Bússola do Muito Mar

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Número de Ondas

segunda-feira, 12 de março de 2012

O rosto verdadeiro do Teatro


Palestrei hoje sobre Literatura e Teatro. O meu público foi constituído por alunos de CEF (Cursos de Educação e Formação) da Escola Básica de Arco de Baúlhe e da Escola Básica e Secundária de Cabeceiras de Basto. Sobraram-me algumas notas. Ofereço-vo-las.
A máscara do Teatro faz-se a partir de um rosto verdadeiro - o rosto humano: olhos, nariz, boca, queixo, faces. Da máscara sai a voz, o gesto, o gemido, o suspiro, o murmúrio, até o silêncio. E tudo quanto sai da máscara é, afinal, verdadeiro.
Não ser a máscara o rosto de ninguém em concreto serve para, aos olhos de quem vê teatro, aquilo se tratar do rosto de quem se julga (ou se quer) ver, isto é, do rosto de todos os rostos.
A máscara do Teatro é, aliás, uma bela metáfora do espectáculo: o que está em palco não é, em rigor, o mundo, a vida; é uma representação da vida, do mundo. É, não a realidade, mas uma aproximação estética e ética à realidade (à realidade essencial) que a condição humana encerra.
Mas a máscara é ainda o convite, de certa forma mágico, ao mergulho na ilusão!
Entra-se no teatro como quem, de corpo e alma, entra numa ideia bonita. Uma ideia, também ela, com corpo e alma.
Ver teatro é (perdoai a violência da imagem) fazer amor com uma realidade superadora da nossa circunstância.

Cabeceiras de Basto, 12 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.ocairdamascara.blogspot.com.]

domingo, 11 de março de 2012

"A Literatura serve para quê?"



Alunos do 2.º ciclo de Ribeira de Pena e Cerva leram, ao longo de uma semana, uma novela minha intitulada Um Barco Chamado Sophia Loren. Isto é, a vida ofereceu-me, não sem um sobressalto provinciano que me é desculpável, a possibilidade de conversar com alunos sobre um livro meu e que eles, de facto, tinham lido e de que - glória, glória, aleluia! - tinham gostado.
Falei-lhes de Linguagem, como capacidade que nos distingue (nos deve distinguir) de outros seres e coisas sem alma; e de Língua, como instrumento fundamental para nos compreendermos uns aos outros e a nós mesmos; falei-lhes de Literatura, como representação artística, fundada na Língua, do mundo, da existência, da carne e dos sonhos de que somos feitos.
Falei-lhes, na foz do discurso, da Narrativa, como ordenação técnica-ética-estética da nossa vida (aquela que temos e a que podíamos ter) - e ilustrei esta última dimensão com a biografia de Um Barco Chamado Sophia Loren.
Uma espécie de intimidade linda caiu, acho eu, sobre o magnífico Auditório Municpal de Ribeira de Pena, enquanto conversávamos. À roda dos livros (sobretudo, à roda da Narrativa), elevámo-nos - por cerca de uma inteira hora - à condição de uma tribo amigável.
No final, houve tempo para algumas perguntas. A primeira a pôr o dedo no ar foi uma menina muito bonita, sentada na primeira fila, que estivera sempre atenta ao longo da minha exposição. A sua pergunta foi: "É verdade que o senhor foi professor da minha mãe?"
Um texto a haver fará deste momento um ponto de partida para uma narrativa. Recordo: há uns dezasseis anos, uma aluna foi, num distante presente de 1996, a futura mãe de uma aluna outra que, neste hoje amanhã de então, ouve a (não exactamente) mesma pessoa falando de contos, novelas e romances cheias de humanidade dentro.
Isto é: quem sou eu? O que é o Tempo, a Vida? Como somos nós?

Ribeira de Pena, 11 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

sábado, 10 de março de 2012

A prosa para sair da prosa


Poucas vezes é formosa
A vida de funcionário:
O dia faz-se de prosa -
Cansaço, deveres, salário.

Às vezes, na prosa escura
Súbito sol acontece
E esse brilho perdura
E aquece.

A própria prosa em si traz
Um caldeirão d'alquimia:
É da prosa que se faz
Poesia.

Ribeira de Pena, 10 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.globoesporte.globo.com.]

sexta-feira, 9 de março de 2012

Citrus reticulata (instantâneo)


Uma única clementina acende, vista do corredor, uma espécie de fogo na fruteira. A fruteira jaz ao centro da mesa, pontual depositária de um quadro talvez de Cézanne que, com o tempo, fatalmente apodrecerá. Namoro, por um minuto, a luz entardecida que aconchega as maçãs, as bananas e a clementina única. Sexta-feira, naquele instante, parece sempre.
Depois, gomo a gomo, eu roubo à fruteira o fogo. Dou ao fim do meu dia o sabor desse citrino doce. Restos de luz despedem-se da fruteira (Cézanne já desistiu, sem dúvida, da minha fruta doméstica). A clementina soube-me muito bem.
É muito breve a eternidade vista da minha cozinha.

Ribeira de Pena, 09 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem ("Natureza-morta com maçãs e laranjas", de Cézanne) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.casthalia.com.]

quinta-feira, 8 de março de 2012

Elas


A MP, a VL, a minha Mãe, a minha Irmã. Mas não apenas: tantas colegas, tantas alunas, tantas senhoras funcionárias com quem convivo na Escola, tantas encarregadas de educação (mães, avós, tias, irmãs). Ao longo da vida, o lado feminino do universo tem estado sempre ao meu lado – para óbvio benefício da minha existência.
Gosto pouco de dias convencionais, que são a artificial expressão de um reconhecimento politicamente correcto. Mas atrevo-me a esta excepção, desculpai: filho da Dona MD, marido da MP, pai da VL, irmão da MF, admirador de tanta gente inteligente-bela-corajosa em versão feminina, que posso eu fazer senão manifestar à Mulher a minha gratidão?
Amen.

Ribeira de Pena, 08 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (retrato de Catarina Eufémia) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.becre-esct.blogspot.com.]

quarta-feira, 7 de março de 2012

Comunhão


O meu coração tem o hábito de se pôr à janela dos meus olhos.
Às vezes, outro coração em outra janela passa na rua do mundo e acena.
E é assim que conversam, quase sempre, os corações: olhos nos olhos.

Arco de Baúlhe, hora d’almoço, 07 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (foto de João José Bica, 1.º Prémio ACERT – Tondela: Concurso Internacional de Fotografia, 1997) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.apena.rcts.pt.]

terça-feira, 6 de março de 2012

Sumário triste


Foi hoje a enterrar o Pai de uma amiga.
A história do nosso dia resume-se, no essencial, a esta forma máxima de violência.
Beijinho para a I.

Ribeira de Pena, 06 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na wikipédia.]

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quadras de Língua


Grato à língua portuguesa
Ao meu dicionário essencial
De alegria e de tristeza
De sonho e de real

Grato à língua de Pessoa
Por nela se inscrever esta verdade
Do pássaro que sou e do que voa
Fora de mim em liberdade.

Ribeira de Pena, 05 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (retrato de Pessoa, 1914) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.tertuliabibliofila.blogspot.com.]

domingo, 4 de março de 2012

Ser poeta


Nenúfar, fragilmente permaneço
À superfície perigosa do destino:
À mínima brisa estremeço
E ao mínimo sol me ilumino.

[A imagem (pintura de Monet) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.encostadomar.blogspot.com. ]

sábado, 3 de março de 2012

Na margem, à margem


Fatalmente sportinguista, mas também adepto do futebol em geral, lá televi - como fez maioritariamente o rebanho português - o jogo entre Benfica e Porto. Um grande jogo, diga-se, manchado pelo erro (inexplicável) do auxiliar que permitiu o terceiro golo da equipa azul & branca. Seria justo e bom, em meu entender, que houvesse um empate; logo, foi triste e mau que uma das equipas ganhasse, para cúmulo num lance de fora de jogo.
Que tem isto de relevante para eu lhe dar espaço e voz no "Muito Mar"? Tem: a circunstância de esta condição de sportinguista me tornar uma espécie de espectador extraterrestre, ali no meio do acontecimento sem ter nada que ver com ele. De, perante o evento mais importante do dia, eu estar, como Maicon, fora de jogo.
Nem sempre é mau residir numa rua marginal, atenção. Mas, muitas vezes, aborrece e cansa. Aborrece e dói.

Ribeira de Pena, 03 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, na net, via Facebook.]

sexta-feira, 2 de março de 2012

Mundo nos eixos


À mesa do Café por uma hora
Está o mundo nos eixos, a dor
suspensa o fim adormecido
os meus olhos mansamente detendo tudo
quanto do mundo cabe no verbo olhar
(incluindo o que não chego a ver)

Na parede sobre mim um relógio
funciona tão lentamente como se afinal não
e uma ou outra beleza cruza este espaço
(como eu ignorando o tempo passando)
Isto é, mulheres desenhando-se no horizonte
como estátuas vivas, retratos formosos
De pernas e outras perdições com carne e luz
Isto é, Senhor, o mundo nos eixos

A minha Mãe está doente (melhorzinha,
garantiu-me) mas prefiro ver por enquanto
o sol, a mansa cor de Março sobre a vila do Arco
a quase paz que é este arremedo de Mar com montes
e os minutos deste relevo como ondas dormindo

O mundo nos eixos, sabei, uma ideia minha
Talvez arredada (talvez) da realidade
da crua infelicidade fisiológica de sermos
humanos, da vida enfim em seu esqueleto mínimo
Do mundo sem sonhos

O mundo nos eixos (minha Mãe, falamos
mais logo), embora a hora passe e o relógio
sobre mim não leia poesia.

Arco de Baúlhe, hora d'almoço, 02 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.fotos.estadao.com.]

quinta-feira, 1 de março de 2012

Foste aumentado. Ai, não, desculpa - era engano


Telejornal das vinte horas. A notícia fala de um erro da Câmara Municipal de Setúbal que, em 2009, terá aumentado indevidamente cerca de 400 funcionários. O aumento foi, segundo percebi, de 40 Euros (mais ou menos). A Inspecção das autarquias exige que os trabalhadores devolvam um total que pode chegar, de acordo com testemunhos, a dois mil Euros. As pessoas, entre incrédulas e revoltadas, falam da impossibilidade de fazer face a esta "dívida" (de que não têm, note-se, culpa alguma). Para já, o vencimento passa de (creio) cerca de 620 Euros para cerca de 580. Um dos ex-beneficiários do aumento quer desabafar perante o jornalista e, devido a soluços e lágrimas, não consegue. Lá atira, numa espécie de sussurro, que não pode, que não consegue, que tem dívidas. Ao falar das dívidas, parece tapar o rosto, talvez com vergonha.
Passa-se tudo num país chamado Portugal. O mesmo país em que há certos públicos e certos público-privados a ganhar, mensalmente, mais de cinco-dez-quinze-vinte mil Euros.
Um país com o coração e a noção de decência daquele triste sadino arrepiaria caminho - ou, pelo menos, faria como fez o trabalhador: taparia, com vergonha, a puta da cara.

Ribeira de Pena, 01 de Março de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.futebolvsmulher.blogspot.com.]

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Aula de literatura


O meu pai ia, muitas vezes, beber cerveja ao Café "O Rio", ali junto à Estação Velha. O Daniel Abrunheiro viu-o pela última vez nesse lugar, sem saber que era a última vez. Lembrando-se disso, afirmou-me, pelo telefone, em geniais versos de língua portuguesa, que o Café "O Rio" se chama (se deve chamar), agora, Horácio. Portanto: que o meu pai, senhores, não está morto, tirando esse simples facto de aparentemente não o vermos. Que está, senhores, infinitamente vivo nas palavras (minhas, do Daniel ou do latino Horácio) que o dizem, que me o dizem.
E era preciso a muitos professores de literatura que soubessem desta verdade essencial sobre os versos e a vida.

Cabeceiras de Basto, 29 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Amor é


O amor é uma ave nunca bem pousada
Na árvore da nossa vida:
Vemos a sua sombra antes da chegada
Ou a sua falta depois da partida.

Ribeira de Pena, 28 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem foi colhida, com a devida vénia, em http://www.queirozclarc.blogspot.com.]

Avenida da Noruega


Eu subo e desço as escadas
Dos meu dias aziagos:
Tantos dias são maçadas
(Muito poucos são afagos).

Às vezes, subo encantado
Às vezes, desço cansado
Às vezes o inverso disto
(Às vezes, quase desisto)

Subo escadas, desço escadas
(Vivo no segundo andar) -
Quem me dera em vez de escadas
Um céu grande p'ra voar!


Ribeira de Pena, 27 de Fevereiro de 2012.
Joaquim Jorge Carvalho
[A imagem (escadas monumentais, Coimbra) foi colhida, com a devida vénia, em http://www.inebra.blogspot.com