Corro tanto, sem parar;
Sou um rio sempre menino
À procura de ser mar.

Coimbra, 24 de Junho (parabéns, Eduarda!) de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.kafekultura.blogspot.com/.]

sábado, 23 de junho de 2012

Luz

Entra pela sala, sem autorização
Esta luz de Junho a  ser.
Preciso, amor, de luz como de pão
Para viver.

Coimbra, 23 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A pintura (“Homem lendo”, de Vincent Van Gogh) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.peregrinacultural.wordpress.com.]

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Praia precisa-se



A minha pele anda feita com o coração e o cérebro. Conluio complexo, acreditai. Houve toda a noite praia nos meus sonhos e eu acordei com uma ressaca ancestral de mar. Preciso de sossego com areia e água salgada. Preciso da praia que secretamente me prometo, a cada dia, para sempre.

Arco de Baúlhe, 22 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da maravilhosa praia de Porto Santo) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.radiopraia.com.]

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pela Língua Portuguesa


O meu colega Manuel Vilares fez-me chegar, por Email, um extraordinário texto de Teolinda Gersão (não sei dizer a fonte), que genialmente põe a ridículo algumas alterações no ensino da Língua Portuguesa, sobretudo no que recentemente se aprovou, com a chancela do Ministério da Educação, para o ensino da gramática.
Sobre gramática, defendi sempre que se trata de uma dimensão necessária no ensino da Língua, no pressuposto de que tal contribui objectivamente para a melhoria de conhecimentos e competências dos nossos jovens. Gosto de olhar para a gramática como a mecânica do Português, e de explicar o nosso estudo, nessa área, como um exercício gratificante que serve, em última análise, para satisfazer a nossa curiosidade intelectual e académica e para esclarecer dúvidas acerca do Bem Falar e do Bem Escrever.
Contudo, muito do que actualmente se propõe no domínio do CEL (Conhecimento Explícito da Língua) tende a tornar - ainda - mais complicada a matéria, sendo em grande medida um território rebuscado, desinteressante - e que mais facilmente confunde do que esclarece quem generosamente quer aprender gramática. Diz o povo que "para piorar, já basta(va) assim..."
Cada vez mais me parece um desperdício - de tempo, recursos, paciência, atenção, energias - isto de passar boa parte dos blocos lectivos, em Língua Potuguesa, a falarmos de minudências da linguística (ainda por cima, "novidades" instáveis e cientificamente questionáveis) em vez de lermos bons textos, escrevermos mais, debatermos oralmente temas e conceitos estudados, etc.
Às vezes, é preciso alguém que realmente ame a Língua Portuguesa (e suficientemente consagrado para ser levado a sério) para pôr os pontos nos is. Do mesmo modo que celebrei a posição, por exemplo, de Vasco Graça Moura sobre o Acordo Ortográfico, congratulo-me agora com esta lufada de ar muito, muito fresco trazido por Teolinda Gersão. Deixo-vos com a lucidez (corrosiva e formosa) desta Escritora que faz o favor de nos pôr a pensar...


Teolinda Gersão
Escritora

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.
Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.


Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa

Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. “O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum,o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento,e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou : a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.

João Abelhudo, 8º ano, turma C
(c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática)
Ribeira de Pena, 21 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

Alienação amável


Hoje é dia de jogo entre a República Checa e Portugal. Quem triunfar passa às meias-finais do Europeu de futebol.
No intervalo de reuniões, de actas e de relatórios, há no meu quotidiano uma espécie de febre que vive, por antecipação, o momento histórico (histórico porque faz parte da minha História pessoal e doméstica). A doença é, aliás, geral. Fazemos prognósticos, lembramos estatísticas, desconfiamos de vagos agoiros, combinamos um jantar, esperamos pelas 19h45m.
É verdade, claro, que a nossa vida  depende sobretudo de secretas conversações entre a Alemanha e a França, ou dos humores dos mercados, ou dos caprichos do (des)governo nacional, ou de vicissitudes climatéricas. O futebol distrai-nos, sem dúvida, daquilo que tende a ser o "essencial" da nossa existência.
Pois eu declaro solenemente: abençoada distracção! Abençoada alienação!
Mil vezes acho mais interessante deter-me num remate genial do Cristiano Ronaldo do que ouvir o pastoso cinismo do ministro das Finanças. Mil vezes entendo mais importante a raça de Coentrão do que comover-me com essa inexistência que finge ser ministro da Economia. Mil vezes é mais admirável a força de Pepe do que a enunciação de manhosas medidas sobre a Escola Pública. Mil vezes gosto mais da magia de Nani do que das mentiras de governos, partidos ou avulsos comentadores sem vergonha na cara.
Amo o futebol. O amor, como decerto sabeis também, é uma fábrica de alienações.
Sou nisto da selecção um assumido alienado, portanto. E estarei hoje com os meus amigos a sofrer (pois, pois, porque há masoquismo nisto dos amores verdadeiros) com Portugal.
Não bem por Portugal; por mim.

Ribeira de Pena, 21 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Rio do Verão



Revoadas de infância caminham para o rio. Meus alunos, alguns. Olho-os como quem se visse ao espelho num mundo sem relógios. Vou entrar no Verão, como sempre.
Mas, ai, a minha escrita sobre esse milagre é outonal.


Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do Mondego) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.trekearth.com.]

Tributo


Recebei, amores, o magro verso
Da minha vida quase epilogal.
Do tanto que vivi, ora disperso,
Sois vós o certo ouro essencial;
Sois vós a certa luz permanecendo
A limpa tangerina doce amada –
O mais que já vivi ou vou vivendo
Multidões incertas são de nada.

Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cincoquartosdelaranja.blogspot.pt.]



Infinita Mãe


Tenho 49 anos e preciso muito da minha Mãe.
É assim desde 1963.
Há-de ser assim até ao dia em que se me acabe a biografia.
De modo que, vista a questão pelo meu olhar, Mãe é uma coisa que não tem fim.

Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[Imagem colhida na wikipédia.]

terça-feira, 19 de junho de 2012

Oração



A minha mãe já foi árvore (linda, forte, umbrosa). Foi o meu refúgio certo por tantos anos.
Hoje é uma flor frágil (apenas linda).
Eu queria ser, Senhor, por mais tempo, a árvore onde a minha mãe se refugiasse contra o Tempo.

Ribeira de Pena, 19 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Retirei do blogue um texto publicado ontem - feito de rajada - por, após segunda leitura, me ter desagradado (no tom e na forma). Dito.]


sábado, 16 de junho de 2012

Azia contemporânea


1. Alguns dos melhores professores da minha escola podem ver-se de súbito no desemprego. O governo poupa aqui e gasta no BPN e nas PPP. A opção é o retrato da minha contemporaneidade medíocre e despudorada.


2. Jovens com a idade da minha filha (como ela, cheias de habilitações e competências) não conseguem trabalho no país que lhes disse "Estudem para o futuro ser melhor". Os arautos do neoliberalismo (uma neo merda que é uma merda velha) dizem que tudo se resolveria se os mais velhos não tivessem direito a emprego "para a vida". A lógica é óbvia - fazer acreditar que os direitos são afinal luxos e que a pobreza (senão a escravatura) é condição natural da humanidade.


3. Aquele mito da progressão baseada na "meritocracia" esconde o apelo da selva que (Jack London à parte) preside ao pensamento dos pançudos velhos e ao dos jotinhas aspirantes a uma pança futura. Em boa verdade, significa que os "melhores" (mais aptos, mais altos, mais rápidos, mais fortes) triunfam e os "menos bons" (muitas vezes, os mais incapazes de funcionar segundo a lei da selva) são triturados. Dá-se o caso de esses "menos bons" (muitas vezes os que obedecem, sem remédio, a essenciais princípios de ética) terem também filhos, doenças, contas para pagar - e sonhos. Como, olhai bem, "os outros".


4. Um tal César das Neves veio a Cabeceiras de Basto dizer, com a imponência balofa dos especialistas em economia (mais virados para as autópsias da sociedade do que para o tratamento dos problemas), que os professores ganhavam de mais. Aqui para nós, um professor vence, no final de uma carreira de, pelo menos, trinta e cinco anos (se entretanto não for novamente roubado pelo movediço Estado), cerca de 1.800 euros. Estranhamente, ninguém perguntou ao doutor sabichão pela grandeza e legitimidade do seu próprio salário.


5. António Mexia disse, certo dia, que o seu prémio de cerca de um milhão de euros - um pequeno extra para o seu rendimento anual - se devia ao facto de haver atingido os objectivos da empresa (monopolista) que estava e continua gerindo, à boleia do PS ou do PSD. Que pensará este indivíduo feliz da possibilidade de se aumentar o ordenado mínimo nacional para 500 euros mensais? Achará que se trataria, como dizem outros obesos gestores da pátria, de uma terrível imprudência? (Entre parêntesis, uma pergunta aos chineses: que acharia Mao Zedong, ideólogo dessa grande nação de accionistas orientais, de uma personagem como Mexia?)


6. Que direito divino determinará que os pais dos meus alunos não tenham direito a subsídio de desemprego e, simultaneamente, alguns familiares de gente importante tenham acesso a lugares no Estado com ordenado chorudo e a prerrogativa de não perderem o direito (excepcional, no país) aos subsídios de férias e de natal?


7. Pergunta muito comprida: por que razão não foram os bancos obrigados a diminuir os montantes das prestações que os devedores, entretanto roubados no ordenado e sujeitos ao aumento de impostos, têm de mensalmente continuar a cumprir em nome de um suposto esforço nacional para vencer as dificuldades financeiras do país?


8. Os vampiros vivem à custa do sistema, com fausto e conforto, mas criticam sempre "os outros", com aquela pose magistral dos peritos em política e finanças. Se lhes apontarmos contradições, erros, mentiras, evidências das injustas desigualdades, atiram-nos logo com a "demagogia" à cara. Está-se mesmo a ver: Cristo, Ghandi, Marx, esses grandes demagogos, não teriam hoje lugar nos debates da tv generalista.


 9. Por que motivo sobe a extrema-esquerda e - atenção! - a extrema-direita (na Grécia e, previsivelmente, na Europa em geral)?

Ribeira de Pena, 15 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Salgueiro Maia, um herói imaculado do século XX) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.liberdadeecidadania.blogspot.com.]

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Calendário


O lado mais terrível do presente é a altíssima probabilidade de o futuro ser ainda muito pior.

Ribeira de Pena, 15 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho