Há em não ter televisão os seus benefícios. Graças à ausência, em minha casa, daquele dispositivo que a Chularia Nacional nos obriga agora a comprar (TDT), passei parte desta tarde a ler e, depois, a ver um filme realizado por Fred Durst (vocalista dos Limp Bizkit), com o título que dá nome ao presente bilhete postal: A Educação de Charlie Banks.
O filme tem, para mim, uma especial curiosidade: um dos actores principais, Jason Ritter, é filho de um outro actor que me habituei a admirar nas séries americanas, John Ritter.
A história anda à volta de um jovem problemático, um ex-menino de rua, de origem irlandesa, que aprendeu a resolver os seus problemas com violência. Há nele uma espécie de vertigem destrutiva (e auto-destrutiva). A seu lado, outros jovens dividem-se entre o medo daquele rapaz e a generosa crença na sua recuperação.
A lógica da narrativa conduz-nos à perturbadora ideia de que, ao contrário do que Rousseau ou o padre Américo advogavam, há gente que já nasce má - e para sempre. Recordei-me de um trecho de Alçada Baptista (em Catarina ou o sabor da maçã) em que o narrador sustentava a existência (inata e profunda) do Mal em alguns seres humanos.
Sumário: tempo bem empregado, este no visionamento da obra de Durst. (E o dvd, sabei, custou dois euros, no Jumbo.)
Ribeira de Pena, 28 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
sábado, 28 de abril de 2012
Música, vidas, eu
Há talvez já no silêncio uma canção
E canções há que só o silêncio depura –
A música é quanto há e quanto não
Havendo se adivinha ou se procura.
Ribeira de Pena, 28 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (memória de Bach) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mu.qub.ac.uk.]
E canções há que só o silêncio depura –
A música é quanto há e quanto não
Havendo se adivinha ou se procura.
Ribeira de Pena, 28 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (memória de Bach) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.mu.qub.ac.uk.]
Detalhe de amores
Dos anos já recebo esta lição
Por livros e por vidas comprovada:
Que quase tudo é nada na paixão
E tudo pode estar em quase nada.
Vila Real, 27 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem - do filme "Os verdes anos" (1963), de Paulo Rocha - foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amordeperdicao.pt.]
Por livros e por vidas comprovada:
Que quase tudo é nada na paixão
E tudo pode estar em quase nada.
Vila Real, 27 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem - do filme "Os verdes anos" (1963), de Paulo Rocha - foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amordeperdicao.pt.]
quarta-feira, 25 de abril de 2012
25 de Abril, apesar de tudo
1. Mostrei ontem aos meus alunos o filme Capitães de Abril, de Maria de Medeiros. Comovi-me pela enésima vez. Sofri, a espaços, o desconsolo que algumas personagens de Orwell manifestam em Animal Farm, quando vêem perverter-se o sonho limpo do início. Mas também sorri ao ver meninos e meninas do 8.º ano aprendendo, com atenção e interesse, a sua História.
2. Um velho (parecido com uma personagem do filme) assiste, ao meu lado, à transmissão da celebração do 38.º aniversário da revolução. A televisão mostra os rostos soturnos (vejo, aqui e ali, caras familiares, mas envelhecidas), na Assembleia da República, suportando a retórica oficial. Alguns engravatados trazem o símbolo político-floral à lapela. O velho a meu lado indigna-se e desabafa: "Ó pá, tira daí o cravo que ele não é teu!"
3. No final da cerimónia, já depois do hino nacional, um grupo de alentejanos canta "Grândola Vila Morena". E eu senti-me como Simão (de Amor de Perdição) relendo as suas próprias cartas de amor, devolvidas por Teresa, quando ambos estão à beira do derradeiro suspiro e nenhuma esperança se consente já.
Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
2. Um velho (parecido com uma personagem do filme) assiste, ao meu lado, à transmissão da celebração do 38.º aniversário da revolução. A televisão mostra os rostos soturnos (vejo, aqui e ali, caras familiares, mas envelhecidas), na Assembleia da República, suportando a retórica oficial. Alguns engravatados trazem o símbolo político-floral à lapela. O velho a meu lado indigna-se e desabafa: "Ó pá, tira daí o cravo que ele não é teu!"
3. No final da cerimónia, já depois do hino nacional, um grupo de alentejanos canta "Grândola Vila Morena". E eu senti-me como Simão (de Amor de Perdição) relendo as suas próprias cartas de amor, devolvidas por Teresa, quando ambos estão à beira do derradeiro suspiro e nenhuma esperança se consente já.
Ribeira de Pena, 25 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
terça-feira, 24 de abril de 2012
In memoriam Miguel Portas
Morreu Miguel Portas, um contemporâneo limpo e digno. Ironia melancólica é esta coisa de um homem assim partir na véspera do 38.º aniversário do 25 de Abril. Mas o 25 de Abril, em boa verdade, partiu antes dele.
Ribeira de Pena, 24 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
Ribeira de Pena, 24 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Histórias da Idade de Ouro
Já lera algo sobre este filme romeno “Histórias da Idade de Ouro” (2009), um projecto assinado por cinco realizadores – Ioana Uricaru, Hanno Höfer, Räzvan Märculescu, Constantin Popescu e Cristian Mungiu. Custou-me um euro e noventa e nove cêntimos e, em verdade vos digo, vale uma fortuna.
As histórias que o filme conta são uma espécie de anedotas, semelhantes às que ouvimos sobre os bastidores do comunismo na ex-União Soviética, ou sobre o Estado Novo em Portugal ou a ditadura chilena. Retratam o outro lado da oficial felicidade e, pelo riso ou (sobretudo) pelo sorriso, denunciam a hipocrisia de governos e sociedades.
São cinco episódios, digamos assim, passados nos últimos anos de governação de Ceausescu. Os cenários lembram muito os do nosso Portugal profundo, marcadamente pobres, tendencialmente reais, passados com uma humanidade que desesperadamente tenta sobreviver. Acresce que a língua romena é irmã da portuguesa (aqui e ali, encontramos vocábulos absolutamente idênticos, como “casa”). Vemos o filme como quem folheia um álbum de família.
Cada uma daquelas histórias daria um bom livro (e, perdoe-se-me a ignorância, se calhar até deu). Grato foi ter reencontrado na cinzenta tarde de sábado, à boleia deste precioso dvd, um bocadinho do nosso país de antes de Abril – espaço&tempo cheio de problemas, claro, mas familiar e doce se visto com aquela branda ingenuidade que havia no meu olhar de nove-dez anos.
Também por isso o próprio título parece inventado expressamente para mim.
Ribeira de Pena, 23 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
As histórias que o filme conta são uma espécie de anedotas, semelhantes às que ouvimos sobre os bastidores do comunismo na ex-União Soviética, ou sobre o Estado Novo em Portugal ou a ditadura chilena. Retratam o outro lado da oficial felicidade e, pelo riso ou (sobretudo) pelo sorriso, denunciam a hipocrisia de governos e sociedades.
São cinco episódios, digamos assim, passados nos últimos anos de governação de Ceausescu. Os cenários lembram muito os do nosso Portugal profundo, marcadamente pobres, tendencialmente reais, passados com uma humanidade que desesperadamente tenta sobreviver. Acresce que a língua romena é irmã da portuguesa (aqui e ali, encontramos vocábulos absolutamente idênticos, como “casa”). Vemos o filme como quem folheia um álbum de família.
Cada uma daquelas histórias daria um bom livro (e, perdoe-se-me a ignorância, se calhar até deu). Grato foi ter reencontrado na cinzenta tarde de sábado, à boleia deste precioso dvd, um bocadinho do nosso país de antes de Abril – espaço&tempo cheio de problemas, claro, mas familiar e doce se visto com aquela branda ingenuidade que havia no meu olhar de nove-dez anos.
Também por isso o próprio título parece inventado expressamente para mim.
Ribeira de Pena, 23 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
sábado, 21 de abril de 2012
Marão sem Mar (para cantar ao ritmo de "Malhão, malhão")
Ó Marão, Marão
Tens no nome Mar
É uma ilusão
Pois não há mar, não
Neste teu lugar.
Ó Marão sem Mar
Quem dera, Senhor
Que em vez de faltar
Fosse aqui lugar
Do Mar meu amor.
Ribeira de Pena, 21 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.gforum.tv.]
sexta-feira, 20 de abril de 2012
O regresso de Gracinda mulher

O senhor Valter tinha uma surpresa ao chegar a casa, na primeira sexta-feira de Janeiro: a esposa Gracinda esperava-o junto à porta, com as suas malas e um volumoso saco de legumes (oferecidos, à última hora, pela mãe, na hora da partida da camioneta).
- Voltaste? – perguntou-lhe o funcionário dos correios, sem a beijar ou abraçar, mas carinhosamente. Ela encolheu os ombros.
- É como vês. Pensaste que já eras viúvo?
Riram-se então brandamente e tudo parecia anunciar uma reconciliação fácil. O problema foi a foca, que não conhecia a nova residente – sua homónima – e manifestou, desde os primeiros instantes, uma irredutível antipatia face à rival. A mulher tão-pouco se deu ao trabalho de fingir que gostava do bicho: queixou-se do seu aspecto (“Parece o diabo!”), do odor (“Um cheiro de mortos!”), da vergonha (“Hão-de dizer que esta casa é um jardim zoológico!”). O senhor Valter, às primeiras lamúrias, ainda pensou na conveniência de manter as malas da esposa fechadas para o caso, digamos assim, de nova crise conjugal. Mas era um homem misericordioso e pôs de lado, quase imediatamente, a tentação.
À noite, a foca soltou gemidos ciumentos por ver, na cama, ao lado do dono, aquela mulher. Não admitiu que, na sua banheira, se colocassem dois tapetes de borracha azuis (comprados em Viseu, numa loja chinesa). E urinou sobre as pantufas do senhor Valter, decerto para se vingar do barulho d’acasalamento que atravessava as paredes do quarto principal. No dia seguinte, recusou-se a tocar na comida que, orientada pelo esposo, a Gracinda mulher disponibilizara no soalho da cozinha, sobre um cartão.
Ao longo da semana, o panorama agravou-se: a foca impediu-lhes o sono e a normal vida doméstica em geral (com urros, silvos, empurrões), mostrando-se cada vez mais agressiva, sobretudo com a nova patroa. Quando, uma semana depois do regresso da esposa, o senhor Valter encontrou a mulher no chão, apoplética, tentando libertar-se do peso da foca (que, deitada em cima da humana, assistia ao "Preço Certo"), lá tomou a decisão de devolver ao zoo de Lisboa aquele ser com barbatanas e mau feitio.
Mas, apesar de nos meses seguintes visitar regularmente (sempre sozinho) a sua foca, na capital, as saudades doer-lhe-iam, de aí em diante, como uma chaga profunda e crónica.
A mulher, essa, após alguns esboços de gratidão pela atitude do marido, rapidamente voltou àquela conduta habitual, feita de frio e de ressentimento sem razão óbvia. Ao esposo, por vezes, apetecia-lhe perder a paciência, mas a sua natureza fundamental levava-o sempre a perdoar, não sem grande dificuldade, as neuras esponsais. Se os amigos, a brincar, lhe perguntavam – na tasca do Antunes, ali ao Arnado – qual das Gracindas tivera ele de entregar no jardim zoológico, o funcionário dos correios encolhia os ombros e respondia sem satisfação evidente:
- A foca.
Contudo, pensava muitas vezes: “Antes fosse a outra!”
Ribeira de Pena, 19 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.opengalleries.org.]
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Notas sobre a ausência de mar
1. Agarro-me às metáforas como náufrago às tábuas mais à mão. Quero salvar-me. A incomunicação é, como se sabe, uma forma terrível de afogamento.
2. Da sala de professores à sala de aulas, subo por um búzio. Vozes de um cardume juvenil lembram o mar para onde, por livros, decerto iremos.
3. O sol é uma carta de meu pai, não bem morto há quatro anos. Missiva de luz, essa, que subitamente sai de um envelope de nuvens e me traz notícias do outro lado do mundo. (Ou do outro lado da vida.) Na minha pele, a meio da manhã, inscreve-se o braile de Deus.
4. Por todo o lado se nota muito a ausência de mar. Os montes são belos também, decerto, mas servem sobretudo para pastar os pensamentos. É do oceano que preciso para os meus sonhos saírem de casa.
5. Tenho saudades dos mortos que, vivos, me tornavam a vida tão mais leve: o meu pai, o meu sogro o meu cunhado, alguns amigos, alunos precocemente reduzidos à condição de sombras.
6. Custa-me muito esta falta de eternidade que, como o mar, admiramos e tememos. Custa-me muito que haja para tudo um fim.
7. Não havendo música nos dias, a literatura consola-me. Dá, digamos assim, um sentido à tristeza que é a gente saber-se provisoriamente viva. Não nos salva de morrer, é verdade. Mas salva-nos do nada, que é a pior das mortes.
8. Escrevo e leio como quem, à força de sentir falta do mar, inventa para si próprio (e para quem mais queira) um oceano incertamente eterno.
Cabeceiras de Basto, 18 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
domingo, 15 de abril de 2012
Noção de consubstância
Não cabe nos dias que me são dados viver
O quanto da vida ainda espero.
É subversiva a secreta contabilidade da alma:
Multiplicam-se entre si parcelas com sinal menos
Confundem-se multiplicações com fracções e ausências
E nunca (nunca) há nas contas resto zero.
O meu corpo, se morresse hoje, não caberia
No caixão da minha limitada idade
Porque eu tenho estrelas agarradas aos braços
Porque há ruas inteiras coladas às minhas costas
Porque os meus olhos são a praia de Mira
E a baía de Machico para sempre à espera!
Estou a morrer porque o tempo passa
(Tudo passa, eu sei, mas então para quê
Haver em mim a ideia de eternidade?)
Estou a morrer porque o tempo se me gasta.
Estou a escrever. Estou a escrever-me
Isto é, estou a viver o que ainda há -
E não me digam por favor que se acabará
(Um dia, Joaquim Jorge, um dia)
Tudo quanto ainda vejo, tenho, escrevo!
É tão insuficiente a escrita que vos dou
Para tanto que vos queria dizer
E afinal o que vos digo ou falta dizer é o que sou!
A minha voz é exactamente isto que escutam
Incluindo os silêncios que sou eu em paz
Consubstancial às flores
E ao mar.
Vila Real, 15 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[Foto JJC]
Aniversário

Eis em mim presente a pálida versão
De mim criança pura, original -
Ficou do quanto fui o coração
Que bate brinca brilha sempre igual.
Ribeira de Pena, 15 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do imorredoiro Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.luxeeternel.wordpress.com.]
sábado, 14 de abril de 2012
Nós a nossa ausência
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Sextilha eterna
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Conhecer & amar (revisões)

"On ne voit bien qu'avec le coeur..." (Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince)
Transeuntes olhares vêem-na na paragem de autocarro. Trata-se, se optarmos por uma linguagem económica, de uma velha. Isso mesmo: uma velha. Normal, vulgar, indiferenciada. Veste de forma igual à de outras velhas, embora haja nela uma espécie de elegância remediada e se adivinhe, no rosto, a beleza da escultura original. Tem, como tantas velhas, o olhar fatigado e triste. Quando sobe para o interior do autocarro, quem nela distraidamente atentou - por segundos - esquece-a e olha para outra realidade qualquer.
Mas aquela mulher é a minha mãe. Vista por mim, não é uma velha e muito menos uma velha qualquer. É a minha mãe. Já me segurou na cabeça enquanto, na minha frágil infância, eu tinha muita febre e vomitava. Já me contou histórias de encantar. Já me aturou birras, caprichos, desistências. Já se riu mil vezes das minhas palhaçadas. Já me deu sábios conselhos. A sua fadiga tem a ver com o facto de amar tanto e de modo tão competente. Esteve sempre presente na minha vida. É a mais formosa e distinta das senhoras. Habituei-me a vê-la em minha casa, na nossa casa. Aliás: habituei-me a entendê-la como a minha, a nossa Casa. Não é, portanto, uma mulher normal, vulgar, indiferenciada, como erradamente a poderia considerar um qualquer olhar transeunte. Eu, que a conheço tão bem, sei que é única. Admiro-a totalmente e amo-a totalmente - uma coisa por causa da outra e vice-versa.
Ribeira de Pena, 12 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem lembra Eunice Muñoz numa cena de Mãe Coragem, de Brecht.]
quarta-feira, 11 de abril de 2012
Voyeur

O senhor Valter dos correios adormecia, em regra, pelas onze da noite. A janela do seu quarto, última da fachada predial – se contássemos da esquerda para a direita –, dava para a rua, mesmo sobre o banco da paragem de autocarro. Em finais de Julho, ele reparou que aí se encontrava, entre sussurros e moderada galhofa, um casalinho. Vira-os, certo dia, ao chegar do pavilhão da Palmeira, depois do treino de ténis de mesa. Estavam sentados, muito juntinhos. Não eram já novos. Ela, loira e pálida, muito magra e frágil, teria os seus trinta e cinco; ele, alto, forte, de bigode circunflexo, teria não menos de quarenta anos. Valter apercebera-se da ternura latente sob o tecto da paragem e pensara: o amor vem sempre a tempo.
Nas noites seguintes, ouvira-os arrulhando como pombos e, nem sempre mantendo a calma, escutara suspeitos suspiros pela frincha da janela. Quando o encontro se prolongava, também adivinhava gemidos, e então – tanto quanto se percebia pelo movimento nervoso dos corpos (ora sentados, ora de pé) – o idílio não se limitava já à asséptica poesia do início.
Durante dois meses, assistiu à história bonita do casal e adoptou como sua aquela normalidade feliz. Mas a uma terça-feira (dia primeiro do treino de cada semana no pavilhão da Palmeira), ao chegar a casa, o funcionário dos correios ouviu uma altercação. A mulher queixava-se; o homem respondia num murmúrio humilde. O senhor Valter entrou no lar e, prescindindo até do jantar, foi pôr-se atrás da cortina para saber do que ali se passava. A loira acusava o seu amor de cobardia e de mentiras. Ele respondia “Não-não-não”, mas o seu tom denunciava que sim.
Na quarta-feira, já só apareceu o quarentão. O senhor Valter viu-o de viés, em pé ou sentado junto ao banco da paragem, fumando inquietamente, mirando o cimo da rua, suspirando. Tossia com frequência, o triste. Ao fim de uma hora e meia, mais ou menos, saiu dali com passos lentos. Voltaria na quinta e na sexta-feira, sempre em vão. E, enfim (em fim), desistiu.
O dono da janela imaginou que alguma coisa precipitara o ocaso daquela novela particular - e facilmente se dispôs a esquecer acção e personagens.
Mas reviu, no princípio de Novembro, o homem. Foi na Praça da República, a um sábado, pelas três da tarde: o indivíduo passeava com a mulher e dois filhotes, aparentando a serenidade de um patriarca realizado. A esposa, uma morena gordinha com olhos grandes (talvez azuis), parou por momentos, ali ao início da rua Padre António Vieira, apoiando-se no ombro do cônjuge enquanto tirava do sapatinho direito uma areia incómoda.
O senhor Valter também se cruzou, por alturas do Natal, com a loira balzaquiana que tantas vezes vira e ouvira da janela do quarto. Foi no edifício dos correios: solitária, na fila do telefone, esperava pesadamente pela sua vez. Trazia na mão um livro (Boris Vian, A Espuma do Dias) e tinha um ar cansado. Estava evidentemente grávida.
Arco de Baúlhe, 11 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecosdotempo.blogs.sapo.pt.]
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