Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sinal

Recebe as rosas, rigorosa Razão,
Dos dias sucedendo em marcha incerta;
Dá-lhes a água da tua atenção
E toma do perfume dessa oferta
Vívido sinal do Coração
Que o mínimo sol, em ti, desperta.


Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 16 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.paranoidj.wordpress.com.]

terça-feira, 15 de maio de 2012

Interrupção


Soube, de rajada, que dois colegas (a H. e o T.) perderam, respectivamente, Pai e Mãe.
Como se sabe, a gente vê na dor dos contemporâneos a nossa própria vida passada, presente e futura.
O meu abraço inútil é toda a utilidade que sou capaz de, neste momento tão triste, oferecer.
É tão grande a Morte e tão pequeninos, em comparação, os nossos pobres suspiros!
Um abraço (cheio desta frágil, patética, humana indignação perante o Fim) para os meus colegas, meus irmãos.
Aqui estou convosco.
Aqui estamos.

Cabeceiras de Basto, 15 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.madalena.blogs.sapo.pt.]

domingo, 13 de maio de 2012

Ponto G


Voltou a falar-se, nos últimos dias, no famoso (e inconsensual) “ponto G”. Apesar dos estudos científicos vindos a lume, continua a haver quem se recuse a crer na real existência dessa zona do corpo feminino.
Como observador atento da questão, tendo a tomar como verdadeiras as conclusões da Ciência. E, sobre o cepticismo remanescente, atrevo-me a dizer: quem diz que o “ponto G” não existe são as más línguas.

Coimbra, 13 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cantinhodacher.blogspot.com.]

sábado, 12 de maio de 2012

Quadra sobre o género quadras

Gosto de quadras, amor
Por nelas soar tão bem
O momentâneo fulgor
Que às vezes a vida tem.

Coimbra, 12 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (retrato de Antero de Quental) foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.]

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Laurel & Hardy

O dr. Passos Coelho disse, com a solenidade dos inimputáveis, que o desemprego (cito de cor) "não deve ser visto como um estigma, mas sim como uma oportunidade" (abençoada, presumo eu...) "de mudar de vida".
Eu conheço familiares, amigos e conhecidos que estão há muito tempo no limbo trágico do desemprego duradouro - e sinto-me, como é normal, revoltado com este cinismo ignorante. Como quem, preciso, é atacado à traição com um ferro quente.
Não sei se lá no planeta de Marte (ou Vénus, ou Saturno) onde decerto vive o senhor primeiro-ministro, o desemprego é assim coisa tão despicienda e até, valha-nos Deus, virtuosa. Mas pelas ruas que cruzo, aqui na Terra, vê-se uma realidade diferente.
Depois dessa Vacuidade Presumida que foi Sócrates, aparece-nos esta Fábrica de Asneiras e de Irresponsabilidade... Será que, de facto, o PS e o PSD não têm mesmo melhor que "isto" para o país?

Ribeira de Pena, 11 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ibelieveicanflybells.blogspot.com.]

Instante

Deixei que o olhar, como ave, partisse
Para longe, livre, saísse de si -
Depois escondi-o antes que se visse
A dor de o meu corpo não sair daqui.

Arco de Baúlhe, almoço, 11-05-2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (auto-retrato de Monet) foi colhida em http://www.maguetas,com.]

Noção de indiferença útil

Paulo Ferreira, subdirector do Jornal de Notícias, num texto de opinião publicado neste jornal (“Gabriel, o pensador”, ed. De 10-05-2012, p. 16), cita Jorge Luis Borges:
“Não odeies o teu inimigo porque, se o fazes, és de algum modo seu escravo.”
Odiar dá o seu trabalho, já se sabia. Mas Jorge Luis Borges vai mais longe. E, reconheça-se, tem alguma (muita) razão.
Eu ando há muito tempo a libertar-me, tanto quanto posso, desse fardo pior de todos, o ódio. Estou a especializar-me no que, à falta de outra expressão, designarei por “indiferença estrategicamente aplicada”. Trata-se de uma espécie de homicídio virtual, pois consiste em tornar inexistentes os desprezíveis.
Apesar de morosa, a tarefa a que me propus afigura-se-me, já hoje, promissora e gratificante. Seguramente que me torno mais leve, mais limpo e mais livre.

Arco de Baúlhe, 10 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (de Jorge Luis Borges) foi recolhida, com a devida vénia, em http://www.es.wikipedia.org.]

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Quadra de um príncipe farto de esperar pela sua princesa num cabeleireiro

Minha querida princesa
Não cuide tanto do esmero
Que haver em si mais beleza
É exagero.

Arco de Baúlhe, 10 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.pt.dreamstime.com.]

terça-feira, 8 de maio de 2012

O lugar certo

Dois versos do americano Robert Frost andaram-me na cabeça durante quase todo o dia. Foram uma espécie de avesso desta fúria funcionária que tomou conta da minha terça-feira:

"Earth is the right place for love.
I don’t know where is likely to go better."
Traduzo (livremente):

"A Terra é o lugar certo para o amor.
Outro não conheço para onde irmos."

Deve isto fazer sentido, senhores, porque estes versos são quase tudo quanto me resta da jornada que deixei à porta do prédio.
O nosso mundo não é sempre bom, mas é o nosso. Paciência e esperança, pois.

Ribeira de Pena, 08 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

Tanta gente dentro da literatura e vice-versa

Carlos Eduardo da Maia viaja serenamente, de Paris para Lisboa, num comboio moderno, mal se apercebendo de montes e vales lusos deslocando-se no sentido oposto ao do movimento ferroviário, ou de alguns animais passeando, pachorrentos, naquele ofício (mais olímpico de todos) de se alimentarem sem dar importância ao ruído de pouca-terra-pouca-terra invadindo a manhã. Ao colo do viajante está um livro vermelho, cujo título a donzela do banco em frente lê com dificuldade: Os Maias, acha ela, semicerrando os olhos cheios de mel que onde estivessem eram a luz.
A donzela viaja com a mãe, uma imponente viúva cheia de amargura, que se habituara à virtude católica como a um espartilho e via em toda a vizinhança masculina uma ameaça à imaculada filha. Desconfiava, claro, daquele quarentão elegante, talvez francês ou espanhol.
Carlos regressa a Portugal dez anos depois de uma paixão funesta pela própria irmã haver implodido, com muito escândalo de particulares e um desgosto mortal do avô Afonso. Nas suas pernas um pouco gordas, repousa a já referida narrativa romanceada de toda a sua existência, que o amigo João da Ega, sob o pseudónimo de Eça de Queirós, assim inscrevera já em páginas (ditas) realistas.
A moça acha bonito o cavalheiro do banco fronteiro, tão distinto e saudável, de pele muito clara, bem penteado, com aquelas discretas cãs anunciando a madura idade. Depois, num assomo de íntimo pudor, recolhe o olhar e desiste do flirt. Parece lembrar-se de algo importante, e o sobrevindo recato talvez tenha a ver com aquele bilhete escondido entre as suas finas luvas, que vem acariciando há horas às escondidas da matrona mãe.
A mãe: coitadinha, tão ali cheia de uma flatulência inoportuna e a custo sustida, já vai cedendo à tentação do sono e alterosamente respira ali, de olhos fechados, desmaiados os braços ao longo do oblíquo corpo.
O bilhete: escreveu-o à moça um tal Cesário Verde, filho de comerciantes (segundo ela percebeu), poeta ainda sem fama e, infelizmente, tuberculoso. O rapaz ainda não se esqueceu dela, desde certo pic-nic em Linda-a-Pastora. E a rapariga abençoava, a posteriori, a ideia da mãe que tanto insistira em que fossem ambas àquela reunião social - ali encontrara duas primitas, cinco meninas desconhecidas e desinteressantes (embora barulhentas), alguns rapazes da sociedade, a tia-avó, um duque recém-chegado à política e três senhores com negócios na Bolsa portuense.
A meio da tarde, a mãe zangara-se a valer com a donzela por esta imprudentemente haver saltado do burrico e ter ido colher, ao chão perigoso, algumas papoulas. As primas haviam rido, o duque lamentara, com verbo severo, o impulso juvenil, e a mater-nal matrona gritara com mais volume que graça. Cesário estava na rectaguarda desta cena, molemente burricando em seu caminho, e nele se acendeu uma súbita admiração – a um tempo sensual e metafísica – pela jovem de olhos claros, disto decorrendo mesmo que, pela tarde adiante, esquecido das horas e da tuberculose, se entregou a uma (talvez excessiva) adoração silente.
A mãe apercebeu-se daquele olhar contínuo sobre os vigorosos mundos que o peito da filha citrinamente desenhava. Era bem no vão do jovem decote que ora jaziam algumas das papoulas colhidas – e para lá se desviavam, por isso, os olhos entusiasmados do poeta. Ora, a viúva não se coibiu de rosnar avisos e, apesar de informada pela tia-avó da doença do infeliz olhador, ali murmurou sem piedade, mesmo à chegada ao solar onde jantariam:
- A tuberculose não é desculpa para a pouca vergonha, minha tia! Arre…
Carlos da Maia ajudou aquela mãe e aquela filha a transportarem malas e caixas em Santa Apolónia, estendendo o galante sacrifício até as senhoras encontrarem uma carruagem disponível. Ao contrário do que o romance Os Maias dizia, João da Ega não esperava, naquele dia, o seu amigo Carlos. É que o brilhante iconoclasta deviera embaixador e estava, por essa altura, algures em Cuba, escrevendo ou vivendo outras histórias.
A casa do Ramalhete estava fechada e uma dezena de heras vigorosas atravessavam verticalmente, como selos judiciários, a porta principal, rumo ao céu. Da sua carruagem alugada, a donzela e a matrona mãe viram Carlos (sem o reconhecerem) mirando aquela casa onde estivera para ser feliz, onde fora feliz, onde deixara de ser feliz. Apertando, entre os seus dedos finos, quatro versinhos apenas de um poema a haver, lavrado por aquele admirador tuberculoso, a rapariga suspirou nesse exacto momento em que os cavalos, puxando as rodas, percorriam a estrada fronteira ao Ramalhete. Muito linda, sob a luz matinal de Lisboa, mais falando para si própria do que para a mãe, disse:
- Parece uma casa como aquelas que vemos descritas nos romances…
A mãe respondeu, indiferente:
- É uma casa como as outras…
Do fundo do balcão da loja de ferragens paterna, Cesário retomava já, no intervalo de uma tosse teimosa e seca (muito pouco romântica, convenhamos), a quadra apressadamente oferecida, naquela tarde inesquecível de Linda-a-Pastora, à doce recolectora de papoulas:
Naquele pic-nic de burguesas
Houve uma coisa simplesmente bela…


Ribeira de Pena, 24 de Maio de de 2011.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (casa de Cesário) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ruialme.blogspot.com. Este meu texto foi publicado no Boletim da Biblioteca da Escola Secundária de Cantanhede, em Dezembro de 2011. À semelhança de outros escritos, enviei-o a pedido de uma exemplar colega, a Clara Póvoa, de quem tenho para sempre saudades.]

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Liberdade pequininha

Gosto de não ser daqui
De não pertencer a nenhum lugar
De ser sempre alguém de fora
Encostado à árvore, na margem, vendo o rio
Passar -
Também desta condição incerta, fugidia
Depende a minha inteira liberdade
De ser.
Os meus lugares são, como o Tempo, provisórios
E a minha circunstância é volátil como as sombras
Tremeluzindo ao mínimo capricho da luz
Ou do vento.
Perene, diria eterno, é o meu amor
Por ti.

Vila Real, 06 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.kenwoodtravel.com.]

Confissão por escrito

Apresentei ontem, pelas dez da noite, no Auditório Municipal de Ribeira de Pena, um livro intitulado Hhomens, de Antónia Áurea Ferreira (Lisboa, Ed. Vieira da Silva, 2012). A obra em causa é uma espécie de ramalhete de memórias e de pensamentos-ideias que a autora, uma ribeirapenense radicada em Sintra há já dezasseis anos, reuniu sob a forma sobretudo de pequenas narrativas. Aproveitei a ocasião para, uma vez mais, perorar sobre o imenso poder da literatura – e, em particular, da narrativa – em matéria de ordenação/explicação da vida e do mundo.
A autora só me foi apresentada pessoalmente no exacto momento da cerimónia. Mas disse-lhe, menos a brincar que a sério, na altura de a cumprimentar, que já a conhecia bastante bem. Não era uma piada, não: ficamos a saber muito de alguém que se expõe por centenas de páginas adentro (ainda que sob a capa de episódios e nomes pintalgados de ficção).
Sei do que falo, que eu próprio me sinto, a cada texto escrito-revelado, um frágil devoto na hora transparente da confissão de ser.

Vila Real, 06 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho


As time goes by


Minha mãe, dói-me o destino
De o tempo nunca parar –
Quem me dera ser menino
Para sempre ao pé do mar!

Vila Real, 06 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (belíssimo trabalho assinado por Angela Fey) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.angela fey.wordpress.com.]

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Necessidades comunicativas especiais

No porteiro, no taxista, na mulher enganada
Na criança, no poeta, no homem a morrer
Há esta urgência incontrolada
De tudo dizer.

Ribeira de Pena, 04 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem é a da capa de Mares do Sul, de Manuel Vásquez Montalbán, obra que é muito mais do que um romance policial e por andam – mais ou menos - as personagens desta minha quadra.]

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Coisa filha da outra

O senhor Valter apareceu na televisão, durante a marcha do 1.º de Maio. Interrogado sobre o significado da data, afirmou:
- O significado depende dos olhos de quem vê o mundo e do coração. Eu tenho a mania de acreditar que devemos revoltar-nos contra a exploração e a injustiça.
Um colega do funcionário veio dizer-lhe, no dia seguinte, com prudentes mesuras e delicada moderação vocal, que o chefe do serviço gostava pouco de livres pensadores. Queria juízo, equilíbrio, respeitinho.
O destinatário do recado ficou a matutar e, após alguns minutos de sofrida reflexão, escreveu e afixou, numa vitrina junto ao seu guichê de trabalho, o seguinte anúncio:
"Aviso toda a gente, incluindo quem por acidente legal é meu superior hierárquico, que a minha dignidade não está à venda."
Por baixo, havia ainda duas linhas ilegíveis, disfarçadas com um borrão de tinta. Um carteiro, amigo do senhor Valter desde a infância, assim invisibilizara a última afirmação produzida, que era:
"A intolerância é filha da ignorância. Puta que a pariu!"
À tardinha, riram-se ambos do episódio, entre duas cervejas e alguns bocadinhos de queijo.

Ribeira de Pena, 03 de Maio de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.noticias.sapo.pt.]