Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Tributo


Recebei, amores, o magro verso
Da minha vida quase epilogal.
Do tanto que vivi, ora disperso,
Sois vós o certo ouro essencial;
Sois vós a certa luz permanecendo
A limpa tangerina doce amada –
O mais que já vivi ou vou vivendo
Multidões incertas são de nada.

Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cincoquartosdelaranja.blogspot.pt.]



Infinita Mãe


Tenho 49 anos e preciso muito da minha Mãe.
É assim desde 1963.
Há-de ser assim até ao dia em que se me acabe a biografia.
De modo que, vista a questão pelo meu olhar, Mãe é uma coisa que não tem fim.

Arco de Baúlhe, 20 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[Imagem colhida na wikipédia.]

terça-feira, 19 de junho de 2012

Oração



A minha mãe já foi árvore (linda, forte, umbrosa). Foi o meu refúgio certo por tantos anos.
Hoje é uma flor frágil (apenas linda).
Eu queria ser, Senhor, por mais tempo, a árvore onde a minha mãe se refugiasse contra o Tempo.

Ribeira de Pena, 19 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Nota: Retirei do blogue um texto publicado ontem - feito de rajada - por, após segunda leitura, me ter desagradado (no tom e na forma). Dito.]


sábado, 16 de junho de 2012

Azia contemporânea


1. Alguns dos melhores professores da minha escola podem ver-se de súbito no desemprego. O governo poupa aqui e gasta no BPN e nas PPP. A opção é o retrato da minha contemporaneidade medíocre e despudorada.


2. Jovens com a idade da minha filha (como ela, cheias de habilitações e competências) não conseguem trabalho no país que lhes disse "Estudem para o futuro ser melhor". Os arautos do neoliberalismo (uma neo merda que é uma merda velha) dizem que tudo se resolveria se os mais velhos não tivessem direito a emprego "para a vida". A lógica é óbvia - fazer acreditar que os direitos são afinal luxos e que a pobreza (senão a escravatura) é condição natural da humanidade.


3. Aquele mito da progressão baseada na "meritocracia" esconde o apelo da selva que (Jack London à parte) preside ao pensamento dos pançudos velhos e ao dos jotinhas aspirantes a uma pança futura. Em boa verdade, significa que os "melhores" (mais aptos, mais altos, mais rápidos, mais fortes) triunfam e os "menos bons" (muitas vezes, os mais incapazes de funcionar segundo a lei da selva) são triturados. Dá-se o caso de esses "menos bons" (muitas vezes os que obedecem, sem remédio, a essenciais princípios de ética) terem também filhos, doenças, contas para pagar - e sonhos. Como, olhai bem, "os outros".


4. Um tal César das Neves veio a Cabeceiras de Basto dizer, com a imponência balofa dos especialistas em economia (mais virados para as autópsias da sociedade do que para o tratamento dos problemas), que os professores ganhavam de mais. Aqui para nós, um professor vence, no final de uma carreira de, pelo menos, trinta e cinco anos (se entretanto não for novamente roubado pelo movediço Estado), cerca de 1.800 euros. Estranhamente, ninguém perguntou ao doutor sabichão pela grandeza e legitimidade do seu próprio salário.


5. António Mexia disse, certo dia, que o seu prémio de cerca de um milhão de euros - um pequeno extra para o seu rendimento anual - se devia ao facto de haver atingido os objectivos da empresa (monopolista) que estava e continua gerindo, à boleia do PS ou do PSD. Que pensará este indivíduo feliz da possibilidade de se aumentar o ordenado mínimo nacional para 500 euros mensais? Achará que se trataria, como dizem outros obesos gestores da pátria, de uma terrível imprudência? (Entre parêntesis, uma pergunta aos chineses: que acharia Mao Zedong, ideólogo dessa grande nação de accionistas orientais, de uma personagem como Mexia?)


6. Que direito divino determinará que os pais dos meus alunos não tenham direito a subsídio de desemprego e, simultaneamente, alguns familiares de gente importante tenham acesso a lugares no Estado com ordenado chorudo e a prerrogativa de não perderem o direito (excepcional, no país) aos subsídios de férias e de natal?


7. Pergunta muito comprida: por que razão não foram os bancos obrigados a diminuir os montantes das prestações que os devedores, entretanto roubados no ordenado e sujeitos ao aumento de impostos, têm de mensalmente continuar a cumprir em nome de um suposto esforço nacional para vencer as dificuldades financeiras do país?


8. Os vampiros vivem à custa do sistema, com fausto e conforto, mas criticam sempre "os outros", com aquela pose magistral dos peritos em política e finanças. Se lhes apontarmos contradições, erros, mentiras, evidências das injustas desigualdades, atiram-nos logo com a "demagogia" à cara. Está-se mesmo a ver: Cristo, Ghandi, Marx, esses grandes demagogos, não teriam hoje lugar nos debates da tv generalista.


 9. Por que motivo sobe a extrema-esquerda e - atenção! - a extrema-direita (na Grécia e, previsivelmente, na Europa em geral)?

Ribeira de Pena, 15 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Salgueiro Maia, um herói imaculado do século XX) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.liberdadeecidadania.blogspot.com.]

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Calendário


O lado mais terrível do presente é a altíssima probabilidade de o futuro ser ainda muito pior.

Ribeira de Pena, 15 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Visto do chão

Alunos, como pássaros impacientes, voam para longe da Escola. É uma partida inevitável, esta, porque o destino dos seres livres é voar. A minha Escola já tem saudades, mas conforma-se: quem parte continuará a voar, agora noutros lugares e noutro tempo. A formosura dos voos a haver é motivo de orgulho para os seres voadores e para quem, no chão propedêutico da circunstância, os ensinou a bem voar.

Arco de Baúlhe, 13 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.falcaodejade.blospot.pt/. Este meu textinho faz parte do jornal “Arco-Íris”, da Escola Básica de Arco de Baúlhe (Junho de 2012) e é dedicado sobretudo aos alunos do 9.º ano que se preparam para iniciar novas etapas académicas – um abraço!]

terça-feira, 12 de junho de 2012

Viagem



O tempo é movediço como a arte
E infinito como a linguagem.
Sempre é o que vemos só uma parte
(Sempre é o que escrevemos só uma parte)
Do qu’ inda nos falta na Viagem.

Arco de Baúlhe, 12 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Esta minha foto apresenta um pormenor da casa de Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Ceide – uma espécie de janelinha a meio do muro, lugar de onde Ana Plácido conversava com o povo transeunte, recolhendo histórias para o marido elevar a contos ou novelas.]

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Noção revisitada de perecibilidade

Na primeira segunda-feira depois das férias, numa manhã de Setembro muito quente, o senhor Valter dos correios foi mandado, pela nova chefe do serviço, para o armazém das encomendas atrasadas. Acontecia que, por razões quase nunca atribuíveis ao serviço (moradas erradas ou incompletas, por exemplo), certas encomendas se perdiam algures no caminho e só graças à dedicação e paciência dos funcionários reencontravam a luz do destino certo.
A meio da manhã, houve um incidente digno de nota no dia repetido do senhor Valter: uma das encomendas que ele estava cuidadosamente reencaminhando tombou da prateleira. Tratava-se de uma caixa de cartão de fraca qualidade, remetida há meio ano já por remetente de Faro e destinada a uma “Sabina Graça” de Aveiro. Ao tombar, a dita caixa abriu-se e do seu ventre já não secreto saíram fotografias, um anel de prata e – aqui está o pormenor picante – um conjunto de lingerie de cor escandalosamente vermelha.
O funcionário, perturbado, olhou em redor, temendo algum risinho filho-da-puta dos colegas de turno. Mas estava sozinho. Pôde, com devinda tranquilidade, reunir sobre a mesa aqueles pedacinhos de alguma história que, no imediato, não entendia. E descobriu, caída no chão junto a duas fotos cheias de romantismo e sensualidade, uma curta carta.
Voltou a mirar os recantos próximos e mais distantes do armazém, despistando qualquer espionagem inconveniente. Convencido enfim da sua maravilhosa impunidade, suspendeu por minutos os deveres ético-deontológicos que o cometiam – e lá se pôs a ler a missiva.
Era de um homem chamado Álvaro. Explicava à pobre Sabina que o coração decidira terminar aquele namoro de três anos. Que havia outra, mas que essoutra não tinha culpa. E terminava dizendo que desejava à ex-namorada “toda a felicidade do mundo” (hipérbole conhecida e muito gasta à força de tanto uso, como sabemos).
As fotos, o anel e a lingerie eram – percebeu o senhor Valter – recordações do amor finito. O homem devolvia-os como se, com esse ritual, se resolvesse de vez a suspensão de um vínculo outrora julgado para sempre. Ao recolocar tudo na caixa, o funcionário dos correios tomou-se, durante alguns segundos, daquele encanto que muitas almas sentem ao mirar fotografias de felicidade passada, e que magicamente (e decerto mentirosamente) parecem presentificar o que não pode jamais reacender-se. Também se apercebeu de que na roupa íntima de Sabina permaneciam odores de corpo feminino: tratava-se, pois, de lingerie usada que, por algum fetiche suspeitoso, o homem guardara consigo. Há quanto tempo teria o tal Álvaro, guardada em alguma gaveta escondida, esta lembrança física e, pois claro, simbólica?
A verdade é que o anel e as fotos eram dignos representantes de um amor feliz, entretanto findo. E que as peças femininas cheiravam mal!
Suspirando, o senhor Valter disse de si para si que aquela encomenda oferecia duas leituras sobre a memória do amor – uma formosa e delicada, outra cínica e feia. Feia, sim, porque há em algumas histórias do coração a perecibilidade de que os frutos, os produtos lácteos e a carne em geral sofrem. Passa o prazo de validade e, depois, tresandam.
À noite, passeou com a esposa e falou-lhe daquele dia em que, na praia, tinham ficado a ver o sol tomar banho no mar. A mulher não se lembrava, coitada.

Ribeira de Pena, 11 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.frasespt.blogspot.pt/.]

domingo, 10 de junho de 2012

Portugal



O meu país nasceu
Há mil anos, pequenino.
O meu país cresceu
Contra o Destino.

O meu país nasceu
Entre mar e míngua.
O meu país sou eu
E a Língua.

O meu país nasceu
Por portugueses.
O meu país faleceu
Muitas vezes.

O meu país nasceu
Para termos chão.
O meu país é meu
Mesmo que não.

Ribeira de Pena, 10 de Junho (parabéns, Tó!) de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida na Wikipédia.]

sábado, 9 de junho de 2012

Na casa de Camilo


Fui, com colegas e alunos da Escola Básica de Arco de Baúlhe, à casa em que Camilo viveu (durante vinte e sete anos), com Ana Plácido, em S. Miguel de Ceide.
Nunca como neste dia tive a tão profunda sensação de cumprir algo assim impossível - viajar, tempo e espaço adentro, até ao mais íntimo dos recantos de um escritor maior da nossa literatura e, enfim, da literatura universal.
Vi as lunetas de Camilo, a sua cama, o lugar onde fazia a barba, o banco em que se sentava para escrever, o canapé onde agonizou nas suas últimas horas. Estive - mesmo - em sua casa!
Um dia emocionante, caros amigos. Um dia inesquecível!

Ribeira de Pena, 09 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

Poema de amor (ou oração)


A minha vida vê-se,
A tua não.
A minha sina lê-se
Na tua mão.

Ribeira de Pena, 07 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.diariodemh.blogspot.com/.]

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Patos (revisitação de O Senhor das Moscas, de Golding)


Embora dispense o estatuto de cisne, custa-me muito fazer parte, tantas vezes, do mundo medíocre dos patos iguais aos patos. Patos repetidos, patos tristes, patos muito satisfeitos com a sua condição rasteira de patos. Patos indiferenciados. Patos sem pensamento individual. Patos desconfiados dessa coisa dita a liberdade e dessoutra dita a cultura. Aos olhos desta pataria estúpida, a diferença leva logo o carimbo de "feio". Pior: de "pato feio", porque a pátria imbecil dos patos não concebe a existência de outras espécies de vida senão patos.
Não se augura nada de bom para os patinhos feios do mundo, eu sei. São os outros patos, maioritários e brutos, que mandam no mundo. Mas à noite, livre da imbecil pataria, há quem vá à janela e respire o ar limpo da consciência tranquila - e isso, ó patos tristemente iguais aos outros patos, não tem preço!

Ribeira de Pena, 07 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.interdinamica.pt/.]

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Instante


Súbitos pífaros no mínimo dia
Máxima música, íntima graça
Notícia d'encanto, tépida folia
Amável ócio que, óbvio, passa.

Arco de Baúlhe, 06 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.outrasescritas.blogspot.com/]

Escrita em vez de adeus - In memoriam Clara Póvoa


Antes de conhecermos uma pessoa, ela não está bem viva. Isto é, pode trabalhar, respirar, pagar impostos, mas para nós é como se não vivesse porque não tem lugar na nossa lembrança ou no nosso coração.
Quando conhecemos alguém, então sim, é como se esse alguém nascesse, isto é, como se houvesse um recenseamento íntimo de novo ser vivo em nossas vidas.
Mas a noção deste viver verdadeiro não acaba aqui. Dá-se com alguns dos nossos conhecidos que eles evoluem, de facto, da condição de sombras para a condição de amigos. E depois não são já apenas vivos acidentais no cartório da nossa atenção: passam a sangue consubstancial ao nosso sangue, a realidade consubstancial à nossa realidade.
Os nossos amigos vivem em nós, e a nossa própria vida depende, em grande medida, de eles estarem vivos.
É por isso que a morte de um amigo ou de uma amiga é sempre também a morte de nós próprios (a morte ou algo parecido, igualmente triste).
Já senti na carne, várias vezes, a verdade de quanto acima digo. Tenho coleccionado, com dispensável regularidade, súbitas e anunciadas partidas de gente querida e, a cada episódio, há um pouco de mim mesmo que desaparece.
Também a minha colega Clara Póvoa, antes de o ser, não existia verdadeiramente na minha vida. Mas, na década de noventa do século XX, fui colocado na Escola Secundária de Cantanhede e operou-se esse milagre necessário. A seguir, com a naturalidade de um amanhecer, ficámos amigos.
Fundámos este afecto grande em várias cumplicidades. Posso lembrar algumas: a profissão; a alegria de viver construindo coisas, perseguindo sonhos; o sentido de humor; o sentido crítico (que é a liberdade em acção); o comum amor pela literatura.
A questão dos livros tem, na minha história com a Clara, uma particular importância. Por razões familiares, eu despedi-me de Cantanhede e fui leccionar para uma vila pequenina de Trás-os-Montes. Esta mudança não significou o meu desaparecimento para a Clara, que – com outros colegas – me foi convidando para vir à sua, nossa escola palestrar sobre poesia, narrativa, teatro, às vezes até para apresentar um dos meus livrinhos. Deu-se ainda a coincidência de a Clara se ter tornado professora bibliotecária e de, muito por sua iniciativa, a biblioteca da Escola Secundária de Cantanhede haver organizado numerosas actividades no domínio da promoção da leitura. Continuei a vir aqui, a seu convite, partilhar livros e mundos e versos e opiniões junto de alunos e professores.

A Clara tinha um especial carinho pelo Boletim da Biblioteca e, uma vez por outra, fui convidado a nele escrevinhar o que me apetecesse. Quando o nosso colega Abílio faleceu, ela achou que seria eu o natural sucessor de um espaço bem nobre da publicação – certa coluna de primeira página (eventualmente com continuação nas páginas interiores), espécie de editorial feito, digamos assim, com o coração. Como habitualmente, disse-lhe que contasse comigo.
Ao telefone ou via Email, comunicávamos de tempos a tempos. Eu soube, com poucos pormenores, da sua doença, do atraso na saída de um Boletim, de formosas actividades da biblioteca, do seu mestrado. Numa das últimas vezes que conversámos de viva voz, talvez há meio ano, agendámos o lançamento, em Cantanhede, de um livro meu intitulado Um Barco Chamado Sophia Loren. Caber-me-ia uma palestra sobre o poder da leitura e, em concomitância, falar desta minha novela.
Quero dizer-vos algo sobre este livro porque, para minha mágoa, algo há nele que, agora, me remete para a figura competente, amiga dos livros, lúcida, inteligente, bonita e tão digna que era (é) a Clara Póvoa. A obra em causa fala de um rapaz que, por razões várias, faz uma viagem de barco entre Lisboa e os Açores, na companhia de um velho professor. O rapaz aprende com o mestre, através de muitos relatos (orais ou em forma de livro), o valor da literatura – sobretudo, a que carrega histórias com sonhos e humanidade dentro. É à boleia de livros e conversas que o rapaz sabe do grande amor da vida deste homem, e de como, apesar da morte (por doença) dessa senhora amada, nunca do coração do homem se ter apagado o amor.
O final do livro é o texto que o velho professor deixa na lápide tumular da esposa: “Em memória de Matilde Nunes Horto. Saudades do marido, Horácio Horto, e de Filipe Félix, que a conheceu e amou só de ouvir contar.”
Consola-me a ideia de (como na escrita, como nos livros) haver esta possibilidade de, pela lembrança e pela revisitação delicada de biografias exemplares, se manter a amada gente viva, apesar de não. Espero que me compreendam.
Escrevi este texto a pensar na Clara e quero partilhá-lo com todos quantos a conheceram e a estimaram. Mas destino-o igualmente a quem, não a tendo conhecido, não soube sequer da sua existência luminosa, perdendo-a de suas vidas. Para uns e outros, o desafio é, inesquecendo-a, manter viva esta nossa Amiga. Sempre. Como se faz com os livros.

Coimbra, 30 de Janeiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[O texto que aqui deixo, dedicado à inesquecível colega e amiga, Clara Póvoa, foi escrito para o Boletim da Biblioteca da Escola Secundária de Cantanhede (entretanto publicado). A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.be.escantanhede.pt.]

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O Poder


1
Um antigo professor, a propósito de certos déspotas, falava sempre de "poder com ph" ("phoder", portanto).
2
A questão do poder tem despertado em muitos pensadores (artistas, filósofos, cientistas disto & daquilo, gente em geral) reflexões diversas e nem sempre coincidentes. Ontem, num documentário sobre Bill Clinton, ouvi a este ex-presidente norte-americano uma frase interessante sobre o assunto, proferida no discurso de despedida da Casa Branca: "O poder é importante ou não segundo aquilo que se faz com ele."
Clinton saberia bem do que falava, tendo em conta o que de positivo fez pelo seu país e pelo mundo, e igualmente tendo em conta algumas atitudes menos próprias que mancharam (este verbo é bom) o seu mandato.
3
Sobre a questão do poder, lembro-me sempre de um episódio que vivi na tropa. Quando, em 1987, era um instruendo (o equivalente a "recruta"), eu encontrei, na unidade onde aprendia o ofício da guerra, um ex-aluno que já era "aspirante". Com evidente embaraço, falou comigo, deu-me ordens, assumindo o seu papel de graduado, mas mantendo sempre um cuidado (não reverencial, respeitoso) e uma educação exemplares. Também lá encontrei, já "aspirante", um conterrâneo, ex-colega de liceu e, depois, de faculdade, que aproveitou para - sobre mim e outros - exercer o vil exercício da humilhação gratuita, no sentido (sempre falho de eficácia) de ter piada. Certo dia, depois de uma tarde passada a praxar toda a gente com requintes sádicos e geralmente estúpidos, veio ter comigo, depois do jantar, e pediu-me alguns minutos para conversarmos. A custo, assenti. Ele trouxe-me para o meio da parada, pôs-me em posição de "à vontade" (corpo hirto, mãos atrás das costas à altura da cintura, rosto direito) e perguntou-me, sorrindo cinicamente, se eu estava aborrecido com a sua pessoa. Respondi-lhe mais ou menos assim:
- Estou desapontado, embora nunca tenha tido grandes ilusões acerca do teu mau carácter e da tua deficitária inteligência.  E, em tendo oportunidade, quando ambos formos novamente civis, parto-te o focinho.
Ele ficou possesso, obrigou-me a assumir a posição de sentido e, durante uns quinze minutos, perorou sobre as virtudes da camaradagem e da obediência. No final, fez questão de ouvir da minha parte o pedido de permissão para me retirar. Corrigi-lhe a sintaxe, num tom respeitoso, provocando-lhe novos espasmos de fúria. Não me agrediu, mas daí em diante, sempre que pôde, implicou comigo e, nos limites da sua própria autoridade e liberdade, humilhou-me com o requinte que a sua pobre imaginação paria.
Anos mais tarde, reencontrei-o em Coimbra, num centro comercial. Vinha acompanhado da mulher, uma senhora magrinha com ar triste. Chamou-me e quis falar comigo como velho camarada da tropa. Reacendeu-se em mim, logo, todo o desprezo e revolta que a figura de um canalha sempre me inspira. Disse-lhe, à frente da pobre esposa:
- Não fales comigo. Metes-me nojo. Se algum dia me voltares a cumprimentar, desfaço-te.
O suíno, cobarde maior de todos, tartamudeou, com escândalo e medo:
- Depois de tanto tempo, ainda estás aborrecido?
- Ainda. Para sempre. Metes-me nojo, pá!
Não fiquei orgulhoso com o episódio, mas tão-pouco me arrependo.
E nutro o mesmo sentimento por políticos, gestores, juízes, administrativos, pais, polícias, etc. que se aproveitam do poder (essa arma inevitavelmente provisória) para perseguirem, dominarem, humilharem os seus semelhantes. Não creio, sublinho, que fosse essa a exacta situação de Clinton (aquém e além-Lewinski). No presente do nosso país, lugar onde a corrupção floresce impunemente e os castigos normalmente prescrevem, creio que é tudo ainda pior.
4
O poder é o que fazemos dele, sim. É  um perigo nas mãos de canalhas. Por mim, perdoai, mas nunca me esqueço de uma canalhice. Nem de um canalha.

Arco de Baúlhe, 04 de Junho de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://krommus-briosa.blogspot.com./]