Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

sábado, 31 de março de 2012

Coisas de Valor


Praias, amigos, certo poema
Romances, recordações, cantigas
Família, pinturas, cinema
Coimbra, futebol, raparigas –
Quanto de ternura e de beleza
Vale, amor, a habitual tristeza?

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.guiagrecia.com.]

Outras contabilidades (Três quadras sobre a mesma Dor)


Dedicado ao maior dos poetas meus contemporâneos, Daniel Abrunheiro (visitável em http://www.canildodaniel.blogspot.com).


1
A vida que me deu tanto
E a que me falta viver
É uma migalha de quanto
Havia em mim para ser.

2
Doem-me todos os lugares
Que perdi por não escolher
Tenho saudades dos mares
Que nunca cheguei a ver.

3
Parte da minha vida
É a vida que não vivi
Ou está não bem escondida
Nos poemas que escrevi.

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.canildodaniel.blogspot.com.]

Correr, ser


Na manhã de sexta-feira, inesperadamente, revejo uma (como diria o Torga) rapariga do meu tempo, a Ana. Simpática como é seu hábito, elogiou a beleza sempre igual da MP e, sorrindo, disse de mim que também, só que um bocado “mais rechonchudinho”. Rimo-nos todos da evidência dita e do modo escolhido para a dizer. Mas, já em casa, desagradei-me dessa condição adiposo-mental que é fruto do frio, do trabalho e, sobretudo, desta espécie de preguiça filha do Desânimo (e filha de outra mãe que agora omito).
Comecei, pois, a correr novamente. Isto é, mexi-me, agi. Hoje: trinta e cinco minutos no Choupal (até escrever me dói nas articulações).
Reconcluo que agimos, muitas vezes, contra qualquer coisa. Eu, por exemplo, contra um adjectivo só aparentemente inócuo: rechonchudinho.

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.blog.opovo.com.]

Arte poética (elementar)


Um só verso às vezes faz
À sua vontade o poema –
É quando o verso já traz
O ritmo, a luz, o tema.

Coimbra, 31 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.hortadozorate.blogspot.com.]

sexta-feira, 30 de março de 2012

Consulta para ver se está tudo bem


Porto, manhã, um dia destes.
Um homem e uma mulher à roda dos quarenta anos (talvez mais). Rostos - ambos - pálidos, ombros humildemente encolhidos, diálogo múrmuro, às vezes uma discreta carícia (dele, nela), às vezes uma espécie de suspiro lamentoso (nela, também nele). Em redor, outros rostos, outras humildades acabrunhadas, outros silentes esgares de medo ou (talvez, talvez) de esperança. Algumas batas perambulam - azuis, brancas, verdes: são, ali, a autoridade e, ao contrário do rebanho expectante, falam alto, riem-se, utilizam muito o sufixo inho (entre si e com os outros): um jeitinho, um instantinho, um lugarzinho, coitadinho, porreirinho. Roufenha, uma voz feminina interrompe a praça da alegria (RTP 1) e anuncia nomes próprios, especialidades, salas de consulta. É subitamente a vez da mulher de quarenta (talvez mais) anos. Levanta-se e, atrás de si, o homem. Rostos agora transparentes, os de ambos, como se um mesmo susto pudesse ter duas caras. Os ombros mordendo o pescoço, os passos trôpegos (mas obedientes, rápidos), ainda uma carícia (dele, nela) e de novo um lamento em forma de hausto mínimo (dela, talvez também dele). O médico lê vagarosamente um, dois, três relatórios. Leva uma radiografia ao néon da parede, toma apontamentos, põe os óculos, diz que está tudo bem e marca nova consulta. A mulher e o homem agradecem (ao médico, não bem ao médico) a graça concedida, carimbam uma espécie de caderneta no balcão de atendimento, saem para o sol. Há outra vez sangue residindo em seus frágeis rostos, os ombros de ambos distendem-se, dão-se as mãos, riem-se mesmo agora de certo transeunte que vitupera, na rua, um inimigo invisível. Vão tomar café, vivos (ele, ela, o par).
Quer-se dizer: é mais leve o presente, irmãos, quando nele sobrevive a possibilidade de futuro.

Coimbra, 30 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.elmundo.es.]

quinta-feira, 29 de março de 2012

Já fui mui...


De ósculos fui mestre mui sabido
E professor de amplexos mui portáteis
E tradutor de haustos mui sentidos
E apóstolo de sonhos mui voláteis

Coimbra, 29 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.harbra.com.]

quarta-feira, 28 de março de 2012

Coimbra de mim


A cidade é a minha mãe ao fundo
A minha filha amigos o meu lar
Querida gente antiga o grato mundo -
E eu o deus de mim neste lugar!

Coimbra, 28 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.rotadoperegrino.com.]

terça-feira, 27 de março de 2012

Reunião comigo (à moda de Bernardim Ribeiro)


Volta, outro de mim já sucedido
(Queria tanto, outro de mim, que aparecesses)

Não creio que pudesses ter morrido
(Não suportaria que morresses...)

Volta, meu irmão de outra idade
(Voltou ainda agora a Primavera...)

Volta, traz-me a antiga Novidade
(Era tudo novo, quando eras...)

Volta, ó eu espantado, e dá-me a mão
(Não finjas, pá, que não me vês...)

Sou tu, menino eu, de ti irmão
(Vamos começar tudo outra vez?)

Ribeira de Pena, 27 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

segunda-feira, 26 de março de 2012

Discurso de passageiro frequente


Frequento o amor desde menino
(O amor é um barco impaciente) –
Já fui de si grumete, clandestino
Náufrago, armador, sócio-gerente.

Frequento o amor desde menino
(O amor é uma nervosa embarcação) –
Às vezes fico em terra e imagino
Que sai do cais de mim um coração.

Vila Real, 25 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.praiademira.com.]

Conversa toponímico-platónica com interjeição no fim


- Gosto de Vila Real.
- Claro. É uma cidade simpática. Tem tudo…
- Bom, tudo-tudo, não tem. É uma cidade pequenina.
- Claro. É uma cidade com a dimensão certa… Por isso há, no seu nome, a palavra “Vila” em vez de “Cidade”…
- Escuta, para ser perfeita, falta-lhe o mar…
- Tens razão. Mas também esse aspecto já está compreendido no nome, não achas?
- No nome?
- Sim, no nome: “Vila Real”. Não percebes?
- Não percebo o quê?
- Que o nome já fala dessa falta, pá: “Vila Real”…
- Mas que raio tem isso a ver com a falta do mar?
- Tudo. Se esta cidade tivesse mar, o seu nome seria “Vila… Ideal”!
- Ah!

Vila Real, 25 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Vila Real) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.rclamego.pt.]

domingo, 25 de março de 2012

Três notas infelizmente actuais


1.
Corrigi-me se estou errado. A maior parte dos portugueses, sobre os políticos que nos têm governado, diz: “São todos iguais.” Creio que a voz do Povo, às vezes, é mesmo a voz de Deus.
Ouvi, há alguns dias, o senhor primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, explicar candidamente que a subida dos combustíveis era aborrecida mas insusceptível de intervenção governamental – porque, sublinhou, as regras em curso eram as que estavam "na lei". Curiosamente, esse raciocínio não o impediu de privar trabalhadores dos subsídios de férias e de natal.
Agora, não sem espanto, ouvi a mesma personagem a insurgir-se contra a oposição que reclama melhores pensões e menos impostos. Exortou esses “irresponsáveis” a dizerem claramente onde arranjariam eles os meios para tal e como acomodariam a despesa (ou perda de receita) no presente orçamento. Ora, isto foi exactamente o que o ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos (quando o primeiro-ministro era o mesmo de agora, só que com o nome de Sócrates), gritou na Assembleia da República, numa das suas últimas intervenções.
A política é (ou parece), de facto, nesta contemporaneidade esponjosa e lamacenta, um nojo.

2.
Deixai que fale agora de outro (?) assunto. A ética é muito importante. Deveria ser ensinada e cultivada desde cedo, na família, na escola básica e secundária, nas universidades, nas empresas. Há, como se vai vendo, gente absolutamente impermeável ao conceito e valor dessa ideia essencial. E é um problema nacional quando gente assim chega a lugares de poder. Pior ainda se, para além de desprovida de ética, esta espécie de indivíduos desconhece uma outra coisa chamada pudor. Quando isso acontece, o mundo tende a tornar-se um lugar irrespirável.
Se este texto fosse mais extenso, talvez me pusesse a falar do meu país. Ou, sei lá, do Zaire. Mas não.

3.
Morreu Antonio Tabucchi, autor de boa literatura, amante de Pessoa e da Língua Portuguesa. Lamento a sua partida. Vivam, lendo-se, os seus livros!

Ribeira de Pena, 25 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (fotomontagem com Tabucchi e Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.estrelabinaria.com.]

Oitava de água e amor em redondilha maior


Um amor incipiente
Pode devir perdição:
Nuvens são água nascente
Em estado de ainda não –
De fios d’água no presente
Se chega à inundação.
Quem me dera água corrente
No meu velho coração!

Vila Real, 24 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (imagem do filme Amor de Perdição, de Manoel de Oliveira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amordeperdicao.pt.]

Quadra de cariz popular acontecida entre Vila Real e Vilarinho de Samardã


Luz e lixo é quanto tem
A vida para oferecer:
Quem não souber escolher bem
Nem sequer chega a viver.

Quase Vila Real, 24 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagrem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.skyrapercity.com.]

sábado, 24 de março de 2012

Poema à Mãe eterna


Algum tesouro espero desse futuro
Que ainda tenho, Mãe, no teu abrigo.
E o ouro essencial que aí procuro
É a breve eternidade que és comigo.

Ribeira de Pena 24 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 23 de março de 2012

Variações com mar


Vivo entre montes e lembrança
De outra vida com mar.
E o que mais a vista alcança
São as ondas por chegar.

Em outra vida esquecida
Quis ter casa junto ao mar;
Hoje dói-me a minha vida
Por nela não haver mar.

Eu vou de presente a mar
Num barco feito de enlevo;
Invento o mar no lembrar
Da outra vida que escrevo.

Ribeira de Pena, 23 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.puraexperiencia.blogspot.com.]