Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Conhecer & amar (revisões)


"On ne voit bien qu'avec le coeur..." (Antoine de Saint-Exupéry, Le Petit Prince)

Transeuntes olhares vêem-na na paragem de autocarro. Trata-se, se optarmos por uma linguagem económica, de uma velha. Isso mesmo: uma velha. Normal, vulgar, indiferenciada. Veste de forma igual à de outras velhas, embora haja nela uma espécie de elegância remediada e se adivinhe, no rosto, a beleza da escultura original. Tem, como tantas velhas, o olhar fatigado e triste. Quando sobe para o interior do autocarro, quem nela distraidamente atentou - por segundos - esquece-a e olha para outra realidade qualquer.
Mas aquela mulher é a minha mãe. Vista por mim, não é uma velha e muito menos uma velha qualquer. É a minha mãe. Já me segurou na cabeça enquanto, na minha frágil infância, eu tinha muita febre e vomitava. Já me contou histórias de encantar. Já me aturou birras, caprichos, desistências. Já se riu mil vezes das minhas palhaçadas. Já me deu sábios conselhos. A sua fadiga tem a ver com o facto de amar tanto e de modo tão competente. Esteve sempre presente na minha vida. É a mais formosa e distinta das senhoras. Habituei-me a vê-la em minha casa, na nossa casa. Aliás: habituei-me a entendê-la como a minha, a nossa Casa. Não é, portanto, uma mulher normal, vulgar, indiferenciada, como erradamente a poderia considerar um qualquer olhar transeunte. Eu, que a conheço tão bem, sei que é única. Admiro-a totalmente e amo-a totalmente - uma coisa por causa da outra e vice-versa.

Ribeira de Pena, 12 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem lembra Eunice Muñoz numa cena de Mãe Coragem, de Brecht.]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Voyeur


O senhor Valter dos correios adormecia, em regra, pelas onze da noite. A janela do seu quarto, última da fachada predial – se contássemos da esquerda para a direita –, dava para a rua, mesmo sobre o banco da paragem de autocarro. Em finais de Julho, ele reparou que aí se encontrava, entre sussurros e moderada galhofa, um casalinho. Vira-os, certo dia, ao chegar do pavilhão da Palmeira, depois do treino de ténis de mesa. Estavam sentados, muito juntinhos. Não eram já novos. Ela, loira e pálida, muito magra e frágil, teria os seus trinta e cinco; ele, alto, forte, de bigode circunflexo, teria não menos de quarenta anos. Valter apercebera-se da ternura latente sob o tecto da paragem e pensara: o amor vem sempre a tempo.
Nas noites seguintes, ouvira-os arrulhando como pombos e, nem sempre mantendo a calma, escutara suspeitos suspiros pela frincha da janela. Quando o encontro se prolongava, também adivinhava gemidos, e então – tanto quanto se percebia pelo movimento nervoso dos corpos (ora sentados, ora de pé) – o idílio não se limitava já à asséptica poesia do início.
Durante dois meses, assistiu à história bonita do casal e adoptou como sua aquela normalidade feliz. Mas a uma terça-feira (dia primeiro do treino de cada semana no pavilhão da Palmeira), ao chegar a casa, o funcionário dos correios ouviu uma altercação. A mulher queixava-se; o homem respondia num murmúrio humilde. O senhor Valter entrou no lar e, prescindindo até do jantar, foi pôr-se atrás da cortina para saber do que ali se passava. A loira acusava o seu amor de cobardia e de mentiras. Ele respondia “Não-não-não”, mas o seu tom denunciava que sim.
Na quarta-feira, já só apareceu o quarentão. O senhor Valter viu-o de viés, em pé ou sentado junto ao banco da paragem, fumando inquietamente, mirando o cimo da rua, suspirando. Tossia com frequência, o triste. Ao fim de uma hora e meia, mais ou menos, saiu dali com passos lentos. Voltaria na quinta e na sexta-feira, sempre em vão. E, enfim (em fim), desistiu.
O dono da janela imaginou que alguma coisa precipitara o ocaso daquela novela particular - e facilmente se dispôs a esquecer acção e personagens.
Mas reviu, no princípio de Novembro, o homem. Foi na Praça da República, a um sábado, pelas três da tarde: o indivíduo passeava com a mulher e dois filhotes, aparentando a serenidade de um patriarca realizado. A esposa, uma morena gordinha com olhos grandes (talvez azuis), parou por momentos, ali ao início da rua Padre António Vieira, apoiando-se no ombro do cônjuge enquanto tirava do sapatinho direito uma areia incómoda.
O senhor Valter também se cruzou, por alturas do Natal, com a loira balzaquiana que tantas vezes vira e ouvira da janela do quarto. Foi no edifício dos correios: solitária, na fila do telefone, esperava pesadamente pela sua vez. Trazia na mão um livro (Boris Vian, A Espuma do Dias) e tinha um ar cansado. Estava evidentemente grávida.

Arco de Baúlhe, 11 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecosdotempo.blogs.sapo.pt.]

terça-feira, 10 de abril de 2012

Terceiro período


Reencontro com Ribeira de Pena e Arco. Chuva e frio muito respeitáveis. Bulício habitual da humanidade minha contemporânea. Desiguais energias à volta - algumas esfusiantes, outras ainda em fase de regresso (pouco entusiasmado) à lida diária. O Sporting-Benfica dominando o debate (mais penalty menos penalty, há um bondoso consenso favorável à justiça da vitória verde&branca). Terceiro período lectivo já. Advérbios e nomes em Língua Portuguesa; l'impératif em Francês; Plano Nacional de Leitura em Estudo Acompanhado; A Irmã de Maria Parda em Teatro. Depois, uma conversa agradável ao final do dia, com queridos colegas, sobre a nova terminologia linguística, a universidade, a música "do nosso tempo", a insaciável austeridade, a vida. Alguém diz: "Parece impossível que estejamos já no terceiro período!" Assentimento unânime. Uma locução latina, velha como uma catacrese, desce sobre o entardecer: Tempus fugit.
E voa o tempo, sim, independente de nós.

Arco de Baúlhe, 10 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.subsolodasmemorias.blogspot.com.]

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Beijo de Sol (Epifania)


O futuro (eu sei) causa-nos medo
Que o fim (a gente sabe) há-de chegar
Mas hoje eu acordei, amor, bem cedo
E vi o pulcro dia a clarear.

E havia tanta luz tanta beleza
Na luz desse súbito presente
Que me lavei de angústias e tristeza
E fui feliz, então, eternamente.

Coimbra, 09 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (aspecto da Rua da Sofia) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

domingo, 8 de abril de 2012

Ressurreição


Noite no século XX. O meu Pai deita-se, muito cansado. A minha Mãe cuida das crias e prepara já o dia seguinte. Ao longe, às vezes, há o barulho dos comboios que o vento nocturno traz à nossa casa. De manhã, o som da água das torneiras, a voz do Pai e da Mãe falando (quase sempre) de dinheiro, o cheiro intenso de café (ou de café com leite) e torradas, o rádio emprestando música ao dia novo. O autocarro. A escola. Novidades (sempre novas, as novidades). Angústias e amores. Muito futebol dito e jogado. O regresso a casa. A televisão e algum livro. Noite outra vez.
Nada disto era verdadeiramente repetição, senhores. E tudo se mantém, apesar de algumas (traiçoeiras) mortes. Hoje como antes, a ressurreição e a eternidade são coisas terrenas e fazem parte da nossa vida.

Coimbra, 08 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ecosurfista.blogspot.com.]

sábado, 7 de abril de 2012

A foca


O senhor Valter, funcionário dos Correios em Coimbra, não cabia em si de contente: acabara de receber um telefonema do Zoo de Lisboa dando conta de que ele próprio, com a sua frase sobre a "Natureza em Perigo", fora o vencedor do concurso. Telefonou à mulher, muito excitado:
- Gracinda, ganhei o concurso!
A esposa já nem se lembrava de que ele houvesse concorrido fosse a que fosse.
- Qual concurso, homem?
- Aquele da "Natureza em Perigo"... Não te recordas?... Vinha no "Diário de Coimbra"... Eu enviei aquela frase...
Gracinda interrompeu o exercício de descascar batatas e fez um esforço.
- Hum.. Já me recordo... Escreveste qualquer coisa sobre os rios, não foi?
- Sim... "No presente, os rios correm. No futuro, os rios morrem."
- E ganhaste?
- Ganhei. Dão-me o prémio no sábado, de manhã, em Lisboa.
- Quanto é?
- Não é em dinheiro... É uma foca.
- Uma quê?
- Uma foca.
- Morta?
- Morta? Para que queria eu uma foca morta?
- Sei lá... Para comer...
- Estás doida? É uma foca viva para criarmos...
A senhora Dona Gracinda olhou em volta, confirmando o facto de a sua casa não ter senão uma cozinha, um quarto, uma pequena sala de jantar e uma casa-de-banho. Rosnou:
- E onde pensas tu meter a puta da foca?
O senhor Valter encostou mais o auscultador ao ouvido, receando que o chefe dos correios, ali ao lado, ouvisse o vernáculo inconveniente da esposa.
- Olha a linguagem, Gracinda. Eu não te admito...
Mas a mulher não moderou o volume nem a substância da sua indignação. Gritou-lhe:
- A minha mãe não pôde ficar cá de um dia para o outro, quando veio à consulta no hospital, porque (disseste tu) não tínhamos espaço cá em casa. E tu queres meter aqui, agora, uma foca, catano?!
O funcionário dos correios começou a sentir um insuportável calor no rosto. Um frémito percorreu-lhe espinha e pernas. A voz subiu-lhe de tom:
- A foca vai aí para casa, sim senhora! Sou eu quem paga a renda! Ao menos não faz comentários à nossa vida, ao contrário da tua mãe...
Veio, do outro lado, um curto silêncio. Depois, já não gritando, o enunciado metálico da Dona Gracinda:
- Se a merda da foca entra aqui em casa, eu saio.
Valter casquinou, com desprezo, ignorando o trejeito interrogativo do chefe, ali mesmo ao seu lado:
- Pois podes sair. Mais espaço fica.
Quando chegou do emprego, já não viu a mulher, mas não deu importância ao caso. Calculou que ela estivesse em casa da mãe, em Tondela, e indignou-se só de pensar que na residência da sogra se debatesse, com o veneno habitual, a sua vida honesta de funcionário dos correios, colaborador do "Ecos de Santa Cruz", treinador de ténis de mesa no Desportivo de Santa Clara. ("Nem filhos te deu", deve dizer a sogra, com o seu habitual hausto de dor e reprovação.)
Ao serão, preparou um singelo prato de atum e massa, jantou a olhar para o telejornal, adormeceu no sofá e por pouco não chegava tarde ao emprego na manhã imediata. Nos dias seguintes, habituou-se a comprar, na mercearia da rua, pão, legumes, algum acompanhamento (peixe ou carne) e a fazer o jantar. À vizinhança inquiridora, disse que a sua Gracinda tinha ido à terra visitar a mãe.
No final dessa semana, foi a Lisboa receber o prémio: um diploma e a foca. No regresso, incomodou-o um pouco o barulho que o animal fazia, no banco de trás da Peugeot, mas já foi simpatizando com as curiosas expressões do bicho e riu-se a bandeiras despregadas com o susto que apanhou o homem das portagens.
Chamou-lhe "Gracinda", em homenagem à esposa, apesar de se tratar de uma foca-macho. Adaptou a casa e o quotidiano às necessidades da nova hóspede, tendo para isso estudado cuidadosamente, em livros e revistas, os seus hábitos e, sobretudo, a sua alimentação. Grande parte do salário passou a ir para a conta da água e para a conta do peixe. Mas Valter enamorou-se de tal modo do animal que mal pensava em dinheiro. Era, naquele seu modo simples de ver as coisas, um homem feliz.
Duas ou três vizinhas ainda lhe perguntavam, ao fim de um ano, pela Dona Gracinda. Mas ele já nem pensava duas vezes ao responder:
-Lá está. Ou na varanda, ou na banheira, ou na sala a ver o "Preço Certo". O "Preço Certo", acredite... E abana a cauda de cada vez que o Fernando Mendes diz "Espectáculo!"... Vou agora comprar-lhe dois quilos de sardinhas.

Coimbra, 07 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.smartkids.com.]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Interrupção do Tempo (Poema que era para ser um soneto mas não quis)


Dói muito, meu amor, este fascismo
Do Tempo que nos leva em direcção
Ao consabido fim, fatal abismo
Da nossa tão terrena condição.

Mas às vezes há a tua mão
O teu sorriso, a voz familiar -
E nesta altura, amor, o Tempo não
Existe. Há só o Mar.

Coimbra, 06 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.praiademira.com.]

Amizade


São raros os amigos. E talvez tenha de ser assim, porque é condição da coisa preciosa que seja rara. É uma irresponsabilidade muito triste perdermos amigos por falta de empenho, de tempo, de atenção. Nenhum amigo novo substitui um amigo perdido. Tudo quanto digo pode ser usado contra mim, bem sei. Descuidado e cheio de tarefas, também eu tendo, às vezes, a esquecer-me das minhas obrigações. Como ontem: passei por um amigo e, por preguiça, não parei. Era um lugar sem muito espaço para estacionar; era quase a hora limite para o totoloto; eu tinha ainda de passar pela casa da minha mãe. Disse-lhe adeus, o meu amigo respondeu com o polegar levantado, e foi tudo. (E foi pouco. E foi nada.) Cuidado, Joaquim Jorge. Os amigos são raros. Os amigos são uma prioridade. É uma irresponsabilidade muito triste perdermos um amigo por falta de dedicação.
De modo que amanhã beberemos um copo, como coisa justa, urgente, inadiável. Certo? Certo.

Coimbra, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (do filme Rainman) foi colhida, com a devida vénia, na wikipedia.]

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sócrates, Passos Coelho & Verdade (Versos com léxico catroguiano)


O senhor Passos Coelho
E o senhor José, l'ami
Nem num simples pentelho
Se distinguem entre si.

Coimbra, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A quadrinha foi quanto de mais suave e decoroso fui capaz de escrever sobre as últimas notícias que envolvem o corte do 13.º e 14.º meses, incluindo aquele "lapso" que o vagaroso Gaspar, hoje, cinicamente admitiu.]

Viagem no tempo


Dez horas, Arganil. Vim com a minha filha à terra onde, há vinte e seis anos, iniciei a carreira de professor. Reconheço, aqui e ali, lugares, pessoas (o farmacêutico, o construtor civil, o jogador de futebol). Arrepia-me o facto singelo de os meus alunos dessa época serem, hoje, maduros cidadãos com quarenta e dois anos.
Toda a manhã parece um poema burilado por um Deus dado a ironias. Por exemplo: meu pai também me trouxe e veio buscar, um quarto de século antes desta manhã, correndo comigo os mesmos cruzamentos, a mesma toponímia. O meu pai morreu. A minha filha viaja agora comigo no lugar que era o meu; e eu viajo no lugar dessa ausência sempre tão triste.
Partilho com a minha filha esta poesia do tempo. Ela acusa-me de ser depressivo.
Tem muita razão. Mas pouco há a fazer quanto a isso. Escrevo e vivo assim desde que me conheço (e nem tenho a certeza absoluta de me conhecer bem).

Arganil, 05 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Arganil) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.eb1-arganil.rcts.pt.]

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Praia de Mira, forever


Sonho muito com o Mar
E acordo sempre tristonho
Por já ter morrido o Mar
Que era eterno no meu sonho.

Coimbra, 04 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto da mítica Praia de Mira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.puraexperiencia.blogspot.pt.]

terça-feira, 3 de abril de 2012

Versos para divertir os meus sobrinhos


O avô saiu para a rua
Sem o acento circunflexo;
Ao ver a cabeça nua
Ficou muito perplexo.

Depois, lá se lamentou
Em tom grave, meio cavo:
- Assim, já não sou avô;
Sou avo!


Coimbra, 03 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (da mítica Heidi) foi colhida na wikipedia.]

Boaventura de Sousa Santos (Pela mão de Alice)



Estive hoje no foyer do Teatro Académico de Gil Vicente para ouvir Boaventura de Sousa Santos. Já o lera antes; já o ouvira em programas de rádio e de televisão; isto é, já o admirava. Trata-se de um grande nome das Ciências Sociais e, de modo mais genérico (mas não menos rigoroso), da Cultura portuguesa e mundial – e, pormenor para mim não despiciendo, é o marido de um dos maiores vultos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a Doutora Irene Ramalho dos Santos.
A sessão foi realizada no âmbito do Projecto “Páginas Tantas”, que os Professores Osvaldo Manuel Silvestre, Rui Namora e Rui Bebiano (elementos muito activos do Centro de Literatura Portuguesa) dinamizam desde há alguns meses. Convenci a MP e a VL (sem dificuldades) a acompanharem-me. No final, ambas me agradeceram. Beneficiámos os três (e, imagino, o restante público), por cerca de duas horas, de uma espécie de banho de luz, ou (deixai que reformule) de uma chuva de lucidez e de sabedoria verdadeiramente ímpares.
O registo foi, quase sempre, o de uma conversa inteligente e bem disposta, excelentemente dirigida por Osvaldo Silvestre (meu professor de Cânone Literário durante o ano curricular do Doutoramento em Literatura Portuguesa) e por Ana Maria Machado (professora de Literatura e Cultura Portuguesas, também na FLUC). Boaventura de Sousa Santos, com brilho e graça, falou da sua biografia pessoal e académica, da “Privataria” (nome que com que designou a fúria privatizadora da nossa contemporaneidade), da diferença entre “economias de mercado” e “sociedades de mercado”, da incultura dos políticos, da falta de humildade de europeus e norte-americanos face aos contributos do Pensamento periférico (por exemplo, de investigadores latino-americanos), da noção de “Objectividade” (um, cito de cor, “ conjunto de intersubjectividades reconhecidas por um auditório cientificamente válido”), da impossível “Neutralidade” (“Só posso ser neutro se a sociedade estiver a meu favor; se estiver do lado contrário, corro o perigo de me liquidarem ou de me invisibilizarem e não posso, já, ser neutro”).
Entre tantas pérolas, fui desviando – de vez em quando – a minha atenção para o rosto singular da Doutora Irene Ramalho dos Santos. Ela sorria sempre. E havia, no seu olhar face ao sociólogo (não tenho dúvidas),para além da habitual serenidade, um profundo amor de mulher académica, de mulher cidadã e de mulher eterna namorada.
A Professora Ana Maria Machado - não sei se citando alguém - ofereceu-me ainda, a propósito de certa obra que sucintamente apresentou, uma frase tão formosa que a reservei para o penúltimo parágrafo do presente texto: “O relato da viagem revela o viajante.”
Abençoada ideia esta de, para remate da tarde, ir ao TAGV!

Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[ imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tantas paginas.wordpress.com e em http://www.submarino.com.br.]

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Casa grande


Nunca como hoje o Centro de Emprego se me pareceu tanto com a Poesia: uma Casa acolhendo, pelas nove da manhã, a tristeza e o desespero de muitos homens e muitas mulheres.

[A imagem (que lembra a Grande depressão dos anos 30 do século XX) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.constelar.com.]

Steps Coelho


A minha filha deu-se conta de que tem cada vez menos tempo para praticar desporto. Como alternativa à sua prática ideal (natação, jogging, ténis, etc.), optou por adquirir um aparelho de ginástica. Chama-se "step". O exercício consiste basicamente na ilusão de estarmos subindo uma escada interminável, assim se queimando calorias e peso. Eu não quero aqui debater os méritos desta actividade, mas gulosamente aproveito dela as potencialidades metafóricas. Ora, por obséquio, pensai comigo...
Um aparelho que está fixo, colado ao solo, usado para manter ocupado o corpo e quiçá a mente; um aparelho em que fazemos de conta que subimos uma escada, sem nunca sairmos do mesmíssimo chão; um aparelho básico, repetitivo, cansativo...
Vejo, num pedal, José Sócrates e, no outro, o seu heterónimo - Pedro Passos Coelho. Pedalamos, determinados ou furiosos, sem escaparmos do mesmo sítio.
Na minha exegese, o aparelho não se chama "step": chama-se Portugal, ou, extensivamente, Europa. Nele obedientemente cumprimos a (assim chamada) ginástica de manutenção. Ginástica para mantermos sei lá eu o quê!

Coimbra, 02 de Abril de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.odivelas-lisboa.olx.pt.]