Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

quarta-feira, 28 de março de 2012

Coimbra de mim


A cidade é a minha mãe ao fundo
A minha filha amigos o meu lar
Querida gente antiga o grato mundo -
E eu o deus de mim neste lugar!

Coimbra, 28 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.rotadoperegrino.com.]

terça-feira, 27 de março de 2012

Reunião comigo (à moda de Bernardim Ribeiro)


Volta, outro de mim já sucedido
(Queria tanto, outro de mim, que aparecesses)

Não creio que pudesses ter morrido
(Não suportaria que morresses...)

Volta, meu irmão de outra idade
(Voltou ainda agora a Primavera...)

Volta, traz-me a antiga Novidade
(Era tudo novo, quando eras...)

Volta, ó eu espantado, e dá-me a mão
(Não finjas, pá, que não me vês...)

Sou tu, menino eu, de ti irmão
(Vamos começar tudo outra vez?)

Ribeira de Pena, 27 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.panoramio.com.]

segunda-feira, 26 de março de 2012

Discurso de passageiro frequente


Frequento o amor desde menino
(O amor é um barco impaciente) –
Já fui de si grumete, clandestino
Náufrago, armador, sócio-gerente.

Frequento o amor desde menino
(O amor é uma nervosa embarcação) –
Às vezes fico em terra e imagino
Que sai do cais de mim um coração.

Vila Real, 25 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.praiademira.com.]

Conversa toponímico-platónica com interjeição no fim


- Gosto de Vila Real.
- Claro. É uma cidade simpática. Tem tudo…
- Bom, tudo-tudo, não tem. É uma cidade pequenina.
- Claro. É uma cidade com a dimensão certa… Por isso há, no seu nome, a palavra “Vila” em vez de “Cidade”…
- Escuta, para ser perfeita, falta-lhe o mar…
- Tens razão. Mas também esse aspecto já está compreendido no nome, não achas?
- No nome?
- Sim, no nome: “Vila Real”. Não percebes?
- Não percebo o quê?
- Que o nome já fala dessa falta, pá: “Vila Real”…
- Mas que raio tem isso a ver com a falta do mar?
- Tudo. Se esta cidade tivesse mar, o seu nome seria “Vila… Ideal”!
- Ah!

Vila Real, 25 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de Vila Real) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.rclamego.pt.]

domingo, 25 de março de 2012

Três notas infelizmente actuais


1.
Corrigi-me se estou errado. A maior parte dos portugueses, sobre os políticos que nos têm governado, diz: “São todos iguais.” Creio que a voz do Povo, às vezes, é mesmo a voz de Deus.
Ouvi, há alguns dias, o senhor primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, explicar candidamente que a subida dos combustíveis era aborrecida mas insusceptível de intervenção governamental – porque, sublinhou, as regras em curso eram as que estavam "na lei". Curiosamente, esse raciocínio não o impediu de privar trabalhadores dos subsídios de férias e de natal.
Agora, não sem espanto, ouvi a mesma personagem a insurgir-se contra a oposição que reclama melhores pensões e menos impostos. Exortou esses “irresponsáveis” a dizerem claramente onde arranjariam eles os meios para tal e como acomodariam a despesa (ou perda de receita) no presente orçamento. Ora, isto foi exactamente o que o ex-ministro das Finanças, Teixeira dos Santos (quando o primeiro-ministro era o mesmo de agora, só que com o nome de Sócrates), gritou na Assembleia da República, numa das suas últimas intervenções.
A política é (ou parece), de facto, nesta contemporaneidade esponjosa e lamacenta, um nojo.

2.
Deixai que fale agora de outro (?) assunto. A ética é muito importante. Deveria ser ensinada e cultivada desde cedo, na família, na escola básica e secundária, nas universidades, nas empresas. Há, como se vai vendo, gente absolutamente impermeável ao conceito e valor dessa ideia essencial. E é um problema nacional quando gente assim chega a lugares de poder. Pior ainda se, para além de desprovida de ética, esta espécie de indivíduos desconhece uma outra coisa chamada pudor. Quando isso acontece, o mundo tende a tornar-se um lugar irrespirável.
Se este texto fosse mais extenso, talvez me pusesse a falar do meu país. Ou, sei lá, do Zaire. Mas não.

3.
Morreu Antonio Tabucchi, autor de boa literatura, amante de Pessoa e da Língua Portuguesa. Lamento a sua partida. Vivam, lendo-se, os seus livros!

Ribeira de Pena, 25 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (fotomontagem com Tabucchi e Pessoa) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.estrelabinaria.com.]

Oitava de água e amor em redondilha maior


Um amor incipiente
Pode devir perdição:
Nuvens são água nascente
Em estado de ainda não –
De fios d’água no presente
Se chega à inundação.
Quem me dera água corrente
No meu velho coração!

Vila Real, 24 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (imagem do filme Amor de Perdição, de Manoel de Oliveira) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.amordeperdicao.pt.]

Quadra de cariz popular acontecida entre Vila Real e Vilarinho de Samardã


Luz e lixo é quanto tem
A vida para oferecer:
Quem não souber escolher bem
Nem sequer chega a viver.

Quase Vila Real, 24 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagrem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.skyrapercity.com.]

sábado, 24 de março de 2012

Poema à Mãe eterna


Algum tesouro espero desse futuro
Que ainda tenho, Mãe, no teu abrigo.
E o ouro essencial que aí procuro
É a breve eternidade que és comigo.

Ribeira de Pena 24 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sexta-feira, 23 de março de 2012

Variações com mar


Vivo entre montes e lembrança
De outra vida com mar.
E o que mais a vista alcança
São as ondas por chegar.

Em outra vida esquecida
Quis ter casa junto ao mar;
Hoje dói-me a minha vida
Por nela não haver mar.

Eu vou de presente a mar
Num barco feito de enlevo;
Invento o mar no lembrar
Da outra vida que escrevo.

Ribeira de Pena, 23 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.puraexperiencia.blogspot.com.]

quinta-feira, 22 de março de 2012

Quadra contra o Tempo


Apetece-me Buarcos e o mar
Tremoços, cerveja, a tua mão;
Apetece-me outra idade, acreditar
Que o amor sim e a morte não.

Ribeira de Pena, 22 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.lifecooler.com.]

quarta-feira, 21 de março de 2012

Princípio de Príncipe


Dia preenchido, este: aulas (no Mercado Municipal e no Arco), "Oficina de Poesia" (por mim intitulada "Poesia - para que te quero?") na Biblioteca Municipal de Cabeceiras de Basto, palestra no Auditório Municipal de Ribeira de Pena sobre criação poética (em particular, sobre a obra O Menino, de Eurico Fragão)...
Sobre alguns aspectos do trabalho desenvolvido - sequência do meu apostolado da literatura, por assim dizer -, hei-de escrever talvez amanhã.
Por hoje, fico-me por uma ideia essencial que defendi apaixonadamente: a de que não há bons textos sem leitores dignos da coisa lida.
Falei-lhes da Bela Adormecida, uma maneira simples e, creio eu, eficaz de sublinhar a importância do leitor na construção dos sentidos e da beleza dos poemas. Em seu sono talvez eterno, a formosura da princesa é - convenhamos - pouco mais do que ausente, inócua, inútil. Para a beleza ressuscitar, de acordo com a história, é preciso um beijo. Não um simples beijo, atenção; um beijo de príncipe.
Isto é: a personagem (e o que ela significa) será resgatada daquela espécie de morte apenas por alguém excelente, alguém apaixonado, alguém único.
Trouxe para o território da leitura, em meu discurso, essa noção de um beijo digno. E julgo que fiz bem. Os bons textos precisam, para verdadeiramente se realizarem, de leitores igualmente portadores dessa delicadeza superior que salvou do sono a mais formosa das donzelas.
E a Bela Adormecida, aqui, são os sentidos do texto, a beleza do texto. Nós só acordamos essa luz, num poema (por muito bom que ele seja), se formos competentes, generosos, ousados, dedicados. Se formos, à nossa medida, príncipes.

Ribeira de Pena, 21 Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 20 de março de 2012

Mar, isto é, algo novo


Quem me dera haver aqui o Mar
E ver quanto de novo já não vejo
Lavar de Novidade o meu olhar
Seguir a sombra aflita do Desejo!

Coimbra, 19 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ile-madere.com.]

domingo, 18 de março de 2012

Não quero falar do Sr. Mexia


Era para falar do escândalo que os jornais noticiaram - os honorários dos senhores da EDP, com relevo para essa figura misteriosa chamada Mexia. Mas não. Vou falar de outra coisa, está bem?
Uma familiar foi atendida, hoje, nas urgências do Hospital da Universidade de Coimbra. Soube, escandalizado, que a taxa moderadora (assim designada por algum brincalhão da nossa Política) importaria em vinte Euros. No momento final do assalto, soube que não era bem aquela soma: no total, deveríamos pagar vinte e dois euros e essenta cêntimos. Quis saber porquê. O administrativo lá me explicou, generosamente: os dois Euros e sessenta cêntimos "a mais" resultavam do facto de à paciente ter sido aplicada uma injecção.
Isto é: pagamos impostos (também para a Saúde, claro); pagamos a taxa "moderadora"; e pagamos o "material" utilizado!
Em breve, talvez se leia à porta dos hospitais e centros de saúde: Pobre não entra. Ou: Se não tem dinheiro, não adoeça (e, se adoecer, tenha paciência). Ou: Portugal não é para si, miserável!

Coimbra, 18 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.cnotícias.net.]

sábado, 17 de março de 2012

Sobre a arqueologia pessoal


A ideia de ruína (ou ruínas) é frequentemente associada a decadência, tristeza, fealdade. Mas eu gosto, não poucas vezes, de ver as coisas do avesso e, se possível, por dentro.
Há um lado na ideia de ruínas que, acima de todos, aprecio. Falo da possibilidade de, por entre certa fenda da pedra ou de madeira, ir o nosso olhar até à intimidade de uma divisão, de um móvel, de um quadro, de uma família passada.
Uma casa, por exemplo. Uma casa é também o que lá tem dentro (pessoas e amores, memórias de pessoas e amores). Nos interstícios das ruínas, pode o nosso olhar alcançar esses segredos maravilhosos, isto é, a humanidade que ali houve (ou a humanidade que, pela lembrança ou pela especulação poética, ali permanece).
Um homem, por exemplo. Um homem é também tudo quanto, sob a casca cínica do tempo, existe de outrora e de querer ser. Olhando bem por entre as ruínas do rosto, das articulações, da sua voz talvez enegrecida, podemos ver pessoas e amores, quase sempre na versão a sépia da recordação.
Gosto de ruínas, sim. Sou, à minha maneira, arqueólogo de humanidades. Arqueólogo de mim.

Ribeira de Pena, 17 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.arabrandes-restaurando.blogspot.com.]

sexta-feira, 16 de março de 2012

Olá, como vais? (Três quadras com rima fácil e outra nem tanto)


Cá vou andando
Em meu labor
Desafiando
A dor

Cá vou andando
Na dura lida
Aguentando
A vida

Cá vou andando
Cumprindo a sorte
Recusando
A morte

Cá vou andando
Como que
Esperando-
-Te