Vou falar-vos da minha vida profissional. Faço-o envolto numa ideia que brilha em certo poema de Eugénio (“Poema à mãe”) – a de o destino dos pássaros ser, logo após a aprendizagem do voo, eles partirem, irem-se embora. Voarem para fora de nós.
A minha filha é um desses seres voadores que deu em crescer e em ter vida própria, à revelia dos pais. É assim a vida? É. Eu é que nunca me habituei a tal independência voadora e sofro muito.
A minha biografia, sabei, resume-se hoje ao medo constante de que a ave caia, se magoe, se desiluda, sofra alguma injustiça – e que eu não esteja (não possa estar) por ali perto do seu voo pessoal para, sendo necessário, interferir, domar o destino, evitar a má sorte.
Prometi que falaria da minha vida profissional, não foi? E cumpri, senhores. Ora atentai: nasceu-me, há já vinte e sete anos, uma filha e o meu ofício principal tornou-se, daí em diante, para todo o sempre, ser pai.
Arco de Baúlhe, 29 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (a "Luluzinha" de uma bd que eu e a VL gostamos) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.nomesportugueses.blogspot.pt]












